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Sábado, Setembro 18, 2021

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Entrevista | Mário Albuquerque, o arquiteto da cidade que há 30 anos nasceu em Ourém (c/vídeo)

Aos 80 anos, Mário Albuquerque ocupa uma posição discreta no cenário associativo ouriense. Em muitos aspetos, o seu nome tornou-se num mito, uma ideia de um tempo de transformação do concelho de Ourém. O histórico autarca social-democrata ocupou todos os cargos de relevância do poder local, da oposição à presidência da Câmara e da Assembleia Municipal de Ourém, chegando a deputado na Assembleia da República e Governador Civil de Santarém. No momento em que se recordam os 30 anos da elevação de Vila Nova de Ourém a cidade, mudança que protagonizou, Albuquerque lembrou ao mediotejo.net as dificuldades dos anos 80 e deixou uma perspetiva para o futuro do concelho, gerido atualmente pelo filho, de quem reconhece estar orgulhoso.

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Recebe-nos em sua casa, em Ourém, e mostra-nos o seu escritório, onde passa boa parte dos seus dias. O espaço é um repositório de toda a sua história política, com fotografias de alguns dos momentos mais significativos da sua carreira, como as visitas do Papa João Paulo II a Fátima e o dia em que o Presidente da República, Cavaco Silva, lhe entregou a medalha de Comendador. São também visíveis as suas coleções de livros de História, área sobre a qual tem especial interesse, tendo lecionado a matéria na Universidade Sénior de Ourém, entre 2008 e 2017.

Atualmente a dirigir o Centro de Reabilitação e Integração de Ourém (CRIO), instituição que ajudou a criar em 1976, olha com otimismo para o futuro do concelho de Ourém, município que considera ter que fazer um caminho de liderança do distrito. Foi o seu segundo presidente depois do 25 de abril, tendo ocupado o cargo, com um interregno de três anos, durante 13 anos. A marca que deixou manteve o PSD no poder durante 24 anos.

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Sentamos-mos pois à conversa, querendo saber o que guarda Mário Albuquerque do seu tempo de jovem presidente, ainda em luta com o legado do Estado Novo, e como pensa dever caminhar a região no futuro. Natural de Alburitel, era delegado escolar quando se deu o 25 de abril. Atrasado no tempo, o território nunca tinha tido quem lutasse por ele, recorda. Os recursos eram poucos, as necessidades mais que muitas.

Foi outro tempo. Não será, por tal, por acaso que a sua memória se mistura com a de tantas mudanças.

Líder histórico do município tem atualmente 80 anos e dirige o CRIO Foto: mediotejo.net

Mediotejo.net: O senhor tem ligações às Mouriscas, em Abrantes, certo?

Mário Albuquerque: É a minha mulher. Eu nasci em Alburitel, estudei aqui em Ourém. Ela também é professora e foi colocada aqui no concelho. Foi assim que as coisas aconteceram, aquele encontro de colegas.

Porque é que decidiu enveredar pela carreira de professor?

(risos) É uma pergunta interessante. Eu acabei o 5º ano daquele tempo e pensei ir trabalhar para a repartição de Finanças de Ourém. Concorri, ainda recebi um papel para me apresentar, mas estive quase um ano sem fazer nada.

Naquela altura eu frequentava a escola primária de Alburitel, porque a minha professora ainda lá estava e eu gostava de conversar com ela. Eu ia lá colaborar com a senhora, tinha uns 18 anos, e gostei do contacto com as crianças. A professora também dizia que eu tinha jeito. Meteu-se-me aquilo na cabeça, um dia cheguei a casa e disse ao meu pai: “quero ser professor”. O meu pai, coitado, com muitas dificuldades, lá me disponibilizou o pouco desafogo económico que tinha para eu ir estudar para Leiria, onde tirei o curso de magistério.

Os seus pais eram agricultores ou pequenos proprietários?

