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Domingo, Agosto 1, 2021

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Entroncamento: Quando a família é “mais tempestade que porto de abrigo” – CPVC

A sessão de março da iniciativa “Conversas com Café” decorreu na Biblioteca Municipal do Entroncamento na passada sexta-feira, dia 11. Carlos Anjos, o atual presidente da Comissão de Proteção de Vítimas de Crimes (CPVC) procurou responder à pergunta “Será ainda hoje a família um local seguro para se viver?” e os dados apresentados inquietam. A família de hoje é mais uma tempestade do que um porto de abrigo.

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As cadeiras da Biblioteca Municipal do Entroncamento começaram a receber o público para mais uma sessão mensal das “Conversas com Café” por volta das 19h00. A plateia não encheu, mas foram muitos os interessados em conhecer os dados estatísticos e os exemplos reais que Carlos Anjos, atual Presidente da Comissão de Proteção de Vítimas de Crimes, tinha para apresentar sobre a violência doméstica em Portugal.

A exposição mediática do tema é regular, mas não por se tratarem de situações insólitas, antes pelo contrário e os números apresentados por Carlos Anjos comprovam-no. Segundo o ex inspetor-chefe da Polícia Judiciária, um entroncamentense, a média anual de queixas por violência doméstica ronda as 28.500, sendo muitas delas falsas denúncias. No entanto, o valor não ficará muito longe da realidade se forem considerados os casos em que o silêncio ganha a batalha.

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Mesmo assim, a família continua a ser sinónimo de segurança? Para Carlos Anjos “manifestamente não é”. No ano passado foram cometidos 2009 crimes contra idosos, sobretudo mulheres, pelos filhos e outros familiares, inclusivamente os netos. O número é superado pelos crimes sexuais contra menores, mais de 2500, com a salvaguarda de que muitas denúncias derivam de divórcios conflituosos e acabam por se revelar falsas. Entre os que se confirmam, 80% são praticados no seio da família mais próxima.

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Carlos Anjos e a vereadora Tília Nunes

Uma das causas apontadas pelo ex-presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal (ASFIC) da PJ é a falta de tempo dos pais e a tentativa de delegar a responsabilidade de educar os mais novos na escola. Carlos Anjos defende que este organismo tem perdido competências devido às medidas impostas pelos sucessivos governos e atualmente “não tem capacidade para dar mais do que o saber”.

A criação de um guião comportamental pelos Conselhos Executivos das escolas e a introdução da disciplina de Cidadania no primeiro ciclo do ensino básico foram duas soluções possíveis apresentadas por Carlos Anjos para resolver um problema que considera ser “gravíssimo”.

Carlos Anjos alertou também para o facto desta situação ter forte tendência para se agravar na próxima geração, que não recebeu da família nuclear valores essenciais como a cidadania e dará continuidade a estes comportamentos por considerar o ambiente de violência doméstica “normal”.

Quando este tipo de violência resulta em morte os números médios dos últimos 12 anos revelam outra realidade preocupante, os 110 casos registados por ano traduzem-se em cerca de dois homicídios por semana. Só este ano já ocorreram seis e entre eles encontram-se os casos de “homicídio por dor” em que as mães matam os filhos. Carlos Anjos, deu os exemplos do menino de 11 anos da Madeira e das duas meninas da praia de Caxias, assassinados pelas progenitoras nos passados meses de janeiro e fevereiro, respetivamente.

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O tema levou interessados à Biblioteca Municipal, mas não encheu a sala

Para o presidente da CPVC, o “laxismo” e o “egoísmo” dos adultos da sua geração, enquadrados pelo contexto social de população envelhecida e taxa de natalidade reduzida, provocaram uma “sociedade suicidária”. A resposta, diz, passa por contrariar o individualismo e a permissividade dominantes e concentrar o esforço na educação dos valores mais importantes. Segundo Carlos Anjos os “valores ético-morais estão completamente invertidos” e é fundamental transmitir a memória “porque a memória é cidadania”.

O público presente concordou com o antigo jogador do Clube Amador de Desportos do Entroncamento (CADE) e no período que se seguiu à sua intervenção alguns cidadãos ligados às áreas do ensino e da saúde apresentaram exemplos concretos do concelho. Casos locais que trazem os números nacionais da violência doméstica para paredes meias, comprovando que a família deixou de ser um porto de abrigo e que a tempestade pode estar mesmo ao nosso lado.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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