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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

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Especial Ferreira do Zêzere | Entrevista com Jacinto Lopes em Dornes, uma das maravilhas do concelho

Tendo como pano de fundo a idílica paisagem de Dornes (aldeia que é finalista no concurso 7 maravilhas de Portugal) o mediotejo.net falou com o atual presidente da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, Jacinto Lopes, sobre o potencial do concelho que lidera desde 2009. Na semana em que se comemora a grande Festa do Emigrante, fomos procurar saber o que Ferreira do Zêzere tem de melhor, quais são os pontos fortes do território, os desafios e as oportunidades que ainda estão por explorar. Uma conversa sem grandes dúvidas ou hesitações e onde ainda houve tempo para fazer alguma futurologia.

Como é que surge uma Festa do Emigrante em Ferreira do Zêzere?
Nós tínhamos já uma festa com alguma dimensão, em julho, quer era o De.Pe.Ni.Car desde há 10, 11 anos e achámos que seria, de todo, interessante envolver os nossos emigrantes porque temos muitos emigrantes em Ferreira do Zêzere e nos concelhos vizinhos. E  como gostamos de os receber bem decidimos dar-lhe  o nome de Festa do Emigrante para se sentirem mais acarinhados. E resultou. Temos tido cada vez mais visitantes e melhores grupos a atuar. Os emigrantes também agradecem este carinho que temos por eles porque se sentem acarinhados na sua própria terra e contribuíram, de forma decisiva, para o engrandecimento da festa.

Esta é uma festa que tem características especiais…
A essência da festa são os petiscos, o depenicar. Foi por aí que começámos e depois fomos acrescentando outras camadas com a animação, cultura e feira do livro. A animação está sempre presente com grandes nomes da música nacional. O mote é sempre oferecer animação ao longo dos dias e divulgar o concelho, as indústrias, o que de melhor se faz em Ferreira do Zêzere, num só espaço e nos mesmos dias. Penso que isto tem sido conseguido. A festa decorria, inicialmente, nos jardins centrais em frente ao edifício da câmara mas, posteriormente, optou-se por mudar para a zona perto do mercado municipal. Conseguimos congregar num só espaço as várias vertentes da festa sem cortar ruas.

Do ponto de vista logístico, é fácil organizar uma iniciativa como esta?
As coisas vão crescendo e vamos criando e mecanizando os hábitos. Há cadernos de encargos, em que cada um sabe o que tem a fazer. Em março, carregamos no  modo “on” Festa do Emigrante e as coisas começam a desenrolar. Já temos um “modus operandi” definido que permite tornar o trabalho mais ligeiro.

“No ZêzereArts damos espetáculos às pessoas que não nos envergonham em qualquer parte do mundo. Temos os melhores tenores, os melhores sopranos, os melhores músicos reunidos em Ferreira do Zêzere”

Há uma componente forte de animação musical. Em Ferreira do Zêzere tanto se pode ouvir ópera, no Zêzere Arts, como música mais popular nesta festa. Qual tem vindo a ser a vossa estratégia no campo cultural?
Para a cultura temos apostado em atingir todos os públicos, de forma transversal. Temos um histórico de público a considerar na Festa do Emigrante. Somos um concelho do interior, envelhecido e temos que ter a noção de quem são os nossos espectadores habituais mas os públicos também se trabalham. Temos desde o mais tradicional, mais popular até ao mais exclusivo. Temos por exemplo, muitos estrangeiros que aqui residem que vão atrás de um produto mais trabalhado e os ferreirenses têm ido atrás. Há coisas das quais não gostamos porque não conhecemos. E quando conhecemos começamos a gostar. No ZêzereArts damos espetáculos às pessoas que não nos envergonham em qualquer parte do mundo. Temos os melhores tenores, os melhores sopranos, os melhores músicos reunidos em Ferreira do Zêzere.

O ZêzereArts é um evento que já partilharam com a região…
É verdade. É um evento que começou por ser de Ferreira do Zêzere – daí o nome ser ZêzereArts – mas que dado ao número crescente de pessoas que todos os anos se queriam juntar para vir a Ferreira do Zêzere quisemos alargar para os concelhos vizinhos como Tomar, Batalha, Sardoal ou Barquinha. Este género de música combina muito bem com Monumentos ou grandes igrejas, espaços com boa sonoridade. O que é bom para nós também é bom para os nossos vizinhos.