O meu pai reformou-se muito cedo. Esteve em África durante alguns anos, era administrador, mas depois apanhou uma doença reumática. Naquele tempo o tratamento não existia como agora e ficou paralisado quase para o resto da vida, muito jovem ainda. Tinha uma pequena reforma. A minha mãe trabalhava na agricultura. Era isto.

Com que memória ficou dos seus pais?

Excelente. Não posso dizer melhor. Fico muito sensibilizado quando falo neles, sempre, porque fizeram tudo o que era possível, e mesmo o impossível, para que eu tivesse algumas oportunidades de me valorizar na vida.

O concelho de Ourém era um concelho extremamente atrasado. Nós estávamos na cauda do progresso do distrito.

Então é professor do ensino primário, entretanto dá-se o 25 de abril e começa a inclinar-se para a política. Ou já estava envolvido?

Nunca estive. Não tinha disponibilidade para isso, nem dinheiro. Quando foi o 25 de abril eu era delegado escolar. Era a entidade em cada concelho que superintendia nas escolas do ensino primário. Já não estava a dar aulas, coordenava um pouco os professores do concelho. Nunca pensei em meter-me na política, porque de facto não estava motivado, nem sabia, porque de facto não tinha tido qualquer participação política.

Apareceu-me lá à porta da delegação escolar, aqui em Ourém, dois senhores ligados ao PSD que me foram convidar, se eu estava disponível para participar, enfim, na política, através PSD. Na altura nem disse que sim nem que não. Depois refleti, disse que sim, que ia colaborar, porque gosto da vida pública, de ajudar as pessoas. Se for por aí, estou disponível.

Entretanto acontecem as eleições e eu sou eleito. Foi uma surpresa total, sem esperar que isso acontecesse. Nem sequer sabia como se geria uma Câmara (risos). Lá fui, as coisas nem correram muito mal, mas passados três anos perdi as eleições.

Mas depois voltou a ser eleito…

Fui a vereador durante esses três anos, depois fui eleito e nunca mais parei. Até 1995. O mandato era até 1997, mas dois anos antes interrompi para ir para o parlamento na Assembleia da República.

O que se recorda desse primeiro mandato, nas segundas eleições autárquicas após o 25 de abril?

Recordo de muitas dificuldades. O concelho de Ourém era um concelho extremamente atrasado. Nós estávamos na cauda do progresso do distrito. Estamos muito longe do distrito. Naquele tempo os concelhos tinham maior ou menor capacidade de se modernizar e de se desenvolver em função das pessoas influentes que tinham junto do poder. Não havia cá democracias. Nós infelizmente nunca tivemos aqui grandes figuras que puxassem pelo desenvolvimento do concelho, pelo que fomos ficando para trás. Outros avançaram, é o caso de Tomar, Torres Novas, que tiveram grandes figuras que se empenharam muito pelo respetivo desenvolvimento. Nós aqui nunca tivemos e o concelho foi ficando para trás.

Com uma particularidade. As pessoas viviam tão mal, tão mal, que as nossas gentes, os nossos homens válidos tiveram que fugir para França. Quem ficou cá? os idosos, mulheres e crianças. Portanto tínhamos um concelho completamente estagnado, paralisado, um concelho fantasma, como costumo dizer, sem nada. A eletricidade a 60%; 40% da área do concelho não tinha eletricidade, veja lá como era possível! Estradas muito poucas, algumas alcatroadas outras nem existiam. Infraestruturas básicas, água e saneamento, praticamente não existiam. Só havia abastecimento de água domiciliário na sede do concelho, aqui em Ourém, e na Cova da Iria. Mais nada! As escolas estavam degradadas. Isto era uma catástrofe total em termos sociais. Ainda por cima com a mão de obra toda a criar riqueza, mas em França.

