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Domingo, Outubro 24, 2021

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Entroncamento | Conheça o steampunk que move o novo Festival Vapor

O Festival Vapor arrancou na sexta-feira, dia 28, e o Museu Nacional Ferroviário acolhe o primeiro evento do género dedicado ao steampunk em Portugal. Sabe do que falamos? Muita gente não, por isso decidimos perguntar a quem o está a organizar e partilhamos o conceito que junta elementos do punk, como o “Faça Você Mesmo” e o upcycling, ao universo de Júlio Verne, Era Vitoriana e, claro, máquinas a vapor. Não tem de levar o cabelo espetado e pode assumir-se como steampunker nas sessões de cinema, atividades infantis, palestras, duelos de chá, concerto dos Dead Combo e muito mais.

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Quando ouvimos falar em steampunk pela primeira vez a tendência é começar por dividir a palavra. De um lado fica o “steam” (vapor), do outro o “punk” (movimento surgido na década de 70 associado, entre outros, às calças pretas, cabelo espetado e piercings). O steampunk tem vapor e punk, mas é muito mais do que isso e há quem lhe chame a “ficção científica do passado” uma vez que envolve todo um universo futurista com equipamentos tecnológicos criados com recurso a materiais de antigamente e numa ótica de reaproveitamento.

Estando o Festival Vapor – A Steampunk Circus marcado para os dias 28 a 30 de setembro, decidimos saber mais sobre este conceito junto da organização do primeiro evento do género em Portugal. O Museu Nacional Ferroviário faz parte do cenário das inúmeras atividades realizadas ao longo dos três dias e foi, igualmente, o local escolhido para nos encontrarmos com Maria José Teixeira, gestora de projetos do museu, e Mário Balsa, chefe do Gabinete de Apoio à Presidência da Câmara Municipal do Entroncamento.

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Mário Balsa e Maria José Teixeira. Foto: mediotejo.net

A entrevista não decorreu na entrada onde estará a Feira do livro, na cafetaria em que damas e cavalheiros vão defender a honra em duelos de chá, nem no lounge preparado para receber os comboios em miniatura do modelismo ferroviário. Conversámos numa sala da sede da Fundação Museu Nacional Ferroviário, junto da mesa com alguns adereços que vão “vestir a rigor” os funcionários do museu. À chegada, cruzamo-nos ainda com Ana Pereira, indicada pela Liga Steampunk Lisboa para ajudar a criar uma atmosfera genuína.

Uma vez experimentados os chapéus e guardado o braço mecânico com cabedal, fazemos a pergunta mais óbvia: “O que é o steampunk?”. Maria José Teixeira começa por revelar que organizar um festival neste âmbito é um “desejo antigo” e “talvez a ideia tenha tantos anos como o museu, ou até mais”. O conceito que o inspira é caracterizado como “um sub-género da ficção científica, uma estética” que nos anos mais recentes, nomeadamente nos Estados Unidos da América, ganhou o estatuto de “género”.

A discussão se o steampunk é “arte” surgiu entretanto por lá, navegou o oceano Atlântico – provavelmente num barco a vapor – chegou à Europa, andou por algumas urbes portuguesas e “deu entrada” numa das linhas da cidade ferroviária, a linha cultural. A autarquia e o museu juntaram-se e, em conjunto com Turismo Centro Portugal e a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, viram aprovada a candidatura ao programa “Produtos Turísticos Integrados de Base Intermunicipal” em agosto do ano passado.

Ana Pereira com o braço mecânico. Foto: mediotejo.net

Mário Balsa lembra a primeira reunião realizada neste âmbito como o momento em que decidiram “passar à prática” a ideia antiga. Contactaram-se artistas, estabeleceram-se ligações com quem conhece o assunto, como a Liga Steampunk Lisboa e o Fórum Fantástico. O Festival Vapor – A Steampunk Circus, que esteve para se chamar Steam Punk Fest, começou a ganhar a forma atual, envolvendo um financiamento de €106.000,00 e uma vez que está projetado para dois anos, cerca de 60% é aplicado na primeira edição e o restante na segunda.

Juntam-se os apoios de parceiros locais, como o Regimento de Manutenção que disponibiliza estacionamento para os visitantes até à uma da manhã nos três dias. Quem preferir o comboio pode optar pelo especial que parte do Entroncamento às 00h45 com destino a Lisboa Santa Apolónia e faz paragem em Santarém, Azambuja, Vila Franca de Xira, Alverca e Lisboa-Oriente, nos dias 28 e 29. Os interessados neste serviço devem dirigir-se ao Balcão de Acolhimento do Museu Nacional Ferroviário nos dias do festival.

Alguns adereços que serão utilizados pelos funcionários do museu. Foto: mediotejo.net

Voltando ao steampunk, segundo Mário Balsa a “lógica de ficção científica” inicialmente associada a Júlio Verne ou Mad Max evoluiu e “já abrange diversas áreas artísticas, como a música, pintura, fotografia ou o teatro”. Muitas fazem parte do programa com o teatro a surgir na sexta-feira com o espetáculo “Absurdium”, da companhia Custom Circus (22h30).

A música está representada pelos Dead Combo, que atuam à mesma hora deste sábado, e pelo Professor Elemental no domingo com um workshop (11h00) e o show “Hip Hop Steampunk” (15h00).

