Exclusivo | Críticas aos meios afetos à covid-19 levam a demissão polémica da Diretora de Medicina Interna do CHMT

Carlos Andrade Costa, presidente do Conselho de Administração do CHMT, com a médica Fátima Pimenta, que assumiu a Direção Clínica da Medicina Interna nos últimos seis anos. Fotografia: mediotejo.net

A “falta de diálogo” entre a administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT) e o corpo clínico, bem como a discordância das prioridades definidas na estratégia de resposta à covid-19, está a gerar polémica nos hospitais da região. A Diretora do Serviço de Medicina Interna considera que os doentes agudos não infetados estão a ser relegados para segundo plano e foi exonerada depois de colocar o lugar à disposição, o que motivou já mais de 40 médicos a subscreverem um abaixo-assinado em seu apoio.

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O mediotejo.net confirmou que, na sequência de decisões que terão sido tomadas sem a sua consulta, Fátima Pimenta colocou o lugar à disposição, exoneração prontamente aceite pelo Conselho de Administração (CA). A classe médica não aceita a saída da especialista que dirigia o serviço há seis anos, e promoveu de imediato um abaixo assinado onde mais de 40 profissionais de saúde subscrevem as críticas de Fátima Pimenta e exigem a revogação da decisão da sua saída.

O documento foi assinado por todos os internistas do Serviço de Medicina, numa rara demonstração de apoio unânime, e também por parte de profissionais de outros Serviços, nas três unidades hospitalares do CHMT (em Abrantes, Tomar e Torres Novas).

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Na carta, a que o mediotejo.net teve acesso, dirigida ao Presidente do Conselho de Administração e à Diretora Clínica do CHMT, os profissionais manifestam o seu “apoio e solidariedade à Dra. Fátima Pimenta, recentemente destituída do cargo de Diretora do Serviço de Medicina”, referindo que a “demissão do cargo que tem vindo a ocupar desde há vários anos, com justo reconhecimento dos seus pares, deveu-se a ter manifestado opinião diversa do Conselho de Administração face à atenção privilegiada a utentes infetados pelo Covid 19 (atuais e futuros), em detrimento de outros pacientes”.

“Tal opinião”, sublinham, “não é exclusiva da Dra. Fátima Pimenta, é comum a muitos elementos da classe médica, e tornada pública nomeadamente pelo Bastonário da Ordem dos Médicos”.

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Mais de 40 médicos assinaram uma carta de apoio à médica Fátima Pimenta, contestando também “a atenção privilegiada a utentes infectados pelo Covid-19 (…) em detrimento de outros pacientes”. Créditos: mediotejo.net

Os signatários entendem que é necessário, e que são “deontologicamente obrigados a colaborar na atuação hospitalar face à pandemia vigente”, mas dizem não entender que seja necessário “ter duas Enfermarias vazias a aguardar o que não estará para acontecer nem amanhã nem na próxima semana, pelas informações epidemiológicas que diariamente são oficialmente dadas ao país”, assim como afirmam não considerar “que seja necessário ter uma Enfermaria em grande parte preenchida por utentes infetados por Covid cuja indicação para internamento é não terem condições domiciliárias ou de Instituições tipo Lar de Idosos” para isolamento.

“Depois de anos a considerar que trabalhamos em Hospital de agudos, depois de anos a fazermos esforços para minorar os prolongamentos de internamento por motivos de índole social, vemo-nos agora com redução de camas para o internamento de doentes agudos”, lamentam, solicitando ao CA do CHMT a “revogação da demissão da Dra Fátima Pimenta”.

Uma circular enviada a todos os profissionais do Centro Hospitalar do Médio Tejo, a 15 de setembro, dava conta da nomeação de uma nova Diretora de Serviço de Medina Interna, o que motivou uma onda unânime de apoio à médica Fátima Pimenta. Créditos: mediotejo.net

O abaixo assinado tem a data de 17 de setembro e decorre do facto de Fátima Pimenta ter colocado o lugar à disposição no dia 13 de setembro. No dia seguinte, o CA do CHMT deliberou nomear Isabel Martins, Diretora de Departamento, como Diretora de Serviço de Medicina Interna, em acumulação de funções, e com efeitos a partir de 15 de setembro.

