“Espuriedades”, por Sérgio Ribeiro

Não quereria escrever isto. Não digo que não quereria lembrar. Porque não quero esquecer! Porque a cicatriz está cá. Porque sobre ela há que passar o dedo. E lembrar o que outros não viveram, e tudo farei para que não se volte a viver. Ainda que, para isso, eu (e outros) tenham de voltar a correr riscos que vivemos/sofremos.

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Não quereria ter de escrever que me empurram para que escrito seja.

Fui preso, torturado, julgado, condenado, retiraram-me direitos políticos (que não existiam!), cumpri a pena. Porque lia livros, reunia, apoiava a luta clandestina, escrevia textos contra a ditadura, conspirava. Contra a ditadura. Tomava posição pela independência dos povos colonizados. Como eu, mais havia que o faziam. E alguns muito mais do que eu.

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Vejo, ouço e leio paralelos que não aceito, que rejeito.

Impuseram, aqui e ali, um modelo de sociedade. Com um poder legislativo, executivo, judicial. Tudo segundo a ocidental maneira, Ainda que para se impor o modelo se tenham usado (e usem!) violências sem freio, como lembra Mia Couto na página que estou a ler, “Conheço bem o jogo dos europeus, Mandam, primeiro, os comerciante e missionários; depois, os embaixadores; depois, os canhões. Bem podiam começar pelos canhões. (Imperador Teodoro II da Etiópia)”.

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A esse modo, e por essas maneiras, Angola é considerada uma democracia. À ocidental. Não é uma ditadura, segundo o ocidental critério. Mas este só serve quando serve a ocidental maneira e, para a servir, isto é, o capitalismo, usam-se outras ocidentais maneiras. De novo os comerciantes, os missionários, os embaixadores, os canhões. E, agora e muito, a informação massificada e as suas campanhas.

Havia quem lesse livros (de como derrubar poderes políticos, com experimentada e desgraçada prática), quem reunisse semanalmente, decerto não por desfrute ou deleite intelectual, mas para ver como passar à acção. E esses poderes políticos eram ditatoriais, ou eram segundo impostos por ocidental maneira? Com multipartidarismo, com eleições avalizadas por quem de direita à extrema esquerda), com deputados da oposição – ex-generais da Unita, talvez com práticas espúrias de que apenas se estigmatizam dirigentes do partido maioritário, e que o poder judicial deve condenar –, em suma, com o sistema a funcionar. Com investigação, arguidos, julgamento, recurso. Em curso.

Pois aí vêm todas as acusações com um único endereço ou alvo: o MPLA, suas estruturas e funcionamento… Perdão… único endereço ou alvo? Não! Com o habitual endereço ou alvo, sempre que há, se aproveitam ou se inventam oportunidades: o PCP.

Se isto não é uma ilustração de que a História que escrevemos é a da luta de classes, nada haverá que o seja.

 A liberdade, qualquer liberdade (a de expressão e outras), não é um absoluto.

 

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