A literatura está presente nas bancas da Feira do Livro, ao longo do festival, na palestra “Antologia Steampunk” no sábado (12h00) e no último dia nas oficinas de escrita criativa para adultos “What you see is (less) what you get”, organizada pelo Fórum Fantástico (16h00). Há espaço para cinema e, no sábado, dá-se uma “Volta ao Mundo em 80 dias” (16h00) e explora-se o “Wild Wild West” (18h00).

No domingo, percorrem-se “Vinte Mil Léguas Submarinas” (10h00) e vivem-se “Les Aventures Extraordinaires D’Adèle Blanc-Sec / As Múmias do Faraó: As Aventuras de Adèle Blanc-Sec” (16h00).

Os mais novos têm direito aos workshops dedicados a miniaturas steampunk (14h00) e crafts (16h00), ambos no domingo, assim como a duas caças ao tesouro no museu (15h00 e 17h00). Durante o festival, além de terem a possibilidade de andar no minicomboio e nos quadriciclos ferroviários que estão no museu durante todo o ano também vão querer dar uma voltinha no carrocel vitoriano. Levados pela mão dos adultos, podem descobrir a exposição de veículos clássicos ou assistir a um duelo de pistolas nerf.

Os Dead Combo atuam no sábado à noite. Foto: mediotejo.net

Uma programação que Maria José Teixeira considera “atual, de qualidade, inovadora e criativa” e criada no sentido de “dar a conhecer às pessoas o património ferroviário do Entroncamento, o Entroncamento e aquilo que é a salvaguarda do património nacional”.

As portas vão estar abertas gratuitamente para todos e Mário Balsa acrescenta que o museu será um espaço para a família onde toda a gente pode vir usufruir tranquilamente das atividades programadas, passarem um tempo agradável e, pouco a pouco, começarem a cultivar dentro delas próprias os conceitos que o steampunk acarreta”.

E que conceitos são esses? Maria José Teixeira começa por explicar que as “raízes são no início da revolução industrial, em Inglaterra, na Época Vitoriana, daí todos estes ornamentos [aponta para a mesa], como os fascinators para o cabelo, os corpetes, as cartolas” associados “à tecnologia e daí surgirem as rodas dentadas, os foguetões em madeira que vão até à lua”. É, acrescenta, “a conjugação de um futuro numa época onde ele não existiu e tudo isto começa a florescer com as primeiras máquinas a vapor”.

Uma vez apresentada a “variante do steam”, a gestora de projetos do museu passa para a “variante do punk”, começando por destacar que este movimento “defende um novo mundo onde nós não temos que obedecer, nem subjugarmo-nos às regras que estão definidas pela sociedade, devemos diminuir e combater determinados aspetos dessa sociedade”.

Desta postura surgiu o conceito “Do It Yourself”, que implica a criação de algo com recurso a materiais que já existem e está ligado a outro, o “upcycling”, que o museu, diz, pretende trabalhar “de forma mais sustentada”.

O tempo para descansar no Museu Nacional Ferroviário durante o festival será pouco. Foto: mediotejo.net

O “upcycling” consiste no reaproveitamento de objetos e surge em substituição da reciclagem, que abomina, com uma aposta nos bens duradouros. O que hoje é utilizado num chapéu, amanhã pode dar forma a uma eletrodoméstico e, mais tarde, ser reutilizado noutra peça em que seja necessário. Tudo numa ótica de contrariar o consumismo de bens de curta duração, aliada à da proteção e sustentabilidade ambiental em que o comboio também se insere.

Questionada se falar deste festival é ir além da vertente artística e defender o conceito de steampunk, Maria José Teixeira confirma e diz que “são as sementes pois, caso contrário, não é numa primeira abordagem que se conseguem trabalhar todas estas temáticas e questões. Primeiro, há que ganhar público e que o público perceba o que é o steampunk”.

No sábado, podem conhecer-se as “As Origens do Steampunk” numa palestra (11h00) e participar na “Conversa sobre Steampunk no panorama internacional”, com Katy O’Dowd (16h00).

Um desafio na aposta em algo que a maioria do público desconhece e num concelho em que as tentativas anteriores para que um festival se afirmasse falharam. Algumas iniciativas chegaram à segunda edição, mas, além das Festas de S. João e da Cidade, poucas conquistaram periodicidade “anual”.

Mário Balsa responde que o Entroncamento “desde a sua génese, sempre foi inovador”. Segundo o representante da câmara municipal, o museu deve ser “o centro” e o “moderador natural” do debate recente em Portugal que envolve “a questão do turismo industrial e ferroviário”.

Para Maria José Teixeira, ao museu cabe a responsabilidade atrair as pessoas e estabelecer elos de ligação entre elas e este património para que compreendam a importância da sua salvaguarda e salienta “porque não fazer tudo isto com uma coisa gira? Um museu não tem que ser chato, aborrecido”.

Uma coisa é certa. Até este domingo, dia 30, o Museu Nacional Ferroviário será tudo menos aborrecido e haverá pouco tempo para descansar no novo festival movido a steampunk que começou às 20h30 de sexta-feira e recebe os visitantes a partir das 10h00 durante o fim-de-semana.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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