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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

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Especial Abrantes | Guia para saborear o lado mais doce da cidade

Não há melhor forma de conhecer um território do que um roteiro que nos leve a visitar os cantos e recantos, património histórico, ruas e sítios emblemáticos e a apreciar vistas de tirar o fôlego. Também o contacto com as suas gentes fará a diferença. Mas há outras formas de surpreender um visitante, contando a história dos lugares… pelo paladar! Com os sabores da gastronomia típica, feita a partir dos produtos endógenos, e que facilmente se complementa com uma pitada de açúcar, e dezenas de ovos, e quem sabe farinha, manteiga, leite… Em tempo de festa, convidamo-lo a “perder-se” no lado mais doce da cidade, onde a tão afamada Palha não pode ficar de fora.

Falar de Abrantes e tentar situá-la no mapa numa conversa com pessoas oriundas de outras partes do país, é receber de retorno expressões como “Ahh! Já sei! Até têm um doce que é a Palha de Abrantes!” ou “Pois, já provei aquele doce com fios de ovos, não é?”.

Tudo verdade. E, na prática, não será de todo mau deixar conotar a cidade a tanta doçura. Mas há que salientar que Abrantes não tem só a Palha na carta de doçaria tradicional. A base conventual, que marca toda a doçaria tradicional portuguesa, demarca-se pelo uso dos ovos (maioritariamente as gemas) e do açúcar como ingredientes-chave. Como tal, muito mais há para provar. Doces que só agradam ao paladar se houver sucesso na obtenção do ponto de açúcar.

Por isso, e lembrando um pouco da história da cidade desde o século XVI, há que recordar a existência de conventos femininos no concelho, caso do extinto Convento de Nossa Senhora da Graça [pelo decretado na Reforma Geral Eclesiástica, em 1891, encerrou com a morte da última freira, irmã Maria Angélica Godinho], onde as claras dos ovos seriam utilizadas para engomar as batinas e vestes eclesiásticas.

Sobrando as gemas, em Abrantes e por todo o país, lá foram surgindo as receitas conventuais pelas mãos das freiras, sempre baseadas em ovos moles e que ganharam nomes sugestivos, como os Queijinhos do Céu, a Barriga de Freira, as Fatias de Tomar e os Beija-me Depressa, o Toucinho do Céu, a Lampreia de Ovos, as Orelhas de Abade… Bom. Paramos por aqui, por consideração ao caro leitor, que por esta altura já deve ter percebido a ideia. E como o artigo ainda vai a meio, não queremos que enjoe.

Tigeladas, algo muito comum no concelho e cuja receita tradicional justifica o nome: feitas em tigelas de barro próprias para a ida ao forno a lenha. Mas hoje, ganham os fornos industriais. Foto: mediotejo.net

Na verdade, em território abrantino a Palha de Abrantes surge na fileira juntamente com as Tigeladas, os Mulatos, as Broas Fervidas de mel e nozes, as Castanhas doces/de ovos e as Limas.

De qualquer modo, são estes os ex-libris da identidade doceira de Abrantes, mas tendo em conta a região do Médio Tejo, verifica-se a existência dos mesmos produtos em territórios vizinhos, caso das Tigeladas e Broas de Sardoal, mas com as suas diferenças, quer no modo de confeção, quer na própria receita onde, no que toca ao mundo da culinária, cada um terá sempre o seu segredo.

Acontece que, além dos estabelecimentos comerciais certificados no concelho, existem muitas doceiras que, se verificarmos de aldeia em aldeia, encontraremos as que saberão de cor a receita de algumas destas iguarias na sua conceção tradicionalista.

Nos dias que correm, e os tempos são outros, há quem já tome iniciativa para dar novo balanço à doçaria, dando-lhe um toque gourmet, reinventando formatos e reformulando a receita com ligeiras variações que possam conquistar o consumidor além do impacto visual. Mais do que nunca surgem novos hábitos alimentares e os cuidados na dieta de quotidiano exigem ponderação no consumo de açúcar e demais produtos calóricos, e aqui, o futuro poderá passar por esta reinvenção por via da inovação das receitas tradicionais, introduzindo ou substituindo ingredientes.

Gelado Palha de Abrantes, uma receita trabalhada e registada pelo chef Fernando Correia desde 2016, e disponível na mítica pastelaria de Rossio ao Sul do Tejo desde maio de 2018. Foto: mediotejo.net

É o caso do Gelado, do Quindim, do Dacquoise, do Bolo Rei e do Fardo de… Palha de Abrantes. Sempre com um toque de amêndoa, canela, bolacha ou crocante, pelas mãos do chef Fernando Correia, que em 2017 iniciou esta experiência, que hoje já faz parte da oferta diária da sua pastelaria, em Rossio ao Sul do Tejo.

Deste modo, quem até agora não conseguira provar aquele dito ícone alaranjado de textura forte, composto por gema de ovo e amêndoa, coberto com fios de ovos levados a tostar li­gei­ra­mente ao forno, que é símbolo da cidade, poderá degustar uma destas novidades e descobrir que afinal o consegue apreciar sem ser na sua forma original.

O Gelado Palha de Abrantes, composto por gelado de baunilha caseiro, servido com uma bolacha na base, regado com doce de ovos e coberto com os fios, dá frescura e leveza ao peso da receita conventual, cortando o excesso de doce e ativando a gula.

Não ficou satisfeito com estas primeiras opções? Não tem problema, pois a imaginação e a História cruzam-se, dando lugar ao Fardo de Palha de Abrantes, remetendo para a tradição popular. Dizem os antigos que o doce foi assim batizado por fazer lembrar em tempos de navegação fluvial e à passagem no Tejo, na zona de Abrantes, dos carregamentos de palha para a capital, que sempre deixavam o rio coberto de fios alaranjados a fazer lembrar os fios de ovos do doce.

O Fardo de Palha de Abrantes é um doce retangular e composto pela base do Dacquoise, uma especialidade que Fernando Correia não descura na hora de novas criações. Tem várias camadas de massa fina de amêndoa, sendo a cobertura de Palha de Abrantes. Foto: mediotejo.net

O roteiro já vai longo e com certeza lhe fez crescer água na boca. Mas julgamos que foi o suficiente para o guiar por estes pequenos prazeres da doçaria abrantina, que além de ser promovida na Feira de Doçaria Tradicional, mercados e outras iniciativas anuais ou pontuais, está presente durante todo o ano nas montras da cidade e também noutros  pontos do concelho, mais ou menos artesanais.

Enquanto se decide por onde começar, espreite as restantes sugestões na fotogaleria abaixo.

Por fim, resta-nos desejar-lhe… bom apetite!

 

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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