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Terça-feira, Outubro 26, 2021

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Entroncamento | Cultura e legado ferroviários em risco no MNF? (c/ entrevista)

Uma coisa é andar de comboio, outra é partir num interrail pela História dos Caminhos-de-Ferro Portugueses sem sair do Entroncamento. A bilheteira fica no Museu Nacional Ferroviário, onde se percorrem 161 anos do legado nacional através do espólio museológico e das atividades que aguardam os visitantes. Tudo reunido no espaço que tem dado que falar devido à possibilidade de chegar ao fim-da-linha em janeiro do próximo ano, mas que Jaime Ramos, presidente da Fundação Museu Nacional Ferroviário, diz que seguirá viagem a toda a força se a tutela assumir as respetivas responsabilidades.

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O Museu Nacional Ferroviário (MNF) completou dois anos e meio no passado dia 18 de novembro e as notícias de nomeações e prémios conquistados a nível global têm-se multiplicado. Entre os mais recentes estão a distinção do projeto “Comboio Presidencial/The Presidential” com o Elefante de Ouro no Bea World Festival como “Melhor Evento Público do Mundo” e a nomeação para o Museu Europeu 2018 (EMYA), com o qual o Conselho da Europa premieia a aposta em dinâmicas diferenciadoras há quatro décadas.

No entanto, não são estas as notícias que têm merecido maior atenção nos últimos tempos. As dificuldades de financiamento com que o MNF se depara desde o início agravaram-se e os alertas lançados pela Fundação que gere o espaço, da autarquia e de diversos partidos políticos têm-se repetido junto da tutela. As mais recentes chegaram a indicar o mês de janeiro de 2018 como a última paragem do local que “casa” a cultura e a ferrovia desde a inauguração em 2015 pelo Secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações, Sérgio Silva Monteiro.

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Jaime Ramos, presidente da Fundação Museu Nacional Ferroviário, durante a entrevista. Foto: mediotejo.net

A relação amadrinhada pela CP – Comboios de Portugal e a IP – Infraestruturas de Portugal tem sido atribulada desde o início e, seguindo o dito popular de que “quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro”, conversámos com Jaime Ramos, presidente da Fundação Museu Nacional Ferroviário Armando Ginestal Machado (FMNF). A entrevista foi feita pouco antes da sua reunião com os colaboradores para informar sobre a situação atual do museu que em 2016 foi visitado por 23.835 pessoas, das quais 536 estrangeiras e 1.158 em regime de visita escolar.

POSTOS DE TRABALHO EM RISCO?

A garantia dada “cara-a-cara” pelo Secretário de Estado do Planeamento e das Infraestruturas, Guilherme de Oliveira Martins, de que o problema do financiamento e dos postos de trabalho será resolvido foi confirmada por Jaime Ramos. O presidente da FMNF decidiu atenuar o sentimento de insegurança existente entre os funcionários depois de assumir que a última carta enviada para a tutela e os elementos do Conselho de Administração alertava para a possibilidade de não serem pagos os salários de janeiro e que o fecho depressa podia passar de possibilidade a realidade.

As notícias mais recentes davam conta de que o museu tinha hora marcada para fechar. Foto: mediotejo.net

Apesar das boas notícias, das 32 pessoas previstas para o quadro de pessoal aprovado pela tutela – 1 diretor, 10 técnicos, 8 assistentes técnicos, 1 assistente administrativo e 12 assistentes operacionais- 10 estão contempladas pelo Centro de Emprego e cinco delas estão neste momento a aguardar uma resolução para que possam regressar aos postos de trabalho. Antes do final do ano saem a diretora, Ana Fontes, e um técnico ligado à segurança e manutenção e o número sobe no início de 2018 com mais três colaboradores nesta situação.

Jaime Ramos destaca que o recurso ao Centro de Emprego tem sido prática recorrente com a qual não concorda na medida em que defende um trabalho contínuo com outro tipo de investimento envolvido, o tempo, e que a rotatividade de (des)empregados não permite. A este facto acrescem as formações e outros programas para os quais estes funcionários são chamados regularmente. A crítica estende-se à revisão que transformou o MNF em entidade publica de direito privado, tornando os contratos públicos, e que é apontada como “meio exígua”.

AS DESPESAS E O FINANCIAMENTO

No entanto, os gastos com pessoal não são os únicos que urgem ser assegurados. Os tempos do PIDAC – Plano de Investimentos da Administração Central já lá vão, refere, e os apoios “pontuais” assegurados pela CP e pela IP não chegam para cobrir as despesas associadas, nomeadamente, à manutenção e limpeza dos 4,5ha ou restauro das peças do museu, relembrando que “cada máquina não é um brinquedo em miniatura”.

