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Especial Mação | “A terra chama-nos”, por Maria de Jesus Perry

A terra chama-nos!
Se não for a nossa, outra o fará…

Em Junho de 2016, Mação foi a terceira vila portuguesa a integrar a Rede Global das Cidades de Aprendizagem da Unesco (UNESCO Global Network of Learning Cities). O nome é complexo, e a mais-valia deste estatuto não é de imediato perceptível. Learning cities, traduzido à letra, são Cidades de Aprendizagem. Mas talvez neste contexto, seja mais justo traduzir como Lugares de Aprendizagem.

Mas afinal o que são Cidades de Aprendizagem?  Lugares onde se promove a aprendizagem ao longo da vida para todos. Todos os sectores são recrutados para promover a aprendizagem inclusiva do ensino básico ao ensino superior; revitaliza-se a aprendizagem em famílias e comunidades; privilegia-se a aprendizagem para e no local de trabalho; faz-se uso de tecnologias de aprendizagem modernas e promove-se uma cultura de aprendizagem ao longo da vida. Embora esta aprendizagem esteja enraizada em muitas culturas, assume no mundo de hoje, um papel particularmente relevante. Vivemos um mundo em rápida mudança, com redefinições constantes das normas sociais, económicas e políticas. E há que dotar os cidadãos com novos conhecimentos, habilidades e atitudes que melhor permitam a sua adaptação às mudanças no seu ambiente. E o compromisso a nível local é o mais duradouro. Assim, como explica a Unesco, uma sociedade de aprendizagem deve ser construída província por província, cidade por cidade e comunidade por comunidade.

Transversal a todas as comunidades, os factos demográficos como a diminuição da natalidade e o aumento da esperança de vida, muito visível no território de Mação, trazem-nos novos desafios. Pretende-se que Mação se assuma como um lugar de aprendizagens que facultam perspectivas dinâmicas aos seus jovens e oportunidades de aprendizagem aos cidadãos mais velhos, contribuindo para o seu bem-estar. E tudo decorre em rede, criando oportunidades de troca de experiências, de comparação e de exploração de novos modelos de aprendizagem.

Os ganhos? A Cidade de Aprendizagem melhora o poder individual e a inclusão social, o desenvolvimento económico e garante prosperidade cultural e desenvolvimento sustentável. A nível dos seniores, estas experiências são particularmente importantes: vivemos muitos anos e não podemos desperdiçar o número de aposentados ainda activos, com vontade de desenvolver os projectos pessoais que adiaram por falta de tempo. Assim se tem assistido ao recuperar das casas e à revitalização dos espaços agrícolas e florestais. E se olharmos com mais pormenor, iremos encontrar projectos familiares, intergeracionais. A terra chama-nos!

Tapete de frágeis violetas, forrando a sombra dos espaços húmidos!
Foto: DR

Territórios como Mação têm um património natural e cultural que pode e deve ser partilhado. Mas os que habitam nos seus lugares devem também assumir e exigir uma responsabilidade partilhada na preservação de um património que “é pertença” de todos. É neste pormenor que a Unesco desempenha um importante papel, ao encorajar a participação da população local na preservação da sua herança cultural e natural. Ser-se Património Mundial, significa proteger. Significa enraizar e preservar. E significa preparar o futuro. Portanto, quanto mais amplo e rico é esse património em valores naturais, maior a nossa responsabilidade.

Recentemente visualizei um número impressionante de pequenos vídeos mostrando os “Tesouros Naturais de Mação”, uma biodiversidade espantosa do território, partilhada pelo seu autor, Michel Henrotay, um paleoentomologista belga há muito apaixonado pelos ribeiros, pelos penedos, pela fauna e flora do concelho de Mação. Com a ajuda da internet, pedi-lhe uma entrevista. “Com muito gosto”, foi a sua rápida resposta, pedindo simultaneamente desculpa por responder em francês.

Michel Henrotay, paleoentomologista, um belga rendido à Cidade de Aprendizagem Mação
Foto: DR

Marcado encontro no mês de Junho, em Mação, onde vem sempre duas vezes por ano, pudemos trocar ideias, escutar muitas histórias e aventuras, rir, ver fotos de aranhas com cores fantásticas, e falar das potencialidades do concelho como ponto de observação da natureza. Ofereceu-se para nos fazer uma visita guiada aos ninhos dos grifos, que nidificam no concelho, e que para mim eram completa novidade.

Num dia exageradamente quente, dirigimo-nos de carro para o local estratégico e escolhido por Michel Henrotay. Parado o motor do carro, saímos todos para percorrer com os olhos um rochedo vertiginoso que parecia ter sido cortado com um cutelo, mostrando uma face deslizante, onde aparentemente não se passava nada. Só com a ampliação permitida pela objectiva da máquina fotográfica, e ao fim de inúmeras tentativas de referenciação geodésica, procurando buracos e arbustos da rocha, consegui vislumbrar umas grandes penas castanhas, de uma ave denunciada pelo seu fugaz movimento na sombra do penhasco! Um grifo, um ninho, e no concelho de Mação! E confesso que o que se revelou mais difícil, foi neutralizar a exaltação da descoberta com a imobilidade silenciosa imposta pela observação em tempo real.

