Quarta-feira, Dezembro 8, 2021

Especial Fátima | Arquivo 1917 (III): Por Leiria e Alcobaça, entre a dúvida e a negação

No momento em que se celebra o centenário das Aparições na Cova da Iria, o mediotejo.net recolheu notícias publicadas sobre o caso durante o ano de 1917. Uma pequena homenagem à imprensa escrita, em particular à regional, que vivia então a sua época de ouro e que se tornou fundamental para perceber os factos, as opiniões e as impressões de então sobre a história fantástica que narravam três crianças de Fátima.

Neste último artigo desta série sobre os Arquivos de 1917 vamos recordar algumas notícias publicadas na imprensa regional mais próxima a Fátima, nomeadamente a do concelho limítrofe de Leiria. Nestas notícias e crónicas vemos o ceticismo de quem escreve, mas também a crítica mais feroz dos que negam veementemente que algo de miraculoso se esteja a passar na Cova da Iria.

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“O Mensageiro”, Leiria, edição de 22 de agosto de 1917

APARIÇÃO MIRACULOSA?

São já bastantes conhecidos os factos, extraordinários (sobre qualquer aspecto que se encarem) que ha mezes se véem dando na freguezia da Fátima, concelho de Vila Nova de Ourém, a poucas legoas ao sul de Leiria e apenas a cêrca de quatro quilómetros do extremo sul do nosso concelho e da nossa diocese de Coimbra.

Não devemos emitir o nosso juizo nem anteciparmo-nos á auctoridade competente. No entanto a título de informação e para satisfazer a legítima curiosidade nos leitores d’ O Mensageiro que habitarem longe daqui, alguns dos quais nos teem pedido particularmente informações, aí vai uma carta cujo original nos veio ter à mão por obsequio dum amigo. Publicamol-a na integra apenas com uma pequena alteração na pontuação e ortografia de algumas palavras. Segue a carta que cada um interpretará como lhe parecer:

“Famalicão, 14-8-917

Amigo e Sr. Francisco da Silva Coelho: Amigo e sr. Coelho, em primeiro logar muito estimo que esta minha carta o vá encontrar gozando de perfeita saude em companhia da srª Gloria e de toda a mais família, que eu e toda a minha família ficamos de perfeita saude, graças a Deus para sempre.

Se. Coelho, vou contar-lhe e pedir-lhe para dar esta carta a lêr á srª Gloria e ás manas dela, que tanto me pediram para lhe fazer a explicação como se passou no dia 13 na Fátima. Pois vou fazer-lhe uma explicação muito séria e verdadeira.

Vi lá um altar sôbre uma azinheira e muita gente a rezar: confórme iam chegando assim iam rezando sem nunca cessarem de rezar. Eu nunca vi tanta gente junta nem tanto carro dos lados de Torres Novas e Ourem. Chegavam aos quinze e vinte carros juntos sem que pudessem passar uns pelos outros.

Á hora em que as creanças estavam para sair de casa dos paes acompanhadas de alguns padres que as tinham estado a interrogar, aparece lhes de repente um carro fechado á porta com o administrador dentro e um tal sr. que dizem ser carbonario. Os dois pegam nas creanças, dizendo: meninas, andem, vamos lá, que já são horas, e as creanças dispensaram o favôr dizendo: nós vâmos a pé na companhia desta gente. E dizem os tais srs.: não, não, meninas; hoje é dia de festa, gosto que vão de carro.

Nisto pegam nas creanças, metem.nas no carro, dão meia volta aos cavalos e fogem com as creanças para Ourem. O povo corre ao local com a noticia, todo o povo chorava e seguiu logo um automovel atraz do carro para vêr se conseguia trazer as creanças mas não conseguiu.

Bem; o povo que lá tinha ido o mez passado animou-o de novo, dizendo: rezem, rezem e estejam com atenção que já não faltam cinco minutos para a hora do mez passado.

