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Sábado, Janeiro 22, 2022
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Entrevista | “O teletrabalho vai gerar muitos conflitos laborais” – João Viana

Nasceu no distrito de Viana do Castelo, na freguesia da Ribeira em Ponte de Lima há 69 anos. Estou Direito em Coimbra porque naquela época não havia essa possibilidade na cidade do Porto. Escolheu Abrantes para viver e trabalhar, muito por razões familiares, e há 43 anos que é advogado dedicando-se essencialmente ao Direito de Trabalho embora negue ser um especialista, uma vez que não está inscrito na Ordem dos Advogados como tal. A sua longa experiência e uma reputação de sucesso levou o nosso jornal a conversar com João Viana sobre questões laborais da atualidade, como o desafio da pandemia, as insolvências das pequenas empresas, o teletrabalho, a falta de experiência dos jovens juízes ou a incompreensão da Justiça.

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Advogado há muitos anos, se tivesse oportunidade de recomeçar, mudaria alguma coisa?

Não. Gosto mesmo muito da minha profissão. Acho que é aliciante.

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Mas interessa-se pela política e até integrou um movimento que concorreu à Câmara Municipal de Abrantes tendo sido eleito para a Assembleia Municipal em 2009. Como vê hoje o caminho que a cidade e o concelho estão a trilhar?

Como qualquer pessoa, estando no Direito por maioria de razão, gosto de política, de saber e compreender as coisas que se passam à minha volta. Quanto ao caminho, não sei se dizer estreito ou se é sempre o mesmo, acho que Abrantes não alcançou o horizonte que a cidade e a população mereciam. Não tem tido o desenvolvimento que se esperaria. Não é só pelo facto de ter perdido população, e uma das explicações para isso é a perda de indústria, não ter conseguido a criação de postos de trabalho. Antes pelo contrário, tem havido perda de postos de trabalho. E o poder político é necessariamente responsável por isso. O que leva as pessoas a Abrantes? É uma cidade bonita, não tenho dúvidas disso, mas nada mais. As pessoas passam ao lado de Abrantes. Se comparar a cidade com as cidades mais próximas vê que há uma diferença enorme; não tem vida a cidade de Abrantes. É parada, ao fim-de-semana não tem vida nenhuma. E durante a semana o comércio não mexe, na indústria temos 3 ou 4 empresas médias ou grandes, não sabemos o que vai acontecer à Central do Pego. Esperemos que os postos de trabalho permaneçam… pelo menos a promessa que foi feita de se manter a formação e o pagamento do salário durante um ano, já é alguma coisa. E uma resposta ao fim de um ano… se vamos perder também a Central, seria muito mau.

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Quando surgiu a sua escolha por Direito, depois pela advocacia e particularmente pelo direito do trabalho?

Consta, mas não é assim tão verdade. Não há uma escolha do Direito de Trabalho. É verdade que fiz uma pós-graduação em Direito de Trabalho, é verdade que iniciei a minha vida profissional fazendo mais Direito de Trabalho do que qualquer outro ramo, mas pouco tempo depois já fazia, por exemplo, mais acidentes de viação. Naquele tempo, infelizmente, havia muitos acidentes de viação. Com as autoestradas diminuiu significativamente o número. As pessoas vão passando a informação e se consideram que o trabalho que faço é positivo outras pessoas aparecem. Não estou inscrito na Ordem de Advogados como especialista. É verdade que presentemente faço mais Direito de Trabalho mas é pela situação que o país atravessa, as insolvências que aumentaram desde 2014, provocando o encerramento de empresas, que provoca o desemprego dos seus trabalhadores, a necessidade de propor ações em tribunais, a necessidade de fazer reclamações junto dos tribunais de comércio, de fazer reclamações junto do Fundo de Garantias Salarial, uma série de pedidos que há a formular na sequência dessa perda do emprego faz com que o serviço seja mais na área do Direito de Trabalho.

É necessário diversificar as áreas?

Nós, advogados na província, porque fazemos a advocacia isolada – haverá poucos escritórios onde trabalha mais do que um advogado – não sobreviveríamos se fizéssemos uma advocacia só num dos ramos do direito, com as despesas que temos de suportar. Todos mexemos um pouco em cada um dos ramos. Como sabemos não é assim que acontece nas grandes cidades.

