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Segunda-feira, Agosto 2, 2021

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Entroncamento | Manuela Poitout, a história de quem conta História

Quando ouvimos o nome de Manuela Poitout sabemos que o Passado anda por perto. A antiga professora é conhecida pela forte ligação ao concelho do Entroncamento, onde começou a descobrir o mundo sentada no tronco da acácia que separava a casa dos pais da capela do Bairro Novo. A ideia de que a História já estava sentada ao seu lado provou ser errada, essa apenas se cruzou com a sua depois dos trinta anos. Partilhamos parte do percurso que levou à descoberta do gosto pelos factos históricos e mesmo que quiséssemos contar tudo nunca conseguiríamos pois, diz quem sabe: “a História nunca está feita”.

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O Entroncamento conheceu Manuela Poitout cinco anos antes de ser tornar concelho. Em pleno verão de 1940, a 20 de agosto, a azáfama na casa da família localizada na Rua Elias Garcia era grande. O parto começou sem o apoio “especializado” da irmã de Maria Serrana, a parteira oficial da vila, que também percebia do assunto, e não se descarta a hipótese de ter chegado ao mundo com a pressa de quem quer conhecê-lo.

O sons vindos do “salão da associação dos ferroviários”, ali ao lado, marcaram-lhe a infância até ao momento em que a coletividade mudou de sede e o espaço se transformou na capela do Bairro Novo. Acompanhou a passagem das músicas de baile aos cânticos litúrgicos sentada no tronco da acácia entre os dois edifícios e que elegeu como “posto de observação” do que a rodeava.

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O pai era soldador na CP e a mãe uma típica dona de casa que conjugava a lida diária com a promoção dos bons hábitos das meninas “casadoiras” da terra através de sessões de bordados. Manuela Poitout lembra-se das adolescentes que frequentavam a “escola” durante a tarde, as mesmas com quem partilhava o gosto, não pela agulha e pela linha, mas pelos romances que liam às escondidas e, por vezes, ficavam esquecidos perto do dedal.

A adolescência chegou, as jovens casaram, a mãe passou a embelezar enxovais e o tempo livre das “férias grandes” no Liceu de Santarém passou a ser ocupado na conceituada escola de bordados da D. Emília Santos. As linhas e a agulha continuariam a fazer parte da vida, mas não lhe estavam predestinadas. Tudo apontava para que se tornasse docente do ensino primário, tal como havia sugerido aos pais a sua professora que desempenha a mesma função.

A “influência” da professora que se tornaria na sua madrinha do Crisma foi fundamental e, nessa altura, a história de Manuela Poitout estava longe da ligação a uma história maior, a da região. Não se recorda do que queria ser, apenas que “queria estudar”, e a imagem da professora que nunca sorria, mas que era “uma pessoa justa” assumiu-se como uma referência positiva.

A antiga professora com dois alunos numa viagem ao Porto. Fotos: mediotejo.net e Manuela Poitout
A antiga professora com dois alunos numa viagem ao Porto. Fotos: mediotejo.net e Manuela Poitout

As viagens de uma hora para a capital de distrito, com onze anos acabados de fazer, passaram a realizar-se diariamente e as memórias param em três estações. Depois da estação de Riachos recorda o cheiro “pestilento” que hoje atribui ao cânhamo de molho no rio, colocado pela Companhia Nacional de Fiação e Tecidos de Torres Novas, de antes da paragem em Vale Figueira ficou a imagem das mondadeiras nos arrozais e da estação de Santarém refere os trabalhos de casa feitos na sala da primeira classe com autorização do chefe da estação.

Recordações partilhadas, provavelmente, pelo vizinho mais velho que também frequentava o liceu e que lhe serviu de companhia no primeiro ano e pelos outros estudantes que o tempo foi acrescentando nas idas das 7h30 e nas vindas da noite. O número foi crescendo até ocuparem uma carruagem inteira com os elementos jovens da “família ferroviária”, como Manuela Poitout lhe chama, num tempo em que se “crescia depressa” e os filhos não eram deixados à porta da escola.

Tudo apontava para que seguisse a carreira profissional dos colegas de viagem e de escola até ir ao piquenique promovido pela paróquia. Na altura frequentava o “quarto ou quinto ano do liceu” e, nesse dia, os campos da Quinta da Cardiga, na Golegã, acabaram por lhe trazer mais do que convívio. Trouxeram-lhe a certeza “do que não queria ser” perante o “relato” de uma jovem professora primária colocada em Trás-os-Montes.

Manuela Poitout não tinha incluído nos planos de docente “ir de burro até à aldeia”, ficar alojada “numa casa de pedra sem água canalizada e luz elétrica”, nem estar num local isolado “sem médico”. A imagem da sua professora primária desvaneceu-se perante o cenário mais puro da ruralidade, no qual o professor tinha a exigente tarefa de ensinar e, ao mesmo tempo, ser “enfermeiro e assistente social”.

Aquele “espírito de missão” não era o seu e acabaria por confidencia-lo ao professor de matemática que lhe deu “uma deficiência” – um nove numa escala de zero a 20 – no exame do quinto ano daquela que é hoje a Escola Secundária de Sá da Bandeira. A nota impediu-a de seguir para os dois anos de formação na Escola do Magistério Primário, mas foi ao encontro daquilo que desejava, não ser professora do ensino primário. Mesmo assim, não deixou de mostrar a sua discordância porque “merecia mais”.

Chegou a pensar enveredar por uma carreira nos Correios quando a entidade ainda não era a empresa pública designada CTT – Correios e Telecomunicações de Portugal. Essa mudança ocorreu na década de 70, muito depois de Manuela Poitout ter decidido mudar o próprio rumo com a inscrição no sexto ano “na alínea de Românicas” e frequentar o recém-criado curso universitário de Letras, em Coimbra. O “esforço extra” dos dois anos de formação foi encarado como uma abertura de “novos horizontes” para além da docência no ensino primário.