O povo fez silencio. O tempo era claro. Pois de repente se formou um relampago do céu sôbre o altar e fez de roda do altar um redemoinho que cobriu mais de trezentas pessôas de terra. Tudo fugia e caía e chorava. A terra arruou mas muito forte, as pedras mudaram de côr e então começa muita gente a gritar: olhem, olhem, olhem, a Nossa Senhora ali vem, vejam, com um fato branco! Os que a viram na terra fôram muitos, mas os que a viram no céu fôram muito mais; e mais de trez mil pessôas não viram mais porque quando a terra arruou e as pedras mudaram de côr, tudo que estava mais perto, uns caíram outros agastaram-se e eu também fiquei tão atrapalhado que, de tanto que queria vêr, vi pouco. Mas o que eu, e todos os que ficaram em soluços, ainda vimos muito bem foi arcos e grinaldas no céu ao lado sul, com flôres de todas as cores. Isto toda a gente viu.

E também as flôres que enfeitavam o altar faziam admirar toda a gente porque fazia calôr e elas cada vez mais lindas, e não estavam em vasos.

Se o povo tinha muita fá com muito mais ficou. Se o administrador prendeu as creanças nem por isso Nossa Senhora deixou de aparecer. Não falou, naturalmente por não ter quem lhe respondesse.

Depois de todo o povo vêr e tornar a ganhar siria diziam uns para os outros: vamos combinar com esta gente toda e vamos para Ourem fazer carne fresca. Visto que nos roubaram as nossas visinhas nós vamos lá buscal-as. Não sei mais nada, mas no dia 13 lá volto se Deus quizer.

A hora que apareceu foi á meia depois do meio dia.

Sr Coelho: também lhe peço por favor que dê esta carta a lêr ao meu bom amigo Alexandre Marques para ele lêr deante da família dele, e mesmo póde ser lida por toda a gente que isto que eu aqui digo é só a verdade e verdades destas pódem-se espalhar por toda a parte.

Muitos cumprimentos para com todos os meus amigos. Não lhes cito os nomes para não ser mais maçador. Sou de todos muito amigo, obrigado e respeitador.

João Pereira Novo”

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“Semana Alcobacense”, Alcobaça, edição de 16 de setembro de 1917

ERA UMA VEZ UM “MILAGRE”…

Afinal, aquilo do milagre da Fátima é negócio que deu em droga. Ao que parece, embora nós não saibamos como nem a quem, Nossa Senhora, depois da sua primeira aparição lá para aquelas paragens, prometeu continuar a avistar-se ali com os seus devotos, indicando para esse fim o dia 13 de cada mez. O caso foi girando facilmente de bôca em bôca, havendo até jornais que se prestaram a dar-lhe curso, de modo que na passada quinta-feira, em que devia de ter lugar a primeira das prometidas visitas, milhares de pessoas abandonaram as suas terras e as suas casas para se irem até á Fátima ver Nossa Senhora, entreter com ela dois dedos de conversa e dar-lhe quem sabe se até o seu aperto de mão…

Mas, aproxima-se a 1 hora da tarde, que era para quando o espectaculo estava anunciado, dão as duas, passam as tres, decorre emfim a tarde inteira, e estais a ver a cara de toda aquela gente, ao lembrarem-se do dinheiro gasto e da estopada metida no corpo para, afinal, (Nossa Senhora esteve lá para se sujeitar ao sol em brasa que nesse dia fez!) caírem no mais desaforado conto do vigario que para aí tem sido até agora inventado.

Foi muito bem feito!

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“O Marinhense”, Marinha Grande, edição de 22 de setembro de 1917

MIRACULOSO!

Os tempos estão muito difíceis, caminhando as gentes com meticuloso cuidado pela ingreme e estropiada estrada da vida.

As étapes são dolorosissimas. A falta de dinheiro é a mais sensível. O preço dos generos necessarios á subsistencia, atingiram o cumulo. Tudo se lamenta, todos se arrepelam.

Como atravessar a tremenda crise?

Como ultrapassar a transcendental carestia de tudo quanto é preciso?

Problema intrincado, para o qual ninguem vê solução.

Ha carencia de pão, de azeite, de bacalhau, de milho, de trigo, de batatas, de hortaliças, etc.