Escolhi Direito porque a minha professora de História sempre me disse que tinha mais jeito para letras do que para ciências. Não gostava de matemática nem de físico-química, embora não tirasse más notas mas gostava mais de filosofia, de literatura, de português. A conselho da minha professora, e o facto de eventualmente poder ter mais saídas profissionais, escolhi Direito. Porque não tinha ninguém na família que fosse advogado. Na minha freguesia não havia nenhum licenciado. O meu pai tinha a quarta classe, a minha mãe era analfabeta, portanto não sofri influências familiares, nem de vizinhos, nem de amigos. Tempos muito difíceis os que se viviam em meados do século passado.

É considerado um advogado de referência na área porque ganha mais processos do que perde?

Sim. Mas em qualquer área felizmente. Não temos a certeza que ganhamos uma ação, obviamente. Não posso criar uma expectativa no cliente, que pode vir a ser frustrada, dizendo que vai ganhar a ação. Não somos nós que decidimos, quem decide é o juiz. Faço um estudo do processo e chego a uma conclusão perante os factos e do direito aplicável àqueles factos. Se entender que a ação não tem viabilidade não proponho a ação. Esta triagem faz com que ganhe muito mais ações do que aquelas que perco, falando de direito civil. Se falarmos de direito criminal as coisas não diferentes. O que é ganhar ou perder em direito criminal? Conseguem-se algumas absolvições dos arguidos, mas são algumas. Em direito criminal o arguido é mais vezes condenado do que absolvido. Mas ganhar a ação pode ser conseguir-se uma pena mais adequada àqueles factos e não a acusação que é deduzida contra o arguido. Para alguns juízes acusação é igual a condenação. Não pode obviamente ser assim! Isso seria uma denegação da Justiça. O juiz não pode deixar de estar atento e ter também um trabalho interventivo não só através do Ministério Público, dos advogados mas o próprio juiz, no sentido de apurar a verdade para que essa ideia que traz do gabinete possa e deva ser alterada. Agora se vem com uma ideia na cabeça… eu não acredito que isso aconteça. Não quero acreditar!

O advogado João Viana no seu escritório no centro histórico da cidade de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Como era defender trabalhadores quando começou? Mudou muita coisa? Como era a Justiça nessa época?

Comecei a trabalhar pouco tempo depois do 25 de Abril mas com muita legislação anterior a 1974. O código não era assim denominado, mas o diploma que regia o contrato de trabalho ainda era de 1969. As primeira alterações que se fizeram foi na lei dos três F, as férias, os feriados e as faltas, que foi logo em 1976, e a partir daí foi-se alterando tudo, os despedimentos ainda antes, em 1975. Até que a nova legislação revogou todo o diploma anterior a 1974. Houve muita mudança. Até porque a legislação laboral só teve uma compilação em código de trabalho creio que em 2003, já no inicio deste século. Anteriormente eram diplomas avulsos que regulavam as relações laborais.

Hoje, os empregadores têm a noção que quando vão para os tribunais de trabalho vão ser condenados. Há essa ideia porque o ónus da prova na maior parte das situações, nos tribunais de trabalho, incumbe ao empregador. No código de trabalho estão previstos os direitos e pode invocar que esses direitos não foram cumpridos. Não tem de provar que esse direito não foi cumprido, o patrão é que tem de provar que satisfez o direito do trabalhador. É complicado, principalmente quando há empregadores que facilitam e por exemplo fazem pagamentos sem ficar com o comprovativo. Pagam trabalho suplementar e não têm registo, embora neste caso o ónus seja do trabalhador, tem de provar que foi solicitado para prestar trabalho suplementar. Às vezes é difícil provar. Na questão do despedimento o trabalhador é quem tem de provar que foi despedido. A prova incumbe ao trabalhador e muitas vezes é difícil. Há factos que ocorrem no gabinete perante pessoas que por vezes não vão testemunhar aquilo que se disse, porque há uma ligação com o empregador que não há com o trabalhador.

Os sindicatos queixam-se de uma reversão dos direitos dos trabalhadores, que o código de trabalho, muitas vezes, não é cumprido. Há uma intolerância por parte da entidade patronal, em nome da economia, ou seja, não cumpre a lei, nomeadamente quanto ao pagamento de horas extraordinárias e o trabalhador aceita em nome da manutenção do emprego. Da experiência que tem, concorda ou não se verifica?

