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Domingo, Setembro 26, 2021

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Entrevista | ZêzereArts, o festival de música clássica criado por Brian MacKay está de volta

Não é um Festival de música como os que costumam mover multidões no verão, mas têm sempre público assegurado. Com uma matriz simultaneamente formativa e performativa, o ZêzereArts está de volta com os seus espetáculos únicos de música erudita em locais históricos da região, como o Convento de Cristo ou as igrejas centenárias de Dornes.

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Com todos os concertos gratuitos (só a ópera terá um preço simbólico, de 3 euros), o ZêzereArts começou no dia 18 de julho e vai marcar a agenda cultural dos concelhos de Ferreira do Zêzere e Tomar até ao dia 8 de agosto.

Embora mais restringido aos instrumentos de cordas, uma vez que os coros ainda não são recomendados devido à covid-19, o festival que nasceu do sonho de Brian MacKay cumpre este ano a sua 11ª edição. A questão pandémica, que em 2020 atirou o festival para terras alentejanas (Évora), não é descurada, e estão a ser tomadas muitas precauções, com testagens regulares a todos os músicos, por exemplo, naquele que é “um grande trabalho de organização”.

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Entre garfadas de carne de porco à alentejana, numa das breves pausas entre aulas, ensaios e montagens, o mediotejo.net esteve à conversa com Luís Cunha e Brian MacKay, diretor pedagógico dos cursos de cordas e diretor do festival ZêzereArts, respetivamente, que falaram sobre a vontade de continuar a “servir a cultura, a arte e a região” e o que torna o ZêzereArts tão especial.

Luís Cunha e Brian MacKay, diretor pedagógico dos cursos de cordas e diretor do festival ZêzereArts, respetivamente. Créditos: mediotejo.net

Como sabemos, este é um ano atípico. Quais são as expectativas para esta 11ª edição do ZêzereArts?

Luís Cunha: Além da programação do Festival ZêzereArts, desenvolvemos outra programação geral ao longo do ano através da Musicamera, organizadora do festival, e na retoma temos tido a agradável surpresa de ter sempre salas cheias. As pessoas estão com muita vontade de consumir cultura, de participar, de sair de casa. Mas, por outro lado, também não é difícil ter as salas cheias devido ao número reduzido de pessoas permitidas nas salas. Ficamos satisfeitos por poder fazer atividades e realizar concertos, só temos pena de que não seja viável fazê-lo como antes. O ZêzereArts costuma ter muito boa adesão e portanto aqui nesta região nunca tivemos problemas de público, seja público local ou estrangeiro, que está em visita por exemplo ao Convento de Cristo e que depois assistem aos espetáculos.
Brian MacKay: Este ano a dificuldade vai ser esta, a questão pandémica, que é geral e que vai condicionar bastante a capacidade das salas. Mesmo no Convento de Cristo, e mesmo ao ar livre, temos 80 lugares. A distância de 2 metros entre cada lugar rouba muito espaço, enche-se muito rapidamente.

Este ano para o Convento de Cristo estão agendadas duas atuações, nos dias 22 e 24 de julho. Créditos: ZêzereArts

Quais as novidades para esta edição?
Brian MacKay:
O que há de mais diferente é a Ópera no Cine-Teatro Paraíso, em Tomar, onde nunca fizemos um espetáculo. É uma ópera completa com orquestra, montagem, cenário, guarda-roupa. É um progresso para nós. O festival começou com ópera, mas a ópera é sempre complicada e cara de montar, mas queremos manter a nossa ligação com este género artístico. O festival sempre teve esta vertente de cantores e instrumentistas, nunca foi ou um ou outro, e a ópera tem tudo, tem teatro, cantores, instrumentos. É mais complicado, mas é também muito satisfatório de se realizar.
Luís Cunha: A ópera vai ser montada já e vamos estar em residência três semanas a trabalhar com o maestro Brian MacKay e o Chris Cowell [encenador de ópera internacional], especialista nesse tipo de trabalho, e com cantores da nova geração, a maior parte deles portugueses. Por outro lado, mesmo neste contexto muito difícil, porque o canto e o uso da voz é considerado como potencialmente transmissor do vírus, insistimos em fazer um programa cultural no âmbito do festival com um coro de câmara jovem, profissional e reduzido (8 elementos), o grupo Moços do Coro. O concerto é no Mosteiro da Batalha no dia 29 de julho (às 21h), naquela que é a única intervenção fora dos concelhos de Ferreira do Zêzere e Tomar.

