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“Estupidez: o inferno são os outros?” (2ª parte), por José Rafael Nascimento

“Sou um estudante de Estupidez, sou um repórter político.”
– P. J. O’Rourke

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Aceitar com humildade o reconhecimento da vulnerabilidade humana à estupidez e prover-se de todos os cuidados, alertas e freios ao seu assomo e materialização, é aquilo que deve ser feito para lidar com a estupidez. Este é o discernimento e desafio dos fortes, em oposição ao increpar e invectivar dos fracos. Porque, como com qualquer outra missão ciclópica, é preciso saber definir com rigor o problema e adoptar as soluções éticas e científicas mais viáveis e eficazes. E a estupidez não é inimigo fácil nem transigente, procurando com frequência impor-se de forma violenta e insidiosa. 

Laocoonte e seus filhos pagaram com a vida, pelo facto de o sacerdote se ter oposto à entrada do famoso Cavalo em Tróia. O estúpido anátema declarado pelos seus concidadãos teve eco na divindade (Até vós, Deuses!) e as serpentes cumpriram a letífera sentença. E J. K. Toole, o “estúpido” Ignatius Reilly do Pulitzer autobiográfico Uma conspiração de estúpidos, suicidou-se onze anos antes que o seu livro fosse reconhecido, publicado e premiado por aqueles que estupidamente começaram por rejeitá-lo.

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Carlo Cipolla, cruzando as dimensões 1-Benefício/2-Prejuízo e 3-Próprio/4-Dos Outros, identificou quatro tipos de comportamentos: Patife (1.3/2.4), Ingénuo (1.4/2.3), Inteligente (1.3/1.4) e Estúpido (2.3/2.4). Excluindo a patifaria e a ingenuidade, a escolha recairia então sobre a inteligência ou a estupidez, o que, frequentemente, se revela conflituante e incerto. Giancarlo Livraghi, em O poder da estupidez e A estupidez do poder, alerta para a força da estupidez, comparando-a com a força da inteligência:

  • A combinação da inteligência de várias pessoas tem um impacto menor que a combinação da estupidez;
  • Quando combinadas, a estupidez de várias pessoas juntas cresce geometricamente, pela multiplicação, e não pela adição, dos factores individuais de estupidez.

Para Livraghi, “a estupidez não tem cérebro – não necessita de pensar, organizar-se ou planear para gerar um efeito combinado – e as pessoas estúpidas podem reunir-se instantaneamente num grupo superestúpido. Ao contrário, a transferência e harmonização da inteligência é um processo muito mais complexo e as pessoas inteligentes só são efectivas em grupo quando se conhecem bem e têm experiência de trabalho em equipa”. O autor acrescenta, ainda, que “a máquina do poder tende a favorecer e proteger a estupidez e a manter a inteligência fora do seu caminho, tanto quanto possível”.

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No mesmo sentido se pronuncia o professor Vítor J. Rodrigues, psicólogo clínico e autor da Teoria Geral da Estupidez Humana e da Nova Ordem Estupidológica: “A inteligência tem sido sempre preterida pela estupidez, talvez porque esta funcione melhor na nossa sociedade. É mais rápida, emperra-nos menos, exige menos de cada um de nós. A impulsividade, ajuda muito. São emoções primárias, extrínsecas, pouco elaboradas pela inteligência. Toda a sociedade de consumo é construída através dessas motivações. Isso é como pôr uma cenoura à frente do burro”.

A estupidez interessa a quem procura aproveitar-se da ignorância, ingenuidade ou outra limitação cognitiva dos indivíduos, para obter ganhos ou vantagens ilegítimos, nada fazendo para as superar e tudo fazendo para as fomentar.

Nesta perspectiva, plena de ironia, a estupidez seria uma conveniência associada à lei do menor esforço, tendo como vantagens “ganhar tempo, evitar ataques cardíacos, depressões e angústias, e potenciar o sucesso profissional”. Já para Ezzio F. Bazz, no seu Manifesto Aberto à Estupidez Humana, “a estupidez é uma doença do carácter e, portanto, algo passível de mudar e até mesmo de curar”, objectivo que Robert A. Wilson, em A Abolição da Estupidez, também defende mas que, “por ser racional, prático e desejável, é naturalmente denunciado como utópico, fantástico e absurdo”.

Se é certo que a estupidez é natural – a sabedoria popular diz que “o que é preciso é calma, descontracção e estupidez natural” – e prevalece na sociedade quando a inteligência, o conhecimento, a ética e a maturidade não são estimulados e desenvolvidos, parece também evidente que ela é protegida, promovida e aproveitada por quem nela vê vantagens pessoais, de grupo ou de massas. O burocratismo é disso exemplo, tal como é o machismo, o dogmatismo e, em geral, todos os “ismos” associados a egoísticas motivações de poder.