As fazendas pagam-se fabulosamente. O ouro está a 90 centavos o grama, os brilhantes tiveram uma extraordinaria subida, os comboios elevaram mais 40 por cento nos preços das suas passagens. As hospedarias levam couro e cabelo, os carros custam os olhos da cara!!

Chora-se, lamenta-se, aflige-se!

Mas sobre tão crudelissima situação, manifesta-se a crença arreigada do povo, que concorre a todos os divertimentos,  – os mais caros, – não olhando a despezas e esquecendo por completo o dia de amanhã. E assim, se ha uma tourada, a praça enche-se; se ha uma festa, os comboios trasbordam, as hospedarias ficam sem alojamentos, o ouro peza aos colos das mulheres e enforca-lhes os dedos, os brilhantes irradiam e o dinheiro…corre, vôa!!

E, como tristezas não pagam dívidas, leve o diabo paixões e mais quem com elas engorda!

*

Num sítio, proximo de Fatima, lá para os lados de Vila Nova de Ourem, do nosso distrito, deu-se um mirifico caso: Uma santa, coberta de flores, revestida duma tunica de variegadas córes, de seda brilhantíssima, e envolta numa aureola de luz, apareceu a uns pastores. Desceu das regiões etereas, não para predizer o final da guerra, nem para desvendar o numero em que cahiria a taluda da lotaria.Veio apenas para censurar a descrença, os pecados cometidos pelos mortais, que já não concorrem em tão grande numero a encher os cofres das egrejas, a alimentar os santissimos jesuitas, a dar vida ás irmãsinhas da caridade, etc, etc. E, assim, todos os dias 13, – data fatidica – volta ao tal logar, a estender estas censuras, ouvidas por muita gente.

E ainda na ultima quinta-feira calculou-se em 20 000 o numero de pessoas que foram a Fatima vêr a divinal virgem!!

Em Leiria, em Thomar, na Barquinha, Golegã, Torres Novas, Vila Nova de Ourem, etc., deixou de haver automoveis, carros e carroças, porque tudo tinha ido redopiando para o milagroso bocado onde a virginal aparição dava a honra de transmitir a divinal voz até aos fieis crentes!!

Quere dizer que os santissimos padres devem estar satisfeitos com a prova irrefutavel de que a sua religião é inquebrantavel e que apezar de estarmos num paiz de herejes – que horror! – a igreja ainda tem supremacia!

Logo estão bem com Deus, e devem também estar bem com a Republica, que os deixa continuar a exercer a dedicada exploração em seu beatifico proveito.

20:000 pessoas que foram assistir ao milagre da burla-aparição!

E tanta falta de dinheiro para acudir á fome, em perspectiva!

O azeite está a mais de 7 tostões o litro, o bacalhau a 8 tostões o kilo, o milho a 18 tostões o alqueire, e as festas e arraiaes são a granel. Para o azeite, para o bacalhau, para o milho e para o mais necessario á vida, não ha meios!

Para as festas, para os milagres das fantasiosas aparições, para locupletar as algibeiras dos representantes de Deus na terra, vae-se buscar dinheiro ás profundezas do inferno.

Pede-se emprestado, recorre-se ao prégo, vende-se o pão que se ha de comer, mas não se falta á chuchadeira.

Pois! Quando vier a morte a caminho a seguir é direto ao ceu e naquele dulcificante recinto premeiam.se as inclitas virtudes de tão grandes cristãos!!

*

Se não se olhar com o verdadeiro amor que se deve á República para estes casos estupendos; se não se puzerem em pratica as orações que evidenceiem o que essas tôrpes especulações significam; se não se tratar de ilustrar o povo, dando-lhe a principal noção de que o tempo dos milagres já lá vae, – d’aqui a pouco estaremos peiores do que no tempo da monarquia, porque o abuso da religião catolica está em voga duma fórma extraordinaria.

É preciso fazer vêr ao povo que o ceu, o inferno, o terreno das boas e más acções é o mundo. Que santas não existem e os milagres são cantigas.

É preciso arreigar nos espiritos embrutecidos a luz purissima da Verdade.