O jornal mediotejo.net contactou Fátima Pimenta, que se escusou a prestar declarações. O Presidente do Conselho de Administração do CHMT, Carlos Andrade, respondeu por escrito às perguntas do nosso jornal, que aqui transcrevemos na íntegra.

mediotejo.net: O que levou a Drª Fátima Pimenta a colocar o seu lugar à disposição e porque aceitou o CA do CHMT a sua saída do cargo?

Carlos Andrade (CA): O CHMT organizou a sua resposta à pandemia reforçando os mecanismos de articulação assistencial entre as três Unidade hospitalares que o compõem e com o objetivo de não comprometer a sua capacidade de resposta ao conjunto de toda a população que serve. No passado dia 10 do corrente mês, este Conselho de Administração foi contactado pela Tutela no sentido de acolher seis idosos de um Lar do Distrito com indicação de internamento hospitalar, por parte de competentes serviços médicos da Região de Lisboa e Vale do Tejo. Tendo, na altura, a capacidade de resposta em internamento ficado completa para a patologia em causa, com a vinda dos novos doentes, teve o CHMT que reajustar a sua capacidade e para o efeito foi necessário converter uma Enfermaria, com a natural mudança dos doentes aí internados.

Toda esta operação teve que ser realizada num espaço de tempo curtíssimo. O que não é algo estranho para qualquer Unidade hospitalar, que frequentemente se vê confrontada com imprevistos da mais variada ordem.   Por outro lado, o CHMT fruto da sua descentralização por três Unidades hospitalares, todos os dias movimenta doentes entre as suas três Unidades. E fá-lo com a total garantia de qualidade e segurança assistenciais.

No dia 13, Domingo, a Senhora Diretora do Serviço de Medicina Interna enviou um e-mail ao Conselho de Administração fazendo um conjunto de considerações, concluindo que havia perdido a confiança no Conselho de Administração, pelo que punha o lugar à disposição.

Face à receção de um e-mail com tal teor, o Conselho de Administração, como é mandatório quando algum dirigente perde a confiança na sua estrutura hierárquica, aceitou a colocação do lugar à disposição. Não havendo, assim, qualquer demissão realizada pelo Conselho de Administração.

Como vê a posição de solidariedade dos internistas em torno da Drª Fátima Pimenta?

O CHMT tem tido um contributo exemplar no combate à pandemia e muito desse mérito está, também, na forma como os médicos de Medicina Interna tem tido um desempenho notável.

Nunca houve, no CHMT, qualquer detrimento de doentes com situação clínica a necessitar de cuidados hospitalares por força da assistência a doentes infetados por COVID-19. Os números assistenciais, mesmo em situação de Estado de Emergência, são expressão clara disso. E traduzem, sem qualquer dúvida, o enorme empenho de todos os seus profissionais.

A posição de solidariedade que refere, em larguíssima medida, prende-se com uma demissão de uma Diretora de Serviço que não houve e como acima referido.

Um dos motivos, segundo o documento assinado pelos internistas, é que a Drª Fátima Pimenta manifestava “opinião diversa do Conselho de Administração face à atenção privilegiada a utentes infetados pelo Covid 19 (atuais e futuros), em detrimento de outros pacientes”, nomeadamente com “redução de camas para o internamento de doentes agudos”. O que lhe apraz dizer relativamente a esta afirmação?

Os crescentes recursos disponibilizados por este Conselho de Administração estão alinhados com a estratégia nacional de combate à pandemia. No Estado de Emergência houve, até, a tendencial suspensão da atividade corrente não COVID-19 nos hospitais do SNS, precisamente para se atingir num escassíssimo espaço de tempo a capacidade de resposta a uma nova e muitas vezes fatal doença.

No CHMT nunca a atividade normal não COVID-19 foi suspensa. Os seus profissionais, com grande relevo para os médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e assistentes operacionais continuaram a atividade cirúrgica, a atividade de hospital de dia, a atividade da Unidade de diálise, a atividade de consulta com fortíssimo impulso para a consulta não presencial, para além do próprio internamento não COVID-19.

