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Domingo, Outubro 24, 2021

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Entrevista | Manuel Fernandes Vicente, o melómano que nos dá a conhecer o melhor da música em livros

A sua vida tem uma banda sonora diferente. Ao longo dos anos, Manuel Fernandes Vicente tem transportado a sua paixão musical para a escrita de livros – e há mais um, o quarto dentro do género, prestes a ser apresentado (será a 9 de outubro, no Entroncamento). Pretexto para uma entrevista no local onde gosta de escrever todas as manhãs.

Manuel Fernandes Vicente tem 69 anos, está reformado há dois após uma vida dedicada ao ensino, é casado e tem duas filhas. Vive no Entroncamento, é com a cultura da cidade ferroviária que está identificado e é lá que tem os seus amigos e colegas. Mas é quando vai à Beira-Baixa que sente um “estremecimento na alma”, ou não fossem as suas raízes de Malpica do Tejo (Castelo Branco). Até aqui parece uma pessoa como tantas outras, um entroncamentense como muitos daqueles que passam na rua onde vive, mas a vida de Manuel Fernandes Vicente tem uma banda sonora diferente. É um melómano e, desde há vários anos, transporta essa sua paixão musical para a escrita de livros – e há mais um, o quarto dentro do género, pronto a ir para as estantes das livrarias e dos leitores. O livro foi apresentado no dia 9 de outubro, no Cineteatro São João, no Entroncamento.

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A paixão musical é antiga, começou ainda jovem. Já com 15 anos assinava jornais de música: era com o Disco Express, New Musical Express e Melody Maker que fazia as suas descobertas. Com estes jornais e com o seu amigo Manuel Gil – falecido em Angola na Guerra do Ultramar – quando se juntavam em Malpica do Tejo (local onde passava as “férias grandes” e as temporadas correspondentes aos períodos em que o pai, GNR, estava em cursos para promoção na carreira), a ouvir a Radio 1, Radio Caroline ou Radio Luxembourg, em transístores, nos finais dos anos 60.

Foi censurado pelo lápis azul quando era ainda estudante em Tomar, numa página no jornal O Nabão, onde eram os alunos os responsáveis pela publicação de uma página.

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Já nessa altura alguns dos artigos de Manuel Vicente se debruçavam sobre a música. Também durante a sua juventude, ainda antes de ir para Coimbra tirar o curso universitário, trabalhou nas campanhas de tomate e como ajudante de pedreiro para conseguir comprar alguns discos que tinham de vir de Inglaterra, uma vez que não eram vendidos em Portugal, e que ainda hoje estão “religiosamente guardados”, pois cada um representa uma “experiência emocional”.

Manuel Fernandes Vicente ainda adolescente, quando era aluno do Liceu de Tomar.

Contudo, Manuel Vicente é um amante da música que nunca se aventurou a tocar um instrumento. Ainda ponderou o violino mas “para chegar a ser medíocre eram precisas muitas horas de prática”. Mais recentemente, já depois da reforma, teve intenção de experimentar a guitarra clássica, mas também considerou que teria de se dedicar a tentar fazer o melhor daquilo que realmente sabia, e “estar a aprender uma coisa que devia ter começado com quatro ou cinco anos, nunca chegaria a lado nenhum”, considera.

“Na verdade sempre tive uma paixão platónica de audiófilo, um melómano que gosta de ouvir. Costumo dizer que o único instrumento que sabia tocar era gira-discos, mas agora também já há alguns anos que não o ponho a funcionar, nem sequer o leitor de CD, porque a internet e as suas plataformas venceram esta ‘batalha’, pelo menos para já”, diz Manuel Fernandes Vicente, que entre CD’s e discos de vinil tem cerca de cinco mil exemplares.

