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Quarta-feira, Outubro 27, 2021

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Sertanense | João Manuel Pinto: “O que mais peço aos meus jogadores é que nunca parem de correr” (c/vídeo)

Em período de preparação para o arranque da época do Campeonato de Portugal, a 12 de agosto, fomos conhecer o benfiquista ferrenho que faltava às aulas para pedir autógrafos, o ex-futebolista que ganhou tudo o que havia para ganhar em Portugal enquanto envergava a camisola do FC Porto mas que, curiosamente, se lançou na alta competição como jogador de râguebi. Fomos conhecer o outrora defesa que agora só pensa na estratégia de ataque da sua equipa, vestindo a pele de treinador do Sertanense Futebol Clube, nesta que será a sua sexta experiência aos comandos de uma equipa.

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Foto: Jorge Santiago/mediotejo.net

B.I.

Nome: João Manuel Pinto

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Idade: 45 anos. Nascido a 26-05-1973

Naturalidade: Lisboa

Carreira futebolística: Desportivo de Chelas (Jun.), Olivais (Jun.), Oriental (Jun.), Campomaiorense, Belenenses, FCPorto, SLBenfica, Ciudad Murcia e FC Sion [fim de carreira aos 34 anos].

Conquistas: 32 Golos em 340 Jogos. 4 x Liga Portuguesa. 2 x Supertaça Cândido de Oliveira. 3 x Taça de Portugal. 1 x Schweizer Cup (Suíça)

CV do Treinador: Cinfães (2013/14), clube suíço Martigny-Sports (2014/15), Moncarapachense (2016/17 e 2017/18), Lusitano de Vila Real de Santo António (2017/18). Coordenador de formação no clube brasileiro Associação Portuguesa de Desportos (2016).

ENTREVISTA

Como surgiu o futebol na sua vida? Praticou outras modalidades?

Tenho 45 anos, pertenço a uma geração que cresceu com o futebol. Eu adorava jogar à bola, era um adepto ferrenho. Hoje há muita facilidade de ter uma bola, e ainda bem. Mas na minha altura não…

No conceito de jogo de rua?

Sim. E tenho imensa pena que isso tenha acabado, o jogo de rua. Penso que também pelo facto de existirem academias de grandes equipas a formarem jogadores. Na altura não, a formação que tínhamos era de rua. Hoje já não se vêm esses talentos, mas sim, talentos a serem construídos de pequeninos.

Fui crescendo, e nunca pensei em ser jogador de futebol em alta competição, adorava e era uma paixão. Era sócio benfiquista e ia tanto ao Estádio da Luz… muitas vezes até faltava às aulas para ir pedir autógrafos ao jogadores. E mais tarde, o mais engraçado nisto tudo, é que cheguei a reencontrar alguns como colegas de equipa.

No SL Benfica, onde esteve nas temporadas 2001/2002>2002/2003. Foto: Paulo Carriço/LUSA

Mas outras modalidades entraram na sua vida…

Sim. A minha primeira modalidade foi râguebi. Adorava jogar. Tudo o que era bolas, eu gostava… [risos] Comecei a jogar desafiado por um primo meu, que adorava, e me convidou. E estive dois anos a jogar no clube lisboeta São Miguel, em Alvalade, treinávamos nas instalações do CDUL (Centro Desportivo Universitário de Lisboa). Foi o meu primeiro desporto a sério, de alta competição.

E eis que surge o futebolista João Manuel Pinto. Consegue referir qual o clube que mais marcou a sua carreira?

Posso dizer que, de todos os clubes por onde passei, houve sempre grandes histórias que ficaram na memória. Mas neste caso, o FC Porto, pela mística do clube e por conhecer o presidente. Foi dos melhores presidentes com quem eu tive oportunidade de trabalhar, pela sua cultura e saber estar no futebol. E porque no Porto tive oportunidade de ganhar tudo em Portugal: quatro Campeonatos nacionais, a Supertaça e a Taça de Portugal.

Durante a estadia pelo Belenenses (segundo à esquerda, em cima). Foto: Belenenses Ilustrado

No Porto tive oportunidade de ganhar tudo em Portugal: quatro Campeonatos nacionais, a Supertaça e a Taça de Portugal.

