Entroncamento | A terra dos Fenómenos!

Uma abóbora com mais de 60 quilos veio reavivar em 2015 a memória dos Fenómenos ocorridos no Entroncamento em meados do século passado. Acontecimentos inexplicáveis na altura que se tornaram famosos nas crónicas de Eduardo O.P. Brito, também ele um caso singular do jornalismo, ao competir com Fernando Pessa no número de anos em que esteve no ativo, mais de 75.

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Perante tamanha descoberta, impõe-se a pergunta: será que a cidade continua a ser o mesmo território fecundo de estranhas ocorrências? O executivo camarário e os estabelecimentos comerciais acreditam que sim e estão decididos a valorizar este traço identitário que teve início com a notícia de um melro branco encontrado, curiosamente, fora dos limites do concelho, na zona dos Riachos. “A História das Estórias” sobre a terra dos fenómenos é apresentada em livro este sábado, às 18:00, no Auditório S. João.

Depois do melro branco veio a planta que dava batatas por baixo e tomates por cima, o carneiro com quatro cornos, o corvo que falava como gente, o pescador que pescou uma perdiz, a árvore com cinco variedades de frutos, o cacto com quatro metros, o homem com três rins, o toureiro que mordeu o touro, o ovo de galinha com 800 gramas, o pinto com três patas, a couve que dava cravos, a fava com 35 centímetros… as notícias encheram páginas nos jornais nacionais e chegaram ao “France Soir”.

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Notícia sobre o melro branco, in “Cá Pelo Burgo” de Eduardo O.P. Brito, editado pela Câmara Municipal do Entroncamento em 2008

A mistura entre a realidade e o fantástico justifica a reação “Ah, Entroncamento, a Terra dos Fenómenos!” quando qualquer entroncamentense se apresenta. E se, de seguida, lhe pedissem para contar a história? Conseguiria fazê-lo? A melhor forma de o saber foi perguntar diretamente a quem mora e trabalha na cidade.

Raúl Costa tem 17 anos, trabalha como barman e diz nunca ter ouvido falar dos Fenómenos do Entroncamento. É um caso entre poucos, mas existem. A história é do conhecimento geral e predominam as referências aos produtos hortofrutícolas. Paulo Matias, jardineiro de 48 anos, lembra-se da “oliveira de azeitonas brancas” e não chega a acordo com o colega de trabalho sobre o local onde esta se encontrava.

José Maia, 81 anos e reformado da Força Aérea, revela ser um entendido no tema e, ao contrário da maioria, conhece o papel desempenhado por O.P. Brito nos seus tempos de correspondente dos jornais “Diário Popular”, “Primeiro de Janeiro”, “Diário de Notícias” ou “O Século”. Poucos sabem que o autor das crónicas “Cá pelo Burgo” foi aluno da Escola Camões, morador no bairro ferroviário da Vila Verde, diretor do jornal “O Entroncamento” e deu nome a uma rua na Urbanização Casal Saldanha.

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Rua O.P. Brito
O jornalista na rua que tem o seu nome desde 2002, in “Cá Pelo Burgo” de Eduardo O.P. Brito, editado pela Câmara Municipal do Entroncamento em 2008

A aposta na faceta insólita do concelho não é recente. Em 2010, o município candidatou o “Festival dos Fenómenos” ao Programa Operacional Regional do Centro – Mais Centro, enquadrado no “Programa e Acção de Regeneração Urbana da Cidade do Entroncamento”. O evento nunca chegou a sair do papel.

O presidente da autarquia, Jorge Faria, defende que os Fenómenos não são um mito, mas sim algo que “nos deve agradar porque nos diferencia das outras regiões e das outras cidades”. Admite tratar-se de “uma marca distintiva que não tem sido trabalhada”, à qual o executivo pretende “dar mais consistência” com uma nova candidatura a fundos comunitários que permita desenvolver “alguma iniciativa de natureza cultural”.

O lançamento de novos produtos alusivos aos Fenómenos pela Casa Carloto é saudado por Jorge Faria, que reconhece ser esta a “única casa comercial que tem procurado usar e trabalhar essa marca” e à qual endereçou o convite para expor a nova linha de artigos de cozinha no Dia Mundial do Turismo.

Paula Carloto, atual responsável pelo estabelecimento que o pai abriu em 1950, lembra-se deste mandar fazer, por autorecriação, uma série de desenhos que corporizavam “aquelas histórias que iam aparecendo e que se iam contando, umas que eram públicas do ponto de vista jornalístico e outras que nem sequer vinham a público”. Surgiam então os famosos copos dos Fenómenos, os artigos mais antigos da coleção agora complementada por pegas, aventais, sacos e cestos do pão.

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Artigos da coleção alusiva aos Fenómenos do Entroncamento lançada pela Casa Carloto

A Dra. Paula ou “Paulinha”, como é carinhosamente conhecida na terra, caracteriza esta aposta como “um projeto de vida”, mas salienta que não pretende reinventar os Fenómenos. Quanto à veracidade das histórias conta que chegou a ouvir algumas na primeira pessoa. O entusiasmo da nova geração, a filha e o sobrinho, e a dedicação com mais de três décadas das duas funcionárias, Fernanda e Lurdes, reforçam a vontade da empresária em manter o negócio de família e dar continuidade à história dos Fenómenos por ser “um bocadinho, a história de nós todos e da vida de todos nós”.

Mas como é que, em meados do séc. XX, surgiu esta associação entre os fenómenos e o Entroncamento e como se propagou o Entroncamento como terra de fenómenos não só a nível nacional como além-fronteiras? É a essa questão que o livro “Fenómenos do Entroncamento – A História das Estórias” procura responder. A obra, com o patrocínio da Câmara Municipal vai ser apresentada este sábado, dia 30 de novembro, pelas 18:00, no Cine-Teatro S. João.

Sob a coordenação de Paula Carloto de Castro, e com a colaboração de Manuela Poitout e Manuel Fernandes Vicente, o livro explica como surgiram os fenómenos no Entroncamento dos anos 50 e como se tornaram virais a nível nacional e nos Estados Unidos, numa época em que as redes sociais eram simplesmente os encontros, as conversas e os jornais em papel.

Na ocasião vão ser apresentados mais dois originais sobre o tema em música e vídeo. Sob a autoria e coordenação de Pedro Dyonysyo e com a colaboração dos jovens artistas locais e associações e clubes da cidade, a história dos Fenómenos do Entroncamento é contada em música e num videoclipe.

Explicam os promotores que o evento, apresentado por Carlos M. Cunha dos “Comedia à la carte”, é aberto ao público em geral, e pretende ser um momento em que várias gerações se fundem no mesmo propósito: Conhecer melhor um passado e entender a atualidade dos “fenómenos do Entroncamento”.

“Este livro é uma oportunidade de conhecer as estórias dos fenómenos do Entroncamento, de que toda a gente fala e poucos se lembram e que constituem uma parte importante da história e memória coletiva de Portugal e do Entroncamento, que já nos anos 50, então vila, soube criar e afirmar um ex-libris que perdura até aos dias de hoje, através dos textos dos jornalistas Eduardo O. P. Brito e Antero Fernandes, perpetuados por desenhos em loiças e vidros por António Carloto Casa Carloto”, refere a organização.

Parece que os Fenómenos estão de volta ao Entroncamento e nunca se sabe se surgirão novas crónicas, mas sobre os antigos, porque sobre os modernos a população é unânime ao afirmar “Fenómenos? São muitos os que andam por aí!”.

*Notícia publicada originalmente em agosto de 2016 por Sónia Leitão, adaptada e republicada em novembro de 2019

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