Manuel Fernandes Vicente passa as manhãs entre a escrita, livros e música, com o Parque Ribeirinho como paisagem de fundo, onde às vezes aproveita para caminhar, para “desanuviar a mente”. Foto: mediotejo.net

Rotulado como “enciclopédia musical ambulante”, rótulo que o acompanha desde os tempos de mocidade até hoje e que em nada o envergonha, Manuel Fernandes Vicente é capaz de ouvir compulsivamente a mesma faixa 20 vezes seguidas. E é por pensar que não tem o direito de ficar com ela só para si, e que esta merece ser divulgada e partilhada, que escreve livros, nomeadamente o último que escreveu, e que vai ser apresentado no dia 9 de outubro. Mas já lá vamos.

Considerando-se um admirador da música de espetro largo, Manuel Fernandes Vicente já deu preferência ao Free Jazz, noutra fase gostou particularmente muito de Rock Alemão, aprecia a música neoclássica, minimalista e psicadélica (sobretudo a do final dos anos 60), e gostava muito dos Pink Floyd… antes de toda a gente começar a gostar deles.

A sua paixão levou-o a escrever para o Blitz, na altura um jornal semanal. Cometendo o que considera ter sido um “atrevimento”, falou com o diretor da publicação de então, Pedro Gonçalves, a quem propôs escrever um conjunto de textos onde fossem feitas as pontes entre determinadas cidades do mundo e os estilos musicais que lá haviam.

Embora o diretor do Blitz não tivesse ficado “particularmente entusiasmado com a ideia”, foi combinado um almoço entre os dois. A conversa do almoço durou até ao momento em que começaram a entrar pessoas no restaurante para jantar. Conclusão: Manuel Fernandes Vicente levou de facto a sua ideia avante, sendo que o Blitz passou a ter a cada semana uma página dedicada a um estilo musical, no que culminou em 52 páginas da sua autoria em 52 números – um ano inteiro, até o jornal acabar. A ideia de publicar livros sobre música surgiu através da “compilação” destes textos.

Quem quiser encontrar Manuel Fernandes Vicente, professor reformado de matemática, não tem a seu cargo uma tarefa difícil. Durante a semana as suas manhãs são passadas entre livros, escritos, e música – sempre a música – no café da Estação de Serviço da Repsol, em Vila Nova da Barquinha. Foi precisamente aí que o mediotejo.net o encontrou para conversar a propósito da apresentação do seu mais recente livro, “Música nas Cidades – Folk, rock, estilos étnicos e polifonias da Terra”.

Manuel Fernandes Vicente foi professor de Matemática mas dedicou a vida também ao jornalismo e à música. Créditos: DR

O que podem os leitores esperar deste novo livro?
Vão encontrar 57 estilos musicais ou instrumentos que estão organicamente ligados a algumas cidades do mundo, com uma identificação do estilo musical e os principais músicos e álbuns consagrados desses mesmo estilos. Alguns álbuns e alguns artistas são de culto, mas não vou só pela popularidade. A questão que é transversal a todos os géneros musicais e a todos os 57 capítulos é o facto de eu procurar factos, muitas histórias, pitorescas mas sugestivas, relações e pontes entre aquele estilo musical e a cidade propriamente dita. A pergunta também transversal a todos os capítulos é “porque é que determinado estilo, com as características que lhe são próprias, surgiu e se desenvolveu numa cidade em particular e em mais lugar nenhum do mundo?”. Ora, esta coincidência tem sempre alguma causalidade, as coisas não acontecem ao acaso, e eu vou à procura dessas causas. Podem haver aspetos pontuais de um génio que nasceu num determinado local, mas normalmente a resposta está na conjugação entre o tecido social e económico, a história, as tradições, a cultura, os movimentos migratórios que se geraram ao longo da história, e muitos outros aspetos que explicam o porquê de aquele estilo com aquelas características só poder surgir num determinado sítio. 

Há aqui muita pesquisa, tanto a nível documental como musical…
Sim, este livro não era possível, com a exigência e o rigor que tem, de ser feito sem recurso à internet. Portanto, foi na internet que fui procurar muitos dados. Também tenho livros, revistas e jornais que fui guardando, onde me debruço com atenção, mas o livro apesar de ter muitos dados tem também a reflexão, que é o que se pode chamar do meu contributo propriamente dito, onde estabeleço os tais elos e as tais pontes. De certa maneira o estilo musical é uma parte do espírito de um local, apesar de ao ouvirmos as músicas percebermos que há uma certa universalidade naquele localismo.