Verificará. A experiência que tenho é que os trabalhadores têm a preocupação de fazer um registo. Se for uma pequena empresa onde nem sequer há registo de entrada e saída, é difícil depois fazer a prova, porque o trabalhador é que tem de fazer a prova que trabalhou para além das 40 horas semanais ou das 8 diárias, e nem sempre é fácil contar com a colaboração dos colegas nas pequenas empresas, porque há o receio da represália por parte do empregador. Não havendo esse registo normalmente o trabalhador nem sequer pede o trabalho suplementar. Nessas situações o melhor é esquecer, aliás, há um prazo de prescrição do trabalho suplementar, ao fim de cinco anos prescreve o direito a reclamar. Nas pequenas empresas normalmente não tem grande significado, pelo menos não tenho experiência de que isso aconteça. Já nas médias empresas em que há registo de entrada e saída, é mais fácil provar, o tribunal pede o registo e o empregador tem de o entregar, porque se não for prova documental por prova testemunhal é praticamente impossível.

Concorda que o sindicalismo perdeu força nos últimos anos?

E de que maneira! O sindicalismo não tem nada a ver comparativamente aos anos 1980 e 1990. E isso fragilizou os trabalhadores a nível da convenção coletiva. Atualmente encontrará meia dúzia de convenções coletivas com remunerações atualizadas. A maior parte delas – não lhe sei dizer a percentagem, mas é elevadíssima – ainda tem remunerações inferiores ao salário mínimo, porque os sindicatos não têm capacidade de reivindicar perante as associações as alterações das tabelas. Os sindicatos não têm adesão dos trabalhadores. Porventura os sindicatos são responsáveis por isso. Por que é que os trabalhadores se desinteressaram? Porque chegaram à conclusão que os sindicatos não lutavam devidamente pelos seus direitos? Terá sido para não terem de pagar a quota de 1% do salário, para não terem mais essa despesa? Para que o patrão não os discriminasse por serem sindicalizados? As causas podem ser muitas. Mas o facto que constatamos é inequivocamente esse. Por isso, ouvimos o BE e o PCP a pedir, nestes três orçamentos, a alteração da caducidade das convenções coletivas e não têm conseguido nada até agora. Porque os contratos daquele setor de atividade passam a ser regulados só pelo código de trabalho e normalmente as condições dos trabalhadores na convenção coletiva do setor são mais favoráveis.

O trabalhador continua ou não a ser o elo mais fraco?

É. O legislador ao imputar ao empregador o ónus de provar que satisfez o direito do trabalhador é considerar o trabalhador o elo mais fraco. É o reconhecimento e ainda se mantém hoje.

É mais fácil despedir hoje do que era há 20 anos ou não?

Não. O despedimento sem processo disciplinar não pode ser feito. O despedimento pode ser feito, por exemplo, chamando ao gabinete e despedindo e é ilícito mas o trabalhador tem de provar que foi despedido e aí está o problema. O trabalho do advogado é instruir o trabalhador para obter a prova que não tem. Os despedimentos por inadaptação, por extinção de posto de trabalho e os despedimentos coletivos – que acontecem também menos na província do que nas grandes cidades, aqui é o despedimento individual – nesses é que o valor da indemnização baixou substancialmente, passou de 30 dias para 12 atualmente. Se for um despedimento individual e for ilícito, ou seja, se o empregador não provar em tribunal que despediu e tinha razões para isso, continuam a ser os 30 dias. As garantias que o trabalhador tem no despedimento individual continuam as mesmas.

No que diz respeito aos despedimentos coletivos…

Tem de haver um processo próprio, se os requisitos previstos na lei foram observados, se a seleção dos trabalhadores foi feita convenientemente, mas na extinção do posto de trabalho, a lei é mais exigente do que propriamente no despedimento coletivo. No despedimento individual, como disse, o mais complicado é provar que foi despedido, a partir daí é tudo mais difícil para o empregador, porque tem de provar a justa causa, ou seja, que tinha razões para tal. Se não provar podem ser montantes muito elevados.