Thomas Kuhn demonstrou em Estrutura das revoluções científicas que cada revolução científica leva uma geração a implantar-se, pelo facto de a estupidez dos velhos eruditos os levar a rejeitar ou protelar a adopção do novo modelo. E, em O bom soldado Svejk, Jaroslav Hasek mostrou em tom picaresco como a estupidez do poder autocrático se abate, implacável, sobre o peão indefeso. Atente-se, p.e., neste diálogo entre a cúpula militar e o pobre soldado:

«O médico militar sénior aproximou-se muito de Svejk: “Eu gostaria de saber em que é que está a pensar, idiota”. “Humildemente, senhor, eu nunca penso”. “Raios e trovões!”, vociferou um dos membros da junta, fazendo o sabre tilintar, “Então você não pensa! E por que não pensa, seu elefante siamês?”. “Humildemente, eu não penso porque os soldados foram proibidos de pensar. […] O nosso capitão dizia-nos sempre ‘Um soldado não deve pensar sozinho, o seu superior pensa por ele. Quando um soldado começa a pensar, deixa de ser um soldado e vira um civil vulgar’. Pensar não leva a…”.

“Cale a boca”, interrompeu furiosamente o chefe da junta, “já tivemos notícias a seu respeito. O malandro quer-nos fazer crer que é um idiota de verdade. Não, você não é nenhum idiota de verdade. Não, você não é nenhum idiota, Svejk, você é esperto, astuto, é um pilantra, um impostor, um sem vergonha, entendeu?”. “Entendi, humildemente”. “Eu já lhe disse para calar a boca, não me ouviu?”. “Humildemente, ouvi sim que devo calar a boca”. “Deus do céu, cale a boca então, pois eu ordenei-lhe”.».

Imagem do filme checo “O bom soldado Svejk” (1956), realizado por Karel Steklý e protagonizado pelo popular actor Rudolf Hrušínský

Ao evocar a saga do anti-herói Svejk, não pude deixar de recordar a anedota do indivíduo que era gozado pelos clientes da tasca que frequentava, por optar sempre, entre as duas moedas que lhe davam a escolher, pela de maior dimensão, mas menor valor. Um dia, questionado sobre a razão da sua “estúpida” escolha, explicou que, se optasse pela de maior valor, a brincadeira acabava aí e não ganharia mais nenhuma moeda. Não podendo ser considerada uma “patifaria”, mas antes uma sagaz esperteza, como classificaria Cipolla esta proverbial estratégia de sobrevivência e ganhança?

Já “patifaria” foi o que fez Heróstrato em 356 a.C. quando incendiou o templo de Ártemis em Éfeso, uma das Sete Maravilhas da Antiguidade, com o objetivo de ser lembrado pelo Mundo inteiro para toda a posteridade. Heróstrato – que deu nome à Síndrome que caracteriza este tipo de comportamentos – alegou com orgulho que o seu feito teve por motivação tornar-se conhecido e imortalizar o seu nome na História. Um problema sério nesta “sociedade da imagem” que se construiu, a lembrar a Alegoria da Caverna de Platão.

Todos sabemos da existência de agendas individuais, grupais e institucionais de estupidificação dos outros, com propósitos mais ou menos claros, deliberados e conscientes. A estupidez favorece a estratégia de dominação ou conquista de poderes incumbentes ou pretendentes que não se regem por princípios éticos democráticos. Claro que há um reverso da medalha e esses poderes-criadores acabam quase sempre por perder o controlo da estupidez-criatura que lhes foge ao controlo. Essa é, também, uma das principais mensagens (diria mesmo “recados”) do filme Joker de Todd Phillips/ Joaquin Phoenix.

O indivíduo assim estupidificado é, na óptica destes poderes, o cidadão ideal, acrítico e domesticado. “O interesse egoísta”, afirma Rubens Casara, “é adulado e o bem comum demonizado. Há uma regressão nas interacções sociais, na dificuldade de argumentação, na capacidade de apreender e seguir normas éticas e jurídicas. Tem-se o declínio da verdade e o desaparecimento da objetividade, ou seja, a perda de importância dos factos, da ciência e da reflexão, num mundo em que, ao lado das fake news, ganham prestígio a ciência falsa, a história falsa e até perfis falsos que somam likes falsos aos likes de quem age estupidamente”.

