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Segunda-feira, Outubro 18, 2021

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Entroncamento | Ana Monteiro Ferreira, quando “tempo” não rima com “esquecimento”

Existem vidas cujos início e meio apenas conhecemos depois de atingirem o fim. Este é o caso de Ana Monteiro Ferreira, uma “self-made woman” que nasceu envolta pela História do antigo bairro ferroviário da Vila Verde e fez a sua história, ligada à paixão pela docência e causas sociais, até ao passado dia 12 de setembro. “Tempo” apenas rima com “esquecimento” quando a memória se apaga, por isso fomos recordar Ana através da irmã mais velha, Olímpia Valentim, que lhe prestou uma homenagem póstuma esta sexta-feira, dia 12, na Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

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Foi no número 11 do Bairro da Vila Verde que as “manas”, filhas de pai ferroviário e mãe doméstica, começaram a descobrir o mundo. Literalmente desde o primeiro minuto de vida uma vez que nessa altura se nascia em casa. A mesma, hoje entaipada, que Olímpia quis comprar em tempos, sem descartar a hipótese de depois a entregar à autarquia devidamente remodelada para representar “uma casa tipo” do antigo bairro ferroviário inaugurado em 1919.

Mais tarde, passariam para o número 6 da Rua Direita do Bairro Camões, quando o pai, finalmente, conseguiu subir na carreira após 20 anos como “fator de segunda” devido à participação numa greve e cujo falecimento levou a nova mudança, desta vez para a Rua 1º de Maio. No entanto, há muito para contar desde o dia em que – ainda no bairro entre o do Boneco, datado do século XIX, e o com nome de poeta, inaugurado em 1926 – que Olímpia estranhou quando a vizinha lhe disse que nessa noite iria dormir com ela.

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Facto estranho, quase tão estranho como a barriga da mãe Margarida que tinha começado a crescer sem razão aparente, da qual Olímpia “não gostava nada”, e que alguém justificara com uma ingestão desmesurada de feijões. Um desses feijões acabaria por se revelar, na manhã seguinte, na “mana” que queria ter, nascida “às quatro da manhã porque foi sempre muito apressada”. No entanto, a “coisa pequenina” deitada ao lado da mãe causou-lhe estranheza.

Nunca tinha visto um recém-nascido antes e ficou desiludida por não encontrar uma menina já crescida para brincar com ela. Brincariam mais tarde, na horta da parte de trás da habitação social da CP, projetada pelo Estado Novo para ocupar os tempos livres dos trabalhadores e assegurar que o que por ali brotava vinha do cultivo da terra e não ideias revolucionárias entre os funcionários, na maioria camponeses deslocados.

Ana e Olímpia nasceram no número 11 do Bairro da Vila Verde. Foto: mediotejo.net

O objetivo do regime não se cumpriu, contudo, no número 11 uma vez que o ambiente familiar era pouco convencional. Ali, na Rua Ferreira de Mesquita – hoje conhecida por “reta dos quartéis” devido à presença do Regimento de Manutenção Militar no lado oposto da estrada –, lia-se mais “O Século” do que a Bíblia, apesar de António, o pai, ter frequentado o seminário durante a juventude e da ida das filhas para o Liceu de Santarém de comboio levar aos comentários ouvidos pela mãe na padaria “são rapazonas”.

Quanto aos vizinhos, tinham filhos com outras idades e interesses, o que não impediu Olímpia de fazer parte das saídas, nomeadamente as recolhas de fundos através das “vendas do capacete”, promovidas pela secção feminina do núcleo da Liga dos Combatentes do Entroncamento e Vila Nova da Barquinha, localizada no número 1 do mesmo bairro. As solicitações das vizinhas eram tantas que a mãe se queixava que “nunca tinha a menina em casa”.

Ana passou de “menina chorona” a “menina muito alegre” e “traquina”, que facilmente conquistava quem a rodeava, mas cedo teve de seguir a ordem dos pais para “obedecer à mana” e “a mana tinha que tomar conta dela”. O papel de elemento mais novo do grupo nas saídas passou de Olímpia para Ana, que passou a acompanhá-la para todo o lado, a pedido da mãe. Levar a pequena nem sempre era pacífico porque era difícil “sentá-la numa cadeira”, admite, mas as coisas acabavam por correr bem.