É necessário fazer realçar o dogma da Vida, da Existencia, da Materia, e que quandoo coração deixa de bater, tudo terminou. A terra é nossa mãe, a terra é quem nos consome. Depois da morte, não ha nada.

É urgente pôr cobro á especulação infame, castigando quem não tem pejo de embaír os ignorantes.

A aparição de Fatima é uma mentira que tem por objecto extorquir as magras quantias que esses ignorantes poupam com prejuízo de saude.

Abaixo, pois, com tal exploração, impropria do seculo que atravessamos.

*

A proposito de milagres:

Uma senhora da Marinha Grande que fôra convidada para abrilhantar com a sua voz uma festa de igreja, que se realisou no domingo, quando retirava do côro e depois de ter comungado, sofreu o milagre de cair pela escada que lhe dava acesso!

Nem a sua fé, nem o facto de ter recebido a sagrada hostia, a livrou do trambulhão!!!

Miraculoso!, supinamente miraculoso!.

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“Jornal de Leiria”, Leiria, edição de 14 de outubro de 1917

AINDA A SENHORA DE FÁTIMA

Apareceram aí à venda dois grupos perfeitamente diferentes das creancinhas a quem a Virgem se dignou aparecer no escalvado terreno da Fátima.

Desejando nós possuir uma lembrançasinha dessas milagrosas aparições que teem arrastado a esta cidade centenas de…bacôcos, pediamos a quem o podesse fazer com segurança e finesa de nos indicar qual é o verdadeiro grupo e qual o apocrifo.

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“Semana Alcobacense”, Alcobaça, edição de 14 de outubro de 1917

A FITA DE FATIMA – NOVA EXIBIÇÃO

Andam de mal a peor as gentes das romarias á Fatima. No dia 13 de setembro, um sol de rachar e, a respeito de Nossa Senhora, nicles. Ontem, o mesmo insucesso, já se vê, quanto á aparição da santa, e… mais uma casaca d’agua de se lhe tirar o chapéu.

Eles bem profiam na faina de fazer crer ao mundo que isto se transformou num verdadeiro paiz de hotentotes. Mas como consegui-lo, se até o firmamento, condoído de tanta pobreza de espírito, tenta furtar-se á tristeza dos seus espectaculos, fustigando-os com as suas intemperies mais desabridas?!

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“O Mensageiro”, Leiria, edição de 18 de outubro de 1917

AS APARIÇÕES DE FÁTIMA

Nada mais podemos dizer sôbre o que se passou na Fátima no dia 13 do corrente, além do que se encontra na carta que abaixo publicamos.

As tres creanças, Lucia, de 10 anos, Francisco de 9 e Jacinta de 7, os videntes, não podiam, rudes e ignorantes, mistificar por tal fórma as dezenas de milahres de assistentes; e ainda se este facto se désse ficaria o fenomeno solar, que a sciencia não previu, e cremos não explicará, demonstrando que no caso da Fatima ha alguma cousa de extraordinario que não compreendemos.

Esperamos que a Igreja se manifeste sôbre este caso e não desejando seguir as pisadas do cura de Lourdes nas visões de Bernadete, dizemos que só um poder sobrenatural póde causar o que milhares de pessôas presencearam na Fátima no dia 13 do corrente.

Segue a carta que recebemos:

Sr. Redator:

Várias pessôas que me conhecem, que sabem que não sou jasuita nem fanatico da religião, me teem perguntado o que vi e o que se passou na Fatima.

Como também fiz parte do numero dos estupidos que lá fôram, como algumas pessôas dizem, a quem não levo nada pelo elogio, apenas o devolvo á procedencia, desejo em poucas palavras explicar o que presenciei:

De vespera fui ficar a cada do meu amigo e correspondente do Mensageiro Antonio Pereira das Neves, na Quinta da Sardinha, onde fui tratado por este nosso amigo e sua exma esposa, com todos os carinhos de que não sou digno. Ás 4 horas puz pés a caminho da Fátima afim de assistir á aparição milagrosa que as pequenas diziam ser a ultima vez.

