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“Estupidez: o inferno são os outros?” (1ª parte), por José Rafael Nascimento

“Contra a estupidez, os próprios deuses lutam em vão.”
– Friedrich von Schiller

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Teria razão J. P. Sartre, ao dizer que “o inferno são os outros”, ou T. S. Eliot, ao afirmar que “o inferno somos nós próprios”? Não gosto de apelidar as pessoas de “estúpidas” e, muito menos, de as marcar como tal. Se mais razões não houvesse (e há), bastava a constatação simples e por demais evidente que, muitos daqueles a quem vemos apelidar outros de “estúpidos”, se revelam amiúde tão ou mais “estúpidos” do que os alvos da sua schadenfreude (satisfação com o mal dos outros). Ninguém é imune à estupidez, o que é razão suficiente para não qualificar e designar os outros por “estúpidos”. Quem aponta o indicador aos outros, tem sempre o polegar apontado a si próprio, certo?

No entanto, a estupidez existe (e também, obviamente, quem a pratica). Muito mais do que seria suportável ou tolerável, prejudicando em elevado grau os outros e, frequentemente, também os próprios. A estupidez, entendida como “atitude estúpida”, não deve ser confundida, todavia, com o “ser estúpido”, uma recorrente e estúpida caracterização da personalidade dos indivíduos. Mesmo quando se refere apenas ao carácter, definido como o conjunto dos traços morais da personalidade, nada justifica nem permite esses ataques ou “assassinatos de carácter”, ainda que me apetecesse dizer “É o comportamento, estúpido!”.

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Esta perspectiva é defendida por pensadores como Giancarlo Livraghi, segundo o qual “em cada um de nós há um factor de estupidez que é sempre maior do que supomos”, sugerindo Robert Wilson que se trata de “uma perturbação sócio-semântica que nos afecta de vez em quando”. Contudo, muitos elegem os “estúpidos” (os outros, claro), e não a estupidez, como o problema. É o caso de Maxime Rovere que, em O que fazer dos estúpidos, defende que “os estúpidos são um problema delicado e muito mais importante do que a estupidez propriamente dita”. Não posso discordar mais, evidentemente, embora reconheça que há quem tenha mais atitudes estúpidas do que outros.

Feita esta distinção, impõe-se o esclarecimento da significação de “estúpido”. Na verdade, o termo é correntemente usado para significar coisas muito diferentes. Assim, esclarece o dicionário Priberam, um traço ou comportamento estúpido tanto se pode referir a desprovido de inteligência (ou conhecimentos) como de moral (ou sentimentos), a aborrecido (ou pasmado) como a excessivo (ou exagerado), a absurdo (ou disparatado) como a parvo (ou alarve). No fundo, digo eu, trata-se essencialmente de um comportamento desadequado, falho de tino ou de bom senso.

César Scorza define “estupidez” como “a incapacidade inconsciente de uma pessoa, de ter um desempenho honesto, oportuno e eficaz na atividade que envolve o seu contexto e aspirações, considerando os recursos, a informação, a experiência e o conhecimento disponível, causando prejuízos”. Para ele, “o problema de estudar o conceito de estupidez repousa basicamente no facto de ser um termo polissémico e ambivalente, um raciocínio antagónico, um gatilho humorístico e um comportamento humano com toda a complexidade que ele acarreta”.

Recordo, a propósito, o filme Forrest Gump, de Robert Zemeckis/Tom Hanks, baseado no livro homónimo de Winston Groom, onde o tema da estupidez é polemizado com a apresentação de um indivíduo diferente (ou com um comportamento diferente) que a sociedade tende a considerar “atrasado mental” e “estúpido”. De facto, ele revela um QI de 75, suficiente para ser classificado como pouco inteligente, mas isso não o impede de realizar grandes feitos na vida e de se tornar uma lenda. Aliás, inversamente ao que sugere Rovere, ele é um “estúpido” que, guiado por valores autênticos, pouco fez de estúpido, antes pelo contrário.