Foi o pandemónio que encontrei. Ainda por cima as Câmaras ao tempo não tinham os recursos que têm hoje. Havia o Fundo de Equilíbrio Financeiro, uma participação do Estado em função da área das Câmaras, e as receitas que eram geradas pelo próprio município. Tudo muito escasso para o tamanho das necessidades. Foi um drama total.

Apesar de tudo, fizemos o que era possível e creio que as coisas até andaram mais ou menos bem.

As pessoas viviam tão mal, tão mal, que a nossa gentes, os nossos homens válidos tiveram que fugir para França. Quem ficou cá: os idosos, mulheres e crianças. Portanto tínhamos um concelho completamente estagnado, paralisado, um concelho fantasma, como costumo dizer, sem nada. A eletricidade a 60%; 40% da área do concelho não tinha eletricidade, veja lá como era possível!

O que conseguiu fazer nesses primeiros três anos?

Avançámos sempre em função do que nos era pedido pela população. Não podia ser de outra forma. Apareciam nas reuniões de câmara e queriam água, queriam estradas, queriam eletricidade. Era isto que fazíamos. Conseguimos muita coisa, apesar de tudo.

Lançámos na altura, para que o concelho pudesse ser conhecido e a desenvolver-se, uma Feira de Atividades Económicas, a Feirourém, que chegou a ter um sucesso muito grande, mas acabou por morrer (agora está a ser recuperada outra vez).

As escolas foram muito valorizadas, porque eu era professor e tinha essa sensibilidade. Os professores não queriam vir para cá, os acessos eram difíceis. Na Freixianda havia zonas para onde ninguém queria ir, os próprios táxis se recusavam a ir lá no inverno, por causa da lama, buracos…

Era este o panorama terrível que tínhamos. Era preciso ter coragem (risos).

Quando foi eleito a primeira vez o que lhe passou pela cabeça?

Eu não dormia. Eu não tinha a mínima noção do que era ser presidente da Câmara. Era delegado escolar, conhecia bem o concelho, e foi nesse sentido que me disponibilizei. Entretanto colocaram-me à frente. Mas nunca pensei ganhar as eleições, longe disso. Ganhei, por escassos votos.

Passei alguns dias sem dormir. Encostei-me a quem sabia mais do que eu, é assim, quando a gente não sabe. Pessoas bem intencionadas, funcionários da câmara com alguma experiência, que vinham de trás. Foi isso que me ajudou.

Entretanto, em 1982, perde, fica na oposição, mas torna a ser eleito em 1985. Consegue recordar-se o processo que conduziu à elevação de Vila Nova de Ourém a cidade em 1991?

(tira um apontamento do casaco) Antes disso, em 1989, extinguiu-se a designação de Vila Nova de Ourém. Porque havia Ourém velha e Vila Nova de Ourém, como que uma separação entre a mãe e a filha. Isso nunca caiu bem nalgumas mentalidades do concelho, mais evoluídas, na medida em que a velha Ourém, que é o berço de Ourém, ia perdendo importância, os seus pergaminhos, a sua importância histórica. Tudo isto foi-se diluindo com o tempo e estava perfeitamente abandonado. Havia que recuperar a história.

E como é que se recuperava a história? Era procurar acabar com esta divisão entre Ourém e Vila Nova de Ourém. Havia defensores de um e de outro lado e grandes debates, inclusive na comunicação social. Sempre interiorizei muito isso e entendia ser oportuno nesse tempo já acabar com esta divisão. Como? Fazendo uma fusão entre as duas localidades, criando “Ourém” com duas freguesias, a de Nossa Senhora das Misericórdias e a de Nossa Senhora da Piedade. E isto foi em 1989.

Isto foi o princípio. Levantaram-se algumas reações, as placas chegaram a ser vandalizadas, inclusivamente com o apoio de figuras representativas da sociedade civil e religiosa, que não gostaram dessa mudança (risos). Mas é normal, sempre que há mudanças. Mas acabou por tudo assentar e ficar pacífico.