Atravessando a serra tive ocasião de vêr a grande peregrinação de devotos que de todos os lados faziam caminho para mais depressa chegarem ao local indicado. O aspcto é sublime, mulher com sacas á cabeça, os seus trages garridos e domingueiros, a pé, a cavalo, etc..

Perguntava d’onde eram, e… ao ouvir pronunciar as suas terras admirava-me como aquelas almas vinham de tão longe para presenciar o que duas creancinhas afiançavam!…

Mas que lindo era o serpentear de tantas creaturas pela serra! Sublime! Isto só visto para se poder apreciar os efeitos de tão grande romaria.

Depois de atravessar a Loureira e a Moita, diviso a uns 200 metros a estrada que segue para Vila Nova de Ourem passando pelo Reguengo do Fetal e outras povoações. Os carros já ali se encontravam em grande número, carroças, caléches, automoveis, bicicletas, e toda a qualidade e feitio de veículos, alguns originaes que transportavam crentes e não crentes do que se estava para presenciar.

A chuva começa caindo, engrossando pouco a pouco; os guarda-chuvas abriram-se e em pouco tempo, açoitada pelo vento, enxarca as pernas dos que se tapavam com os chapeus e punha em verdadeiros pintos aqueles que se não tinham prevenido contra este contra-tempo. Todos olhavam para o céu a vêr se haveria esperança do temporal passar, mas cada vez mais fechada a cerração. Ninguém arredou pé de onde estava, ouvindo-se sempre vários canticos à Virgem, e o movimento dos peregrinos cada vez mais!

Era uma hora (oficial) e tudo estava ancioso pela chegada das meninas. Eu estava perto de uma enorme azinheira teritando com frio e enxarcadinho até aos ossos. Nisto, não sei como, levanta-se uma lebre que faz várias evoluções fugindo ás pessoas que a perseguiam, sucumbindo a uma paulada, não chegando um pêlo a cada um que a seguia!

Olho em frente e vejo uma enorme bicha de gente que acompanhava as meninas para junto da pequena azinheira, onde elas dizem lhes apareceu N. Senhora, azinheira de que apenas existe um fragmento do tronco de 10 centímetros de fóra da terra, pois que a teem pelado para recordação.

Diz uma das meninas: Já lá está Nossa Senhora! Fechem os chapéus e resem…

A chuva pára, as nuvens correm com grande velocidade e o Sol aparece brilhante, espalhando seus luminosos raios sôbre a assistencia.

Não sei como, vejo todos tirarem os seus chapeus e ajoelharem. Eram 14 horas e 10 minutos oficiaes.

Oiço várias preces, suplicas á Virgem e Mãe Santíssima e vejo os rôstos da enorme assistencia de côr de rosa carregado, depois transformou-se para um anilado e em seguida para um amarelo cadaverico!!

Não sei o que isto significava, nem quiz fitar o Sol para não atribuir a ilusão optica.

Mas na minha frente estava um senhora com um chapeu de feltro branco, que me servia de espelho do que se passava no rei dos astros. Isto durou uns 20 minutos. Ouvia a meu lado chóros, suplicas varias e dizer que o Sol andava de roda que parecia uma roda de fogo de vista!

Pouco depois as meninas disseram o que Nossa Senhora lhes tinha dito:

 – A guerra acaba por estes dias; brevemente os nossos soldados regressam a Portugal; os homens devem ser bons uns para os outros; rezem o terço e façam uma capela pois que sou a Senhora do Rosário.

As pequenas são levadas em triunfo por entre a multidão, regressando a casa de seus paes, e a assistencia começa retirando para as suas terras, dando por bem empregado o tempo que estiveram a pé firme apanhando toda a chuva e o vento da serra!

E eu fiquei com cara de palerma a olhar para tudo isto sem saber explicar tão imponente fenomeno.

Se ámanhã se repetisse, eu lá estava caído novamente, pois que não estou arrependido de ter assistido ao que nunca tinha presenciado.

O que é para me fazer admirar é que estando eu todo molhado, momentos antes, reparei que já estava enxuto! Seria milagre? não creio. O que creio é que a mais pessôas sucedeu o mesmo.

