Sexta-feira, Fevereiro 26, 2021
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ESPECIAL FÁTIMA | Economia: Porque mantém Fátima a pequena dimensão?

A pergunta tem o seu quê de impertinente mas quisemos colocá-la: se Fátima tem em média cerca de 6 milhões de turistas (prevêem-se 8 milhões em 2017), porque mantêm os negócios a pequena/média dimensão, com alguns empreendimentos mais ousados a passarem fortes dificuldades? Juntámos uma doutora em geografia, uma mestre em economia e um empresário de Fátima, todos com trabalho desenvolvido em torno da realidade da cidade religiosa, e procurámos algumas respostas. A conclusão? Eventualmente uma questão de mentalidade, da realidade da dimensão e da História da própria cidade.

Os dados do Census de 2011 fazem uma caracterização preliminar da freguesia de Fátima: 11.539 residentes, 2.196 abaixo dos 18 anos, 3.993 famílias, 6.736 alojamentos e 3.708 edifícios. Fátima em si é o que chamamos Cova da Iria (a cidade abrange ainda os lugares de Fátima-sede, Moita Redonda, Aljustrel, Casa Velha, Moimento e Eira da Pedra), onde se concentram os serviços, os hotéis e a maioria dos negócios, estando rodeada por 22 aldeias. No essencial este é um meio rural e pequeno, com uma forte presença de variadas instituições religiosas, de matriz católica. Com uma forte afluência turística, sobretudo entre maio e outubro, a cidade de Fátima regista porém uma quebra significativa deste fluxo entre novembro e março.

Graça Poças Santos é Professora Coordenadora da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Leiria e investigadora do CIID – Centro de Investigação Identidades e Diversidade do IPL. Doutorada em Geografia, fez investigação na área do Turismo Religioso e Peregrinação. Deste trabalho possui dois livros:  Espiritualidade, Turismo e Território: estudo geográfico de Fátima (2006) e Estudo sobre o perfil do visitante de Fátima: contributo para uma ação promocional em comum da rede COESIMA (2008).

Face à questão do mediotejo.net, a docente e investigadora coloca algumas hipóteses. Desde logo “a sazonalidade que há no produto turístico do turismo religioso/peregrinação, que ainda é muito marcante. Fátima atraí esses milhões de que fala sobretudo de Maio (começa um pouco antes, por altura da Páscoa) a Outubro. Portanto, tem uma enorme concentração de pessoas que coincide também, em grande parte, com a época alta de outros produtos turísticos em Portugal. Se houvesse uma repartição destas pessoas ao longo do ano, todos os serviços, negócios, etc… seriam muito mais sustentáveis”.

Em segundo lugar, destaca o “carácter demasiado familiar de muitos negócios. Como refere são estruturas pequenas, que não funcionam em rede. Aliás, das entrevistas que realizei há uns anos aos responsáveis hoteleiros, apercebi-me de que parece que não gostam que o vizinho tenha sucesso, parecendo existir uma rivalidade que vai para além da simples concorrência”, reflete.

A investigadora refere ainda as ideias feitas sobre a cidade. “A aparência/fama de que em Fátima se ganha muito dinheiro facilmente, pode induzir certas pessoas sem a adequada  formação e até capacidade de investimento a lançarem os seus negócios, sem estudos de mercado, sem diferenciação do produto, sem preocupação de qualidade, etc”.

“Também é certo que uma grande parte dos empregos gerados são relativamente mal remunerados e com baixas qualificações profissionais, no turismo como noutros setores”, salienta.

Alexandre Marto Pereira, responsável do maior grupo de hotéis da cidade, o Fatima Hotels (inclui oito hotéis), e vice-presidente da ACISO – Associação Empresarial Ourém Fátima tem sido o porta-voz dos hoteleiros, promovendo a cidade a nível internacional e, por tal, acompanhando os diversos estudos de mercado realizados.