Eu não dormia. Eu não tinha a mínima noção do que era ser presidente da Câmara. Era delegado escolar, conhecia bem o concelho, e foi nesse sentido que me disponibilizei. Entretanto colocaram-me à frente. Mas nunca pensei ganhar as eleições, longe disso. Ganhei, por escassos votos.

Dado esse primeiro passo, que era fundamental, havia que criar a cidade de Ourém. Em 1991 nasce a cidade que abrange a velha e a nova localidade. O dia da cidade passou a ser 20 de junho, que foi quando foi publicado o decreto em Diário da República.

E como era Vila Nova de Ourém nessa altura?

Era uma vila já com alguma importância, mas também carente de infraestruturas. Mas era uma vila já a apontar para o progresso.

Estava na Câmara Municipal quando se dá a adesão à então CEE. Tinham dado jeito os fundos europeus?

Ainda apanhei um resto (risos) mas não foi suficiente. Nos anos 90 já começou a aparecer alguns dinheiros disponíveis, desde que tivéssemos projetos. Ainda conseguimos captar alguns fundos, mas muito residual, porque mais tarde é que as coisas vieram com muito mais força, o que ajudou ao desenvolvimento.

Como encara a dependência que atualmente existe dos fundos europeus? Ou considera que não existe dependência?

Isto é uma consequência normal da nossa integração na Comunidade Europeia. Uma vez que entrámos, temos que estar ao nível dos outros. Não considero dependência, é necessário. Se não como pode ser uma União Europeia a duas velocidades? Ainda estamos, mas a curto prazo vamos estar ao nível dos outros. Só para isso é que há uma Comunidade Europeia, se não não vale a pena existir.

Acho que há um princípio de solidariedade extremamente importante para que todos possamos usufruir do mesmo bem estar e da mesma qualidade de vida no contexto do espaço europeu.

Mas um dos problemas dos fundos europeus é que vêm com objetivos específicos, que nem sempre são propriamente as necessidades dos territórios. Como encara esta lógica?

Penso que devia de haver mais flexibilização dos fundos comunitários, porque depois o dinheiro acaba por se perder.

E como é que se recuperava a história? Era procurar acabar com esta divisão entre Ourém e Vila Nova de Ourém. Havia defensores de um e de outro lado e grandes debates, inclusive na comunicação social. Sempre interiorizei muito isso e entendia ser oportuno nesse tempo já acabar com esta divisão. Como? Fazendo uma fusão entre as duas localidades, criando “Ourém” com duas freguesias, a de Nossa Senhora das Misericórdias e a de Nossa Senhora da Piedade. E isto foi em 1989.

Como vê a cidade de Ourém em 2021?

A cidade está bonita. Já tem as estruturas básicas essenciais. É uma cidade saudável, não há poluição. Espaços verdes também já tem. Penso que é uma cidade que eu recomendaria a qualquer pessoa amiga (risos).

Sente que o crescimento de Fátima tem prejudicado a cidade de Ourém?

Não. Eu sempre defendi Fátima. Acho que Fátima é uma realidade universal. Quem tem pecado não é Fátima, nem Ourém, é o Governo. Não falo só neste, são todos. Na medida em que deviam de ver Fátima com uma dimensão universal e como tal tinham que atuar nesse sentido. Tinham que dar as condições para que Fátima tenha o prestígio, tenha a dimensão, a capacidade de acolhimento que carece para receber os 10 milhões de turistas que todos os anos ali acorrem. E não tem sido assim. Tem sido o município, ultimamente com ajudas comunitárias, que tem resolvido a maior parte dos problemas de Fátima.

Ao tempo que andei a clamar por isso, que o Governo tinha responsabilidades sobre Fátima, não era só o concelho de Ourém. Porque quando as coisas correm bem o prestígio é do Governo, quando correm mal é com a Câmara Municipal. Nessa matéria eu clamei, clamei. Tenho montanhas de ofícios a apelar ao Governo para intervir em Fátima, a pedir infraestruturas que eram básicas para a resposta que era preciso dar àquele afluxo de turistas que todos os anos acorriam a Fátima em grande quantidade.