Tive o privilégio de, antes do Porto, ter sido considerado um dos melhores centrais em Portugal. Mas também o Benfica me marcou, porque era o clube do coração e onde cheguei a ser capitão de equipa, e o Belenenses, que foi um clube simbólico e histórico. E o Sion, na Suíça, onde acabei a carreira devido a uma lesão grave, aos 34 anos.

Há algum momento ou pessoa que lhe mereça admiração, que também seja marca deste capítulo da sua vida?

Marcaram-me imenso muitos treinadores que tiveram a coragem de me lançar. Na minha geração era muito difícil um treinador lançar jovens nestes campeonatos. Eu lembro-me que tinha 17 anos e fui lançado pelo Francisco Barão, que hoje é treinador do Sporting, de toda da formação e da equipa B, teve a coragem de me lançar numa equipa sénior, quando eu estava no Clube Oriental de Lisboa. Foi tudo muito rápido. Estava em escalões inferiores, nas camadas jovens, e num ápice já estava na Primeira Divisão.

Mas no geral, todos os treinadores marcaram a minha vida, alguns métodos de trabalho que aprendi, como no caso do José Mourinho, quando esteve no Porto. E o Bobby Robson é o treinador que mais me marcou, porque tinha uma forma de estar… Era um gentleman do futebol, tinha um amor por golos, tinha uma forma de trabalhar só ofensiva, nunca queria saber da defesa. E a forma como comunicava, em inglês com português mal introduzido, é inesquecível. Sabia estar no futebol, era uma pessoa muito educada. Mas tantos outros me marcaram, desde o Camacho, o Jesualdo Ferreira, o Fernando Santos… Todos me marcaram muito porque tinham uma experiência muito grande. Marcaram-me como homem e como profissional.

O Bobby Robson é o treinador que mais me marcou… Era um ‘gentleman’ do futebol, tinha um amor por golos, tinha uma forma de trabalhar só ofensiva, nunca queria saber da defesa.

Terminou a sua carreira enquanto jogador em 2007, correto? À partida, já sabia que não tiraria o futebol da sua vida?

Eu tinha outro sonho. E a certa altura da carreira, a partir dos 30 anos, começas-te a aperceber que há algo que tens de fazer da tua vida a seguir ao futebol. Tens várias escolhas, e eu por acaso tinha uma que me chamou a atenção: porque não abrir uma academia minha? Abri uma academia em Tarouca, e as coisas correram muito bem, tive imensos jovens, num trabalho de cerca de 5 anos. É um trabalho fantástico, adoro treinar crianças, adoro ensinar. Acho importantíssimo, aquilo que eu não tive enquanto era criança, hoje há outras possibilidades e condições. Mas chegas a uma altura em que pensas que queres mais… E eu quero sempre mais. É tipo uma escada, e queres sempre subir e ter mais desafios.

Como surgiu a oportunidade de se tornar treinador?

Começou no Sion, na Suíça, depois da lesão grave que me levou a abandonar a carreira de futebolista, mas conseguimos outra solução, e fui treinar os Sub-21 durante cerca de 7 meses, até acabar o contrato. Fiz o curso ao mesmo tempo em que abri a academia para as crianças. Depois da academia, seguiu-se o Cinfães, voltei a treinar uma equipa suíça, depois fui para o Moncarapachense, depois para o Lusitano de Vila Real de Santo António e hoje estou aqui. Este é um dos trabalhos mais desafiantes do mundo. E tem riscos. Porque quando entras dentro de um clube, no primeiro dia em que assinas, já estás em risco. Porque existe uma caderneta de treinadores que podem vir a entrar para o teu lugar.

Foto: Jorge Santiago/mediotejo.net

O que dizer da experiência até agora? É fácil ser treinador? Ou é mais fácil ser jogador? O que é mais desafiante?

É muito mais fácil ser jogador, porque vens preparado para um treino, fazem o que lhe mandam, tens uma hora e meia para trabalhares, para mostrares, para aprenderes. Depois fazem o que eles quiserem, vão para casa, vão passear… O treinador não. Estamos sempre a trabalhar, mesmo quando o jogo acaba ou a época, tens de te juntar com a equipa técnica, pensar no que correu bem e que no que correu mal, o que podemos mudar… E já estamos a pensar no treino da próxima tarde. E quando estamos a almoçar só falamos de futebol. Eu, mesmo quando estou em casa com a família, às vezes, de repente pego numa folha e já estou a pensar no que vou fazer…

Ao longo de 5 anos já passou por clubes distintos, dentro e fora do país, e esteve um ano na formação. Como surge este convite para assumir os comandos do Sertanense FC? Já conhecia a vila da Sertã?

