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Sábado, Janeiro 22, 2022
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Entrevista | Miguel Borges: O testemunho de um autarca com covid-19

O presidente da Câmara Municipal de Sardoal, Miguel Borges, acusou positivo ao novo coronavírus no dia 14 de novembro e entrou em isolamento profilático domiciliário, a par da sua mulher e dois filhos, que também testaram positivo ao SARS-CoV-2. No dia 21 de novembro foi internado no Hospital de Abrantes, onde esteve 19 dias. Desconhece como e onde apanhou o vírus e está agora em casa, em recuperação.

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Casado e com quatro filhos, o professor social-democrata, que, além de autarca, é presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil de Santarém, tem 55 anos e integra os grupos de risco devido a algumas patologias como a diabetes e a hipertensão.

Este é o relato dessa experiência, de como foi sobreviver à covid-19. “Uma experiência inimaginável, nem nos piores pesadelos” diz Miguel Borges.

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Como e quando soube que estava positivo para o SARS-CoV-2? Ligou para a linha saúde24, foi diretamente ao hospital, como se processou o diagnóstico?

Fiz teste no dia 13 de novembro, na sequência da ida ao hospital, principalmente porque a Ana (minha mulher) estava com sintomas há já bastantes dias, tendo mesmo no dia 3 de novembro ido ao hospital e ter feito o teste que deu negativo. Como os sintomas não passavam, e eu tinha começado com uma ligeira tosse, resolvemos submetermo-nos a uma reavaliação. No dia 14, de manhã, foi-nos transmitido o resultado positivo do teste.

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Teve sintomas? Teve febre? Fez raio-x aos pulmões? Media diariamente o nível de oxigénio nos pulmões? Dores musculares? Basicamente qual foi o tipo de tratamento aplicado?

As coisas começaram a desenvolver-se muito rapidamente depois de uma semana em casa com fortes dores em todo o corpo, febre, tosse, um terrível mau estar generalizado. Curiosamente, após uma manhã em que me sentia relativamente bem, durante a tarde tudo se voltou a agravar, a febre a subir, a tosse a aumentar e nesse dia 20 de novembro volto ao hospital, via 112. Com o passar do tempo vou sabendo algumas coisas que me vão dizendo e alguém comentou que, quando cheguei ao hospital, “já tinha muito pouco pulmão por onde respirar”. Estava entregue nas mãos dos profissionais de saúde que foram excelentes a todos os níveis. Raramente questionava o que era feito e nunca perguntei qual era o meu estado de saúde, estava a ser tratado e bem tratado por gente que sabe o que faz. Todos os parâmetros vitais eram permanentemente monitorizados. Sempre muitas análises, muitas medições, muitos tratamentos.

O que relata da experiência com a covid-19, particularmente no hospital? Teve de ser internado, mas necessitou de ventilação? O seu caso foi considerado, ligeiro, moderado ou grave?

Uma experiência inimaginável, nem nos piores pesadelos, não só no hospital mas nos 8 dias que antecederam o internamento. Estive com apoio de oxigénio, através de uma máscara. Não tive bem a noção da gravidade mas hoje, através de alguns amigos que se inteiraram do meu estado de saúde, posso dizer que estive muito próximo do muito grave. Apesar das dores, de todo o sofrimento, da distância da família, sabendo que também eles não estavam bem e que precisavam de apoio, eu tinha para mim que “amanhã” estaria melhor e que esse “amanhã” viria, mais tarde ou mais cedo.

Miguel Borges, presidente da Câmara de Sardoal. Foto: DR

Esteve internado 19 dias. Em que dia começou a sentir melhorias no estado de saúde?