Estive a fazer algumas perguntas a seu respeito, sobre os seus mandatos. Disseram-me que era uma pessoa muito discreta, que não fazia grandes teatros. Ia por trás, tentava falar com as pessoas, chegar às entidades de forma mais eficaz. Não sei se concorda com esta visão…

(sorriso) É um pouco isso. Sabe, sempre fui um homem do povo. Sou, sempre fui, sou e serei sempre. Sempre me senti bem no meio do povo. (…) A minha forma de estar sempre foi essa. De forma discreta, mas sempre muito próximo das pessoas.

Isso é o segredo fundamental disto. As pessoas têm que ter confiança no chefe, nas pessoas que dirigem. Se não têm, naturalmente não acreditam nele.

O que trouxe da sua experiência como Governador Civil?

O cargo de Governador Civil era um pouco atípico. Tínhamos as nossas funções, mas se o Governador quisesse não fazia nada. Mas desempenhar cargos sem fazer nada não se coaduna com a minha forma de estar e ser.

O que fiz: propus-me visitar todos os meses uma autarquia do distrito. Visitei todos os concelhos do distrito, que são 21. Tinha um adjunto que fazia o levantamento das necessidades desse concelho, uns oito dias antes. Conhecido esse levantamento, eu chamava os responsáveis por cada um desses setores de atividade para me acompanharem. A visita começava com uma reunião com toda essa gente.

Isto ajudou muito a alavancar um pouco o desenvolvimento dos concelhos. Quartéis de bombeiros, que estavam degradados, foram construídos devido a esta ação. Foi isto que fiz os três anos que lá estive.

Para além do acompanhamento muito próximo, estreito, da questão da segurança, do bem estar das pessoas, dos fogos, das cheias (também era um problema do Ribatejo naquele tempo). Tudo isto me deu uma experiência, um enriquecimento pessoal que não esquecerei. Parece-me que foi muito positivo a minha passagem pelo Governo Civil, dentro deste espírito que estou a referir.

Ao tempo que andei a clamar por isso, que o Governo tinha responsabilidades sobre Fátima, não era só o concelho de Ourém. Porque quando as coisas correm bem o prestígio é do Governo, quando correm mal é com a Câmara Municipal. Nessa matéria eu clamei, clamei. Tenho montanhas de ofícios a apelar ao Governo para intervir em Fátima, a pedir infraestruturas que eram básicas para a resposta que era preciso dar àquele afluxo de turistas que todos os anos acorriam a Fátima em grande quantidade.

Como encara a extinção do cargo de Governador Civil?

Foi mau. O distrito precisava de um representante do Governo. É uma forma de ter alguém do distrito que represente o Governo e que possa ser contactado rapidamente em caso de qualquer necessidade. Está tudo muito longe, em Lisboa. Acho que o Governador Civil era uma figura muito importante porque levava até ao Governo as necessidades do respetivo distrito. Aqueles casos mais grave que podiam aparecer. Agora não existe ninguém.

Há os presidentes de Câmara, mas cada um tem o seu partido. O Governador Civil era uma figura equidistante, embora representante naturalmente do Governo, mas tinha um contacto direto com as populações e levava os problemas das populações até Lisboa.

É uma falha, que não foi preenchida. Eu entendia acabar, mas o que veio? Zero. Fala-se na regionalização, mas ela nunca mais vem. Eu também não concordo nada com ela…

Não concorda com a regionalização?