A Enfermaria afeta a prestar cuidados de saúde a doentes infetados por COVID-19 não diminuiu a capacidade geral do CHMT, pois no Inverno – e Março já não constitui por regra um período crítico no âmbito do plano de Contingência de Inverno – existe sempre um aumento substancial de capacidade de internamento na valência de Medicina Interna, através e também de abertura de espaços de internamento que durante os outros períodos do ano estão encerrados e/ou em manutenção.

Mas mesmo que houvesse, e houve, reforço de meios e capacidade para resposta à pandemia tal está completamente alinhada com o papel insubstituível do SNS aos portugueses e na resposta à referida pandemia.

O facto de o CHMT ter aumentado a sua capacidade de internamento para acolher seis doentes com indicação médica imediata para internamento, não prejudicou qualquer outro doente e, nomeadamente, porque o corpo clínico do CHMT é profundamente competente e responsável.

Por outro lado, há orientações da Tutela desde há vários dias para expandir, se necessário, a capacidade de internamento para doentes infetados por COVID-19 e todos percebemos essa necessidade no presente contexto.

Mas, aí, o CHMT é uma Instituição privilegiada. Nos últimos anos tem crescido de forma expressiva os números de médicos de Medicina Interna nos seus quadros e, hoje, temos esta valência médica nas três Unidades hospitalares que compõem este Centro Hospitalar. O que permite uma flexibilidade muito grande de adaptação a cada instante. Como aconteceu. Não ficando, assim, nenhum cidadão para trás que precise de recorrer ao CHMT para receber cuidados.

O CHMT cuida dos doentes que já tem e cuida dos que precisam desta Instituição a qualquer instante e por indicação médica. É esta a constante dedicação dos seus profissionais.

Os investimentos feitos no Serviço de Medicina Intensiva ou no Laboratório de Patologia Clínica ou na capacidade de imagiologia portátil, a tÍtulo de exemplo, ficam para servir, no presente e no futuro, toda a população do CHMT. Em muito beneficiando as condições de trabalho na pandemia e na pós pandemia de todos os seus profissionais. O Conselho de Administração não reduziu recursos mas sim, acrescentou muitos recursos técnicos às extraordinárias capacidades clínicas dos seus profissionais.

Está o CA do CHMT disponível para ouvir a posição dos internistas no sentido de uma possível recondução da Diretora do Serviço de Medicina?

Na passada sexta-feira, dia 18, o Conselho de Administração reuniu com os Senhores Diretores de Departamento Médicos e perante a situação delicada criada pela Senhora Dra. Fátima Pimenta, procurou-se encontrar uma solução cuja implementação está em curso.

Este Conselho de Administração nomeou a Senhora Dra. Fátima Pimenta para as funções de Diretora do Serviço de Medicina Interna há cerca de seis anos e já a reconduziu. Sempre a apoiou, como apoia todos os Senhores Diretores de Serviço e todos os Senhores Diretores de Departamento.

Tem conseguido, numa constante articulação com a Tutela, a atribuição de vagas e como acontece no presente Concurso nacional – com 5 novas vagas – aberto para a contratação de novos especialistas, reforçar consistentemente o número de novos médicos em Medicina Interna. O mesmo número de vagas – 5 – do Concurso anterior.

O Serviço dispõe hoje de um Hospital de Dia. De uma Unidade de Hospitalização Domiciliaria. De equipamento de última geração, como recentemente e mais uma vez noticiado e com depoimento da mesma médica.  Tem havido e continuará a haver um esforço muito grande de investimento em todos os serviços assistenciais desta Instituição e como amplamente comprovam os últimos seis anos. Tanto que hoje o Serviço de Medicina Interna está presente nas três Unidade hospitalares do CHMT e com capacidade assistencial própria. O constante apoio deste Conselho de Administração à Senhora Dra. Fátima Pimenta não pode ser mais expressivo, nos recursos que lhe tem sido entregues.

Este Conselho de Administração teve e terá sempre a inequívoca capacidade de ouvir todos os profissionais deste Centro Hospitalar. Trabalha sob um código de respeito, verdade e lealdade para com todas as pessoas. Profissionais e utentes e Tutela. E também esta atitude tem permitido o enorme potencial do CHMT.

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