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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

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Entroncamento: Nas Entre-Linhas de Joana Arez está… a vida

A exposição “Nas Entre-Linhas” da artista plástica Joana Arez foi inaugurada esta sexta-feira, dia 28, no Museu Nacional Ferroviário do Entroncamento. Uma criação ‘site specific’ que mostra uma perspetiva diferente da ferrovia e integra as comemorações dos 160 anos dos Caminhos de Ferro Portugueses. Fomos falar com a pintora na Sala da Luz, o espaço que recebe as suas obras, e ficámos a conhecer o que existe entre as linhas das suas telas e das suas viagens: a vida.

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Chegamos ao Museu Nacional do Entroncamento com o sol de outono a despedir-se de um dia chuvoso e encontramos Joana Arez na Sala da Luz com as suas seis telas de 1,60m x1,10m. O tom laranja das paredes no espaço com arquitetura industrial contrasta com o branco e o preto que predominam nas criações, surgindo pontualmente o dourado, o azul e o vermelho.

Joana Arez vai trocando impressões com Henrique, funcionário do museu, sobre a forma como as obras ficarão expostas. As telas e a instalação artística em vinil recortado que será colocada no chão mais tarde “refletindo” o quadro inspirado no nostálgico jogo da macaca. Este elemento, partilha, é o quebra-gelo da exposição integrada no programa comemorativo dos 160 anos dos Caminhos de Ferro Portugueses, cuja inauguração decorreu esta sexta-feira.

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Os convidados chegaram acompanhados pela artista numa carruagem exclusiva do intercidades com uma guia turística e durante a exposição foram brindados com a sessão de leitura sobre a primeira viagem ferroviária realizada em Portugal, entre Lisboa e o Carregado, a 28 de outubro de 1856. A ideia e pesquisa pertencem à Flor do Tejo, que assegurou a “performance” pretendida por Joana Arez, e os factos e curiosidades são revelados por Cristina Rodrigues Pereira, Helena Assunção e Paulo Pascoal.

Fotos: mediotejo.net
Fotos: mediotejo.net

Uma vez acertados os pormenores na grande sala e de Henrique dar o dia de trabalho por terminado, a conversa decorre numa das mesas do recinto exterior do museu. Falamos do percurso de vida iniciado em Alvalade e da primeira viagem até Moçambique, onde esteve até aos três anos de idade. O regresso a Portugal, motivado pela vida de médico do pai, ditou-lhe um destino mais calmo no ambiente alentejano.

Uma década volvida em Beja, passou quase cinco anos nas Caldas da Rainha e, aos 17, voltou ao ponto de partida, Lisboa. Não se sente alfacinha, sente-se alentejana e assegura que o sotaque vem ao de cima sempre que encontra um conterrâneo. Há cerca de meio ano passou a ouvir outro sotaque com regularidade, o ribatejano, quando se mudou para uma casa do centro histórico de Abrantes e passou a integrar o gabinete de comunicação da câmara municipal, para onde vai a pé.

Fotos: mediotejo.net
Fotos: mediotejo.net

O interesse pelo tema ferroviário surgiu no meio de todas estas viagens, na “reta do Dafundo”, onde Joana Arês tem casa. Os comboios marcam presença na paisagem e chegaram a marcar-lhe o ritmo dos dias quando ficava a pintar até de madrugada, sempre com espátulas. A pequenez dos pincéis e a leveza dos tupperwares contrastam com o que a fez apaixonar pelos comboios, o ferro pesado e a força “poderosa” da velocidade transmitida quando estes passam.

O ferro faz parte da arquitetura industrial da Sala da Luz, que descreve como “uma obra de arte” e onde adoraria morar. Esta é a segunda opção pois em primeiro lugar está o Museu da Eletricidade, em Lisboa. Na “casa” do Entroncamento estabeleceu um “diálogo entre o espaço e as obras de arte” assente nas linhas retas que marcam a exposição concebida no conceito ‘site specific’ e não deixam esquecidas a linha do Norte e a linha do Sul.

Fotos: mediotejo.net
Fotos: mediotejo.net

Longe vão os tempos dos pedidos das aguarelas de caça, das casas alentejanas, dos passarinhos e das paisagens. Mais perto estão as palavras que partilha regularmente nos seus trabalhos e regista sempre que pode. Não as encontramos no espaço onde o branco das telas coabita com o negro das linhas, contraste pensado pela artista para quem “o ferro é uma coisa escura e tem que estar numa coisa clara”. O ferro das linhas que representam viagens “sem fim”. Para Joana Arez, a vida faz-se “sempre a andar, sempre a andar”.

O ritmo ficou-lhe preso ao corpo, sobretudo na altura em que tinha uma vida dupla em Lisboa. Ao longo de 20 anos o sol acompanhou-a nos trabalhos em publicidade e a lua nos trabalhos artísticos. Em cada momento exteriorizava de formas diferentes o pensamento que, segundo diz a sorrir, viaja a uma velocidade alucinante e é impossível frear. A saída do mundo publicitário, há cerca de seis anos, trouxe-lhe mais tempo para a arte no espaço da Cidadela de Cascais.

Fotos: mediotejo.net
Fotos: mediotejo.net

Arte em que o dourado “é sempre luz” e, segundo a artista, está presente na exposição porque “isto é a Sala da Luz. Quer eu queira ou não, para mim os comboios são luz. Não sei se é por estar mais habituada a vê-los de noite pela minha janela”. O prateado, por outro lado, não faz parte da paleta e está reservado para outro ponto da paisagem noturna: “o caminho de prata que a lua desenha sobre o rio. Fica um caminho e, lá está, eu adoro caminhos”.

Seguimos o nosso depois da conversa com banda sonora dos anúncios dos comboios no altifalante da estação ferroviária, ali ao lado. Foi entre chegadas e partidas que ficámos a conhecer as paragens feitas ao longo de 46 anos, completados no passado dia 19, e o que existe nas entre-linhas que Joana Arez expõe no Museu Nacional Ferroviário do Entroncamento.

Até ao final do ano não fica patente o cliché das mensagens subliminares, nem as letras das suas criações artísticas, que chega a sobrepor em camadas quando a tela é mais curta do que a inspiração. Trata-se, pura e simplesmente, da vida.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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