Eu concordo é com a descentralização. Descentralizar para as autarquias e para as juntas de freguesia. Aproximar os centros de decisão das pessoas. A regionalização não aproxima nada. Depois é mais despesas, mais cargos políticos, mais adjuntos, mais não sei quê, mais diretores disto e daquilo. Nunca mais acabamos com isto e o dinheiro vai-se todo embora com isto. Isto não é obra, não resolve problema nenhuma das populações. Eu sou totalmente, sempre fui, contra a regionalização. Sou a favor da descentralização.

Temos estruturas no terreno criadas. Temos Câmaras Municipais, as juntas de freguesias e as Comunidades Intermunicipais, já para um âmbito mais regional. Dar poder a essa gente toda. Se temos estruturas já no terreno, vamos criar mais para quê? Deem mais poder às Câmaras! Deixem-nas trabalhar. Deem-lhes dinheiro, deem-lhes condições, e o país desenvolve-se.

Aliás, o país hoje é fruto do chamado milagre do poder local. Se não fosse o poder local, como é que o país estava? Com aquela gente que está em Lisboa? Eles nem conhecem o que está no terreno, não sabem nada. Você vê na televisão a ignorância que vai por aí. Mas não é este Governo, são todos.

Há aí uma proposta de fundir o Médio Tejo, a Lezíria e o Oeste, criando uma mega região. O que pensa desta solução?

Não, de forma alguma. É uma amálgama… Sabe quem perde com isso? São os mais pequenos.

As pessoas têm que ter confiança no chefe, nas pessoas que dirigem. Se não têm, naturalmente não acreditam nele.

Disse-me há pouco que nas primeiras autárquicas, em 1976, ainda foi na lista do PS, mas nunca se filiou. Filiar foi só no PSD. Não se inclinou para os socialistas?

Na altura, com o 25 de abril, envolvemo-nos com a ação do Mário Soares, na luta contra o comunismo. Estávamos um pouco influenciados. Mas depois começámos a entrar no pormenor. E no pormenor há alguns aspetos do programa do Partido Socialista com que não me identifico.

Tem-se mantido fiel ao PSD. Nunca se desencantou? 

Tenho tido divergências. Eu sou um homem de ruturas também, mas nunca deixo de pertencer ao partido, como alguns fazem. A gente quando diverge tem que lutar é lá de dentro, a ver se conseguimos fazer vingar um pouco a nossa ideia. Ir embora é a coisa mais fácil. Não me identifico com isso.

Ourém 2021. Para onde devemos caminhar?

Caminhar sempre em frente, sempre para o progresso, sempre à procura de melhor, e se calhar uma liderança forte no distrito de Santarém…

Liderar o distrito de Santarém?

Liderança tem que ser sempre a capital de distrito. Mas Santarém também tem que provar alguma coisa, que não tem provado muito. Mas liderança no sentido de ser um concelho onde as iniciativas estejam sempre em cima do terreno, sempre a procurar fazer o melhor possível e trazer Ourém realmente para a crista da onda.

Isso é possível, porque temos condições para isso. Temos infraestruturas, recursos endógenos, recursos humanos, posição geográfica privilegiada. Falta-nos uma coisa, que é a ligação à autoestrada.

Fala da ligação da A1 ao IC9.

É. É uma oportunidade perdida.

O distrito precisava de um representante do Governo. É uma forma de ter alguém do distrito que represente o Governo e que possa ser contactado rapidamente em caso de qualquer necessidade. Está tudo muito longe, em Lisboa. Acho que o Governador Civil era uma figura muito importante porque levava até ao Governo as necessidades do respetivo distrito. Aqueles casos mais grave que podiam aparecer. Agora não existe ninguém.

Aparece nos sucessivos programas de investimento, mas nunca se concretiza…

O problema foi quando foi feito o IC9. Andou-se a perder tempo com rotundas em Alburitel, rotundas no Escandarão, gastou-se uma fortuna nisso, quando a grande prioridade era ligar o IC9 e à autoestrada. Enquanto isso não acontecer, Ourém fica um pouco asfixiado.

Ourém está a perder investimento com a ausência dessa ligação?

