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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

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“Estou Além”, por Pedro Marques

Somos recolectores de afetos e memórias.

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Somos eternos insatisfeitos.

Somos perversos por natureza.

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Somos egoístas.

Quatro afirmações separadas por um “ponto final, parágrafo” e, no entanto, vejo nelas um fio condutor, uma linha de continuidade.

Há milhares de anos o ser humano era nómada, sem habitação fixa, mudando permanente de lugar, dedicando-se à caça e à colecção-recolecção. Mudava de lugar sempre que a pastagem para os seus animais acabava ou quando precisava de caçar, ou quando não dispunha de alimentos para sobreviver, ou até mesmo sempre que as condições do seu ambiente exterior o determinavam.

Aos poucos, com a descoberta da agricultura e da possibilidade de cultivo dos pastos e de obtenção de alimentos vegetais e animais, fomos perdendo a característica nómada. Fomos ficando sedentários. E hoje é o sedentarismo que está na génese de imensas doenças crónicas, como bem sabemos. Passámos de um extremo para o outro, em poucos milhares e anos. E o que é isso comparado com os milhões de anos que o Universo já leva desde o Big Bang?

Se todo o tempo que já decorreu pudesse ser convertido em 24 horas de um dia, o ser humano teria surgido às 23:58 horas desse dia que comporta em si a história do tempo universal. Por outras palavras, somos demasiado novos na memória dos tempos e, por paradoxal que pareça ser, queremos vergar todos e tudo (Universo incluído) ao nosso poder de decisão discricionário.

Esta característica nómada e de recolectores por natureza não deixou, contudo, de ser uma forte marca identitária do ser humano ainda hoje. Somos sedentários por opção ou conformismo de vida material mas não deixámos de ser predadores e recolectores. Nunca a caça foi dominante, antes o sentido recolector. Para e por sobrevivência, por preguiça ou comodismo ou até mesmo por maior segurança (quantas vezes o caçador virou presa de caça?).

Hoje somos recolectores de tudo um pouco: afetos, memórias, imagens, sons, sensações, amores, amizades, pessoas, objetos, vaidades, conhecimento, orgulhos, maldade…

Por onde passamos levamos algo de nós. E deixamos algo de nós. Tocamos a vida de outras pessoas e somos tocados pela vida de tanta gente. Por boas e por más razões.

Nesta ansiedade de sobrevivência egoísta, quando tocamos a vida das outras pessoas por vezes deixamos nelas marcas profundas; e se depois queremos partir, por eterna insaciedade, por incessante vontade de conhecer mais, compreender mais, saber mais, ver mais, viver mais, essa marca que imprimimos pode magoar. E, na verdade, magoamos as pessoas, mesmo sabendo que o estamos a fazer, na hora da partida para irmos ser recolectores noutra qualquer paragem, nesta curta viagem pela vida. E magoamo-nos também porque todo o processo de separação de algo, sobretudo pessoas, está repleto de sensações de perda, num binómio “expetativa de ganho” vs “perda real”.

É tão difícil partir. E não partir também. Queremos ir e ficar. Queremos liberdade e não nos libertamos facilmente do nosso passado. Queremos saborear o mundo mas não aceitamos que quem amamos nos exclua da sua vida, mesmo que tenhamos sido nós a querer partir. Queremos uma casa nova mas a velha tem histórias e memórias. Há um carro novo mas o velho é um baú de relatos e vidas que nos preencheram um dia de felicidade. Queremos pessoas novas na nossa vida mas não queremos quebrar os elos de afetos antigos. Queremos estar longe e perto ao mesmo tempo. Queremos a luz do dia e a quietude da noite. Queremos amar e não amar. Queremos rir e chorar. Queremos roupas e estar despidos. Queremos o simples e o complexo. Queremos desprendimento e o vício.

O António Variações tinha razão quando escreveu o “Estou Além”: “Esta insatisfação, não consigo compreender; Sempre esta sensação que estou a perder; Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar ; Vontade de partir, p’ra outro lugar”…

Manipulamos os outros e queremos apenas que nos compreendam sempre e nos perdoem e relevem as nossas falhas. Mas nem sempre sabemos como fazer isso aos outros. Somos imperfeitos. E, contudo, é essa imperfeição que nos permite aperfeiçoar as coisas, se a isso empreendermos tarefa e investirmos tempo, arte e engenho.

E somos perversos porque sabemos que temos todos estes defeitos e continuamos a jogar neste jogo do gato e do rato dos afetos. E da busca pela materialidade supérflua, numa inquietude interior que nos define e nos destrói.

Nestes dias em que o tempo não sai deste passado invernoso a que parece amarrado, foi o que me ocorreu.

Pedro Marques, 47 anos, é gestor, gosta de ler, de exercício físico e de viajar

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