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Sexta-feira, Setembro 17, 2021

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Entrevista | Psiquiatra Luís Patrício denuncia: “Nunca se consumiram tantas drogas como agora”

É contundente nas críticas ao poder político sobre o que podia ter sido feito em matéria de saúde e de prevenção. De voz suave mas com um discurso veemente, o psiquiatra Luís Patrício corre o país com a sua “mala da prevenção”, pela saúde e contra o crescente abuso de substâncias, compras, comida ou internet, considerando urgente que se diga “a realidade das coisas”. Em entrevista ao mediotejo.net denunciou também o abuso de um medicamento para dormir entre jovens do distrito de Santarém.

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Natural de Mação, Luís Patrício é um dos mais destacados especialistas nacionais na área das patologias aditivas. É autor de programas pedagógicos em televisão, rádio e imprensa, tendo publicado seis livros. Criou o projecto “mala da prevenção”, além de um blogue com o mesmo nome. Foi diretor do Centro de Recuperação das Taipas, em Lisboa, até 2008. Dirige desde 2011 a Unidade de Aditologia e Patologia Dual, na Casa de Saúde de Carnaxide. Recebeu a medalha de prata por Serviços Distintos do Ministério da Saúde em 2008, foi galardoado em Zagreb pela Associação Europeia EUROPAD, com o Europad Chimera Award em 2010, e em Filadélfia pela Associação Americana AATOD, com o Nyswander/Dole “Marie” Award, em 2013.

Mala da Prevenção. Foto: Luís Patrício

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A prevenção continua a falhar?
No meu entender há uma carência muito grande de educação para a saúde. Há carência grande de educação na família e carência de educação para a saúde e os professores e agentes escolares não estão preparados, no meu entender, como eles gostariam de estar para poder intervir. Um dos trabalhos da “mala da prevenção” é no âmbito escolar, um patamar de adultos, um da saúde. As famílias demitem-se muitas vezes da responsabilidade da educação… A escola é a defesa quando a família não realiza, e quando falo de escola, falo da primária até à universidade. É vergonhoso o nível de abusos e de comportamentos de risco no âmbito universitário. É vergonhoso, é escandaloso, mesmo. Esconde obviamente outros interesses e são as pessoas que depois vão para a sociedade exercer funções.

“É vergonhoso o nível de abusos e de comportamentos de risco no âmbito universitário”

É vergonhoso dizer toxicodependente? Não é, estamos a falar de comportamentos de risco, comportamentos de abuso, é necessário mudar a linguagem e é necessário que os políticos percebam que se mantiverem tudo como está, continua tudo na mesma.

Em relação à cocaína, o consumo nunca foi como agora, o consumo abusivo de álcool nunca foi como agora, o consumo de cannabis, de qualidade desconhecida, nunca foi como agora, o consumo de substâncias sintéticas nunca foi como agora… e o mau uso de medicamentos tem um significado bastante intenso na população em geral.

No âmbito de outros comportamentos de risco que hoje são banais, dada a modernidade, o mau uso da internet é escondido mas é real, o vício do jogo é escondido mas é real, tal como sucede com as compras, o sexo ou a alimentação. É escondido mas é real. O consumismo está a engolir as pessoas. O trabalho também se pode tornar uma dependência patológica de risco, mas isso socialmente é bem visto, as famílias é que sofrem.

“há doentes que vão buscar receitas dadas por psicólogos e nunca viram sequer o médico”

Acho que é preciso falar a verdade. É escandaloso que durante 18 anos, depois da publicação da lei de 2001 [considerada exemplar a nível mundial], não tenha sido feito nada a uma série de procedimentos ligados a comportamentos de risco com substâncias. Que respostas temos?

Faltou vontade política?
Entendo que os políticos gostam muito de ouvir “está tudo bem”.

Mas não está…
A evidência mostra. A força é tal que, nunca me tinha acontecido na vida, já tive “entrevistas brancas”, em televisão e por escrito, nada aparece. Isto tem de ser dito.
Há uma verdade da conveniência, e eu defendo a verdade da realidade.