Não diria que está a perder, mas poderia ser mais um fator de aliciamento dos empresários.

Como tem visto o percurso do seu filho, Luís Albuquerque, na Câmara Municipal, ao fim destes quatro anos de mandato?

O que vejo neste momento, e faço-o com toda a isenção, é que as coisas têm corrido muito bem. Pacificamente, sem grandes atritos. O concelho tem mexido por todos os lados, tem havido obras por todo lado. Vejo a população, tanto quanto me apercebo, satisfeita. Portanto sinto-me satisfeito e feliz também de ele ter conseguido esse objetivo que, posso afirmá-lo, se calhar ultrapassou muito as minhas expectativas.

É um pai orgulhoso?

Sou. Qualquer pai fica orgulhoso do seu filho quando vê que ele tem sucesso na sua vida, como é evidente. Parece-me que nesse aspeto as coisas têm funcionado muito bem. A Câmara funciona muito bem, há diálogo. Há disciplina e ordem, que também é importante nestas coisas. Parece-me que as coisas estão a correr bastante bem.

Tem-se dedicado nos últimos anos ao CRIO. Pode-me falar um pouco dessa experiência?

O CRIO é uma instituição vocacionada exclusivamente para o apoio à deficiência, que eu próprio, em conjunto com uns amigos, criámos em 1976, embora só tivesse iniciado funções em 1979. Ao longo deste tempo todo tem passado por várias fases, algumas bem difíceis, porque muitas vezes os dinheiros disponíveis não eram suficientes para pagar ao pessoal, despesas, viaturas, transportes… Eu próprio tive que assinar algumas letras no banco para pagar algumas despesas, o que nunca fiz em termos pessoais.

Felizmente neste momento está a passar uma boa fase. Ultrapassámos esses constrangimentos. Temos uma pequena quinta, que é nossa. Temos instalações novas. Um Lar residencial onde temos 38 utentes, 24 horas por dia, 365 dias no ano. Temos alunos externos, que transportamos diariamente, provenientes de todo o concelho. Andamos 400 quilómetros por dia com as nossas viaturas. Penso que estamos a fazer um trabalho muito válido, muito interessante, à sociedade do concelho.

Mário Albuquerque desempenhou todos os cargos de relevância do poder local Foto: mediotejo.net

O que o fez em 1976 interessar-se por este tipo de causa?

Talvez por eu ser professor. Eu lidei com miúdos deficientes nas escolas e via as dificuldades, não só deles como das próprias famílias. Também via que muitas famílias tinham vergonha dos filhos serem deficientes, como se eles tivessem alguma culpa. Isto sensibilizou-se sempre muito. Num grupo de amigos avancei com esta proposta, inédita ao tempo, no sentido de darmos uma resposta as famílias e aos utentes. Foi assim que as coisas nasceram. Mantive-me, resiliente. E lá estou. O CRIO é uma realidade que me orgulho muito. Não tenho dúvidas em afirmá-lo, que é das IPSS melhores do concelho.

Tem 80 anos. Quais são hoje os seus hobbies, o que o anima?

Ler, escrever. Escrevo muita coisa, mas não publico nada. Escrevo algumas coisas no Facebook. Dedico-me à minha vida particular, porque tenho a casa dos meus sogros que herdei e vou lá muitas vezes, nas Mouriscas, e tenho lá gente a trabalhar. E tenho o CRIO. Acho que para reforma não está mau. (risos)

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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1 COMENTÁRIO

  1. É para rir ok? Esta gente fala sempre como se fossem os salvadores da pátria como se não existisse Ourém antes deles ocuparem o tacho aliás este é um tachista de carreira mas mesmo que assim fosse como este senhor afirma e que não é então não é para isso que foram eleitos e pagos? Para fazer o que é suposto fazer pelo concelho? E dizer também que até hoje ainda nenhum chegou aos calcanhares do ex presidente Teixeira.

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