Como correu este ano ao nível da afluência de alunos?
Luís Cunha:
Foi a melhor de sempre. Este é o ano em que temos mais gente, e o nível é também particularmente elevado, o que se deve a vários fatores. Desde logo porque fomos teimosos e avançámos com o festival quando a maior parte das pessoas não o fez – existem diversos cursos deste género em Portugal que este ano optaram por não avançar – mas nós achámos que tínhamos condições para o fazer em segurança. Obviamente que envolve um grande trabalho de organização. Toda a gente foi testada à chegada, vai ser testada a meio da semana novamente, os intervenientes da ópera vão ser testados diariamente, estamos a tentar ao máximo manter as regras, como o distanciamento, trabalhar com grupos mais pequenos, quando são grupos maiores manter todos os participante afastados entre si… enfim, é um trabalho duplicado assim nestas condições, mas achámos que merecia ser feito e todos reagiram com muito entusiasmo, principalmente os mais novos, que estavam desejosos de sair de casa.

O Festival ZêzereArts junta jovens estudantes com músicos profissionais com vários anos de experiência. Créditos: ZêzereArts

Como está a ser este ano a experiência de reunir pessoas de várias nacionalidades em aulas, ensaios e concertos?
Brian MacKay:
Relativamente a este ano, por um lado foi mais fácil do que estava à espera, mas por outro é muito difícil. Difícil no sentido em que foi complicado gerir esta questão dos alunos que vêm do estrangeiro, como os do Reino Unido, por exemplo, quando as regras mudam quase diariamente, o que levou a que inclusivamente fosse considerada a possibilidade de este ano se realizar o festival exclusivamente com portugueses, de forma a evitar esses constrangimentos.
Luís Cunha: Mas de facto este ano está a dar-nos uma esperança de continuidade. Toda a gente está farta de ouvir falar em vírus e em pandemia. Este ano o festival ocorreu na mesma e é o curso que tem mais estrangeiros de sempre, são 10 estudantes estrangeiros que vieram e quiseram estar connosco mesmo sabendo que provavelmente quando regressarem terão de fazer quarentena. E não é que sejam pessoas inconscientes, são é pessoas com vontade, e sinto-me grato pelo positivismo que o festival está também a propiciar.

Qual é o grande objetivo do ZêzereArts?
Brian MacKay:
Acho que são duas coisas, sobretudo: primeiro, a oportunidade de juntar músicos de vários tipos. Falando num ano normal, juntamos instrumentistas de 11, 12 e 13 anos com cantores de mais de 70 anos que ainda cantam nos coros. Juntamos músicos profissionais, amadores, estudantes, coros, ópera, música de câmara, solos, e esta “mistura” é algo muito importante para nós, mesmo os músicos profissionais aprendem muito assim, a trabalhar com um grupo tão variado. Por outro lado, é o criar concertos e performances para o público da região, poder contribuir artística e culturalmente para a região. Esta junção que fazemos da cultura “imaterial” com a cultura “material”, tendo a oportunidade de valorizar o património. Eu tenho a ideia de que quase toda a gente quando entra num monumento histórico pensa que aquilo é um sítio “morto”. Mas se lá estiver a decorrer um ensaio, alguém a cantar ou até a pintar, se houver alguma atividade artística lá dentro, aquilo passa a ser um sítio vivo, e este aspeto é muito importante.
Luís Cunha: Esta fusão é realmente muito importante. Quando pensamos em património pensamos em pedras, mas essas pedras tiveram criadores, tal como as obras que nós criamos e apresentamos. E é essa interação que pensamos que deve ser estimulada. É maravilhoso para nós podermos fazer música em monumentos que são Património Mundial, é uma experiência enriquecedora a todos os níveis. Além do mais, este festival tem também a característica de apresentar uma matriz simultaneamente formativa e performativa. Ou seja, formamos enquanto performance, e temos também todo o empenho em propiciar a apetência cultural.

Tem sido notória uma evolução no festival?
Luís Cunha:
Sim, e muito grande, eu acho. Todos os anos o festival tem tido cada vez mais dinâmica, é cada vez mais abrangente a todos os níveis e temos conseguido estimular e aprofundar o contacto com os públicos e as instituições locais. Neste aspeto temos tidos altos e baixos, como é normal, mas temos cada vez melhor relação com as instituições. Vila Nova da Barquinha, por exemplo, descontinuou o apoio que nos dava (devido a restrições no orçamento, até porque também é um concelho mais pequeno), mas por outro lado parece que se abriram as portas de Ourém. Acho que há uma boa dinâmica nesta região e nós vamo-nos tentando incluir melhor nessa dinâmica. Estamos aqui também para, de alguma maneira, servir a região e, num sentido mais lato, a cultura e a arte. E as coisas têm funcionado progressivamente melhor. Sabendo que nada é perene, sentimos que neste momento um ano sem festival é um ano mais triste em Tomar e em Ferreira do Zêzere. O ano passado permitiu-nos perceber isso, e às pessoas locais também. “Somos sempre muito bem-vindos, e cada vez mais”, concordaram os diretores, enquanto pegavam numa peça de fruta e se encaminhavam já para o próximo ensaio.

Pode consultar a programação completa nesta notícia.

Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo. Ávido leitor, não dispensa no entanto um bom filme e um bom serão na companhia dos amigos.

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