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Quarta-feira, Agosto 4, 2021

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Realidades e Mitos dos Fenómenos do Entroncamento

Os Fenómenos do Entroncamento voltaram a ser tema de conversa na passada sexta-feira, dia 5. As “excentricidades e paradoxos” ocorridos na cidade em meados do séculos passado a que o jornalista O.P. Brito assegurou a fama deram o mote para a tertúlia “Conversas com Café” deste mês. Manuela Poitout e Manuel Fernandes Vicente apresentaram perspetivas menos convencionais dos fenómenos e o público presente na Bibioteca Municipal teve oportunidade de ouvir um testemunho contado na primeira pessoa.

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A iniciativa municipal “Conversas com Café” no mês de fevereiro foi dedicada ao tema “Fenómenos do Entroncamento – Realidades e Mitos”, contando com a presença de vários elementos do executivo camarário. O café foi servido no início e a conversa ficou a cargo de Manuela Poitout e Manuel Fernandes Vicente, ambos ligados à cidade que o resto do país passou a associar ao insólito devido às notícias assinadas por O.P. Brito.

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A tertúlia contou com a presença de alguns elementos do executivo municipal

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Manuela Poitout, licenciada em Filologia Românica, começou a sua intervenção dizendo que “está na altura de olharmos os fenómenos de frente” e apresentou um percurso alternativo de investigação com a cronologia dos artigos publicados entre 1949 e a década de 70 na América do Norte, local originário das excentricidades que motivaram O.P. Brito a escrever sobre o Entroncamento.

Segundo a professora que compilou as crónicas do jornalista em conjunto com Ana Geraldes na obra “Cá pelo Burgo”, editada em 2008, a primeira notícia surgiu em setembro de 1956 sobre Anita Lopes, uma mulher que regressou ao trabalho poucas horas depois de dar à luz. O Entroncamento seria apresentado no ano seguinte como “terra de prodígios de toda a espécie” e o termo “fenómenos” surgiria associado à cidade em 1958. O artigo sobre o melro branco, considerado o primeiro fenómeno oficial, apareceria apenas em julho de 1959.

Na apresentação que Manuela Poitout intitulou de “Uma história de torna-viagem” também se falou na interrupção nos relatos de O.P. Brito a partir desse ano, até 1962, face às reações negativas aos fenómenos, como a crónica de Amaral Neto no Correio do Ribatejo, e a competição surgida no resto do país e no estrangeiro, nomeadamente em Long Island, no sudeste do estado de Nova Iorque. A última notícia data de 1973 e exemplifica o “torna-viagem”, fechando o ciclo das notícias sobre “as excentricidades e paradoxos” que tiveram ponto de partida na América do Norte, inspiraram os Fenómenos do Entroncamento e, mais tarde, passaram a tê-los como referência.

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Manuela Poitout falou sobre os artigos publicados na América do Norte

A paragem na escrita de O.P. Brito sobre os fenómenos deu título a um dos artigos publicados por Manuel Fernandes Vicente, publicado no jornal Público em 2001 (“Pai dos fenómenos do Entroncamento revela segredo com mais de 30 anos”). Nas “Conversas com Café” da passada sexta-feira a abordagem foi diferente e focou-se na metáfora do “Ovo de Colombo”.

Manuel Fernandes Vicente, que editou o seu segundo livro, “O Povo do Tejo”, em meados do ano passado, caraterizou O.P. Brito como “uma pessoa complexa” que mantinha “uma relação de amor e desamor com os fenómenos”. Contrariamente à análise de Manuela Poitout, o relato sobre o melro branco foi referido como “âncora” das crónicas de O.P. Brito, que terá recusado os anteriores por não se rever neles. Ambos estiveram de acordo no estilo jornalístico do “Pai dos Fenómenos”, marcado pelo humor e a ironia.

Nesta segunda intervenção da noite foram referidos outros factos históricos mais ou menos conhecidos pelo público em geral, que contextualizaram o potencial criativo e de marketing associados à faceta insólita do concelho. Em “Os mitos e os seus impactos numa cidade criativa”, Manuel Fernandes Vicente referiu o surgimento da marca “Fenómenos do Entroncamento” por volta de 1960, que se tornou num “património intangível da cidade” ao adquirir notoriedade própria.

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Manuel Fernandes Vicente apresentou o potencial da marca “Fenómenos do Entroncamento”

Os fenómenos, segundo o docente de Matemática no Entroncamento, são um traço único da cidade e podem afirmar-se como “uma visão de futuro com o passado no retrovisor” através de uma presença assídua nas iniciativas realizadas na cidade. Um desfile temático de Carnaval ou motivos com os fenómenos em calçada portuguesa foram alguns dos exemplos apresentados.

No final da apresentação foi lançado o desafio se o Entroncamento está em condições de “rejeitar a oportunidade que os fenómenos lhe estão a dar”. Manuel Fernandes Vicente salientou que tal como O.P. Brito acreditava que os fenómenos surgiriam se fossem procurados, também o concelho deverá acreditar no potencial daquelas ocorrências insólitas.

Quem assistiu à tertúlia teve ainda a oportunidade de ouvir um testemunho contado na primeira pessoa relacionado com o fenómeno da lebre que bebia leite por biberão, publicado em novembro de 1962. Isabel tinha dez anos quando o pai, conhecido pelo Vilafranca e pela casa de petiscos a que dava nome, regressou a casa depois de um dia de caça com uma pequena lebre. A fotografia emoldurada que levou consigo prova um dos momentos em que a “Chica” foi alimentada pela “chucha” comprada na Farmácia Carvalho e colocada “numa garrafa de gasosa”.

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Isabel foi protagonista de um dos fenómenos

As “Conversas com Café” regressam à Biblioteca Municipal no próximo dia 11 de março.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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