A curiosidade da mais pequena já se revelava nessa altura, misturada com danças e cantigas em qualquer lado, e aos quatro anos foi reforçada pela ida da irmã para o liceu, passando a pedir à mãe “uma mala para ir para escola”. O antigo jornal diário que se lia lá por casa, do qual foi correspondente O.P. Brito – o “pai dos fenómenos” do Entroncamento e também morador do bairro da Vila Verde – viria a servir de cartilha para Ana aos quatro anos de idade, quando começou a querer aprender o alfabeto.

Olímpia Valentim. Foto: mediotejo.net

As perguntas multiplicaram-se. Os ensinamentos da mãe, entre lidas da casa, também e a menina aprendeu a ler muito cedo, assim como os mais velhos com as suas conversas. Um deles era o médico de família, José Eduardo Vítor das Neves, que hoje dá nome a uma avenida da cidade. Além dos conhecimentos, também a mala de cartão castanha (que era de Olímpia) para transportar os amados livros chegou antes da entrada na escola. A ânsia de estudar deu lugar ao primeiro dia de aulas e os estudos prosseguiram sem que tenha sido “aluna de vintes”.

Ana tinha 16 anos quando o pai faleceu e na casa, agora apenas habitada por mulheres, decidiu-se que continuaria a estudar apesar das limitações financeiras e assegurou os antigos sexto e sétimo anos a dar explicações e noutros empregos, como o da Rádio Ribatejo em Santarém. Foi igualmente na capital de distrito que conheceu o marido, João Monteiro Ferreira, com quem esteve casada, em primeiro lugar, no palco Teatro Rosa Damasceno.

Os finalistas apresentavam uma peça teatral e em frente à plateia foram sapateiro e sapateira. Na vida real, casaram quando Ana tinha 21 anos, ele tornou-se psiquiatra e ela docente numa carreira de cujos primeiros momentos Olímpia recorda a pequena escola para a qual os alunos tinham de percorrer oito quilómetros a pé e que a irmã mais nova revolucionou, entre outras coisas, com a criação de uma cantina.

Ainda como estudante, adiou o exame de admissão em Coimbra para não furar uma greve. Um ano depois entrava para a licenciatura de Filologia Germânica na Faculdade de Letras, onde também completou a parte curricular do Mestrado em Estudos Anglo-Americanos. As semanas eram passadas na cidade dos estudantes com os colegas e os fins-de-semana na cidade ferroviária no papel de professora com “uma casa cheia de alunos”, que faz Olímpia dizer que a irmã “nasceu para ensinar”.

A primeira publicação de Ana Monteiro Ferreira (à frente). Foto: mediotejo.net

Foi também ainda como estudante que aprendeu a ser mãe. O primeiro descendente do casal chegou quando estava a frequentar o terceiro ano e a mana mais velha soube que ia ser tia na farmácia Carlos Pereira Lucas, onde trabalhava na altura, antes da irmã lhe incumbir a tarefa de ser ela a dar a notícia à mãe. A pequena Sofia chegou e começou a ser criada em Coimbra, primeiro com o apoio da família e mais tarde com o acréscimo trazido pelo ordenado de Ana enquanto professora.

Pouco anos depois, tinha o mano Pedro por perto para brincar, mas nem sempre a mãe pois as escolas onde esta era colocada mudavam de ano para ano. O gosto pelo que se faz nem sempre consegue superar as condições em que é feito e a situação instável levou Ana a deixar de ensinar. Abandonou o caminho do ensino e meteu-se por um atalho que a levou à função de intérprete na secção de estrangeiros de uma entidade bancária em Coimbra.

No entanto, o povo diz que “quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos”, mas acrescenta que “Deus escreve direito por linhas tortas” e a experiência, pouco satisfatória, acabou por colocá-la no sentido certo. Dez anos depois, Olímpia ouvia a notícia de que Ana iria voltar a dar aulas entre as capas pretas dos estudantes. O espírito académico de Coimbra foi substituído, anos depois, pelos alunos do Liceu de Santarém na fase em que a família se tinha mudado para o Vale de Santarém.