Gosta de descobrir, mas também de dar a conhecer, certo?
Eu gosto de escrever e sou franco: faço-o porque me dá prazer fazê-lo. Mas logo a seguir –algo que até pode ser antes – tenho também o gosto de retribuir o prazer que eu tive, dando a conhecer às pessoas géneros musicais que vão alargar a sua cultura musical, a sua maneira de verem e sentirem a música, e sobretudo também descobrirem mais, tal como eu descobri, e até ajudar a que vão mais além e façam as suas próprias pesquisas. Muitas vezes percebemos que mesmo em géneros musicais de sítios tão remotos, depois de ouvir, dizemos: “Esta música parece que faz parte de mim.” Isso é muito interessante e leva-nos para a tal história da universalidade da música, ou seja, nos particularismos da música esconde-se uma certa universalidade. E os seres humanos, que são tão diferentes uns dos outros, conseguem encontrar universalidades, como o amor, a solidariedade ou a música, onde parece que há algo que une todos os seres humanos.

É o quarto livro ‘Música nas Cidades’, mas o último livro que lançou era de crónicas/reportagens, o ‘Vento das Sete Serras’. Porquê esta nova viragem para este estilo com um novo ‘Música nas Cidades’?
O ‘Vento das Sete Serras’ surgiu também da minha paixão por viajar e por ir descobrir coisas, neste caso no alto das serras, de ir falar com as pessoas, ouvir as suas histórias. Mas a música está sempre presente. Mesmo quando fiz esse livro, estive sempre a escrever sobre música, é raro o dia em que não escreva um pouco nestes livros da ‘Música nas Cidades’. Por vezes passo horas para conseguir confirmar um nome, ou se posso afirmar que um determinado músico pode ser considerado como pertencente a uma cidade. Acho que mais ninguém faria isto sem ser um maluquinho como eu. É uma paixão.

Manuel Fernandes Vicente numa prova de fundo, em Mafra. (Segue no centro, de escuro). Também a escrita dos seus livros são para si provas de fundo.

Pode-se dizer que a produção destes livros não foram ‘sprints’ mas sim ‘maratonas’…
Sim, é mais no espírito da maratona, de todos os dias ir dando passos. E depois quando sinto que o livro está concluído avanço com ele, proponho-o às editoras e depois vem o outro processo, o da produção do livro físico propriamente dito, que também é próprio de uma maratona.

Neste livro refere também algumas urbes portuguesas e os seus estilos musicais próprios, como as adufeiras de Idanha-a-Nova, os carrilhões de Mafra ou o cante ao baldão de Castro Verde. Sendo Portugal um país (territorialmente) pequeno, considera, comparativamente, que é musicalmente rico ou pobre? Diferencia-se dos restantes de alguma forma?
Há uns tempos num colóquio ouvi: “Nós em Portugal andamos 30 quilómetros e a paisagem muda.” E é verdade. Na gastronomia é igual, assim como em muitos outros aspetos. Penso que isso está também relacionado com um longa tradição municipalista portuguesa: hoje em dia visitamos diferentes concelhos e todos eles têm uma identidade cultural bem definida, o que está até a ser bom para o turismo. Relativamente aos estilos musicais – e digo isto intuitivamente – penso que não há lugar nenhum no mundo em que haja tantos estilos por 100 quilómetros quadrados como em Portugal, é realmente fantástico. Há coisas incríveis, e até dou um exemplo, talvez muito específico, mas em relação às adufeiras, existe ali um “tripé” entre Idanha-a-Nova, Penha Garcia e Monsanto onde existem diferenças nos toques dos adufes entre as adufeiras de cada uma das localidades – isto até pode passar despercebido à maioria das pessoas, mas a forma de tocar de cada uma destas localidades é identificativa de lá. Nós temos identidades muito próprias e estimulamo-las.