Neste anos todos como advogado os litígios em tribunal versaram mais sobre que matéria: despedimento ilícito, incumprimento nas prestações salariais, abuso de poder, assédio moral… em quê?

Maior número é despedimento sim. Assédio moral já tive alguns processos mas não é significativo. E há muitos acidentes de trabalho. Não tenho essa estatística feita mas presentemente tenho mais processos pendentes de acidentes de trabalho do que ações declarativas. Há as seguradoras que não pagam porque não aceitam que aquela lesão seja consequência do acidente de trabalho. As seguradoras questionam tudo e mais alguma coisa. Podem alegar que a lesão já existia antes do acidente, é o caso, por exemplo, de uma lesão na coluna. Há muitas lesões nos trabalhos que exigem esforço físico, e há muitas lesões na coluna vertebral. Aí é uma complicação tremenda. Também há empregadores que não têm o contrato de seguro válido. Há outras em que a transferência da responsabilidade não está totalmente transferida para a seguradora… há muitas questões em acidentes de trabalho. Essencialmente na floresta, quedas em altura, eletricistas… mortais há muitos. É evidente que não estou a pensar nas reclamações de direitos emergentes do contrato nos processo de insolvência porque cada processo tem dezenas de trabalhadores, estou a pensar nas ações em direito de trabalho.

Disse que as insolvências têm aumentado desde 2014?

Sim. E temo, por aquilo que ouvimos, que possa acontecer agora outra vez. Acabaram-se as moratórias, os bancos vão começar a exigir pagamentos, os incumprimentos podem voltar a fazer com que muitas empresas possam ter de encerrar se não conseguirem cumprir com os contratos que têm com os bancos.

Qual o caso, ou casos, que mais o tenham marcado, na sua vida profissional?

Foram tantos. Mas há um, com muitos anos, que ainda não se apagou da minha cabeça. Um caso de um filho de três anos a correr pelo corredor, quando vê o pai de cócoras algemado ao fundo do corredor e enfiar-se por baixo das algemas para abraçar e beijar o pai. Foi muito duro ver aquilo. Se calhar o pai merecia estar naquela situação mas foi duro para a criança. A profissão de advogado é muito dura no sentido de ter de esconder as emoções. Vivemos situações da vida das pessoas que nos marcam muito. Não só na parte criminal mas na vida das pessoas que teriam uma vida boa ou razoável e ficam em situações de insolvência, a viver de subsídios do Estado.

Isso tira-lhe o sono?

Não direi que me tira o sono mas se estou a tratar de um assunto desses, obviamente que penso nele não só durante o dia mas até durante a noite. E há muitas noites quando acordamos ficamos a pensar no assunto na tentativa de encontrar uma solução. E quando chegamos ao escritório vamos confirmar nos códigos se é possível essa solução. Todos temos casos muito difíceis que nos obrigam a estudar e por vezes dizer aos clientes que há decisões diferentes dos tribunais. Temos de tentar o melhor mas não podemos garantir que vai ser desta ou daquela forma.

E há, ou houve, em casos similares decisões diferentes dos juízes? 

Há! Não se explica com aquela afirmação ‘cada cabeça sua sentença’, obviamente que não é assim. Acontece muitas vezes que juízes diferentes tenham interpretações diferentes. Primeiro em relação à forma como ocorreu o facto. Temos aquele caso recente do senhor que foi absolvido na primeira instância para depois no tribunal superior ser condenado a 20 anos [o caso de homicídio do marido de Rosa Grilo] os factos não foram valorados da mesma forma, o julgamento não foi repetido, que eu saiba. A leitura que o tribunal fez dos factos foi diferente da leitura feita na primeira instância, necessariamente a lei aplicada teve de ser outra. No tribunal de trabalho é muito comum acontecerem decisões diferentes. Por exemplo no tribunal fiscal relativamente aos direitos dos trabalhadores ao Fundo de Garantia Salarial, há interpretações muito diferentes quer quanto ao valor a pagar pelo Fundo de Garantia quer quanto às remunerações que devem ser pagas. No mesmo tribunal, sobre os mesmo assunto, já tive duas ou três decisões diferentes. A decisão depende muito da interpretação do juiz. É incompreensível aos olhos das pessoas.

É por isso que a Justiça é tão incompreendida pela sociedade?