Estamos em Dornes, uma das aldeias que é finalista no Concurso 7 Maravilhas de Portugal mas, em termos turísticos, o que é que o concelho tem para oferecer e a potenciar?
Temos o azul e o verde. O azul do rio e o verde da natureza que são os dois pilares principais do nosso turismo. Temos também o património construído, como a Torre Pentagonal de Dornes e as nossas igrejas. Temos, sobretudo, a capacidade de receber bem dos ferreirenses. Aqui temos bons restaurantes, boa gastronomia, bons edifícios, história, bons passeios terrestres e no rio, hipismo, um conjunto muito largo de atividades que vai de encontro às necessidade e desejos daqueles que nos visitam. De certeza que quem vem a Ferreira do Zêzere com certeza que encontra sempre algo que goste para fazer.

O Wakeboard tem sido uma aposta muito forte…
O Wakeboard é uma marca que estamos a deixar no nosso turismo e desporto. Em Ferreira é mais turismo do que desporto, sendo que aqui já se realizaram dois mundiais. Estamos a apostar no cable como diversão.  Este ano vamos fazer mais uma prova mundial de cable. Tem sido um investimento muito grande mas que já está a dar os seus frutos pois tem trazido muita gente ao nosso concelho.

“O Plano de Ordenamento impede-nos a construção junto ao rio. Nós investimos centenas de milhares de euros em saneamento junto ao rio mas depois não podemos usufruir desse saneamento porque não podemos construir casas. É um contrassenso. Se a habitação que for construída junto ao rio estiver ligada ao saneamento qual é o impacto que tem sobre o rio Zêzere? Zero. Não faz sentido não se poder construir”

O Rio Zêzere é um potencial imenso mas que não é fácil de aproveitar…
Temos um Plano de Ordenamento da Barragem do Castelo do Bode que já devia de ter entrado em revisão em 2013 mas não entrou e não há perspetivas que vá entrar tão depressa. Há projetos que podem ser feitos, sem prejudicar a qualidade da água que eu defendo que deve ser preservada ao máximo porque bebem daqui 3 milhões de pessoas…

Que projetos gostava de ver no terreno que são “travados” pelo Plano de Ordenamento da Barragem de Castelo do Bode?
O Plano de Ordenamento impede-nos a construção junto ao rio. Nós investimos centenas de milhares de euros em saneamento junto ao rio mas depois não podemos usufruir desse saneamento porque não podemos construir casas. É um contrassenso. Se a habitação que for construída junto ao rio estiver ligada ao saneamento qual é o impacto que tem sobre o rio Zêzere? Zero. Não faz sentido não se poder construir. Vamos a outros países, como a Itália e Suíça, onde existem casas perto do lagos. O saneamento é tratado logo o impacto sobre os rios é nulo. Aqui temos criadas as condições para isso. É urgente que, num concelho do interior como o nosso, onde estamos a perder população, que se possa construir onde haja condições objetivas para o fazer. Há infraestruturas mas o Plano de Ordenamento impede a construção.

Por exemplo, é isso que impede que em Dornes não exista uma praia fluvial para usufruto da população?
O Plano de Ordenamento da Barragem proíbe mas qual será o problema de termos aqui uma piscina flutuante como temos na Castanheira para atrairmos mais pessoas e darmos-lhe segurança? Não faz sentido andarmos a divulgar Dornes, as pessoas virem-nos visitar mas depois não poderem usufruir. Era um investimento que queríamos fazer há muitos anos mas não nos deixam. É preciso que se abra a janela de oportunidades através da revisão do Plano.

Mesmo assim, dentro do que vos é permitido fazer, quais são os planos que têm para Dornes que está prestes a ser considerada uma das sete maravilhas de Portugal?
Queremos fazer um Plano de Salvaguarda para Dornes, algo em que os habitantes e proprietários das casas também pudessem participar. Definir regras e o que é que queremos para Dornes. Se as janelas são em madeira ou alumínio. Pequenos detalhes que são de grande importância. Queremos dar-lhe um ar mais uniforme. Quero tirar todos os cabos e antenas, se possível passar tudo a subterrâneo. Dar-lhe um ar mais limpo, mais pitoresco. Porque é isso que as pessoas que nos visitam querem vir encontrar. Queremos apostar mais na limpeza. Queremos que Dornes fique ainda mais bonito do que o que está. Isso, sem dúvida.