“o consumo de cocaína nunca foi como agora, o consumo abusivo de álcool nunca foi como agora. o consumo de cannabis, de qualidade desconhecida, nunca foi como agora. o consumo de substâncias sintéticas nunca foi como agora…”

Há interesses ocultos?
Há estagnação e retrocesso. Se forem dizer a um político que está tudo bem… Nós tivemos em Portugal, durante um período, o retrocesso do acesso ao álcool, de bebidas fermentadas, dos 18 para os 16 anos. Era um período para fazer experiências. Durante esse período, um pai veio ter comigo e disse-me: A minha filha diz que é legal, embebeda-se à vontade. Eu disse: “Mas o senhor é que manda lá em casa, não queira saber se é legal mas se ‘é legal’ (ler com sotaque brasileiro)…”. Enquanto a maioria dos deputados forem consumidores disto ou daquilo, legalizam o que for. É normal, do ponto de vista quantitativo, do ponto de vista qualitativo, atenção. Quando a mediocridade sobe, quem tem mais conhecimento tem que sair fora para não incomodar e quem sobe fica contente e bate palmas.

E continua tudo na mesma…
Continuamos a piorar, por uma razão simples: o patamar educativo que tiveram os avós e foi transmitido aos filhos, excelente. E depois que levam os filhos aos netos? Volto à história: “Sem educação pai galego, filho fidalgo, neto ladrão”. E é preciso falar a verdade da realidade e não a verdade da conveniência. Para os políticos tudo o que é inconveniente, desaparece. No âmbito da saúde, temos de olhar a realidade, senão a patologia avança, avança muito e mina, estraga. E alguém vai pagar a fatura. Seguramente, serão os netos.

Não tem havido interesse das forças políticas?
Quando foi feita a redução do risco, em 2001, foi um avanço extraordinário. Daí para cá, muitos políticos passaram pela política, muitos responsáveis, e o que é que aconteceu? Eu vou lá fora (estrangeiro) e dizem-me: “Em Portugal é uma maravilha.” Mas cá dentro é outra realidade. Tenho colegas que têm medo de falar. Há uma censura priorizada, uma auto-censura e, digo mais: há auto-censura na comunicação social.

A situação não é cor-de-rosa, como se diz, mas de há muitos anos. Em 2008 demiti-me [do Centro das Taipas, em Lisboa], e não foi por acaso. Foram criadas condições para que não houvesse condições. E depois fui-me embora. Ofereci-me para ser voluntário, voltei ao serviço passados dois anos. Ao final de um ano mandaram-me embora, [nem queriam o meu] trabalho de borla.

“A situação não é cor-de-rosa, como se diz, mas de há muitos anos. Em 2008 demiti-me [do Centro das Taipas, em Lisboa], e não foi por acaso”

O projeto da “mala da prevenção” surge…
Foi apresentado em 2002 no Ministério da Saúde, para ser avaliado, não tive resposta. Em 2008, escrevi, não tive resposta. Escrevi segunda vez, só para saber se teria valor ou não, mas fiquei sem resposta outra vez.

Tem valor, já se percebeu.
Fui chamado para a América Latina, na formação sobre substâncias sintéticas na Venezuela, Cabo Verde também tem as malas, nos Açores, durante um período largo foi um trabalho muito bonito. Depois mudam os governantes e o que vem a seguir vai fazer melhor e por aí fora… Se a “mala” não pega a nível nacional, pelos interesses e hipocrisia reinante, tem valido a nível local, porque as pessoas conhecem-se, não se sacode para o lado. E a prevenção a nível local é aquela que tem mais eficácia.