A escritora e o seu primeiro livro. Fotos: mediotejo.net
A escritora e o seu primeiro livro. Fotos: mediotejo.net

O objetivo era ser professora “numa escola técnica ou num liceu” e, de preferência, em “meios urbanos”. A ida de burro para a aldeia estava totalmente colocada de parte num futuro em que também ainda não se vislumbrava a ligação de Manuela Poitout à História regional. Apesar do gosto pela leitura, que assume como um vício, não tinha preferência pelo tema que começou a surgir com a cadeira de “Língua e História Pátria” e lhe marcou o início do percurso profissional ao lecionar Português e História na Escola Técnica e Industrial de Tomar em 1963/64.

No ano letivo seguinte o Entroncamento recebia uma secção técnica daquela instituição de ensino e a possibilidade de trabalhar na terra natal foi adiada até sentir que a experiência profissional estava mais consolidada. Regressou a “casa” em 1966 como professora da antiga Escola das Tílias, inaugurada em novembro de 1964 para o ensino primário, mas que acabaria por receber o ensino preparatório, ciclo em que lecionava, e o ensino técnico.

A abertura da “filial” no concelho resultou dos esforços e contactos realizados pelo então presidente da Câmara Municipal, Eugénio Dias Poitout. A justificação apresentada pelo homem que mais tarde viria a tornar-se seu sogro assentava na existência de “muitos aprendizes” locais que frequentavam os cursos industriais de serralheiro, carpinteiro, marceneiro, eletricista ou papeleiro em Tomar e Torres Novas.

À formação direcionada para os alunos do sexo masculino juntava-se a preparação “técnica” das mulheres para se tornarem na “fada do lar” que o regime do Estado Novo idealizava. Os bordados voltavam a estar presentes na vida de Manuela Poitout, a par das disciplinas de português, culinária e francês, entre outras.

Não consegue definir o momento preciso da sua história pessoal em que a pesquisa e partilha dos factos históricos regionais assumiram relevância. O desenrolar da conversa acaba por revelar “a ponta do fio” com a entrada em estágio no ano letivo 1971/72 “quase por imposição” de um inspetor que assistiu a uma aula sua. Poderia ter seguido para Lisboa, mas regressou ao Liceu de Santarém vinte anos, um casamento e um filho depois devido à permuta com uma colega de Torres Novas que conhecia.

A historiadora e Isabel, que experienciou um fenómeno do Entroncamento. Fotos: mediotejo.net
A historiadora e Isabel, que vivenciou um fenómeno do Entroncamento. Fotos: mediotejo.net

As mondadeiras já não marcavam a paisagem das viagens de comboio, intercaladas com as de carro, que fez durante um ano enquanto integrou o grupo de nove estagiários, cinco de Românicas e cinco de História. Mantinham-se os “recantos familiares” e os funcionários da escola, assim como a professora que assumia agora o papel de orientadora de estágio. Papel esse que Manuela Poitout viria a assumir mais tarde no ano letivo 1974/75 , deparando-se com alguns alunos licenciados, grau académico que não possuía.

A situação gerou-lhe desconforto e acabaria por se inscrever na licenciatura de Filologia Românica, em Lisboa, que foi conciliando com as aulas no Entroncamento e a família que, nessa altura, já tinha quatro elementos. Seria o trabalho de final de curso, sugerido pelo professor de História da Cultura Portuguesa, que acabaria por revelar a faceta de historiadora pela qual é conhecida atualmente. Acedeu ao pedido “faça-me um trabalho sobre uma aldeia” e a escolha recaiu na terra natal da amiga Maria Helena Maia.

A colega ligada à História tinha nascido em Árgea, Torres Novas, e ajudou na recolha dos dados necessários para a dissertação académica, cuja apresentação inovadora em slides com o projetor comprado para a ocasião e fotografias de Ludovico Rosa, o ajudante do pároco local que era também “um excelente fotógrafo”, fizeram sucesso. O tema seria novamente apresentado sob a forma de livro em 2005 na publicação municipal “Árgea: História e Património”.

A obra voltou a ter a participação de Maria Helena Maia e Luís Batista juntou-se à dupla. Em ambos os casos, trabalhar em conjunto com Manuela Poitout não representava uma estreia. O coautor da coletânea de histórias e testemunhos de Árgea já tinha colaborado no primeiro livro da escritora intitulado “História da Imprensa no Entroncamento”, editado pelo jornal “O Entroncamento” em 1997, onde trabalhou.

Descobriu o gosto pela História regional numa pequena aldeia de Torres Novas e focou-se na História local na redação de jornal do Entroncamento onde viria a conhecer Ana Geraldes com quem lançou o livro “Cá pelo Burgo”. A publicação da Câmara Municipal do Entroncamento, em 2008, compilava as crónicas de Eduardo O.P. Brito, muitas delas confirmadas pelas bocas do famoso Pai dos Fenómenos e de quem viveu os momentos insólitos. Um dos últimos casos chegou a ser apresentado na tertúlia “Conversas com Café” em fevereiro deste ano, na qual foi oradora.

Contar o resto da história de Manuela Poitout seria repetir o que todos já sabem. Ficam os factos menos conhecidos e, mesmo estes não são definitivos pois, como diz, “a História nunca está feita” e cada pessoa interpreta os elementos que a compõem de forma diferente. Fica ainda o desafio de relerem mais tarde a história pessoal desta professora, cronista, historiadora e palestrante que defende que o tempo traz mudanças “na luz com que se vê as coisas”.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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