Sim. Mas para nós é aliciante por causa disso. O Direito não é matemática. É o que mantém o encanto da advocacia. Ir para um tribunal lutar por algo para o nosso cliente, seja diminuir uma pena ou obter o reconhecimento de um direito, enquanto se está a interrogar as testemunhas sabendo que é muito difícil porque infelizmente as testemunhas não vão para o tribunal para ajudar o julgador a decidir mas para ajudar a pessoa que os indicou como testemunhas, o que complica a ação da Justiça e o trabalho que o julgador tem e os advogados, no sentido que a verdade seja encontrada nos depoimentos daquelas testemunhas todas. É muito interessante!

O advogado João Viana no seu escritório no centro histórico da cidade de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Com a pandemia instalou-se o teletrabalho – embora já muitos trabalhadores trabalhassem a partir de casa e não havia até agora qualquer proteção – o que acha da lei e das novas regras?

Conheço a lei através da comunicação social. Na lei anterior o trabalhador não poderia estar mais que três meses afastado da empresa, ou seja, do local de trabalho inicial, agora pode estar anos. Há vários fundamentos – por exemplo a mulher vitima de violência doméstica pode pedir teletrabalho, os pais com crianças com menos de três anos que pode ser alargado creio que até terem oito anos – há um período muito grande em que o trabalhador pode estar ausente da empresa. Não sei se será benéfico para o trabalhador. Os médicos alertam para os problemas de saúde mental com os confinamentos… um trabalhador isolado em casa, passar as oito horas em casa sem falar com ninguém, não sei se é salutar. E há o pormenor do empregador não poder contactar o trabalhador fora do horário de trabalho… mas era comum o empregador contactar com os trabalhadores fora do horário de trabalho? Não me parece que seja. Há trabalhadores que têm o telemóvel da empresa, que ocupam determinadas funções na hierarquia da empresa mas têm isenção de horário de trabalho, esses serão contactados de vez em quando, mas o trabalhador normal, que necessidade tem o patrão de o contactar? Se precisa de falar com o trabalhador tem as 8 horas para falar com ele. Isto aconteceria muito? Se calhar é verdade, não sei. Se o legislador criou a lei é porque entendeu que existia um abuso por parte do empregador. Acho que o teletrabalho vai gerar muitos conflitos laborais. Não vai haver controle, o empregador para ir a casa do trabalhador para controlar o trabalho que está a ser feito ou o equipamento, porque é o único controle que pode fazer, tem de avisar com 24 horas de antecedência. Vamos ver os resultados da experiência.

A pandemia ajudou ou degradou as relações laborais e os direitos dos trabalhadores? Tem notado acréscimo de trabalho por queixas e abusos laborais?

Não ajudou. Degradou e houve abusos imensos. Casos graves na lay off de recebimentos de subsídios do Estado que alegadamente seriam para os trabalhadores e os trabalhadores, infelizmente, nem esses subsídios receberam. Recebiam subsídios para pagar salários e nem os salários pagaram. Houve a imposição de férias nesses períodos, algumas violações sérias da lei laboral. O meu trabalho aumentou devido, essencialmente, ao incumprimento das remunerações devidas. Neste período foi a falta de pagamento de remunerações e violação na questão das férias, a questão do subsidio de refeição quando os trabalhadores estavam em casa, houve muitos casos desses. Obviamente que não estamos a falar da regra.

Mas pode ou não haver abuso da entidade patronal quanto ao não pagamento de despesas nomeadamente de luz, água, Internet, combustível.

A lei diz que vai ter de haver uma comparação entre as despesas antes e depois para ver o aumento de custos e serem suportados pelo empregador. Quanto a aquisição de equipamento podem chegar a um entendimento, naturalmente é custeada pelo empregador.

E desde o início da pandemia, aumentaram os processos de insolvência de empresas ou pedidos de recuperação judicial?

Esse efeito irá acontecer, como disse, por causa das moratórias. A partir de 2022 as pequenas empresas – porque as grandes provavelmente não tiveram essa necessidade – vão ter de pagar aos bancos, as rendas, aquelas que estiverem em espaços arrendados, e as insolvências vão disparar. Fala-se muito nisso e aumentando as insolvências aumenta o número de desempregados.

A inserção do jurídico no quotidiano social é maior hoje do que quando iniciou a profissão de advogado?

