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ESPECIAL FÁTIMA | Prisão dos Pastorinhos: o que dizem as Memórias da Irmã Lúcia

Na assembleia municipal de 28 de abril e na reunião de câmara de 5 de maio, em Ourém, o tema da prisão dos três pastorinhos de Fátima levantou a discussão entre deputados municipais e vereadores. O vereador José Poças das Neves (PSD-CDS), em particular, tem desenvolvido um estudo em torno do fenómeno de Fátima, contestando a visão geral de que os três primos tenham ficado retidos na prisão de Vila Nova de Ourém, convivendo com os presos.

A Câmara de Ourém quer criar um núcleo museulógico na antiga prisão, localizada no velho edifício camarário, com a referência de que ali estiveram os pastorinhos aquando o 13 de agosto de 1917. No entanto há quem afirme, recorrendo-se a testemunhos da época e as contradições da Irmã Lúcia nos seus depoimentos, de que estes terão ficado na Casa do Administrador, em Vila Nova de Ourém, brincando com os filhos deste, sendo a tese da prisão na cadeia uma deturpação da narrativa factual.

Guiando-nos pelas Memórias da Irmã Lúcia, o único facto assente parece ser a deslocação forçada à então Vila no dia da aparição de agosto, frustrando a multidão que os esperava. Onde estiveram e em que circunstância não é tão claro, apesar de existir menção aos presos. Existe porém toda a Documentação Crítica de Fátima, acessível ao público em vários volumes, com mais referências a este episódio.

O mediotejo.net deixa aos seus leitores algumas partes das Memórias da Irmã Lúcia que falam sobre o sucedido.

*

“Passados não muitos dias, meus tios e meus pais recebem ordem das autoridades, para comparecer na Administração, no dia seguinte, a tal hora marcada, com a Jacinta e o Francisco, meu tio e, comigo, meu pai. A Administração é em Vila Nova de Ourém; e por isso havia que andar umas três léguas, distancia bem considerável para três crianças do nosso tamanho. E os únicos meios de viajar, em aquele tempo, por ali, eram os pés de cada um, ou os de alguma burrita. Meu tio respondeu logo que comparecia ele, mas que seus filhos não os levava: – Eles, a pé, não aguentam o caminho – dizia ele – e a cavalo eles não se seguram em cima da burra, porque não estão habituados. Ademais, não tenho para que apresentar em um tribunal duas crianças deste tamanho. Meus pais pensavam ao contrário: – A minha vai; que responda ela. Eu cá destas coisas não entendo nada. E, se mente, é bem que seja castigada. No dia seguinte, de manhãzinha, lá me puseram em cima duma burrita, da qual caí três vezes durante o caminho, e lá fui acompa-nhada de meu pai e meu tio (19). Parece-me que já contei a V. Ex.cia Rev.ma quanto a Jacinta e o Francisco sofreram neste dia, julgando que me iam matar. A mim, o que me fazia sofrer era (a) indiferença que por mim mostravam meus Pais, a qual eu via mais clara quando via o carinho com que meus tios tratavam os seus filhinhos. Lembro-me de nesta viagem ter feito esta reflexão: Que diferentes são meus pais de meus tios! Estes, para defender seus filhos, entregam-se eles. Meus pais entregam-me com a maior indiferença, para que façam de mim o que quiserem! Mas paciência! dizia no íntimo do meu coração; assim tenho a dita de sofrer mais por Teu amor, ó meu Deus, e pela conversão dos pecadores. Em esta reflexão encontrava consolação em todos os momentos. Na Administração, fui interrogada pelo Administrador, na presença de meu pai, meu tio e vários outros senhores que não sei quem eram. O Administrador queria forçosamente que Ihe revelasse o segredo e que Ihe prometesse não voltar mais à Cova (de) Iria. Para conseguir isto, não se poupou a promessas e, por fim, amea- ças. Vendo que nada conseguia, despediu-me, protestando que o havia de conseguir, ainda que para isso tivesse de tirar-me a vida. A meu tio passou uma boa repreensão, por não haver cumprido as suas ordens, e lá nos deixaram vir para nossa casa”.

(…)

“Entretanto, amanhecia o dia 13 de Agosto. O povo chegava de todos os sítios, desde a véspera. Todos queriam ver-nos, interrogar-nos e fazer-nos os seus pedidos, para que os transmitissemos à Santíssima Virgem. Éramos, nas mãos daquela gente, como uma bola nas mãos da rapaziada. Cada um nos puxava para seu lado e nos perguntava a sua coisa, sem dar-nos tempo de responder a ninguém. Em meio desta lida, aparece uma ordem do Sr. Administrador, para ir a casa de minha tia, que lá me esperava. Meu pai é o intimado e lá me foi levar. Quando cheguei, estava ele em um quarto com meus primos. Aí nos interrogou e fez novas tentativas para nos obrigar a revelar o segredo e a prometer que não voltaríamos à Cova de Iria. Como nada conseguiu, deu ordem a meu pai e meu tio para nos levar a casa do Senhor Prior. Tudo mais que nesta prisão se passou, não me detenho, agora, a contá-lo, porque V. Ex.cia Rev.ma já sabe tudo. Como já disse a V. Ex.cia, o que nesta altura me foi mais sensível e que mais me fez sofrer, assim como a meus primos, foi o abandono completo da família. À volta desta viagem ou prisão, que não sei como Ihe hei-de chamar, que a meu ver foi no dia 15 de Agosto (21), como regozijo da minha chegada a casa, mandaram-me imediatamente abrir omeu rebanho e levá-lo a pastar. Meus tios quiseram ficar com os seus filhinhos em casa e por isso mandaram, na sua vez, seu irmão João. Como já era tarde, deixámo-nos ficar junto da nossa pequena aldeia, nos Valinhos. Como esta cena se passou, V. Ex.cia Rev.ma também já sabe e, por isso, também me não demoro a descrevê-la. A Santíssima Virgem recomendou-nos, de novo, a prática da mortificação, dizendo, no fim de tudo: – Rezai, rezai muito, e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno, por não haver quem se sacrifique e peça por elas”.

(…)

“Já disse como ele passou o dia a chorar e a rezar, numa afli- ção talvez maior que a minha, quando meu pai foi intimado a levar-me a Vila Nova de Ourém (6 ). Na prisão, mostrou-se bastante animado e procurava animar a Jacinta nas horas de mais saudade. Quando rezámos o terço, na prisão, ele viu que um dos presos estava de joelhos com a boina na cabeça. Foi junto dele e disse-lhe: – Vossemecê, se quer rezar, tem de tirar a boina. E o pobre homem, sem mais, entrega-lha, e ele põe-na em cima do seu carapuço, sobre um banco. Enquanto interrogavam a Jacinta, ele dizia-me, com imensa paz e alegria: – Se nos matarem, como dizem, daqui a pouco estamos no Céu! Mas que bom! Não me importa nada. E passado um momento de silêncio: – Deus queira que a Jacinta não tenha medo. Vou a rezar uma Ave-Maria por ela! Sem mais, tira o carapuço e reza. O guarda, ao vê-lo em atitude de rezar, pergunta-lhe: – Que estás a dizer? – Estou a rezar uma Ave-Maria, para (que) a Jacinta não tenha medo. O guarda fez um gesto de desprezo e deixou correr”

in Memórias da Irmã Lúcia (volume I)

edição de 2007

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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