“Se a ‘mala’ não pega a nível nacional, pelos interesses que sejam ou por hipocrisia reinante, tem valido a nível local, porque as pessoas conhecem-se, não se sacode para o lado”

Criei um jogo das cartas, sobre o álcool, por exemplo, é uma coisa simples, humilde, parece fácil, mas tem ali muita reflexão. Aqui no distrito de Santarém as cartas foram impressas para serem usadas como calendários em Mação, Barquinha, Alcanena. Agora foi a Junta de Freguesia de Santo Amaro, em Lisboa. Barcelos fez, Famalicão fez, os Pupilos do Exército fizeram, Soure também fez, por duas vezes. e houve um sítio em que fizeram e apagaram o meu nome…

A mala da prevenção pode ser uma ponta de lança?
É “fora da caixa” e não é reconhecida. É preciso sair da conveniência para ir para a verdade da realidade e não a verdade da conveniência. Sem hipocrisias.

Luís Patrício em Ourém, no passado mês de setembro. Foto: mediotejo.net

Fala também de abusos com medicamentos, nomeadamente em Santarém. Pode concretizar?
Há pessoas em que o consumo daquele comprimido ‘Dormicom’, fez estragos muito grandes. Há garantidamente mais de 12 anos que apelo a que mudem a lei. Escrevi cartas e disse-o directamente a algumas autoridades e o medicamento continua banal, vende-se em Santa Apolónia a 75 cêntimos. É uma realidade que é chocante em Lisboa, e nas cadeias em geral, e posso dizer que no distrito de Santarém já houve um vergonhoso e danoso mau uso do Dormicom em consumidores com idades entre os 20 e 30 anos.

Com consequências dramáticas? Que se percebem no dia-a-dia?
Sim, quem tem olhos para ver, vê. Portanto, o medicamento que é bom, mal usado, faz estragos. E porque é que é mal usado? Se eu for dependente de heroína e não tiver, vou buscar aquilo, uma espécie de substituto. O medicamento é bom. Todos nós, a partir de certa idade, fazemos exames em medicina e o médico receita-nos Dormicom para fazer certo tipo de exames (como a colonoscopia). Mas isso é o bom uso, que é apenas ocasional.

Há um outro medicamento que é usado, a ketamina. Em medicina ainda se usa para aumentar o canal de parto quando nasce o bebé, em fracturas expostas ou nos queimados, dá-se para aliviar a dor. Mas pode provocar alucinações e há pessoas que abusam e consomem em contexto de festa, para as partes sexuais (desempenho) e há sítios da Europa onde o mau uso deste medicamento é um problema. Cá em Portugal, como é que estamos?

O dormicon, a ketamina e as hormonas são problemas “ignorados” pelas autoridades e o consumo abusivo agravou-se bastante nos últimos anos

É como esta questão das hormonas que as pessoas consomem nos ginásios, há quantos anos isto se passa…? Nós sabemos disto. O meu primeiro doente foi do princípio deste século e ia comprar a Badajoz. Agora deu nas vistas porque houve um ator que correu risco de vida com uma infeção, houve um problema acrescentado. Mas toda a gente sabia.

Nós sabemos, e os poderes sabem, que há doentes que vão buscar as receitas dadas por psicólogos e nunca viram sequer o médico. A acreditar no que dizem as pessoas, há sítios em que há usurpação de funções. E há também pessoas que não tomam a medicação toda de que precisavam por estigma e resistência de profissionais, infelizmente, ou por dificuldades financeiras.

“Consumo de cocaína: é uma vergonha o que se passa. Agora é nos restaurantes. Já não é nas casas de banho, é à mesa, ao balcão”

Consumo de cocaína: é uma vergonha o que se passa. Agora é nos restaurantes. Tive um doente que me disse: “Em Lisboa há 26 restaurantes onde não posso ir, porque se for lá há a tentação para consumir”. Já não é nas casas de banho, é à mesa, ao balcão. Isto tem de ser mentira, porque se fosse verdade as casas tinham de fechar… são os doentes que são mentirosos… É preciso dizer a verdade, denunciar que há situações destas, e que quem trabalha vê-se aflito.

 

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