O que alterou não foi o funcionamento dos tribunais, a comunicação é que se alterou. A informação hoje chega muito mais facilmente às pessoas, não chegava nessa altura. E não é só através da CMTV.

Como analisa o papel da comunicação social e a sua influência sobre o poder judicial?

É importantíssimo. Não só no poder judicial como em toda a sociedade. Se for uma comunicação social que discuta factos e soluções. Agora se não o fizer, inventando factos e quiser vender jornais ou vender publicidade, essa comunicação social não.

Considera que o julgamento em praça pública, de casos mediáticos, pode atrapalhar a investigação? O que pensa do segredo de justiça?

Não deveria acontecer. Tenho muita dificuldade em perceber como é que isso acontece e perceber como a CMTV chega primeiro ao local onde vai haver uma busca do que os próprios inspetores ou que a polícia. Há fugas de informação. Como é que aquilo que se passa nos interrogatórios pouco tempo depois está a ser divulgado? Sou a favor do segredo de justiça até determinada fase do processo, claro que sim. Pode prejudicar a investigação. Vendo aquilo que acontece, não faz sentido nenhum. Ou há segredo de justiça ou as coisas não podem aparecer nos órgãos de comunicação de um dia para o outro. Acho que o Ministério Público não tem nenhum interesse na divulgação. Pode ser penalizante em muitas situações se depois não se consegue em tribunal fazer a prova das acusações que foram feitas e os acusados são absolvidos ou terem uma condenação que não tem nada a ver com a acusação que lhes foi feita. É o descrédito da Justiça.

Como avalia a resposta da Justiça face à pandemia, com teletrabalho, houve audiências virtuais? E uso cada vez maior de novas tecnologias?

Houve algumas diligências em que não era necessária a presença. Não houve julgamentos com audição de testemunhas, não fiz nenhum. Havendo hipótese de fazer um ou outro mas não fiz. Acho que fazer julgamentos através de uma prova produzida à distância não. Não gosto nada e há muitos anos que existe prova através de videoconferência. É importante estarmos a olhar para a testemunha e a testemunha estar a olhar para nós. É mais fácil uma pessoa estar do outro lado do ecrã a mentir do que estar a olhar nos olhos do advogado e do juiz e fazê-lo com o mesmo à vontade com que o faz do outro lado do ecrã. Não consegue ter auxiliares de memória na sala de audiências, do outro lado pode ter uns papeis que vai lendo com aquilo que lhe disseram para dizer. Na prova prejudica os processos, noutras situações não. Durante a pandemia fazíamos online mas não gosto, também na Justiça se usa cada vez mais as novas tecnologias.

Até que ponto a automatização do processo judicial vai substituir pessoas?

Não acredito que vá acontecer. Cada vez mais o computador vai substituir o trabalho do Homem mas a máquina não vai poder funcionar sem ser o Homem a introduzir os dados necessários para a máquina funcionar. Vai fazer muito trabalho mas não vai substituir integralmente o Homem e ainda bem.

Poderá um computador ou um robô lavrar sentenças, tendo os dados da legislação e decidir perante um caso concreto?

Não. Se fosse assim não pensaria como penso: os senhores juízes para começarem a julgar deveriam ter mais experiência, não só profissional mas mais experiência de vida, como já foi em tempos. Acho que os senhores juízes começam a julgar muito jovens, logo que saem do Centro de Estudos Judiciários, com 30 anos ou se calhar menos, tomar decisões não é fácil. O que é importante num juiz é perceber num conjunto diversificado de prova e por vezes tão contraditória onde está a verdade. Para isto é preciso ter experiência. Não basta ser inteligente. Ter experiência de vida, perceber as pessoas, ter lidado com as pessoas, com as situações da vida. E a Justiça começa aí, perceber onde está a verdade e depois aplicar o Direito. Um computador não tem essa capacidade.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Dr. João Viana Rodrigues, um Sr. por quem tenho muita admiração, tive o privilégio de
    trabalhar junto dele alguns anos.Sempre foi um lutador pela justiça e por uma sociedade mais igualitária e sempre pôs os interesses da Sociedade à frente dos seus próprios, sempre imparcial e sempre foi mais além do serviço prestado.

    Obrigado Dr. João Viana

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