Não conhecia a vila, mas conhecia o clube, nomeadamente através de um empresário brasileiro que me pediu ajuda para colocar aqui dois jogadores, há uns anos. Quem diria que vinha cá para como treinador? O convite surgiu através de um amigo meu que sabia que o Sertanense procurava um treinador. E percebi que os objetivos apresentados pelo presidente do SFC se enquadravam nos meus.

Vai optar por estabelecer aqui residência durante o contrato?

Vou ficar por cá. A família fica pela casa de Lisboa, e agora nas férias pela casa do Algarve. Estou aqui, um pouco longe da família, mas tenho sempre oportunidade de, quando quero, ir ter com eles. Temos boas autoestradas. Seria pior se estivesse no estrangeiro e isso dificultaria bastante. Vivo aqui e vivo para o Sertanense neste momento, o que faz com que tudo seja muito intenso e goste cada vez mais do que faço.

Estou aqui, um pouco longe da família, mas tenho sempre oportunidade de, quando quero, ir ter com eles. Temos boas autoestradas.
Vivo aqui, e vivo para o Sertanense, neste momento

Já se contam algumas semanas de avaliação e reconhecimento do clube. Quais os maiores desafios que um clube como o Sertanense acarreta? Já estudou a estratégia para a temporada que se avizinha?

O maior desafio é a contratação e construção do plantel, isso para mim é o mais importante. Porque sem um plantel bastante competitivo, que proporcione a rivalidade entre os jogadores para que cada um ganhe o seu espaço… é um clube que não tem grande orçamento, como tantos outros na região. E que com pouco tem feito muito. E passa por aí, com pouco continuar a fazer muito. O importante é perceber o que nos está a faltar, do que precisamos mesmo.

O futebol pode assumir um papel importante, também num contexto social. O treinador tem aqui outro papel além de comandar a equipa?

Um treinador tem um grande papel pedagógico. Não nos podemos esquecer que a maioria dos jogadores vêm de fora, que se concentram todos em apartamentos e estão fechados. E eu terei de ter sempre algo para fazer com eles, não só trabalhar, mas arranjar outras formas de se exprimirem e também socializarem. Alguns até podem ser casados, ter namoradas, outros terem de deixar os pais… Aí o meu papel não é só tático, mas também pedagógico e mostrar-lhes que estou na mesma situação.

Foto: Jorge Santiago/mediotejo.net

Nota que o futebol se vive tão ou mais intensamente nos pequenos clubes como nos grandes?

É diferente. Muito mais difícil aqui. Porque num clube de Primeira Divisão, tens tudo, não falta nada. Têm outras condições, outras formas de trabalhar, outros objetivos, outros orçamentos… Acaba por ser sempre bom. Será certamente um desafio para mim. Porque quando chegas a um clube e tens só dois jogadores da época passada… é difícil. Mas não podemos desistir. É esta a minha forma de estar, de liderar as minhas tropas: vamos para guerra fazer o melhor possível.

Enquanto treinador, muito provavelmente o que mais o alegra serão os golos marcados na baliza adversária… mas e o que mais o tira do sério?

Sou muito exigente, sou um treinador que nunca se senta no banco. Vivo o futebol, e por vezes quase quero entrar dentro do jogo, porque passei anos e anos a jogar futebol. Mas dedico-me sempre aos meus jogadores da melhor forma, tenho uma boa comunicação com os árbitros, mas às vezes não é fácil. Porque nós também somos seres humanos e por vezes, quando vemos injustiças, não é fácil controlar. Eu acredito na arbitragem, temos bons árbitros, mas não posso concordar nunca com um árbitro quando erra muitas vezes num jogo de futebol. Ao errar uma, duas vezes… eu também erro. Agora não concordo que erre muitas vezes só para o mesmo lado. Mas sou um treinador tranquilo, não sou de grandes espetáculos. Nunca paro é na minha área… Às vezes estou quase na área do outro treinador, e o próprio fiscal vai-me lá buscar.