Tanto milhar de gente junta e tanto respeito, nunca vi, pois que não foi preciso polícia, guarda republicana, nem força militar para conter a ordem! Seria milagre? não sei.

Tanto carro, trens, carroças, automoveis, bicicletas, etc. sem se dar um desastre! Seria milagre? não sei.

O que sei é que o caso deu-se e que de todas as paragens mais longínquas, ali afluiu gente trazida pelos ditos de duas creancinhas e não a reclames, foguetes ou musicas!

Ás 16 horas poucas pessôas ali se encontravam e eu dirigi-me ao logar da Moita, aonde fui comer alguma coisa na companhia do meu amigo Antonio Pereira das Neves e família, pois que ainda me encontrava em jejum e não tinha fome!

Voltei á Quinta da Sardinha onde fiz as minhas despedidas e saltando para cima da biciclete sigo o caminho de Leiria.

Agora pergunto eu. O que se passou de extraordinario nos astros que os astronomos não o anunciaram? Então duas pastorinhas levam tantos milhares de pessôas a um ermo só para se vêr o Sol? Quem fez a propaganda deste fenomeno? Misterio.

Ora aqui está, o que vi e o que se passou. Quem não acreditar eu não levo nada por isso.

De V. etc.

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“A Defesa”, Pombal, edição de 27 de outubro de 1917

MILAGRE

Na freguesia de Fátima, do nosso visinho concelho de Ourem, uma pastorita de 10 anos afirmou ha meses ter visto e falado com Nossa Senhora, que via sobre uma azinheira isolada no meio da charneca.

Como a criança afirmasse que a aparição e a cavaqueira se repetia nos dias 13 de cada mês, no passado sabado mais de 40.000 pessoas concorreram á dita charneca para vêr o milagre.

Afinal, os romeiros só viram o sol que por muito nele se afirmarem até a alguns pareceu que bailára e deles se aproximára!

A Nossa Senhora sò se dignou aparecer á pastorita, dizendo-lhe, sem que mais pessoa alguma ouvisse, que a guerra ia terminar e os nossos soldados voltariam.

Ora para isto não era preciso ter-se incomodado Nossa Senhora a andar por cima de azinheiras da Fátima.

A guerra ha-de acabar e os nossos soldados, a não ser os que teem morrido e morrem ainda, não ficarão em França.

O que pedimos á pastorita é que no dia 13 do mês que vem pergunte a Nossa Senhora quando a guerra acaba para nosso descanço.

Esperamos pela resposta e que ela seja no sentido de em muito breve tempo nos vêrmos livres de tão horroroso flagelo, tornando-se a profecia numa realidade, são os nossos votos.

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“O Defensor”, Caldas da Rainha, edição de 21 de outubro de 1917

SANTA FÁTIMA & Cª

São infelizmente conhecidos, de sobejo, os pormenores da comica aparição da deles Senhora a tres crianças, a quem o veneno dos de Loyola proporciona esse aparecimento no dia 13 de cada mês.

Não merecendo comentarios tal fantochada, é, porém, digno de comentar-se a fórma porque tal aparição é recebida na opinião dos que sabem perfeitamente que é uma exploração desta naturesa, e dos credulos de oficio, no que acreditam, não por acreditar, mas também para espalhar a tous les vents uma disparatada mas rendosa aparição que não passa dum boato.

E, não resta duvida que o autor ou autora dos celebres postais, mandando-os escrever 8 vezes, ou sejam oito postais distribuidos por outras tantas alminhas, a oração á Virgem para terminar a guerra, esse ente astuto não se limita a pedir um postal mas sim oito, para que semelhante chantage tenho o maior curso possível a favor do fanatismo que de tantos males nos tem enfermado.

Assim sucede com a tal aparição que, conhecida no estrangeiro, dará margem à mais justa sensura, visto que em pleno seculo XX, num país que se diz civilisado e felizmente na grande maioria ilustrado, acorram pressurosas milhares de pessôas ao local onde 3 laponios de tenra idade afirmam uma coisa que não existe! Mas talvez insu[fl]adas pelo padre Benevenuto, o homem da gruta d Lourdes, concelho de Torres Novas…

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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