Foi no local de trabalho, entretanto frequentado pelos filhos enquanto alunos, que Ana teve conhecimento das bolsas de estudo que lhes permitiam ter formação em Inglaterra. Os dois foram, por lá ficaram e ela continuou no liceu até o marido lhe lançar o desafio de voltarem a ser colegas no mestrado em Estudos sobre as Mulheres da Universidade Aberta (UA). Em 1999, aos 50 anos de idade, defendia a tese “Desigualdades de Género no Actual Sistema Educativo Português. Sua Influência no Mercado de Emprego”.

A tese de mestrado deu lugar ao livro que recebeu Menção Honrosa no Prémio Carolina Michaelis Vasconcelos. Foto: mediotejo.net

Um estudo transformado em livro e distinguido com a Menção Honrosa do Prémio Carolina Michaelis Vasconcelos, entregue por Maria de Belém no Palácio Foz, em Lisboa. Estávamos em 2000, o mesmo ano da pós-graduação em “Migration, Subjectivity and Deconstruction” na Universidade de Hanover (Alemanha), seguida pelo doutoramento na área de Estudos Afro-Americanos na Temple University de Filadélfia, concluído em 2010.

Na carreira profissional ainda conciliou os cargos de Assistente do Departamento de Ciências Humanas e Sociais e de Adjunta da Diretora do Instituto de Ensino à Distância com a participação enquanto membro do Centro de Estudos Americanos e do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais, todos na UA, representando o último na Comissão para a Igualdade e Direitos da Mulheres (CIDM).

Para a última etapa do percurso profissional estava reservada a Eastern Michigan University (EMU), em Ypsilanti (estado de Michigan, nos Estados Unidos), na qual continuou a fazer o que gostava, ensinar. A matéria dada era “Africology and African American Studies”, o que, segundo Olímpia, “não foi fácil” no início por se tratar de “uma branca a falar dos direitos dos negros, vinda de um país colonialista…”. Foi questionada várias vezes sobre o assunto, soube responder com a “garra” que a irmã mais velha relembra e conseguiu conquistar o respeito.

O tema iria ganhar outra relevância em breve uma vez que Ana se preparava para iniciar uma pesquisa na Torre do Tombo sobre a época colonialista. Igualmente prevista estava a publicação de um novo livro, que se iria juntar às outras obras literárias e artigos que, como “The Power of Nommo. The Case of African Literature in Portuguese Language” (Journal of Multicultural Discourses), em 2009, ou “The Demise of the Inhuman: Afrocentricity, Modernism, and Postmodernism” (SUNY Press), em 2014.

Eastern Michigan University (EMU), em Ypsilanti. Foto: DR

Muitos projetos em mãos, interrompidos de forma inesperada quando o cansaço extremo e a perda de peso acabaram por se revelar o mal do qual Olímpia diz ter desconfiado quando esteve com a irmã, em Portugal, no almoço em que esta comemorou os 69 anos. Ana tinha um tumor maligno, cancro, e acabaria por ser internada pouco depois de regressar aos Estados Unidos. O resultado dos exames não a demoveu de dar aulas, até aquela em que se sentiu mal.

Saiu do campus universitário pela última vez e viria a falecer no dia 12 de setembro. Uma partida que deixou alunos e colegas de profissão abalados e decididos a prestar-lhe uma homenagem, na qual Olímpia e outros elementos da família estiveram presentes. Nesse dia, a admiração da irmã mais velha pelo pequeno “feijão” que encontrou deitado ao lado da mãe no Bairro da Vila Verde aumentou.

Ana pode não ter voltado pessoalmente à Eastern Michigan University (EMU), mas ficou para sempre associada a ela com a criação de um mestrado com o seu nome. O respeito conquistado junto de quem a recebeu por lá já tinha sido demonstrado com o prémio atribuído no evento anual associado a Martin Luther King. Foi reafirmado com o final da homenagem póstuma junto do busto do líder do movimento contra a discriminação racial e na qual, segundo Olímpia, esteve “gente de todo o mundo”.

Na homenagem organizada por Olímpia, que teve lugar na Igreja de Nossa Senhora de Fátima precisamente um mês após o falecimento de Ana, estiveram os seus conterrâneos.

Familiares e amigos reuniram-se para recordar, ao som da Associação Concórdia Música, a “self-made woman” que viu no nome do bairro onde nasceu a cor que associava às problemáticas sociais a que dedicou parte da vida, o verde esperança. Um momento simbólico para assegurar que “tempo”nem sempre rima com “esquecimento”.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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