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Segunda-feira, Outubro 18, 2021

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“Expressar as banalidades do costume”, por Hália Santos

Sempre que termina um ano as pessoas têm esta mania de fazer balanços e de expressar desejos.

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Sim, claro. Faz sentido… É uma viragem. Há uma marca de tempo que se ultrapassa. Passamos de um ano para o outro. Sabemos que não há retorno. É um momento de paragem, para refletir. Como também muitas pessoas fazem no seu aniversário. Aqui a questão é que estão milhões e milhões de pessoas a fazer o mesmo. E gostam de o expressar em público, sobretudo nesta época de redes sociais, em que todos procuram o vídeo mais engraçado, a frase mais criativa ou a análise mais profunda sobre o ano que passa.

Gostava tanto de escrever e de receber postais de Natal, aqueles em que se aproveitava para desejar um ‘próspero Ano Novo’… Lembras-te?

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Claro que sim! Nós mal sabíamos o significado de ‘próspero’, mas lá copiávamos as mensagens para toda a família, com a letra de escola primária, redondinha, em cima de linhas feitas a lápis que depois se apagavam. Tudo para impressionar quem receberia esses postais.

Mas o melhor de tudo era quando chegavam os postais à nossa caixa do correio. Lembro-me bem dos que vinham do estrangeiro. Admirávamos tudo, desde os selos até aos postais, muito diferentes daqueles que por cá se faziam. Quando recebíamos aqueles que se abriam cheios de folhinhos e dourados era uma alegria. Era todos colocados em cima da lareira e faziam uma moldura incrível.

Esses postais eram também um pretexto para se falar dos membros das famílias que tinham emigrado.

Claro que sim! A prima Fátima que, do Brasil, escrevia mensagens com uma caligrafia impressionante. A sua escrita parecia de uma pessoa de idade, mas era uma miúda. E nós, miúdas também, invejávamos aquela letra e tentávamos imaginar como eram as aulas dessa prima que nunca vimos, que lhe permitiam escrever daquela forma, que era uma forma de arte. O primo Fernando, do Canadá, que vinha a Portugal de vez em quando, e que falava aquele Português com batata quente na boca, como quase todos os emigrantes na América do Norte. E ainda havia o Victor, afilhado da mãe, que vivia em França e que nunca se esquecia de nós. Mandava sempre fotos, para a madrinha ir acompanhando o crescimento dele, apesar de só o ter visto meia dúzia de vezes na vida. Lembro-me bem da foto da comunhão, em frente a um Citröen azul.

Eram momentos incríveis, esses em que se recebiam esses postais de Natal e de Ano Novo. Depois veio o massacre das SMS. Na verdade, acho que foi do pior que os telemóveis nos trouxeram. Aquelas mensagens iguais para toda a gente, no tempo em que se pagava bem por cada mensagem, e que nos ‘obrigavam’ a enviar uma nova mensagem, nem que fosse só por uma questão de educação.

Pois era! Lembro-me tão bem de um dia escrever uma mensagem muito minha, com uma visão muito própria desta época e de a enviar para uma série de pessoas. Passado pouco tempo, estava a receber a mesma mensagem, vinda de alguém a quem não a tinha enviado.

Isso foi alguém, sem imaginação, que reencaminhou a tua mensagem para outra pessoa que depois a enviou para ti…

Claro que foi! E isso é a prova de que as pessoas nem se dão ao trabalho de dizer ou de escrever o que sentem. Mais valia que voltassem a usar expressões como ‘votos de um próspero Ano Novo’. Até pode não ser muito simples, mas é curto e direto.

Sim, mas a ter que enviar mensagens ou estando na qualidade de recetora, prefiro uma ou duas frases que resumam o que vai na alma de quem escreve e que só possam ter sido escritas por essa pessoa. São mensagens que nos fazem sorrir, que nos fazem pensar, que nos fazem pegar no telefone e querer ouvir aquela pessoa, de viva voz. Se calhar, já não sabemos nada dela há tanto tempo… Se esta época servir para recuperar pessoas que, por circunstâncias da vida, se foram afastando, fantástico.

Para isso não deveria ser preciso época nenhuma! Devíamos, simplesmente, pegar numa folha de papel e escrever o nome das pessoas de quem temos saudades, aquelas de quem em tempos gostámos muito e de quem nunca mais soubemos nada. Com essa lista na mão devíamos simplesmente ligar-lhes, perguntar pela vida, expressar as saudades que temos.

Isso é bonito, mas corremos o risco de ouvir qualquer coisa como: “O que é que te deu agora? Só agora é que te lembraste que existo?”

Pois bem, até pode acontecer qualquer coisa do género. Mas isso não me incomoda. O que me incomoda é, ano após ano, perceber que cada vez temos menos tempo para estarmos à volta de uma mesa, numa jantarada ou simplesmente a beber um café, a conversar com pessoas.

Assim sendo, quais são os teus votos para 2018?

Sei lá eu! Não gosto de expressar banalidades e tudo o que me vem à cabeça não passa de banalidades da época.

Estás a pensar em coisas do género “Saúde, Paz e Amor”?

Não, por acaso estava mais a pensar em “aumento de ordenado, férias de sonho e muitas horas de caminhadas, leituras e conversas com amigos”. Fica muito mal dizer isto?

Não, acho ótimo! Posso usar essa ideia para as mensagens que ainda tenho que mandar?

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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