Entroncamento | Um Natal sem casa nem meias

A Consoada e o almoço de Natal estão associados a momentos plenos em família e ao aconchego do lar. A mesa quer-se farta, as prendas devem agradar e relembram-se Natais passados. Para João Paulo Vicente não é assim. Vive na rua há mais de 10 anos, dois dos quais no Entroncamento, e da quadra festiva apenas destaca mais moedas por parte dos transeuntes. Não terá meias penduradas na lareira porque lareira implica ter casa e prefere usar chinelos de praia durante o ano inteiro.

A figura sorridente de barba densa e vestida com o tom vermelho patenteado para os anúncios publicitários da Coca-Cola tem feito parte dos nossos dias ao longo do último mês. Enche-nos os écrans da televisão e anda pendurada pelas varandas do país. Em plena época natalícia no Entroncamento, perto da Praça Salgueiro Maia, cruzámo-nos com um homem cuja barba geraria inveja a muitos Pais-Natal, mas a sua história é em tudo diferente da do abastado São Nicolau, que distribuía a riqueza pelos pobres e é retratado perto da lareira.

João Paulo Vicente passou os últimos 13 Natais na rua. Usa calças de ganga gastas e um casaco polar cinzento esbatido. A barba esconde-lhe o rosto de 51 anos e quando lhe perguntamos porque passa ali os dias responde-nos “eu não tenho história nenhuma, estou à espera que o meu advogado faça a escritura”. A resposta surpreende-nos e decidimos aprofundar a história, que afinal existe, começando por pedir para tirar fotografias. Conseguimos uma, com muito custo.

Conta-nos que é, há três dias, o único indigente do Entroncamento. O outro, o “Fernando” que “de volta e meia ia a Santarém fazer a barba”, faleceu. A vida que hoje leva começou mais a sul, em Lagos, depois de ter passado 13 anos em Inglaterra e dois anos na Bélgica a “servir à mesa”. Deixou o emprego quando soube da venda da propriedade dos pais a “um casal alemão” e fez-se ao caminho.

A propriedade, diz, situa-se em Pero Farinha (Martinchel, Abrantes), onde a mãe, Maria de Lurdes, foi professora primária e o pai, João, conduzia “a camioneta que comprou em 65”, antes de ser chofer “num colégio em Lisboa”. Da terra natal recorda-se ainda dos colegas do 5º ano, feito no posto da Telescola, projeto de ensino à distância com emissões na RTP desde 1964. Por lá ainda estão alguns primos. Irmãos não teve.

João Paulo começou por trabalhar nas obras do túnel da Barragem de Castelo de Bode, altura em que um acidente o deixou “meio fuso da cabeça”. Seguiu depois para as obras no túnel de Castanheira do Ribatejo com o amigo que, passado um ano, lhe conseguiu um emprego em Inglaterra. Regressaria a Portugal 15 anos depois, em 2002, passando uma década “a vender peixe” em Lagos. Foi lá onde passou a primeira noite ao relento, na estação de caminho de ferro.

A meio da conversa somos interrompidos por uma vendedora ambulante que nos pergunta se não queremos “comprar umas peúgas ao senhor”. Depressa percebemos porquê. João Paulo não usa sapatos. Tem nos pés uns simples chinelos de praia. A razão não se prende com necessidade, é uma opção de vida que tomou nos tempos de escola e que recuperou quando esteve no Algarve. “Meti na cabeça que as peúgas me faziam mal”. Queixa-se que “as meias fazem frieiras” e apenas aceita as que lhe dão “por delicadeza”, guardando-as junto das três mantas e do édredon, também oferecidos.

A temperatura é uma questão que não nos larga, sobretudo pelos pés do indigente expostos ao frio. João Paulo depressa desvaloriza a questão. “Frio? Basta beber-se um café de manhã e o frio desaparece. À noite bebo outro café, estico as mantas que ali tenho e levanto-me de manhã. Eu nunca tenho frio.” A hipótese de pedir apoio social ou procurar um espaço fechado é descartada com a mesma assertividade “O que é que eu ia para lá fazer? Lembrei-me de descansar ali… Não vale a pena incomodar.”

Opta sempre pelo termo “descanso”. Não “vive” na rua porque a situação com o advogado “é temporária”. As justificações pela passagem do tempo sem resposta vão variando. Segundo João Paulo, o tal advogado mudou-se para um escritório em Lisboa, cuja localização desconhece. O único contacto que tem é um número de telefone, que não usa porque o “senhor tem um conhecido no concelho que sabe que o Paulo (ele) anda por aqui”.

A esperança continua viva, mesmo que os “dois dias” previstos para a viagem ao Entroncamento com o objetivo de resolver a situação se tenham transformado em mais de setecentos. Dois anos com a mesma rotina. Acorda cedo “para não incomodar ali de manhã”, olha “para o lado a ver se chove”, lava a cara e mantém-se perto do mercado diário, para não falhar ao encontro marcado. Quando o mercado fecha passa por alguns pontos regulares na cidade e a partir das oito da noite “descansa” debaixo de uma varanda na Rua Frutuoso Mendes, junto do local onde em tempos existiu um parque infantil.

Será ali que João Paulo passará a Consoada, como se fosse qualquer outra noite do ano. A diferença apenas se fará sentir no interior dos prédios. No sapatinho, que não tem, estaria certamente o desejo expresso de “no próximo ano arranjar as terras que o meu pai me deixou e viver lá”. Apesar de ter tirado a carta de condução em Inglaterra, o carro está fora de questão. Compraria um burro e duas carroças, “uma para trabalhar e outra para ir passear”. A isto acrescenta “um fato completo” e concluir “quinto ano antigo à noite”.

À pergunta final se gostaria de ter mais alguma coisa responde desinteressadamente que não precisa porque “ainda há pouco uma senhora me deu um euro e quarenta”. Reforçamos a questão. Não falamos de agora, mas sim no futuro, caso o advogado não apareça. Olha-nos como se a hipótese nem se colocasse. “Isto deve ficar resolvido até ao final do ano”, assegura. “E depois vou trabalhar até que Deus Nosso Senhor me queira lá. C’est la vie.”

*Notícia publicada em dezembro de 2015

**Republicada no âmbito de alguns trabalhos a que voltamos a dar destaque e que foram publicados no jornal mediotejo.net entre dezembro de 2015 e dezembro de 2016

4 COMENTÁRIOS

  1. Por esta e por outras é que não deviamos receber refugiados! Por que é que os refugiados tem direito a tudo e os portugueses não têm direito a nada? Porque é que se anda a proteger animais enquanto existem pessoas sem proteção? Por que é que o Estado paga abortos em hospitais publicos e não paga a médicos para as urgencias e não paga operações atempadamente? Por que é que o Estado não distribui o dinheiro que dá aos bancos falidos para incentivo à natalidade? Por estas e por outras este sistema politico é podre!

  2. Caro João Paulo. Se tiver oportunidade de ler a minha mensagem ,queria poder ajudar pois um fato, uma camisa uma camisola e quem sabe uns sapatos gostava de lhos poder entregar em mão. Não estou a fazer caridade, odeio essa palavra, é um gesto de amor por uma pessoa a qual não conheço mas cuja história me deixou muito emocionada. Não se preocupe que eu mesma lhe entregarei pessoalmente, já que vivo em Lisboa, não posso ir de imediato ter consigo. C´est la vie mon ami. Espero que alguém me contacte para eu poder i ai ao Entroncamento, sem dar nas vistas , fazer-lhe a minha entrega. Até muito breve. Um abraço para si e por favor calce as meiinhas pois faz muito frio.

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