A grandes dimensões de algumas composições têm mais implicações dispendiosas, como o transporte, que o museu conseguiu colmatar, por exemplo através da campanha de croudfunding “Vamos transportar o Drewry”, obtendo o valor necessário para levar o último exemplar dos Locotratores Drewry de Guifões (concelho de Matosinhos, distrito do Porto) para o MNF, no Entroncamento.

As grandes dimensões de algumas peças implicam custos acrescidos. Foto: mediotejo.net

As receitas de bilheteira, acrescenta, são “muito curtas”, mas têm conseguido assegurar “as coisas correntes”, às quais acrescem os apoios de algumas entidades privadas. Contas feitas e, de acordo com os dados do relatório de atividades e contas de 2016, a FMNF teve um resultado líquido negativo de 316.214€, representando os gastos com o pessoal 39,6% do total. A apreciação global refere que “os rácios financeiros apontam uma estrutura financeira equilibrada”, mas acrescenta de seguida “No entanto, ainda não se encontra assegurada a sua sustentabilidade económica”.

O próprio Conselho Fiscal já alertava no mesmo documento, em maio deste ano, para a “necessidade da Fundação procurar urgentemente soluções, de caráter regular, de forma a garantir a sustentabilidade paralelamente à atividade do Museu Ferroviário, bem como a sua continuidade”. Ambas mantiveram-se em risco e Jaime Ramos diz ter consciência de que “não pode ser a tutela a pagar tudo, mas nós somos os fiéis depositários tanto do espaço, como das peças da CP e da IP” e que os encargos devem ser pagos “como se fosse a CP ou a IP a ter as coisas em poder deles”.

Sublinha que “essas empresas é que têm de suportar a fundação que toma conta e preserva o património histórico nacional” e que “terá que ser o Governo a dizer «sim, senhora, estão criadas as condições para as duas empresas»”. A partir do momento em que tal aconteça, conclui, não tem “dúvidas nenhumas de que o museu não para e até vai crescer” aumentando a oferta e atraindo mais visitantes que, atualmente, chegam de todo o país.

PROJETOS E NOVIDADES

Alguns desses visitantes usufruem do pacote turístico resultante do protocolo estabelecido entre o MNF, a CP e a Direção Geral do Património Cultural / Convento de Cristo, que engloba as viagens de comboio e as visitas a ambos os locais com um preço mais apelativo do que a realização das três atividades em separado. Para o futuro, Jaime Ramos revela que o Castelo de Almourol poderá passar a fazer parte do itinerário, integrando a lista de iniciativas que o museu gostaria de materializar.

Entre as ações previstas encontram-se as direcionadas para determinados nichos de mercado do turismo, como o religioso associado a Fátima e o equestre ligado à Golegã. No futuro, estes visitantes poderão comprar o bilhete de comboio para a estação de “Entroncamento – Museu”, que passará a ter esta designação caso seja aprovada a proposta do estudo que está a ser “ultimado” no âmbito da implementação da marca “Museu Nacional Ferroviário”, realizado como contrapartida de cedência do Comboio Presidencial.

Os novos projetos reforçam a oferta existente, como os passeios de quadriciclo nas linhas do museu. Foto: mediotejo.net

Outra novidades é a candidatura à Rede Portuguesa de Museus com o objetivo de implementar uma rede de museus ferroviários com sede no Entroncamento que integre os sete polos da FMNF que existem além da sede nacional localizada na cidade ferroviária. Neste momento estão ativos os de Macinhata do Vouga (concelho de Águeda, Aveiro), Arco de Baúlhe (município de Cabeceiras de Basto, distrito de Braga) e Lousado (concelho de Vila Nova de Famalicão, Porto), aos quais se juntam os de Valença (Viana do Castelo), Chaves (Vila Real), Bragança e Santarém.

A IMPORTÂNCIA DA DIVULGAÇÃO

Como já dizia a mulher de César “não basta ser, há que parecer” e o MNF não é exceção. Os esforços aplicados no reforço da oferta existente, como a recente chegada de duas novas composições históricas – a UTE (Unidade Tripla Elétrica) 2057 e a UTD (Unidade Tripla Diesel) 655-625-661 – e a abertura gratuita das portas ao longo desta quadra com uma programação de Natal dedicada às famílias.