Lojas de artigos chegam a ter meia dúzia de funcionários, alguns hotéis atingem perto da meia centena na época alta. Emprego existe, mas ordenados são geralmente baixos Foto: mediotejo.net

Em resposta ao mediotejo.net, o responsável começou por frisar que não concordava com a abordagem. “Vários hotéis estão a organizar-se, o número de quatro estrelas são cada vez mais”, destacou, mencionando o caso do Hotel Lux, entre outros que têm vindo a modernizar-se e a obter uma maior classificação hoteleira (não há nenhum cinco estrelas em Fátima).
O responsável admitiu porém que dos 6 milhões de turistas, efetivamente só 10% dorme em Fátima. “Fátima é satelizado em relação a Lisboa, que é a capital”, argumentou, e cujos hoteleiros não promovem muito a cidade religiosa. “Por isso a nossa aposta (ACISO) no video promocional «Fátima by night», para estimular as pessoas a ficarem uma noite” e focalizado no turista que não visita Fátima por motivos religiosos. “É o convite de uma descoberta à espiritualidade”, propõe. A estrutura de apoio à afluência existe, nem sempre há é a capacidade de vender o seu produto, constatou.
Com um mestrado em Economia pela Universidade de Évora, com o título “Turismo Religioso: Fátima no contexto dos santuários marianos europeus”, Joana Prazeres é de Fátima e aceitou dar a sua perspetiva. Centrando-se sobretudo no comércio de artigos religiosos, partilhou com o mediotejo.net a reflexão que realizou enquanto recolhia informação para o seu trabalho.
“Sendo natural de Fátima conheço razoavelmente bem a realidade existente e a sensibilidade da população”, referiu. “A cidade de Fátima tem conhecido ao longo do tempo um constante crescimento de visitantes recebendo atualmente cerca de 6,5/7 milhões de visitantes/ano. De registar, no entanto, que este aumento surge a par de um aumento que igualmente se verifica nas viagens internacionais. Isto é, com o desenvolvimento das acessibilidades e o encurtar das distâncias e a gradual descida de custos das mesmas viagens, as pessoas sentem-se mais disponíveis e incentivadas para viajar e conhecer novos lugares”.
Salienta assim que “o afluxo de pessoas a Fátima não é fruto de um acontecimento inesperado e repentino. Ele deve ser encarado num contexto de crescimento global das viagens . Cada vez viajam mais pessoas em todo o mundo e o turismo religioso não está alheio a esse crescimento, e assim sendo, será natural que os números continuem a seguir essa tendência de crescimento”.
Joana Prazeres destaca também o facto de nem todos os turistas procurarem o comércio da cidade. “As razões deste facto podem ser múltiplas: ou porque não lhes interessa, ou porque não têm como objectivo fazer compras ou simplesmente por constrangimentos de tempo. Desta forma podemos dizer que o turismo religioso em Fátima se dilui ao longo do ano e não sendo todos potenciais clientes pelas razões apresentadas, torna-se menos evidente a necessidade, se é que existe, de grandes estabelecimentos comerciais”, reflete.
“Convém talvez dizer que Fátima reúne alguns exemplos de iniciativa empresarial de maior envergadura como é disso exemplo os hotéis, além daquela que é considerada uma das maiores paramentarias da Europa, entre outras”, sublinha. “Neste último caso e considerando que neste espaço também é oferecida uma diversidade de produtos semelhantes aos que se encontram no pequeno comércio espalhado pela cidade e junto ao santuário, é interessante verificar que não parece registar um volume de clientes significativamente maior. Ou seja, aparentemente a dimensão do negócio não condiciona o afluxo de clientes”.”O que por vezes também acontece com as excursões é o seu desvio por parte do guia para lugares que na maioria se encontram mais distanciados do centro da cidade-santuário”, constata.

Famosos Pastéis de Fátima mantêm a sua localização no interior do Espaço Fatimae. Foto: mediotejo.net

Joana Prazeres termina por constatar que as lojas mais pequenas, as Pracetas de Santo António e São José, pertencem ao Santuário de Fátima. “Nelas  trabalham seguramente mais de 80 pessoas que pagando uma renda simbólica encontraram aqui uma oportunidade de negócio. Aqueles terrenos na envolvência do Santuário foram cedidos pelos seus proprietários ao próprio Santuário e em contrapartida este cedeu as lojas mediante o pagamento dessa renda”, recorda.
“Uma grande superfície, decerto viria a por termo à vida profissional de boa parte dos empresários que já têm alguma idade e dificultar a de tantos outros que já não têm facilidade em encontrar trabalho mesmo pela idade e/ou qualificações”, conclui.
A estudante de Economia constata assim que “há objectivamente interesse na manutenção do comércio mais tradicional considerando que este assegura a sobrevivência de muitas famílias. De sublinhar que este comércio de pequena dimensão também representa a oportunidade de trabalho para as gerações mais novas que no concelho não encontram respostas de trabalho eficazes”.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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