Entroncamento: Os Gringos, um baile com mais de meio século

Os estilos musicais têm variado de dia para dia nas Festas do Concelho, tal como o público que noite após noite enche o Largo José Duarte Coelho, a Praça Salgueiro Maia e a calçada que os une. O programa musical fecha esta noite com os UHF e entre os cabeças de cartaz deste ano estão “Os Gringos”, o grupo que reavivou a alma dos bailes “à moda antiga” na passada segunda-feira, dia 20. Juntar os sete elementos fora do palco é difícil, mas os três com quem falámos durante a semana festiva demonstraram que o espírito do “Velho Oeste” se adensa com o tempo.

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Surgiram com chapéus genuínos comprados na emblemática Route 66 americana e a inspiração para o nome da banda veio dos cowboys da banda desenhada que liam na juventude, há mais de cinquenta anos. O espírito do “Velho Oeste” estava presente, mas a música que saía das colunas do palco principal das Festas do Concelho do Entroncamento na passada segunda-feira, dia 20, era tudo menos country.

“Os Gringos”, banda emblemática da região com uma história que leva mais de meio século, tocam temas dos anos 50, 60 e inícios de 70 e o público fez questão de aparecer para dançar no Largo José Duarte Coelho. Passinho para cá, passinho para lá e vozes a acompanharem letras de canções decoradas há anos. Apenas as novas tecnologias que registavam as duas horas de concerto quebraram o ambiente de baile “à moda antiga”.

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O Largo José Duarte Coelho encheu-se de pares de dança (foto: mediotejo.net)
O Largo José Duarte Coelho encheu-se de pares de dança (foto: mediotejo.net)

O grupo, hoje formado por sete elementos, começou com um projeto musical do vocalista Vítor Paixão e do viola ritmo Armando Maia em 1964. Mais tarde chegavam Luís Mendes, José Vítor Vicente e António Espalha, formando o quinteto da Meia Via (Torres Novas) ao qual decidiram chamar “Os Gringos”. A ideia de “formar uma banda” nos jovens com cerca de 20 anos era comum na década de 60, mesmo que implicasse recorrer a instrumentos musicais emprestados na fase inicial.

O bombo da banda da aldeia vizinha de Pintainhos era utilizado como bateria de ensaio e o primeiro concerto fora da Meia Via foi feito naquela localidade, seguido pelos realizados na Lamarosa e, transpondo os limites do concelho de origem, em Moita do Norte (Vila Nova da Barquinha).

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Os primeiros "Gringos" um anos após a formação da banda
Os primeiros “Gringos” um anos após a formação da banda

Os anos seguintes colocariam no itinerário outros distritos, como Lisboa (Teatro Monumental), Coimbra (festa da Académica), Nazaré (casino), Odemira e Braga (Cabeceiras de Basto). O maior grupo de fãs pertencia ao distrito de Santarém, na vila de Alcanhões, onde pernoitavam no primeiro andar cedido “por uma velhota” entre os concertos de sábado à noite e as matinés de domingo.

A banda que estimulou o “pezinho de dança” no início desta semana trouxe instrumentos próprios e quatro nomes novos. José Vítor Vicente e António Espalha cederam a vez a José Maia (bateria), Luís Antunes (guitarra solo e flauta), José Manuel Fanha (órgão eletrónico) e Vítor Valente (viola solo), que foi o primeiro instrutor. Entre entradas e saídas, passaram por lá Pinho e José Correia.

A banda toca música de baile dos anos 50, 60 e inícios de 70 (foto: mediotejo.net)
A banda toca música de baile dos anos 50, 60 e inícios de 70 (foto: mediotejo.net)

Conseguimos juntar os dois mentores, Vítor Paixão e Armando Maia, e José Maia. O baterista entrou em 1965 e veio reforçar o toque entroncamentense trazido inicialmente por Vítor Valente ao espírito western nascido na Meia Via. O mesmo espírito que ditou o regresso d’”Os Gringos” ao palco depois de uma pausa de 25 anos, entre 1968 e 1995. A separação não teve causas internas ou musicais, mas sim externas e políticas. A Guerra do Ultramar obrigou-os a substituir os instrumentos musicais pelas armas.

Na mesa de uma esplanada no Entroncamento, a separação surge como um pormenor insignificante. Vítor Paixão sublinha que “desde então nunca mais parámos” e os três concordam que muita coisa mudou nesse período. Ao palco chegaram os avanços tecnológicos da luz e do som e a consciencialização “do que estão a fazer”. Fora dele chegaram as famílias, a crescente exigência do público e os empregos.

Vítor Paixão, o vocalista e um dos fundadores (foto: mediotejo.net)
Vítor Paixão é o vocalista e um dos fundadores d'”Os Gringos” (foto: mediotejo.net)

Dois dos sete Gringos continuam a trabalhar, Vítor Paixão é gerente industrial na área do papel e Luís Mendes vende artigos de cabedal. Os outros contrariam o rimo lento atribuído à reforma. Armando Maia e Vítor Valente trabalharam em telecomunicações, José Manuel Fanha foi bancário, José Maia trocou a ferrovia pela bateria nas aulas que leciona e nas bandas em que toca e Luís Antunes passou de professor de música a maestro no Orfeão do Entroncamento.

No entanto, a mudança não foi total. Mantiveram-se “as picardiazinhas” entre os elementos do grupo que “acabam sempre bem” e os fãs, descritos como “malta da nossa idade”, que os acompanham onde vão. Para já, os seguidores podem colocar na agenda a matiné agendada para o Teatro Virgínia, em Torres Novas, no próximo dia 30 de outubro, cuja preparação será feita nos ensaios quinzenais em casa do teclista.

Armando Maia, Vítor Paixão e José Maia (foto: mediotejo.net)
Armando Maia, Vítor Paixão e José Maia (foto: mediotejo.net)

A inexistência de outras datas confirmadas no futuro não preocupa “Os Gringos” que, apesar de “darem baile” há cerca de meio século, continuam a assumir-se como “amadores” e não estão mentalizados “para o fim”. A cumplicidade que os une é genuína, a par da gratidão ao público pela presença “sem ser convidado”.

Afinal, para dançar não são precisos dois, mas nove (os músicos e o par) e Vítor Paixão acaba por resumir a essência do baile que se faz entre quem toca e quem dança ao dizer “se eles não aparecerem, não estamos lá a fazer nada”.

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