Os dias em que o museu abre as portas gratuitamente, como o Dia Internacional dos Museus (18 de maio) ou o Dia do Concelho (24 de novembro), trouxeram-lhe a noção de que “há muita população que ainda não conhece”, justificando com o facto de se tratar de um tema sobre o qual as pessoas se cansaram de ouvir falar. As “promessas” vindas dos anos 50 materializaram-se mais de meio século depois e uma vez ultrapassadas algumas vontades do MNF ser construído fora da cidade ferroviária.

Pormenor da exposição permanente do Museu Nacional Ferroviário. Foto: mediotejo.net

Admite que “não temos conseguido chegar a esses públicos”, justificando com os custos associados à divulgação e que, à semelhança dos restantes, não conseguem assegurar. Acresce o facto de não existir, atualmente, um técnico de comunicação, tendo o lugar contemplado no quadro chegado a ser ocupado por uma funcionária contratada através do Centro de Emprego, que saiu entretanto.

A “vontade de oferecer coisas diferentes” a nível local, regional e nacional é salientada, mas não materializada porque, segundo o presidente da FMNF “para publicitar o que cá temos dentro é preciso dinheiro”.

Parte da solução envolve as entidades responsáveis e Jaime Ramos destaca que, por um lado, “a CP está preocupadíssima e o senhor presidente neste momento está em condições, até porque tem esse poder, de nos ajudar para que seja devidamente publicitado em todo o lado”. Por outro, refere que a IP disponibiliza os espaços “mas depois é preciso custos para implementar”.

O QUE INCLUI O “BILHETE”?

O interrail pelo legado ferroviário não é apenas histórico e Jaime Ramos acrescenta-lhe o lado emocional pois “em Portugal, a maior parte das pessoas já andou de comboio” e a imagem da locomotiva a vapor faz parte do imaginário infantil, mesmo das gerações mais jovens que conhecem, sobretudo, versões atuais das máquinas e composições. Na sua opinião, o caminho-de-ferro “mais do que um veículo, é um património cultural que é sentido pelas pessoas (…) As pessoas sentem-no”.

O espólio muselógico inclui peças ligadas as serviços sociais da CP, como os cuidados de saúde ou a colónia de férias. Foto: mediotejo.net

A viagem começa no dia 28 de outubro de 1856, data oficial em que um comboio circulou no nosso país, entre Lisboa e o Carregado. Desde então, a “paisagem” inclui veículos ferroviários com tração a vapor, diesel e elétrica ou peças associadas aos serviços sociais da CP com memórias associadas aos cuidados de saúde, a colónia de férias ou a Escola de Aprendizes. Acrescem os passeios de quadriciclo nas linhas do museu, o circuito de modelismo tripulado com o mini-Comboio Presidencial e as sessões de cinema na Carruagem-Auditório.

O ponto de partida é no antigo Armazém de Víveres da CP, que alberga a entrada do museu e do complexo, a bilheteira, a loja, a cafetaria, o início da exposição permanente e uma sala de exposições temporárias.

Do outro lado da linha do comboio, literalmente, fica a emblemática Rotunda de Locomotivas e as Oficinas do Vapor, onde é possível visitar a exposição permanente com o Comboio Real, o Comboio Presidencial e a coleção de material circulante que inclui, por exemplo, a Locomotiva a vapor CP 001, construída em 1882 na Alemanha pela empresa Sächsische Maschinenfabrik em resposta à encomenda da Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses.

O Comboio Real é uma das principais atrações do museu. Foto: mediotejo.net

O museu também pode ser conhecido sem ser com o bilhete convencional pois o espaço está preparado para acolher eventos de diferentes tipologias. De eventos corporativos a casamentos, passando por aniversários, reportagens fotográficas, filmagens, colóquios, exposições e espetáculos, entre outros.

Importa destacar também a existência do Centro Nacional de Documentação Ferroviária, no Complexo Ferroviário da Estação do Oriente, onde é possível consultar os arquivos históricos de diversas companhias ferroviárias extintas.

Em suma, são muitas as formas de subir a bordo e usufruir da viagem que aparenta estar longe de chegar ao fim-da-linha, apesar dos receios associados ao fecho do MNF.

Aguarda-se a passagem das garantias dadas pela tutela à resolução efetiva da situação financeira e Jaime Ramos deixa o pedido para que as “pessoas nos deem este espaço de transição”, ao qual acrescenta o convite para que visitem o museu e “e percebam que há aqui algo de muito importante. Quando entrarem naqueles portões vão ficar entusiasmadas”, assegura.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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