Domingo, Fevereiro 28, 2021
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ESPECIAL FÁTIMA | Irmã Glória Maalouf, “é preciso conhecer bem a situação dos refugiados para ajudar” (c/vídeo)

Libanesa a residir em Fátima há 17 anos, a Irmã Glória Maalouf vai ler a súplica em árabe na Oração dos Fiéis da missa do dia 13 de maio, aquando a visita do Papa Francisco e a celebração do centenário das aparições. Tendo sido refugiada em criança, falou ao mediotejo.net da sua experiência na região, do impacto junto da população local da chegada dos refugiados e de como é necessário conhecer a cultura e a situação dos chegam para conseguir ajudar com equilíbrio.

Alegre apesar de bastante cansada, com grande simpatia, a Irmã Glória Maalouf recebe-nos ao final da tarde na loja de artigos religiosos do Santuário de Fátima. Admite que já narrou a sua história às televisões e que tem pouco mais que contar. O mediotejo.net quer saber porém da sua experiência pessoal com Fátima e a forma como vê que os locais recebem os refugiados, comunidades com quem também já contactou devido à sua fluência em árabe.

Nascida no Líbano numa família cristã, deixou o país quando rebentou a guerra civil em 1975, refugiando-se no Kuwait. “Ali vivia num mundo muçulmano, com muitas restrições, divisões que não entendia, e acabei por me afastar de Deus. Correspondeu a um período em que, jovem adolescente, vivi uma fase de rebeldia contra a religião, contra Deus”, explicara já a Irmã Glória num texto divulgado pelo Santuário de Fátima.

A família da religiosa mudar-se-ia para o Iraque, onde esta começou a estudar Filosofia e a interessar-se por religião. Foi a guerra do Golfo que os fez fugir do Iraque e a irem para o deserto. “Foi aqui no deserto que tive a primeira sensação de que a minha vida interior precisava de mudar: atrás de mim, deixei tudo e não havia nada. À minha frente não havia nada. Por isso, rezei e decidi que era mesmo Deus que tinha de procurar, era a Deus que me tinha de agarrar”, contou.

O final da viagem da família da Irmã Glória foi no Canadá. Esta entraria na Congregação das Servas do Coração Imaculado de Maria, em Itália. E foi aí que foi convidada a abrir a casa da sua ordem em Fátima, em 2000. “Eu sou uma da primeiras irmãs que chegou aqui a Fátima” desta congregação.

“Eu adorei, adorei mesmo”, referiu ao mediotejo.net, “também porque não conhecia bem Fátima, não conhecia bem a mensagem”, tendo pouco noção da realidade da cidade. A sua experiência encontra-a noutros que visitam Fátima.  “Vejo muitos peregrinos que vêm de longe e sentem (em Fátima) a casa da mãe”, comenta.

Sendo fluente em árabe, a Irmã Glória conhece a família de refugiados residente em Fátima e algumas na região. A situação toca-a de uma maneira particular por também ter sido refugiada. Consegue assim ver os dois lados, dos que chegam e dos que residem nos locais de acolhimento, e apela ao sentido de equilíbrio e de diálogo.

Em Fátima, o tema dos refugiados “é uma novidade. As pessoas não estão preparadas psicologicamente para aceitar, nem conhecem verdadeiramente como é a cultura dos refugiados. O que precisam. Parece assim uma parede de incompreensão”, procura explicar.  Salienta que é preciso “conhecer bem a cultura dos refugiados para poder ajudá-los de uma maneira que seja uma ajuda verdadeira. Conhecer a cultura de onde vêm os refugiados é muito importante. Compreender a mentalidade deles, a cultura deles, porque é diferente. A religião deles é diferente. Vai ajudar o povo a acolher melhor e também as famílias a sentirem-se mais acolhidas”.

A estrutura de acolhimento a refugiados existe, frisa, mas há uma recepção de extremos. “Falta aquele contacto quotidiano. Há pessoas que têm medo de falar com os refugiados, há pessoas que dão tudo. De um extremo ao outro (…). É bom equilibrar e conhecer bem a situação dos refugiados para poder ajudá-los de uma maneira muito equilibrada”, sublinha.

“Não é fácil ser um refugiado, eles vivem uma grande solidão”, refere. “Mas também é preciso compreender que a coisa maior que nós podemos dar é a dignidade da pessoa”. Uma casa, um trabalho, é o essencial, destaca. “Eles têm muitas feridas a nível pessoal, são muito sensíveis. Mas também aproveitam de muitas maneiras da generosidade das pessoas. Por isso é preciso ter aquele discernimento equilibrado, situação por situação, para saber ajudá-las a estar de pé a caminhar. Não é a estar sempre dependente dos outros. Ter dignidade é caminhar”.

 

 

 

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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