Sou muito exigente, sou um treinador que nunca se senta no banco. Vivo o futebol, e por vezes quase quero entrar dentro do jogo, porque passei anos e anos a jogar futebol.

Temos o melhor jogador do mundo. O que é preciso ter, que traços de perfil, se exigem para ser um bom futebolista? A fasquia subiu muito desde a década de 90?

A informação chega muito mais rapidamente e temos a televisão, que tem sido fundamental na transmissão daquilo que é o grande exemplo para toda a juventude. Se tudo queres, tens de trabalhar. Ele ganhou porque foi o melhor, porque trabalhou, nunca desistiu, sempre com a ajuda dos colegas, porque é um desporto coletivo… quem quiser jogar individualmente vai jogar ténis. Lembro-me de um discurso do José Mourinho em que ele disse que há dois jogadores no mundo de quem não se pode dizer nada, nem criticar. São dois jogadores de outra galáxia: Messi e Cristiano Ronaldo.

E o que eu digo às pessoas é que apreciem… porque, um dia, eles vão acabar. E dificilmente nos próximos dez anos vamos ter jogadores com esta qualidade. Que possamos estar sentados a apreciar as suas qualidades, e acima de tudo aprender – especialmente esta nova geração, quem quer ser jogador de futebol. O Ronaldo é um exemplo para esta juventude, é sempre o primeiro a chegar ao balneário e o último a sair. É muito focado no seu desempenho e trabalho.

No jogo treino com a AD Mação, uma semana após a sua chegada ao clube sertaginense. Foto: Jorge Santiago/mediotejo.net

Um jogador treinado por si… quais as exigências e características? O que é que não pode falhar?

Eu costumo dizer, e logo no primeiro dia, que há duas ou três coisas importantes na minha vida, na forma de estar com os meus jogadores: sejam felizes naquilo que fazem, tenham prazer naquilo que fazem e nunca parem de correr. Se eu estou a ganhar, não parem de correr. Se estamos a perder, temos de correr duas vezes mais. Nunca parem de correr para que, no final do jogo, pensem que perdemos, mas demos tudo. Não vou abdicar disto: nunca parem de correr. Porque quem não corre comigo… out!

Qual a sua maior ambição? Existe(m) algum(ns) clube(s) que estejam na lista e que gostaria um dia de vir a treinar?

Tenho o orgulho de dizer que, e vendo o meu currículo [de 5 anos de treinador], com muito pouco eu tenho feito muito. Mas é claro que gostava de treinar o Benfica, o Sporting, o Porto, a Académica… toda a gente tem esse sonho e mal de nós se não pensássemos assim. Significaria que não tínhamos ambições e desafios. Eu sou muito feliz naquilo que faço, e gosto de trabalhar onde me possam dar condições para eu realmente mostrar o que tenho para mostrar. Gosto de ensinar e motivar. Mas claro que sim… gostava de treinar um grande clube da Primeira Divisão.

Foto: Jorge Santiago/mediotejo.net

Para terminar… o que podem os adeptos e sócios do Sertanense e os sertaginenses esperar de si e da sua equipa neste Campeonato? Que mensagem lhes deixa?

Eu habituei-me como jogador a ser muitas vezes aplaudido, criticado, e como treinador é exatamente igual… Mas peço que nunca deixem de apoiar os jogadores. Podem criticar sempre o treinador, é normalíssimo e estou cá para aguentar isso e serei sempre eu a defender os meus jogadores. Mas apoiem a equipa acima de tudo.

O que prometo aos sócios é dedicação ao clube, dar o máximo, fazer com que a equipa seja sempre competitiva. Que os jogadores trabalhem e que façam sempre o melhor por eles e pelo clube que representam e onde são pagos. Não posso prometer 30 jogos, 30 vitórias… Não posso prometer que vou subir de divisão, ninguém pode fazê-lo! Mas agradeço ao presidente a oportunidade de trabalhar neste clube, um clube histórico e que há muitos anos anda nesta divisão. Peço às pessoas que apoiem sempre os jogadores e que acreditem neste projeto, estamos a trabalhar por isso também.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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