Dos projetos que estão atualmente em marcha qual é o mais importante no seu ponto de vista?
A grande obra que estamos a fazer neste momento é, sem dúvida, os ferreirenses. Vivemos num paradigma diferente. As câmaras têm um papel completamente diferente de há 15, 20, 30 ou 40 anos. Hoje em dia o estruturante está feito. Não há necessidade de construir grandes obras ou edifícios. O que nos faz falta? Cuidar dos Ferreirenses. A nossa aposta tem sido na área social, nos idosos e nas crianças. Estamos a pagar as refeições às crianças, damos-lhe os livros escolares, temos transporte porta a porta, piscina gratuita, criamos um mecanismo para que os idosos não paguem medicamentos. Não subimos o IMI e há seis anos que não subimos a água ou os resíduos sólidos. Temos feito tudo por tudo para manter o dinheiro no bolso dos ferreirenses. Isto é algo que é valorizado pelas pessoas.

“Temos, no nosso concelho, empresas muito dinâmicas, que ganham prémios e estão bem classificadas nos rankings nacionais. Temos a sorte de, em Ferreira do Zêzere, ter um vasto grupo de empresários que tornam o concelho muito apetecível em termos empresariais.”

Qual é o retrato social e económico deste concelho?
É um concelho com uma pirâmide de idades invertida. Os idosos começam a prevalecer. Não há lugar à renovação das gerações e a mortalidade é muito superior à natalidade. Por outro lado, é um concelho de pleno emprego. Temos uma taxa de desemprego de 2,1 por cento que é a segunda melhor taxa do país. Quem quer trabalhar vai conseguindo arranjar emprego mesmo que não seja na área que gosta ou da sua formação. Gostávamos de ter mais empresas para atrair, sobretudo, pessoas. Havia necessidade de criar mais emprego para atrair mais pessoas de outros concelhos para o nosso. Essa é a nossa grande aposta.

E qual é o retrato do tecido empresarial e económico?
O setor de maior vitalidade é a agroindústria… onde há o ovo, as rações e a criação dos animais. Também na área das madeiras temos os maiores empresários do país em Ferreira do Zêzere. Também na agricultura se tem notado muita vitalidade. Há uma aposta cada vez maior na agricultura. Temos um microclima especial para a produção de maçã. Os sectores mais tradicionais, nos últimos 20, 30 anos, como as cerâmicas e as madeiras, foram desaparecendo mas, felizmente, a agroindústria tem dado capacidade de resposta para repor o emprego. Por isso, a taxa de desemprego ser de 2,1%. Temos, no nosso concelho, empresas muito dinâmicas, que ganham prémios e estão bem classificadas nos rankings nacionais. Temos a sorte de, em Ferreira do Zêzere, ter um vasto grupo de empresários que tornam o concelho muito apetecível em termos empresariais.

Ferreira do Zêzere é conhecida como a Capital do Ovo. Qual tem sido a estratégia para afirmar esta marca?
A Capital do Ovo apareceu como estratégia para se valorizar o que se produzia em Ferreira do Zêzere, o ovo. Continua a ser o concelho onde se produz mais ovos em Portugal. E apareceu também como estratégia de marketing territorial. Ferreira do Zêzere tinha que ser conhecido por alguma coisa e não aparecer apenas devido aos fogos ou desgraças. Queríamos ter uma marca que fosse associada a Ferreira do Zêzere. Há pessoas que até podem não conhecer o concelho mas conhecem a Capital do Ovo. Em todas as caixas de ovos, nos supermercados de sul a norte do país, há publicidade a Ferreira do Zêzere. Foi uma estratégia de marketing que resultou porque estamos a valorizar um produto endógeno do qual somos líderes de mercado.

Qual é o maior desafio para um autarca deste território?
Um autarca de um território do interior sofre sempre de algumas ansiedades. Uma delas é ver a população, todos os anos, a diminuir. Tentar dar todas as condições para mais pessoas se fixarem mas vermos que isso não resulta porque é difícil competir com o litoral. Temos muitas empresas que podiam se estabelecer aqui mas o Estado Central não se preocupa em trazê-los para o interior. Se não houver uma discriminação positiva por parte do Estado é difícil instalarem-se aqui. E se vierem as empresas, vem as pessoas. Temos pleno emprego mas não temos capacidade de atrair mais pessoas. A angústia é ver o interior do país a definhar.

Como é que vê o concelho daqui a 20 anos?
Se não houver quem olhe para nós de forma positiva, se não houver discriminação positiva em relação aos territórios do interior, eu acredito que daqui a 20, 30 anos a população seja metade da que temos hoje. Só quem gosta muito da sua terra é que fica a lutar. Vamos ficar com um interior completamente deserto…
Defina Ferreira do Zêzere numa frase.
(Pausa)… Eu diria que… Ferreira do Zêzere é ainda uma terra de oportunidades!

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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