Todo o processo foi evoluindo no bom caminho. Hoje digo que a determinada altura tive o pior caminho para seguir, mas, teimoso como sou, segui o meu caminho. Numa determinada noite, tenho na memória a presença de um médico, durante um determinado momento que me pareceu longo, fazendo medições e testes com os níveis de oxigénio que estava a tomar e com diferentes medições. Sinto que este foi o momento decisivo. A partir deste dia foi sendo reduzido este apoio respiratório, até ao dia em que voltei a respirar naturalmente. Mas este vírus tem razões que a razão desconhece e, no dia em que tudo estava preparado para ter alta, faço novas análises e os valores infeciosos não estavam bem, assim sendo já não tive alta. Foi um momento difícil. Voltando a ter muitas dores, terrivelmente indescritíveis.

Miguel Borges: O testemunho de um autarca com covid-19

Teme que a doença lhe deixe sequelas? E se temeu pela sua vida, tendo em conta que é pessoa de risco, sendo hipertenso e diabético.

As sequelas são uma incógnita, vamos ver o que o tempo me reserva. Nunca tive na consciência que alguma vez a minha vida estivesse em perigo. É verdade que pertenço ao grupo de risco, pela hipertensão e a diabetes, mas o excesso de peso também não facilitou absolutamente nada. Ainda assim julgo ter tido sempre uma atitude positiva, apesar de todo o sofrimento físico e psicológico.

Sabe onde e como foi contagiado?

Não faço a mais pequena ideia. Sei que tinha todos os cuidados, seguia as recomendações, mas há sempre um instante, um momento, um contacto que pode deitar tudo a perder. Como em minha casa estivemos todos positivos, também é difícil perceber em quem começou.

Agora está em casa, em isolamento, em recuperação, junto da sua família que também foi afetada pelo vírus. Como veio para casa?

Neste momento já não estou em isolamento mas sim em recuperação. Estamos todos em recuperação física e principalmente psicológica, foram momentos duros para todos. Por vezes dirigimos as nossas preocupações para quem está doente e desvalorizamos o sofrimento da família, que nestes momentos precisa de forte apoio. É claro que os amigos foram inexcedíveis em todo o apoio e acompanhamento. Nunca conseguirei agradecer toda a disponibilidade que tiveram. Regressei a casa no dia 8 de dezembro. O transporte teve de ser feito por ambulância, pelo facto de ter de vir deitado.

Quem são agora os seus cuidadores? Quais os cuidados específicos que tem, por exemplo, com o lixo? Alguma recomendação especial? Ou seja, no hospital deram instruções dos procedimentos em casa?

A Ana tem sido a melhor cuidadora informal que poderia ter. A sua dedicação e empenho, têm sido inexcedíveis mesmo com as fragilidades que ainda tem, estando também num processo de recuperação. Aquando da minha primeira ida ao hospital, foi-me dada uma lista de recomendações, na sua grande maioria já do meu conhecimento, pelo facto de presidir à Comissão Distrital de Proteção Civil, o que me leva a ter conhecimento das normas da Direção Geral da Saúde. Neste momento os cuidados especiais que tenho de ter são os mesmos que qualquer pessoa deve ter. Inicialmente as recomendações passavam pelo lixo, que deve ser posto num saco de plástico e depois ser colocado num segundo saco. Pelo facto de em casa termos estado todos positivos, a logística interna tornou-se menos exigente, não havendo necessidade de ficar isolado dos restantes membros.

Agora vai a consultas, os profissionais de saúde vão a sua casa ou ligam para casa? Como é o seu dia a dia em recuperação?

Neste momento estou a ser acompanhado pela Unidade Local de Saúde, pelo meu médico de família, que faz o contacto telefónico, e pela Unidade de Cuidados da Comunidade (tanto que “lutei” para que ela fosse uma realidade no nosso Concelho) cujas enfermeiras vêm diariamente fazer o penso. Tenho também consultas marcadas no Hospital.

E quais são os próximos passos na recuperação? Já testou negativo? Tem esperanças de voltar ao ativo em janeiro de 2021?

