Sexta-feira, Janeiro 21, 2022

“Escumadeira”, por Armando Fernandes

Instalado entre almofadas, no escano da cozinha, três grandes potes de ferro rechinavam carnes de porco provenientes do tradicional festejo da matança, observava deleitado o labor da minha avó materna, da minha madrinha e duas primas, todas afogueadas, todas risonhas. Era dia de festa.

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Muitos anos mais tarde li vários textos referentes à matança dos cevados, admirei o saboroso estilo de Aquilino Ribeiro, Azinhal Abelho e Agustina Bessa-Luís, no entanto, o encanto, o sortilégio, o transcendente, sempre ancorou na expressividade da Festa/festejada na hoje minha casa sita numa vetusta aldeia do concelho de Vinhais, Lagarelhos, assim é conhecida desde os finais do século XVII.

Ora, na contemplação da azáfama os meus olhos perderam-se a observar os movimentos de duas escumadeiras. Uma tirava os loiros rojões para ampla travessa de loiça cavalinho, a outra executava a mesma tarefa vertendo arroz doce cremoso noutra travessa e malguinhas pequenas de idêntico desenho.

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As escumadeiras existem de vários materiais, destinadas a legumes, carnes, caldos, molhos e doçaria líquida pertencem ao leque de utensílios de uma qualquer cozinha tradicional e cujas funcionalidades sejam exercitadas frequentemente.

Escumadeiras sem grande exercício significam casa onde se come quase sempre desprovida de gosto e bom senso culinário, imperando a uniformidade «burocrática» da elaboração de todos os géneros de comida. Acreditem!.

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Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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