Se o comportamento inteligente se caracteriza pela linguagem, raciocínio abstrato, introspecção e resolução de problemas complexos, o comportamento estúpido pode ser identificado pelo seu pensamento extremamente simplificado e estereotipado, pelo uso de uma linguagem empobrecida e pela incapacidade de reflexão e raciocínios complexos. Enquanto aquele busca a verdade, inclusive sobre si mesmo – uma vez que tem por características a autoconsciência, o desejo de saber e a racionalidade –, este contenta-se com aquilo que confirma as crenças que previamente formou, aderindo à cultura néscia da “pós-verdade”.

A profusão de notícias falsas e de absurdas teorias da conspiração estará ligada, por um lado, à erosão da confiança nas instituições, incluindo a comunicação social, e à acção oportunista de poderes fáticos ou retrógrados. E, por outro lado, a uma resposta instintiva e emocional ao desconhecido, por incapacidade de lidar com a incerteza de forma culta e racional.

A estupidez, entendida como qualidade, acção ou estado do que é estúpido, é, como se viu na 1ª parte desta crónica, um conceito dúbio, com múltiplos significados. Contudo, ele é usado geralmente para qualificar depreciativamente, responder ofensivamente ou atacar o carácter dos outros, assumindo erradamente que os “estúpidos” – sempre os outros, claro – possuem plena capacidade, disponibilidade e controlo da vontade própria. Muitos dos que o fazem assumem uma infundada e reprovável superioridade moral ou intelectual, aplicando-se-lhes a famosa definição do filósofo e escritor Miguel de Unamuno “um pedante é um estúpido adulterado pelo estudo”.

Não saberão estes santos iluminados que há tanta gente intelectualmente brilhante, incluindo eles próprios (eventualmente), a praticar actos estúpidos? Não saberão estes pináculos da inteligência, também, que há tanta gente intelectualmente subdotada, cuja inépcia ou nescidade pouco ou nada a responsabiliza, podendo até praticar menos actos estúpidos do que muitos sobredotados? Em Why Smart People Can Be So Stupid, Robert Sternberg explica porque é que indivíduos altamente qualificados e posicionados podem agir de maneira tão estúpida, em função da sua personalidade e das suas crenças, destruindo as suas vidas e as de outros.

Julgam essas pessoas, provavelmente, que o seu QI ou conhecimentos especializados substituem ou dispensam o saber da experiência e do senso comum, bem como o rigor e a exigência do comportamento, privado ou público. Por isso, incorrem frequentemente em cinco falácias: optimismo irreal (acham que tudo o que fazem resulta bem), egocentrismo (prestam atenção apenas a si próprios), omnisciência (pensam que sabem tudo), omnipotência (julgam que são poderosos) e invulnerabilidade (acham que são imunes à responsabilidade).

Por outro lado, nem toda a limitação cognitiva pode ser imputada a quem dela padece, por razões inatas ou adquiridas. Um estudo realizado por investigadores da Escola de Medicina John Hopkins e da Universidade do Nebraska, liderados pelo virologista Robert Yolken, descobriu há meia dúzia de anos, por exemplo, que o vírus ATCV-1 – conhecido por “vírus da estupidez” – ataca o DNA e prejudica a actividade visual e cerebral, comprometendo as funções cognitivas da atenção, memória e aprendizagem de pessoas saudáveis. Esta descoberta prova que alguns microrganismos que carregamos e julgamos inócuos, podem afectar a cognição e o comportamento.

A noção de estupidez e a atitude que a sociedade assume para com a mesma, incluindo para com os indivíduos que a praticam tem, pois, muito de cultural ou de mentalidade (pre)dominante, i.e., que prevalece na comunidade e pressiona os seus membros para a conformidade. A representação social preponderante privilegia a individualização e culpabilização da estupidez, ao invés de favorecer a perspectiva comportamental e causal, exactamente a que eu defendo.

Desengane-se quem pense que há aqui permissividade ou desvalorização das atitudes estúpidas. De maneira nenhuma! O que há é uma tentativa séria e realista de compreender e debelar o fenómeno (se isso for possível), ao invés de buscar expiação na fogueira fácil e ilusória da incriminação alheia. Até porque esta opção já provou ser absolutamente ineficaz. O “Trumpismo” e a “Malta pela Verdade”, apoiados nas teorias “QAnonianas” da conspiração, aí estão para o demonstrar, levando-nos a perceber que o absurdo está em permanente redefinição e que, de facto, a estupidez não tem limites. E é exactamente por não ter, que é preciso impor-lhos, promovendo a inteligência, em todas as suas dimensões, e sobrepondo-lhe a racionalidade e a ética que nos faz humanos e civilizados.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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José Rafael Nascimento
José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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