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Sábado, Setembro 18, 2021

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Exclusivo | Quem é Ana Alves, a mulher detida após a morte de duas idosas num lar ilegal de Riachos

“Se você fosse uma flor, seria um Lírio. Abençoada com um coração de ouro, você tem uma alma pura e inocente. Você é um anjo na Terra que é uma grande benção para os outros (…) Nascida sem malícia, só quer fazer o bem às pessoas.”

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A descrição que surge numa publicação de 21 de fevereiro no perfil de Facebook de Ana Alves não poderia soar mais irónica à luz dos factos hoje conhecidos. Detida pela Polícia Judiciária na passada sexta-feira, 5 de março, acusada pelos maus tratos que causaram a morte de duas idosas à sua guarda, não seria, afinal, “flor que se cheire”. 

Pelo menos é assim que a descrevem pessoas próximas desta mulher de 41 anos, moradora na freguesia de Olaia, em Torres Novas, que notaram uma degradação da sua condição psicológica no último ano, na sequência de um divórcio, da luta pela guarda do filho e de problemas económicos resultantes de compras que faria compulsivamente. 

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Em abril do ano passado, o lar ilegal onde Ana Alves trabalhava como auxiliar, em Atalaia, Vila Nova da Barquinha, encerrou após ter sido detetado um caso de covid-19 num doente internado no hospital de Abrantes, proveniente daquelas instalações, como o mediotejo.net então noticiou. 

A casa de acolhimento poderia ter três idosos a seu cargo mas albergava nove utentes. Neste caso, todos estavam bem tratados e a Segurança Social permitiu, inclusive, que continuassem nas instalações “não regularizadas”, uma vez que apresentavam todas as condições, mas a proprietária acabou por decidir fechar o negócio no mês seguinte, fragilizada também por outros dramas familiares. Ao que o nosso jornal apurou, esta senhora trabalha hoje numa instituição legalizada, no concelho de Torres Novas, como empregada. 

O mesmo percurso poderia ter sido seguido por Ana Alves, uma vez que a procura de auxiliares para lares e casas de acolhimento de idosos é maior do que nunca. Mas foi aqui que a sua vida terá saltado dos carris em definitivo.

Decidiu ter a sua própria casa, alugando em junho de 2020 um apartamento em Riachos, onde receberia quatro idosos. Pedia 600 euros por mês, cobrando à parte as despesas com fraldas e medicação. Como era a única empregada, paga a renda e as despesas alimentares ficaria pelo menos com o dobro do valor de um ordenado por conta de outrem.

Uma familiar de uma idosa que chegou a visitar este apartamento no verão passado conta ao mediotejo.net que “tudo parecia muito asseado e organizado”, bem longe do cenário dantesco que as autoridades agora encontraram: quartos sujos, desarrumados e com um cheiro nauseabundo. As referências do seu trabalho na casa de acolhimento da Atalaia eram também “as melhores”, sendo descrita como alguém “sempre muito carinhosa com os velhinhos”.

Para compreender o que se terá passado neste apartamento nos últimos 8 meses, a polícia terá de perceber, acima de tudo, o que se passou na cabeça de Ana Alves. Os familiares dos idosos a seu cargo estiveram impedidos de fazer-lhes visitas desde setembro do ano passado, sempre com a “desculpa” da pandemia. Por vezes conseguiam que Ana Alves facilitasse uma vídeo-chamada, mas sempre de forma muito rápida. As próprias idosas, já debilitadas e com mais de 90 anos, não tinham capacidade de pedir ajuda. 

Uma pessoa próxima de uma das vítimas que, tal como as outras pessoas entrevistadas para este artigo pediu para manter o anonimato, emociona-se a descrever a última vez que viu uma das idosas sobreviventes – e agora internada na Casa de Bem Estar Social de Alcanena –, em julho do ano passado. “Era uma mulher forte, gorda mesmo! E está pele e osso? Como é possível? Quanta fome passaram estas pobres nas mãos daquele monstro?”

Só as autópsias confirmarão as causas das mortes ocorridas naquele apartamento na semana passada, mas a Polícia Judiciária adiantou, no momento da detenção de Ana Alves, que esta estava acusada por crimes de maus tratos perpetrados ao longo de vários meses, bem evidentes no estado de subnutrição em que as idosas foram encontradas. Acresce ainda a acusação de “profanação de cadáver” (e não apenas ocultação). Ana Alves trabalhou há alguns anos numa agência funerária em Évora e tem conhecimentos para saber que sinais poderiam levantar suspeições no momento em que os corpos fossem recolhidos. 

No caso de a primeira idosa ter morrido durante a noite, ou noutro período em que Ana Alves se encontrava ausente, a mulher pode ela própria só ter descoberto o cadáver já em situação de rigidez cadavérica, o que acontece entre as 12 e as 36 horas após a morte. Depois há um novo relaxamento do corpo. Poderá ela ter pensado que, passados dois dias, o corpo já teria outra flacidez e não levantaria tantas suspeitas? Poderá ter decidido esperar para receber ainda a mensalidade de março? São tudo teses que a polícia terá em cima da mesa, para investigar.

Além disso, há uma terceira morte a ensombrar estes dias, como o mediotejo.net revelou na passada sexta-feira: a de um homem que ali faleceu em dezembro de 2020, em circunstâncias que a polícia agora quererá reavaliar. 

Ana Alves está neste momento detida no estabelecimento prisional de Tires, e vai aguardar o julgamento em prisão preventiva. Outro tribunal terá de pronunciar-se também, nos próximos dias, sobre a guarda do seu filho – sendo certo de que não poderá ser-lhe atribuída neste momento, como desejaria. 

Na sua página de Facebook continua publicada a sua comparação com um lírio, sem que nenhum dos seus “amigos” tenha ali deixado qualquer comentário. Mas talvez o resultado do jogo que ela quis partilhar com o mundo não estivesse assim tão errado. Também o lírio aparenta uma candidez e uma inocência enganadora – é, na verdade, uma planta venenosa.

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Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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1 COMENTÁRIO

  1. Em tempos a senhora em causa visitou a minha casa quando procurava uma para alugar! Não temos, respondemos, mas a fama era como a do *constantino* …

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