Segunda-feira, Dezembro 6, 2021

“Essa ‘cambada’ “, por Vânia Grácio

O assunto do momento continua a ser a notícia da passada semana sobre a má gestão de dinheiros públicos por uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS). Depois da discussão no Parlamento e da audição do Ministro da Tutela, continua a “lavagem de roupa suja” e a extensão a todas as outras instituições sociais, como se não fosse possível separar o “trigo do joio”. Ao que parece, não existe má gestão na banca, não existe má gestão nos municípios, não existe má gestão nas escolas, não existe má gestão nos serviços de saúde, e por aí fora. Apenas e só no sector social. À esquerda e à direita pedem a “cabeça das instituições”, como que de uma “cambada de oportunistas” se tratasse. Ora pois então, e não querendo fazer de advogado do diabo, até porque considero que quem faz gestão danosa ou tira proveito pessoal de dinheiros públicos deve responder por isso, seja no sector privado ou no sector público, vamos lá apreciar o cenário.

- Publicidade -

Essa “cambada do terceiro sector” tem uma expressão significativa na empregabilidade do nosso país. Essa “cambada” desempenha funções que são da responsabilidade do estado, mas a baixo custo. É essa “cambada” que paga cerca de 950€ por mês a um técnico superior, que faz o mesmo que um técnico superior na função pública. Só que no Estado, este mesmo técnico recebe cerca de 1.200€. É essa “cambada” que assume responsabilidades do estado, muitas vezes não financiadas a cem por cento, e que tem de recorrer ao mecenato para cumprir uma função que é do Estado, mas que o Estado delegou em si para cumprir. É essa “cambada” que se o Estado decidir cancelar o protocolo que assinou para o desenvolvimento deste trabalho, tem de pagar as indemnizações aos trabalhadores porque isso não é assumido pelo Estado. É essa “cambada” que dá a cara pelas não respostas do Estado na área da justiça social. É essa “cambada” que não sendo na maioria remunerada (falo dos corpos gerentes) tem de ser muitas vezes fiadora a título particular/pessoal para que se consigam cumprir os objectivos da Instituição. Mas essa “cambada” está lá quando chove e quando faz trovoada e não apenas quando faz sol. Está lá quando há muito e quando há pouco. Fá-lo a titulo gracioso, perde horas de bem-estar com a família para cumprir esse sentido de responsabilidade social que assumiu. Sentido esse que muitas vezes não é cumprido por quem aponta o dedo a estas instituições e os acusa de ser uma “cambada”.

Num mundo ideal, não havia desvios de dinheiro, não existiam más gestões de dinheiros públicos, os trabalhadores gozavam todos as mesmas folgas e tolerâncias e ponto, beneficiavam todos das mesmas regalias sociais e saíam todos à mesma hora. Num mundo ideal, não existiam pessoas com dificuldades onde muitas vezes se não fossem esta “cambada”, não tinham qualquer tipo de apoio.

- Publicidade -

Não podemos generalizar, nem podemos aproveitar para achincalhar o sector social que, por si só, já é tão frágil. O “controlo” que tanto pedem, que seja feito em primeira instância “na casa” de quem o pede. O Estado, se pede colaboração às IPSS’s para desempenhar aquelas que são as suas funções, deve ser um parceiro, ter espírito de colaboração, colocar-se ao lado e não em cima, para que juntos possam realizar aquilo que efectivamente interessa: o apoio às pessoas.

Feliz Natal “cambada”!

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome