Entroncamento: Fausto Diabinho, o Dia do Pai frente a um pelotão de fuzilamento (C/VÍDEO)

É comum associarmos o Dia do Pai aos postais criados na escola pelos filhos, mas para Fausto Diabinho a data representa o momento em que sobreviveu a um pelotão de fuzilamento durante os tempos de cativeiro na Índia. Falámos com o presidente da Associação Portuguesa da Liga dos Antigos Prisioneiros de Guerra e do Núcleo da Liga dos Combatentes de Entroncamento/Vila Nova da Barquinha e ouvimos a história contada na primeira pessoa com tal detalhe que, apesar de conhecermos o desfecho, parecia estarmos lá e apeteceu carregar no “pause” para respirar fundo.

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A mostra fotográfica “O Soldado Português na I Grande Guerra”, em destaque na Galeria Municipal do Entroncamento durante o mês de janeiro, e a exposição evocativa dos “100 anos da Grande Guerra e a luta pela Paz”, patente até este sábado na Galeria Santo António, em Vila Nova da Barquinha, motivaram as várias conversas que tivemos com Fausto Diabinho, o presidente do Núcleo da Liga dos Combatentes que abrange ambos os concelhos.

Queríamos conhecer os “nossos” que lá estiveram, as memórias dos que voltaram e a história de António Gonçalves Curado, o primeiro elemento do Corpo Expedicionário Português a tombar frente às tropas alemãs na histórica batalha de La Lys, na Flandres, a 4 de abril de 1917. A preparação desta força militar no Centro de Instrução de Tancos pelo General Norton de Matos com a colaboração do General Tamagnini em apenas três meses ficou conhecida pelo “Milagre de Tancos” e a intervenção divina ficou-se por aí para o soldado português que hoje repousa no Monumento aos Mortos da Grande Guerra inaugurado no dia 11 de abril de 1937, em Vila Nova da Barquinha.

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António Gonçalves Curado
António Gonçalves Curado

A entrevista decorreu na sede do núcleo da Liga dos Combatentes, situada na primeira casa do emblemático bairro ferroviário da Vila Verde, onde os alguidares estrategicamente colocados revelam a necessidade urgente de novas obras sob pena de perda do espólio que ali se encontra guardado. Somos recebidos no espaço reservado à biblioteca e às reuniões com a preocupação de manter a temperatura amena por via de um pequeno aquecedor. Em cima da mesa são muitos os documentos e as capas A4 que farão a ligação entre o presente e o passado.

Fausto Diabinho é um aficionado de História e entre as histórias de antigas guerras vamos descobrindo a sua, que se revela surpreendente. O núcleo que preside é um dos mais antigos do país e celebra o aniversário a 27 de novembro, um dia depois do seu. A idade é a mesma, ambos têm 83 anos marcados por momentos intensos de quem “lutou pela paz e deseja a paz porque sabe o que são as agruras da guerra”.

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Começa por nos falar primeiro da associação. Do passado fala-nos sobre a secção feminina que vendia os minúsculos capacetes de guerra para obter fundos e de António Gonçalves Curado, cuja foto se encontra na entrada da sede. Do presente salienta a inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar a 27 de novembro de 2005, no Entroncamento, os quase mil sócios da associação e das sessões de acompanhamento quinzenais que dão alento a antigos combatentes com histórias semelhantes à sua.

A Índia chegou a ter 12.000 militares portugueses com o envio de “batalhões e batalhões” para proteger a “Pérola do Oriente”, Goa, e os outros dois distritos que Portugal lá possuía, Damão e Dio, da União Indiana. Fausto Diabinho partiu para lá a 10 de novembro de 1956, no dia do aniversário da mãe, depois de dois anos a fazer o serviço militar e ser colocado no Primeiro Grupo de Companhias de Saúde, na Graça. Até então tinha trabalhado como ajudante de farmácia, no mesmo local onde regressou quando passou à disponibilidade e ficou até ao dia, registado em fotografia, que o aparente cliente fardado se revelou o polícia que lhe entregaria a convocação aguardada. Ia partir para a guerra.

Sede do núcleo Entroncamento/Vila Nova da Barquinha da Liga dos Combatentes
Sede do núcleo Entroncamento/Vila Nova da Barquinha da Liga dos Combatentes

Fausto Diabinho recorda que na altura pensou “lá estou eu a ir para outras manobras, mas não eram manobras, tinha sido mobilizado para a Índia”. Ser chamado para servir o país com a possibilidade de não regressar a casa é uma sensação que apenas pode ser explicada por quem a sentiu, o que não é o nosso caso. No caso de Fausto Diabinho “foi um misto de satisfação e tristeza. Satisfação por ir dar a minha contribuição, tristeza por deixar os meus pais”.

A eclosão da Guerra do Suez atrasou a partida pois os navios seguiam para a Índia pelo canal, mas em outubro voltou a ser chamado e integrado no Primeiro Grupo de Companhias de Saúde, apresentando-se no Depósito de Tropas do Ultramar. Chegou então o dia do aniversário da mãe, 10 de novembro, e na casa dos pais deixou um vazio, quer no coração dos que se despediam sem saber se era um “até qualquer dia” ou um “adeus” e no espaço onde até à data estava a imagem de Santa Filomena que regressou com ele no último dia de missão militar, em Angola, precisamente 19 anos depois.

A prenda que não queria dar à mãe e esta aceitou contrariada foi a partida para uma viagem de barco de 33 dias ao longo da costa africana com duas breves paragens. A chegada deu-se ao anoitecer, momento em que sentiu “uma alegria grande” ao ouvir uma voz familiar a chamá-lo. Era Serranito, um alentejano com quem tinha sido cabo miliciano em Coimbra. Desembarcou oficialmente no dia seguinte e deixou a mochila com a roupa e a santa no varandim de um edifício alugado pelas forças militares portuguesas com vista para o rio Mandovi, onde permaneceu cerca de um mês.

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Os cinco anos que se seguiram incluíram a passagem pelo Destacamento Sanitário Independente da Índia, em Vasco da Gama, e pelo Depósito de Medicamentos do Hospital Militar de Goa. Para Fausto Diabinho, a “Pérola do Oriente” revelou-se uma desilusão com “a terra toda amarelada com o pó do minério” e um povo “que ainda estava a largar o trabalho braçal”.

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O momento em que Fausto Diabinho foi convocado para a Índia

O ano de 1961 é apontado como a altura das primeiras grandes mudanças. Até então tinha aprendido a viver com a possibilidade de ataques por parte das forças inimigas indianas. A diplomacia de Salazar ia funcionando e as três possessões estavam guardadas. Recorda que “se deu a frente em África” e, mais tarde, “se descobriu que ia haver uma revolta em Timor”. Os meios e os homens passaram a ser necessários noutras paragens e pela Índia foram ficando cada vez menos militares assaltados pelo adensar dos boatos sobre a tentativa de conquista da União Indiana.

Conviver com boatos em contexto de guerra é, nas palavras do antigo combatente, “a pior coisa que pode acontecer, não dormíamos de noite, sempre vigilantes”. A hipótese passou a realidade em novembro quando o General Costa Gomes confirmou que estavam a ser cercados e o último governador português da Índia, General Vassalo e Silva, ordenou a criação de uma ponte aérea para Carachi, no Paquistão, para evacuar mulheres, crianças e funcionários públicos.

As tropas estavam aquarteladas em Agassaim, Goa, e dali seguiu com a imagem de Santa Filomena embrulhada numa toalha junto da lâmpada que utilizava para a alumiar em substituição da candeia de azeite que a mãe utilizava em casa e uns “candelabros” que tinha comprado. Quando tomou conhecimento da rendição da capital e que as tropas inimigas lá entrariam no dia seguinte pensou “entre tantos, Santa Filomena há-de salvar-me”.

Avançou com os camaradas para Mormugão, num planalto onde descobriram viaturas militares que os portugueses tinham abandonado cheias de explosivos (trótil). A posição era, na opinião geral, “um suicídio” e foi tomada a decisão de se renderem no dia seguinte. Entre os campos de prisioneiros para os quais podiam ir, Vasco da Gama parecia ser a opção mais acertada, mas a ausência do condutor do ferry boat à uma da manhã orientou-os noutra direção.

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Fausto Diabinho
Fausto Diabinho

Fausto Diabinho relembra a última noite como homem livre, passada “sentados nas escadas de uma igreja, algures em Agassaim, para então nos irmos juntar às tropas portuguesas que estavam em Pangim”. O sol nasceu, rasgaram um pedaço de tecido branco “de um lençol ou de uma toalha” e meteram-se a caminho do Altinho, onde descobriu o quarto arrombado e pilhado pelos camaradas que tinham chegado antes. A prateleira onde costumava estar Santa Filomena mantinha-se intacta, mas não voltou a receber a imagem que só largou quando as tropas inimigas chegaram e confiscaram os pertences dos prisioneiros.

A devoção que demonstra pela mártir nascida no século III, Grécia, e canonizada pelo Papa Gregório XVI em 1837 é grande. O antigo combatente considera que Santa Filomena o acompanhou “sempre”, na Índia e em África, e todos os dias dedica-lhe um momento de oração. Acrescenta que “ao proteger-me a mim protegeu também a maioria dos soldados portugueses porque, no final, com a invasão só morreram 25”.

No Altinho manteve a função que desempenhara nos últimos tempos, a de gerente de messe, e apesar de não se lembrar da refeição que preparou no dia em que chegaram, garante que no Natal comeram “bacalhau, de certeza”. Quatro dias depois recebiam a ordem para avançar até ao campo de concentração de Pondá, não sem antes receberem a visita de “mais de mil” goeses que lhes levaram “bolachas, lâminas de barbear, barras de sabão e palavras de conforto”.

No meio dessas visitas encontrava-se quem enviaria a carta aos pais a dizer que estava vivo. As notícias portuguesas descreviam um cenário de “combate porta-a-porta e mais de 1500 mortos”, mas a carta entregue pela vizinha que trabalhava nos correios a Júlia e Manuel trouxe alento à família um dia antes de serem publicadas as listas dos prisioneiros nos jornais “Diário de Notícias”, “Diário Popular” e “O Século”. A mãe terá certamente agradecido a Santa Filomena.

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Os nomes dos prisioneiros foram publicados nos jornais

Estava-se já no ano da libertação, 1962, mas ainda seriam muitas as experiências que davam a cada dia a duração de dois ou mais. O último local era Pondá, cujo campo de concentração desenha a caneta numa folha de papel enquanto vai narrando alguns momentos, entre eles “um caso dramático” originado pela tentativa de fuga de três soldados, descoberta pela denúncia de um furriel português. Este “caso” de que começa a falar como se se tratasse de um entre tantos outros acaba por ganhar relevância quando percebemos que esteve na fila da frente de um grupo de 1.500 homens cercado por um pelotão de fuzilamento das tropas indianas.

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O grupo amotinou-se quando estavam na formatura da manhã e alguns militares portugueses quiseram linchar o furriel denunciante. À tarde, nova formatura inesperada e a chegada de um esquadrão de cavalaria armado comandado pelo brigadeiro hindu responsável pelos três campos de concentração (Alparqueiros, Pondá e Aguada). A ordem para avançar um pelotão de fuzilamento foi seguida do aviso “quem se mexer será imediatamente abatido”.

Fausto Diabinho conta a situação de forma aparentemente descontraída. Não se trata de um filme, mas apetece-nos pegar no comando, fazer pause e respirar fundo. Não temos essa oportunidade e vamos ouvindo o desenrolar dos acontecimentos: a resposta negativa em coro que o grupo deu quando questionado pelo brigadeiro se estavam “dispostos a receber o furriel”, a ordem deste para que o pelotão de fuzilamento preparasse as armas e o pensamento que o antigo combatente teve na altura, igual ao do momento da invasão, “algum há-de escapar” seguido da memória da infância, dos pais e (com a voz embargada) de Santa Filomena.

A imagem da Santa estava guardada, mas a fé fortaleceu-se quando o o único capelão presente, Ferreira da Silva, decidiu avançar sem autorização e pediu para proferir “umas palavras antes do brigadeiro dar a ordem final”. O comandante do campo era cristão e convenceu o superior hindu a escutá-lo. Aos militares portugueses foi pedida resignação e disciplina e ao brigadeiro uma última oportunidade. Depois do pedido de perdão por parte dos 1.500 homens a oportunidade foi-lhes dada.

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Pormenor da imagem de Santa Filomena

O momento ficou para sempre associado ao dia 19 de março. “Dia do Pai é uma data que não se esquece”, diz, “se fosse outra data qualquer era capaz de ter esquecido, mas Dia do Pai, 19 de março de 1962…” continua quase em surdina “aí, tive-a mesmo à frente”.

Pela frente teve o dia 2 de maio, data em que souberam que iam ser libertados. Depois de alguns impasses e da resposta de Salazar num telegrama intitulado “Portugal é que manda” ao pedido que enviaram para abandonarem o campo de prisioneiros, os barcos Moçambique, Pátria e Índia chegavam a Carachi, até onde viajaram em aviões franceses. Fausto Diabinho seguiu no segundo e chegou a 26 de maio com a Santa, a lâmpada e os candelabros que lhe foram devolvidos pelas tropas indianas.

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A viagem foi feita com “escolta militar” e à chegada foi-lhes recusada permissão para falarem com os familiares pois eram encarados “como bufos” da real situação da índia. Acabaram por lhe dar três dias de licença antes de se apresentar e foi nessa altura que fez a barba. Nunca quebrou a promessa feita a Santa Filomena no dia da invasão de que apenas faria a barba em casa. A fotografia tirada no barco durante a viagem de regresso prova que a promessa foi mantida durante os “quatro meses e 22 dias de cativeiro”.

Regressou à profissão de assistente de farmácia, casou em agosto de 1963 e foi mobilizado para Angola dois meses depois. Lá, juntaram-se a esposa, Joana, e o filho de oito meses, que regressariam pouco tempo antes do seu último momento de missão militar, a 10 de novembro de 1975, “a meia-noite, a hora de independência de Angola”.

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Os pais tiveram conhecimento de que estava vivo pela carta que enviou à revelia

A vida reservava-lhe ainda a passagem pelo Depósito de Material Militar em Benfica e pela Direção de Serviço Militar em Tancos, onde esteve quase vinte anos antes de se reformar e comprar casa no Entroncamento. Foi co-fundador da Associação dos Prisioneiros de Guerra em 1999, no ano seguinte tornou-se Tesoureiro do núcleo de Entroncamento/Vila Nova da Barquinha da Liga dos Combatentes e em 2003 foi eleito presidente desta associação.

Em pleno ano de 2016 fala dos muitos planos futuros que encara com a mesma serenidade que conseguimos imaginar perante o pelotão de fuzilamento no Dia do Pai. Algum há-de safar-se.

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