Manuel Fernandes Vicente na Serra do Gerês.

Como vê o estado da música atualmente, tanto a nível global como nacional?
Em termos globais, e principalmente por culpa dos media e da indústria, há uma certa tendência para uniformizar tudo. Entre rádios e televisões existe uma certa tendência de homogeneização, e os próprios estilos musicais mais específicos estão todos a sofrer esta erosão da popularidade, de só se divulgar o que tem êxito e é popular. O que não o é está a ser fortemente condenado.
Por outro lado, também tenho a ideia que nunca houve tantos recursos tecnológicos para fazer música mas que isto está a funcionar ao contrário. Ou seja, tendo-se – e cada vez mais – inúmeros recursos das novas tecnologias e da eletrónica para produzir sons, o que está a ser produzido é cada vez mais pobre. Antes havia muita invenção. Hoje os recursos são muito maiores, a tecnologia é soberba, mas aquilo que sinto é que está a haver um empobrecimento gradual da música. Mas guardo sempre uma reserva, pois num nível particular há músicos que estão a fazer músicas soberbas e grandes trabalhos, simplesmente lhes falta a divulgação, os canais para chegar aos diferentes públicos, e estes artistas nunca vão ter sucesso com aqueles estilos de música. Mas são músicas de respeitar, são músicas complexas, que merecem ser ouvidas. E é também um pouco neste espírito que entro com o meu livro, há muitas coisas que não são para ter sucesso, mas existem, têm alma e devem ser respeitadas e protegidas.
A nível nacional, esta questão da pandemia veio dar mais uma volta à situação. Conheço alguns músicos que já viviam em dificuldade. Com a música, em Portugal e excetuando alguns casos, não se enriquece, nem tão pouco se sobrevive, e há músicos que conheço que neste ano e meio tiveram que abandonar a atividade. Muitos dizem que dificilmente voltam porque em Portugal não dá para se viver da música.

Tem uma paixão pela música, pela escrita, pela matemática… é alguém que prima pela versatilidade?
Sim, mas versatilidade naquilo que eu gosto. Tenho a sorte de poder viver com coisas que adoro. Foi uma bênção que tive e tenho de estar grato à vida, pois esta deu-me sempre coisas que eu apreciava. É verdade que também as procurei. Felizmente deu-me trabalho e uma profissão, mas também os prazeres e a capacidade de ir por aí além.

Há mais paixões a acrescentar a estas três?
Gosto de ler. O ler, escrever, refletir e ouvir música, está tudo ligado. Tenho uma paixão pelo Sporting, por passear e viajar. Gosto de tudo o que está relacionado com o mar e as suas atividades, o mar para mim é algo também um pouco platónico, dá para sonhar. Gosto também das minhas caminhadas, liberta-me a mente, antes corria e ainda fiz muitas meias-maratonas e uma maratona.

Capa do novo livro de Manuel Fernandes Vicente. Foto: DR

Quais as expectativas para esta sessão de apresentação? (que ocorreu no dia 9)
É ter um bom número de amigos e pessoas interessadas. A ideia que tenho é que as pessoas leiam o livro enquanto ouvem as músicas, para entrarem mais dentro daquilo que eu quero dizer, e que se retenham algumas reflexões, que se concorde ou discorde com aquilo que eu digo, e que se alargue a cultura musical de todos, de todas as pessoas que vão estar presentes, e de todos os leitores em geral.

Uma palavra para futuros ou potenciais leitores?
Posso-lhes dizer que a minha opinião é suspeita, mas que para quem gosta de música e quer ir mais além pelas extraordinárias músicas que há no mundo, o meu livro pode ter um modesto contributo, mas ajudará a descobrir novos mundos, novas músicas e, quem sabe, despertar no leitor a musicalidade que vai pelo mundo e que cada um de nós tem cá dentro.

Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo. Ávido leitor, não dispensa no entanto um bom filme e um bom serão na companhia dos amigos.

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