“A vida é como uma caixa de chocolates. Nunca se sabe o que se vai encontrar”, disse Forrest Gump (Tom Hanks). No início e no fim do filme, surge uma pena, uma linda pena livre da gravidade. Ela flutua sobre casas, igrejas e árvores, podendo cair ou ajeitar-se, para logo se levantar novamente, triunfante, levada por uma brisa…

O conceito de estupidez está, pois, longe de significar apenas ignorância ou défice de inteligência, reportando-se também à falta de capacidade ou de vontade para lidar com estas de forma racional, lógica, ética ou emocional, usando-as adequadamente. Vítor Rodrigues afirma que “a exuberância dos fenómenos estupidológicos, a sua extrema variedade, a riqueza das suas realizações ou a elegância dos seus refinamentos, tudo nos faz encontrar na estupidez mais, muito mais, do que uma vacuidade ou ausência de inteligência”.

A estupidez pode ter, portanto, múltiplas causas ou origens e estar associada a diferentes atitudes ou comportamentos. Guillermo de la Mora aponta, em Elogio da estupidez (ensaio fabulado), vários tipos de estupidez, baseados nomeadamente no irracional, no ilógico, na ignorância, no esquecimento, no isolamento, no lazer, na geografia, na vulgaridade e na violência. Por sua vez, Rovere sugere que ela pode ser revelada através da opinião, dos preconceitos, da arrogância, da superstição, da intolerância, do dogmatismo e do niilismo, entre outros.

Que atire, pois, a primeira pedra, quem nunca disse ou fez algo “sem sentido ou razão de ser”, quem nunca teve “grande dificuldade em compreender, julgar ou discernir” algo, ou quem nunca foi alguma vez “desagradável, incivilizado ou grosseiro” (definições do dicionário Priberam para Estupidez). E, como ninguém atira a pedra, é preciso perguntar: Certa e determinada atitude estúpida teve causa irrefletida e involuntária, ou consciente e intencional? Que grau de responsabilidade pode e deve ser assacada a cada indivíduo que a tem?

Se todos somos, então, “estúpidos por natureza”, essa é uma condição humana e não tem lógica distinguir alguém (ou a si próprio) com tão “carinhoso” epíteto. Nem fazê-lo oferece qualquer utilidade, senão procurar, estupidamente, sobrevalorizar-se e demarcar-se dos outros. Mas, se alguém quiser persistir na rotulagem dos indivíduos, fique então com esta máxima de Matthijs van Boxsel, inscrita no meu imaginário Manual da Estupidez para Totós: “Ninguém é suficientemente inteligente para compreender quão estúpido é”.

Diferentemente, faz sentido e é extremamente útil apontar os actos estúpidos, sobretudo os que magoam, embaraçam ou causam dano a alguém ou alguma coisa. Neste sentido, as atitudes estúpidas devem ser bem caracterizadas e tudo ser feito para as evitar. Ocorrendo, devem ser identificadas e os seus autores (e comparsas) de alguma forma e em alguma medida responsabilizados. Mas, chamar “estúpido” a alguém é, não só redundante, como tão estúpido quanto “estúpidos” se quiser achar aqueles que se pretende desvalorizar, ofender ou prejudicar.

Resta saber se a atitude considerada estúpida é realmente estúpida, pois pode apenas parecê-lo aos olhos de quem a observa e avalia. O que dá, de quem toma a nuvem por Juno, um ar de arrogância e sobranceria que nada abona a seu favor. De novo, que atire a primeira pedra quem nunca foi obrigado a dar o braço a torcer por um julgamento precipitado ou enviesado, sobretudo quando o pensamento ou acto observado é especialmente (e paradoxalmente) inteligente. A História está cheia de casos e lições destas, porque não se aprende com elas? Talvez a estupidez explique.