Fugimos para a sombra de um local particularmente húmido, onde a água corre sem parar. Agora era tempo de olhar para o chão e ter o cuidado de não pisar o tapete de violetas, “que só aqui se encontram” afirma Michel.

Tarefa complicada, a de não pisar as violetas e simultaneamente não deixar o pé escorregar para a água. Em desequilíbrio permanente, lá se conseguiu tirar umas fotos. Michel Henrotay mostrou os cantos todos. Falou dos lagartos-de-água coloridos que em 2011 avistou neste mesmo espaço, da sua preocupação em identificar os machos e as fêmeas, em perceber como se distribuem no local. Falámos em pormenor da limpeza dos locais, das intervenções quando se limpam estes lugares. Não se podendo evitar a presença das pessoas, tenta-se manter esses espaços, limpar, remover arbustos que caem, etc… mas até a limpeza das ervas deve ser feita com cuidado: não se deve danificar o tapete de violetas, não se deve mudar os pedregulhos de sítio, não se devem cortar as árvores enraizadas na água, etc…isto é: difícil agradar a gregos e a troianos! Mas há que fazer opções.

Rã verde (Pelophylax perezi) refrescando-se num charco, indiferente à nossa presença
Foto: DR

Esgotados pelo calor, mas realizados na façanha, regressámos à Vila reclamando uma esplanada fresca, onde pudéssemos pôr as ideias em ordem. Ou completar a conversa que não se pode ter nos lugares de observação. Como diz Michel, “temos que ser tão lentos como os animais. Já reparou que os animais não fogem uns dos outros? Só fogem dos homens!”. Durante a conversa, apercebemo-nos de como este entomologista é bem conhecido em Mação.

Todos o cumprimentam, ao que ele responde tratando todos pelo respectivo nome. Ainda há tempo para ver mais umas fotos, tiradas na véspera, quando passeava com Dália, a sua mulher, portuguesa, que está sempre pronta a segurar as aranhas, borboletas ou carochas que Michel quer documentar. Quando vê uma teia de aranha, fotografa-a em pormenor, para depois ampliar e revelar verdadeiras obras de engenharia, imperceptíveis a qualquer um de nós. Marcámos ainda uma visita para a tarde, mas só depois das 18h, pois o calor não dá tréguas. O tema são fósseis, as bilobites! O dia permitiu assim tirar ainda mais umas fotos, desta vez a material inorgânico. Aproveitamos a aragem do final do dia, para recolher perfeitos cristais de quartzo e para estender a conversa.

Dália Marques, conhecedora de todos os cantinhos onde as aranhas tecem as suas teias, espelha serenidade, uma característica fundamental para levar as actividades de entomologia a bom termo.

O regresso à Bélgica só acontecerá depois da Feira Mostra. E fica a promessa de uma visita nocturna, lá para Outubro, explorando assim os segredos da noite e a observação daqueles que não se mostram na luz e temperatura do dia. Mas tem uma condição: tem de ser uma noite muito chuvosa!

É impossível não se ficar preso a todas as histórias que Michel vai narrando. E é fácil interiorizar todas as suas preocupações relativamente à preservação do nosso património e da nossa identidade cultural, a mesma que o traz de volta a Mação duas vezes por ano, desde que há uns quantos anos, uma forte trovoada o obrigou a sair da A23. Mação chamou-o, e Michel encantou-se.

Em Mação, preservar a cultura e a natureza são objectivos há muito assumidos. Há muitas frentes a abordar quando se quer acautelar a exposição do património aos fluxos turísticos. Estratégias integradas como definir os trilhos, previamente estudados e preparados para receber visitas guiadas, a presença de museus nas aldeias (chamados de Espaços de Memória) com técnicos/cientistas e estudiosos que acompanham estas actividades, partilha das preocupações com a conservação do património, etc… ajudam a gerir a pressão sobre o espaço e sobre a natureza que resulta da massificação do turismo, enfim dos efeitos invasivos da globalização económica.

Porque Mação é um livro aberto da Natureza, há que tirar o melhor proveito dessa leitura, pois a escala do tempo é muito diferente: arrasadoramente curta para a condição humana, quando comparada com os testemunhos geológicos. Não viremos então as costas, pois o tempo escasseia-nos. E a terra chama!

Lagartos-de-água/macho (Lacerta Schreiberi), Pego da Rainha, 2011
Foto: DR

Doutorada em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Lisboa, onde nasceu e é professora universitária, aproximou-se e adoptou a vivência da região centro por razões familiares. É casada com José Manuel Saldanha Rocha (que foi presidente da Câmara de Mação) e mãe de três filhos: Manuel Maria, Guilherme e Margarida. Naturalmente conversadora, iniciou recentemente um novo projecto: o gosto pela comunicação de ciência para um público que partilhe da mesma curiosidade. Numa região de Portugal que tem muito para dar, temas não faltam para serem abordados em ambiente de partilha, de memória e com um olhar no futuro. Uma envolvência inquieta pela nossa identidade.

Nota: Por decisão pessoal, a autora não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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