O próximo passo é enfrentar uma recuperação lenta. A esperança de regressar ao ativo será o mais depressa possível porque isso seria a indicação que estaria recuperado o suficiente para enfrentar a normalidade do dia a dia. Mas é claro que os médicos é que irão decidir. Quanto ao facto de testar negativo, um doente com mais de 20 dias de sintomas, de acordo com o ponto 51 b) da norma 004/2020 da DGS, tem indicação para levantar o isolamento sem necessidade de um teste negativo. Este é o meu caso!

Durante a doença, qual foi o momento mais difícil? Quais eram as preocupações? Confirma que durante o internamento ainda foi alvo de uma intervenção cirúrgica? Quer contar?

Houve dois momentos extremamente difíceis, o primeiro foi ainda em casa, em isolamento, no dia 14. Os meus filhos começaram com sintomas e houve necessidade de serem transportados ao hospital para avaliação. Estar à varanda a vê-los partir na ambulância sem que o pai ou a mãe os pudessem acompanhar foi, na realidade, muito, muito, muito duro! Outro momento foi quando estava internado e a Ana teve de ir ao hospital; cresceram as preocupações pensando na hipótese de também ela vir a ser internada, como iria ser com os meus filhos infetados em casa. Quem iria tratar deles? Felizmente não foi necessário, porque a Ana regressou a casa. O processo infecioso deu origem a um doloroso abcesso que exigiu intervenção cirúrgica. Mais uma experiência!

Como foi ver toda a família infetada, a sua mulher e dois filhos? O que pensou nesse momento e onde foi buscar forças para ultrapassar os dias de sofrimento?

Como disse foi muito duro! Apesar da dor senti sempre uma força enorme com a esperança do “amanhã”, como também já referi anteriormente. As novas tecnologias permitiam-nos um contacto próximo e, sem dúvida nenhuma, o apoio dos familiares e amigos foi fundamental e eu sabia que este apoio estava presente, para além da enorme força nas adversidades que a Ana tem, como tem dado provas ao longo de uma vida nada fácil em termos de saúde.

Quando começou a sentir-se melhor como passava o tempo? Escreveu novos poemas? Leu livros? Viu televisão? Pensou na vida?

Pensando muito na vida, escrevendo e lendo muito. Tive amigos que me fizeram chegar alguns livros para além dos que levei e foram eles a minha principal companhia nos momentos possíveis. Pensei muito também em todos aqueles profissionais que contribuíram para o meu tratamento, que contribuíram para me sentir o melhor possível naquele lugar nada desejável. Pessoas que não vou conseguir identificar, pelos quais vou passar na rua sem lhes poder agradecer pelo que fizeram. Foram fantásticos, todos os profissionais sem exceção. Fica aqui o meu agradecimento! Não lhes conheço a cara mas fiquei a conhecer o coração.

Tendo em conta esta sua experiência, que conselhos dá?

Não quero que ninguém passe por tudo aquilo que eu passei, no entanto, se assim for, temos de acreditar no tal “amanhã” em que viramos a página dolorosa da nossa vida e retomamos o melhor caminho. Esse dia pode tardar mas vai chegar. Por outro lado, gostaria que todos levassem muito a sério todas as recomendações, isto não é um pesadelo nem o guião de um qualquer filme de ficção, é a realidade pura, dura e por vezes cruel. Assim sendo, vamos levar tudo isto muito a sério e cumprir com as recomendações que nos são dadas.

Como estamos à porta do Natal, como pensa passar esta quadra e que prenda gostava de ter e de dar este ano?

Será um Natal com a maior normalidade possível. Com as filhas mais velhas longe, ao contrário do que estava planeado, cumprindo todas as recomendações para que o Natal de 2021 seja então comemorado com toda a naturalidade. Não faltará calor humano à distância, não faltará o Espírito de Natal que queremos imbuído em todos os dias no ano!
Gostaria que a vacina tivesse a eficácia desejada e que, brevemente, possamos obter a imunidade de grupo para podermos ultrapassar estes tempos difíceis, que queremos que sejam rápidos e únicos nas nossas vidas. Pode parecer um “lugar comum” mas é o que verdadeiramente sinto.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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