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Sábado, Outubro 16, 2021

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Especial Mação | A arte “incendiária” de António Colaço (entrevista)

António Colaço defende que “somos de onde estamos” e um dos sítios onde esteve foi no concelho de Mação. Chegou nos primeiros anos da vida em que se afirmou como comunicador e artista plástico e em 2017 estava lá durante os incêndios que lhe roubaram a horta. O fogo foi extinto, mas defende que o concelho continua “incendiado” pela “marginalização” de que tem sido vítima nas políticas governamentais e decidiu colocar “a arte ao serviço da memória” com a criação da instalação artística “Vamos Incendiar.te Mação”, a ser inaugurada oficialmente este sábado, dia 30, às 16:45, durante a Feira Mostra de Mação.

António Colaço tem nome reconhecido a nível nacional pelos 21 anos em que foi assessor do Grupo Parlamentar do Partido Socialista e como artista plástico por mais do dobro do tempo, uma paixão cujas “bodas de ouro” espera comemorar em abril do próximo ano. Pelo Gavião é conhecido como filho da terra, em Mação – freguesia de Cardigos – viram-no crescer e aos filhos, e na passagem por Abrantes foi pai do projeto que colocou o concelho na linha da frente das rádios livres em Portugal.

Entre as marcas deixadas na cidade abrantina, onde integrou os quadros da câmara municipal, estão as emissões da Rádio Antena Livre que incluem a primeira entrevista do General Ramalho Eanes a uma rádio pirata, obtida após quatro longas horas de espera. No território onde a palha é doce, também esteve na génese do projeto “Ânimo”, em 1979, que começou sob a forma de revista e com o passar dos anos se transformou no blog e na página de facebook em que partilha os pensamentos e os dias.

António Colaço no atelier do Montijo. Foto: António Colaço

Chegou a frequentar um convento do Porto como frade franciscano apoiado financeiramente pela família do Cardeal Cerejeira, em cuja casa a mãe chegou a trabalhar. Como aluno, tentou os cursos de Filosofia, Teologia, Belas Artes, História, Piano e Ciências Sociais e Estudos Artísticos em diversos pontos do país. No entanto, a vocação era outra e a verdade é que não precisou do canudo para ser artista, nem comunicador.

Aos 66 anos, a vontade de transmitir mensagens prevalece e encontrou espaço próprio nas redes sociais que, segundo António Colaço, “mais do que uma moda, são um modo de mudar”. São elas que agora dão voz à voz conhecida por muitos nos tempos da rádio Regional do Ribatejo, em Santarém, e nos primórdios da TSF, até se passar para o outro lado da comunicação, enquanto assessor parlamentar do PS depois de andar “uns dias a refletir” sobre o convite de Jorge Lacão em 1989.

Pormenor da instalação artística “Vamos Incendiart.Te Mação”. Foto: António Colaço

Nunca perdeu o “bichinho”, não do jornalismo em si, mas “o de comunicar” e a breve incursão pelas televisões clandestinas valeu-lhe um processo no DIAP (Departamento de Investigação e Ação Penal) em 1995. Nos dias que correm, é através dos posts que passa as mensagens e os de 2017 ficaram marcados pelos incêndios florestais que assolaram o concelho de Mação, roubando-lhe “em vinte minutos” o trabalho de “vinte anos” junto da casa de família recuperada.

A pequena horta faz parte dos mais de 90% do território que arderam no concelho percorrido durante anos pelo pai para entregar pão e que hoje, diz António Colaço, continua “incendiado” devido ao esquecimento por parte dos responsáveis políticos no ano que se seguiu à tragédia. O terreno acabou por se revelar fértil além da agricultura e acabou por fornecer a matéria prima do projeto “Vamos Incendiar.te Mação”, com inauguração oficial marcada para as 16h45 deste sábado, dia 30 de junho, durante a Feira Mostra de Mação.

Atelier de António Colaço no Montijo. Foto: António Colaço

Foi a partir da casa do Montijo, onde reside atualmente e tem o atelier, que nos falou sobre a nova instalação artística que carateriza como “um pontapé de saída para um memorial” que coloca “a arte ao serviço da memória” e mostra que “não estamos esquecidos do acontecimento, mas estamos nós no esquecimento”. Fala no plural, enquanto maçaense, revelando a forte ligação ao concelho para onde se mudou com a família aos cinco anos de idade.

“Uma espécie de segunda pátria minha”, acrescenta António Colaço, mas que não se sobrepõe aos outros lugares por onde passou durante a vida pois defende que “nós somos de onde estamos e devemos acrescentar algo mais aos sítios por onde passamos”. No caso de Mação, acrescentou o projeto inicialmente pensado como uma coletiva de pintura e escultura composta por artistas locais, mas que acabou por ganhar outra forma, em parte moldada pelo AVC que teve no passado mês de março e obrigou o braço direito a reaprender a sua função.

A “matéria-prima” veio da horta de Mação. Foto: António Colaço

O “desafio” tornou o processo criativo mais difícil, diz, mas não impossível para fazer nascer a obra que representa dois tipos de chamas, as que assolaram o território e a que a população tem dentro de si para reconstruir a vida, apesar da “marginalização” de que tem sido vítima nas medidas governamentais mais recentes. Uma das justificações que nos apresenta para este facto coaduna-se com a sua postura crítica durante os incêndios: Mação é um dos concelhos onde o fogo não fez vítimas mortais.

Não morreu gente, mas houve “uma espécie de morticínio do território” e esse vai estar representado pela arte que diz ser “incendiária” por “meter as consciências a refletir”. Intenção materializada nas duas telas de 70×70 cm de OSB (Oriented Strand Board), aglomerado de partículas de madeira, em que surgem coladas alfaias e outros materiais que encontrou no seu terreno depois do incêndio. Peças queimadas pelo fogo e oxidadas pelo tempo que trazem memórias e são complementadas pelo que restou do poste de eletricidade que alimentava o furo da horta.

O ninho do picanço (pica-pau) representa a resiliência dos maçaenses. Foto: António Colaço

O buraco central resultante do esforço de um picanço (ou pica-pau) para fazer o seu ninho tem destaque neste pedaço de madeira banhado a ouro e ornamentado com “caligrafias imaginadas” – um dos traços do artista, tal como as colagens – em que cada um “escreverá o que quiser”, refere António Colaço. Um detalhe que diz ser “uma afirmação do povo” que, tal como o pequeno pássaro, “não desiste e continua a lutar”.

As três peças são apresentadas este sábado no primeiro dos dois momentos que marcam a inauguração oficial da instalação artística. O segundo envolve uma criação diferente que tem como elemento principal um tronco de oliveira queimado a fazer lembrar “um Cristo crucificado”, destaca, e cujo negro pintado pelas labaredas fará contraste com o vermelho que escorrerá na torre sineira da Igreja Matriz de Mação a partir das 16:45 deste sábado.

O tronco de oliveira queimado já se encontra na torre sineira da Igreja Matriz de Mação. Foto: Amorim Lopes

O projeto “Vamos Incendiar.te Mação” transmite uma mensagem forte, impactante, que não deixa esquecer o passado e quer ajudar na construção do futuro e, apesar da inauguração oficial estar marcada para essa data, é possível conhecer antes as criações de António Colaço. O tronco de oliveira queimado foi pendurado na torre sineira na terça-feira e as restantes peças estão patentes no stand do município desde quarta-feira, 27, dia que marcou o arranque da Feira Mostra.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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