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Quarta-feira, Outubro 20, 2021

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“Este Orçamento de Estado que nos dão”, por Hália Santos

Uma excelente notícia chegou a todos nós por estes dias, embora muitos possam entender que é o menos relevante do Orçamento de Estado (OE). Aliás, este documento contém várias boas notícias. Algumas já se vinham anunciando. Muitas são consideradas eleitoralistas (embora o seu principal responsável entenda, com um largo sorriso na face, que este é assunto para comentadores e que o verdadeiro OE eleitoralista foi o de há dois anos). Umas agradam a uns, porque têm filhos. Outras agradam a outros, porque são empresários ou porque vivem no interior. Outras ainda agradam a mais uns quantos, porque são funcionários públicos ou reformados e vão poder recuperar qualquer coisa pouca.

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Não, não vou falar sobre a suposta recuperação de tempo de serviço dos professores. Até gostava. Mas não! Até já eu me canso de me ouvir sobre este assunto e, tendo interesse particular nele, fico por aqui. Até porque este é um assunto que fere muitas suscetibilidades e hoje não me apetece. Prefiro falar da excelente notícia de que a profissão de bailarino deverá vir a ser considerada de desgaste rápido. Em todo o OE é disto que eu quero falar? Não é só, mas é por aqui que quero ir. Porque é mesmo uma boa notícia. Não conheço nenhum bailarino profissional, mas basta-me imaginar todo o esforço que têm que desenvolver para ali chegar quando os vejo no palco ou na televisão. Mas depois dou por mim a pensar em duas profissões invisíveis. Ou que só se veem quando temos um problema, aquelas pessoas em quem nós habitualmente descarregamos as nossas frustrações e que têm que as aguentar: as forças da autoridade e os trabalhadores de um call center.

Quem nunca protestou com um polícia ou com um jovem de um call center e acabou por se aliviar de outras coisas do dia a dia. Eu já! Com três polícias e com inúmeros jovens dos call centers. Eu, contribuinte apreciadora de manifestações culturais, gosto que o deleite que os bailarinos me transmitem seja tido em consideração no OE que provavelmente não me vai recompensar. Eu, contribuinte que tenho os meus dias maus, gostava que a paciência que os polícias e os jovens dos call centers têm comigo fosse tido em consideração no OE que provavelmente me vai penalizar.

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Porque, na verdade, nada mais tenho a dizer sobre as profissões de desgaste, vou procurar outra boa notícia no OE. Encontro rapidamente: os manuais escolares vão ser gratuitos para os alunos do ensino obrigatório. Fantástico! Mesmo! Aposta na Educação. Ou será eleitoralismo? Como até me permitem dar a minha opinião, apetece-me dizer que, apesar do congelamento da minha carreira e da carreira do pai dela, não preciso de manuais escolares gratuitos para a minha filha. A medida é excelente, para quem verdadeiramente precisa. Claro que agradeço qualquer ajuda que o Estado me possa dar. Mas gostava mais que o ‘meu’ OE reconhecesse o meu trabalho, o trabalho dos meus pais e avós, para que eu pagasse os manuais da minha filha com todo o gosto e ainda ajudasse quem me apetecesse ajudar.

Finalmente, parece que vão aumentar, em seis vezes, o IMI dos prédios devolutos dos centros históricos. Na verdade, não gosto de ver casas a cair em cima de turistas. É aborrecido. Dá um mau ar ao país. E há tanta gente a precisar de casa, não é? Parece crime deixar aquelas casas ao abandono. Portanto, aumenta-se o IMI para os proprietários venderem ao desbarato ou para fazerem obras com o dinheiro que muitos não têm. Eu tenho uma proposta para o OE, embora não saiba se ainda vai a tempo… o Estado empresta, por 50 anos, sem juros, a verba necessária para que os senhorios (e seus herdeiros) de prédios que caíram por causa dos congelamentos das rendas os possam recuperar. Justo, não? Isto, sim, era tirar com uma mão e dar com a outra, mesmo que com décadas de desfasamento.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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