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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

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Entroncamento | O desfile do mundo pela janela de um comboio, segundo três escritores-viajantes (c/áudio)

Agarre no bloco de notas e na caneta, entregue-se ao instinto e vá à descoberta do improvável. Entre a bordo do meio de transporte sentimental por excelência e sente-se confortavelmente no seu lugar à janela. Está tudo a postos para arrancar, vai começar o desfile do mundo através de uma viagem sobre carris.

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“A viagem é uma ponte para o desconhecido”, escreve o astrofísico Pedro Mota no prefácio da obra “Jalan Jalan”, de Afonso Cruz. Nesta descoberta do desconhecido, há os aventureiros – que vão ao sabor do acaso – e os metódicos, que preparam tudo até ao mais ínfimo pormenor. O mesmo acontece na forma como vivem a experiência, enquanto escritores, da chamada Literatura de Viagem: há quem capte os cheiros, os sons, as paisagens e as histórias com a memória e há os que não prescindem do pequeno bloco de notas que cabe em qualquer bolso, sempre à mão de registar os pormenores mais especiais.

Afonso Cruz, Francisco José Viegas e Raquel Ochoa são “escritores-viajantes”, nas palavras do jornalista Carlos Vaz Marques. Na hora da partida, guiam-se pelo instinto e pela vontade de desconstruir ideias pré-concebidas sobre um qualquer local. Esse foi um dos pontos de partida da conversa sobre Literatura de Viagem, na sala mais real do Museu Nacional Ferroviário, no Entroncamento, a 20 de junho, tendo como fio condutor as obras “Jalan Jalan” (Afonso Cruz), “Comboios portugueses: um guia sentimental” (Francisco José Viegas) e “A Casa-Comboio” (Raquel Ochoa).

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“A bordo” do Comboio Real, o público assistiu a esta conversa sobre Literatura de Viagens. Foto: mediotejo.net

Aos comandos da locomotiva, o jornalista da TSF, moderador do “Governo Sombra”, diretor da edição portuguesa da revista literária Granta e coordenador da coleção de Literatura de Viagens das edições Tinta da China, apitou para o arranque desta aventura que teve como cenário de fundo o Comboio Real Português e largou a primeira questão: viajantes aventureiros ou metódicos?

A resposta foi unânime: pouca preparação e muito instinto. “Entrego-me um pouco à viagem porque sei que depois a viagem me devolve alguma coisa precisamente por essa entrega”, avança Afonso Cruz, um dos mais premiados escritores portugueses, galardoado com o Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga, o Prémio Fernando Namora, Prémio Sociedade Portuguesa de Autores, Prémio da União Europeia para a Literatura, Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco e Prémio Literário Maria Rosa Colaço, entre outros.

A sala do Comboio Real acolheu esta conversa sobre Literatura de Viagem. Foto: CME

Para Raquel Ochoa, vencedora do Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís com o romance “A Casa-Comboio”, e com o lema de que “viajar é a melhor forma de compreender quem somos”, as viagens que faz resultam de um “improviso quase total”.

“Eu acho que as viagens são poesia em movimento e eu vou em busca dessa poesia, e a poesia é algo muito espontâneo. Vou sempre à procura disso que não se pode definir e que nos vai embater de frente e nós vamos ter de lidar e crescer com isso”, expressa, lembrando a importância dos mapas no aguçar da sua vontade de viajar. “Os mapas é que me abriam esta vontade de viajar e eu só por ter aquele mapa partia, nada mais”.

“as viagens são poesia em movimento e eu vou em busca dessa poesia”, diz Raquel ochoa

Por sua vez, Francisco José Viegas, um dos mais conceituados jornalistas e escritores portugueses, antigo secretário de Estado da Cultura, diretor da Casa Fernando Pessoa e atualmente editor da Quetzal e da revista LER, admite ter mudado com o passar das estações. “Nos princípios dos anos 80, eu tinha quase tudo, horários dos comboios europeus… Hoje, não tenho nada. Hoje, talvez por me ter libertado de uma série de compromissos, preconceitos e ignorância sobre o mundo, vou muito mais sem preparação”, admite.

Mas observemos agora nesta viagem, que segue a todo o vapor, o lado emocional do ato de viajar. Já dizia Francisco José Viegas na obra de 1988 “Comboios portugueses: um guia sentimental” que a característica que distinguia o comboio dos outros meios de transporte era o facto de ser, de forma insubstituível, “o veículo por excelência das viagens sentimentais”. Uma ligação entre viagens e sentimentos muito pessoal, já que foi através do comboio que o escritor, neto de um ferroviário, conheceu pela primeira vez o seu pai.

ÁUDIO | Francisco José Viegas

Intimamente ligados aos sentimentos estão as pessoas. Afonso Cruz destaca que “independentemente da beleza do sítio, serão as pessoas que farão aquela experiência memorável. (…) Quando há um vínculo humano com o território é que estabelecemos algum laço emocional”. E quem diz vínculos com pessoas diz também vínculos com um garrafão de vinho ou com uma escultura de gesso.

ÁUDIO | Afonso Cruz

“A paisagem humana molda a paisagem física”, remata Carlos Vaz Marques. Exemplo disso é visível na Índia, o país onde “as linhas ferroviárias são como a circulação sanguínea do nosso corpo”, conta Raquel Ochoa.

ÁUDIO | Raquel Ochoa

Lembra-se do bloco de notas que lhe referi no início desta reportagem? É que dizem os experientes que escritor-viajante comprometido com a viagem não pode sair de casa sem um. “É um compromisso comigo própria, há qualquer coisa que captas ali, no dia”, expõe Raquel Ochoa, uma confessada escritora frenética durante viagens.

Podem ser notas, frases com mais ou menos sentido, mas todas as palavras anotadas têm um propósito que vai além do simples ato de escrever: vai desde o registar ideias e momentos que de outra forma a memória não fixaria até ao combate à solidão.

“Se não escrevermos na altura, as viagens, tal como os sonhos e as ideias que vamos tendo ao longo da vida, é muito provável que passado meia hora acabem por desaparecer”, admite Afonso Cruz, que escreve também para o referido combate à solidão no meio da multidão.

ÁUDIO | Afonso Cruz

“A bordo” do Comboio Real, o público assistiu a esta conversa sobre Literatura de Viagens. Foto: mediotejo.net

Há também um “quê” de terapia na escrita, diz Francisco José Viegas. Para o escritor, cuja maior dificuldade é largar a caneta e o papel, o afastamento temporal do momento é imprescindível, seja para escrever sobre uma pessoa, uma rua, um lugar.

ÁUDIO | Francisco José Viegas

Afastamo-nos da estação de partida e estamos cada vez mais próximos do destino final desta viagem de comboio, mas há ainda espaço para o grito de Raquel Ochoa, para que se valorize e aprecia mais a viagem sobre carris.

ÁUDIO | Raquel Ochoa

Em cima da mesa, ficam as sugestões dos escritores para se ler sobre o estilo de Literatura de Viagens: “O Velho Expresso da Patagónia”, de Paul Theroux, e “Cidades do Sol”, de Paulo Moura.

Numa viagem de uma hora, sem atrasos e com paragem em todas as estações e apeadeiros, a mensagem que se faz ouvir dos microfones lá no alto fica-nos retida na memória: “Viajar de comboio é assistir ao desfile do mundo.”

Abrantina mas orgulhosa da sua costela maçaense, rumou a Lisboa com o objetivo de se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

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