Em cada tempo, a estupidez revela-se de maneiras diferentes e, até, surpreendentes. Os exemplos são muitos, mas o uso incorrecto de máscaras protectoras do coronavírus ou a prosápia da substituição de matrículas antigas pelas de novo formato, caracterizam bem a estupidez no nosso tempo. Imagem: Freepik

Por outro lado, há muita estupidez que escapa ao olhar desatento, ignorante ou cúmplice de demasiadas pessoas. No prefácio de Elogio da Estupidez de Johann Paul Richter, a estultícia apresenta-se da seguinte forma: “Eu, estupidez, adopto esta ou aquela forma respeitável de me mostrar aos homens com as minhas melhores vestes mas, em todas as épocas, agrado apenas a quem me vê da mesma maneira, porque cada um só aprecia a estupidez que mais se parece com a sua”. Percebe-se, assim, porque é que muitos acham que “a minha estupidez é melhor do que a tua”.

Carlo Cipolla (1922-2000), professor na Universidade da Califórnia, em Berkeley, autor do ensaio satírico As leis fundamentais da estupidez humana, é um dos nomes mais citados nesta matéria. São dele estas cinco leis (sendo a terceira considerada a “lei de ouro”):

  1. Sempre e inevitavelmente, cada um de nós subestima o número de indivíduos estúpidos que há no mundo;
  2. A probabilidade de que uma determinada pessoa seja estúpida é independente de qualquer outra característica dela mesma;
  3. Uma pessoa é estúpida se ela causa um dano a outra ou a um grupo sem obter nenhum benefício para si, ou mesmo sofrendo prejuízo;
  4. As pessoas não estúpidas subvalorizam sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas; esquecem constantemente que, em qualquer momento e lugar, e em qualquer circunstância, tratar ou associar-se a indivíduos estúpidos constitui, inevitavelmente, um custoso erro;
  5. A pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigosa que existe.

Eu não hesitaria em subscrever estas leis fundamentais da estupidez humana, se elas se referissem, por um lado, à atitude e não ao sujeito, e, por outro, à atitude de todos os sujeitos e não apenas de uma parte deles. Mas, ao contrário do que afirma Cipolla, eu entendo que não há pessoas “estúpidas”, há sim atitudes – ideias, emoções, intenções e acções – estúpidas, ou seja, impróprias, desajustadas, cretinas e prejudiciais. Tal como não há pessoas exclusivamente dotadas de atitudes irrepreensíveis, uma prerrogativa dos santos ou dos corações imaculados, mas não das pessoas comuns ou mesmo dos génios.

Até há poucos anos, acreditou-se que o Homo Neanderthalensis se extinguiu por ser menos inteligente do que o Homo Sapiens. Descobriu-se, entretanto, que era apenas diferente, o que deitou por terra a hipótese de a estupidez ser fatal. Nada que, empiricamente, não soubéssemos já, simplesmente observando a propagação descontrolada de comportamentos individuais e grupais infinitamente estúpidos. A coisa parece estar agora a agravar-se com a reversão do efeito Flynn (ganhos de inteligência ao longo do tempo), afirmando o neurocientista Michel Desmurget no seu livro A Fábrica de Cretinos Digitais que os filhos são hoje menos inteligentes do que eram, com a mesma idade, os seus pais.

Se estávamos, pois, mal em termos de estupidez, parece que caminhamos para pior. Façamos, então, por compreender este estranho fenómeno que a todos afecta e a ninguém pode diferencialmente caracterizar, usando estratégias apropriadas para evitar que se manifeste ou que provoque danos significativos. O primeiro passo tem de ser o reconhecimento de que todos somos vulneráveis à estupidez e de que ela é altamente danosa para os indivíduos e a sociedade. O passo seguinte será adoptar estratégias e procedimentos preventivos que evitem os actos estúpidos e suas consequências. Os japoneses chamam-lhes Poka Yoke, estudemo-los e adoptemo-los, incorporando-os na nossa vivência diária.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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José Rafael Nascimento
José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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