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Domingo, Outubro 24, 2021

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Entrevista | Manuel Faria, um ferroviário que dedicou 40 anos à arbitragem

Manuel Faria tem 70 anos, dos quais 40 dedicou à arbitragem. Da Lamarosa, onde nasceu e fez o ensino primário, passando por Tomar, onde continuou os estudos, pelas oficinas da CP, onde trabalhou, por Moçambique, onde combateu no Ultramar, ou pelo Entroncamento, onde vive, foi nos relvados onde sempre encontrou casa. Mas a sua história com a arbitragem ainda não viu um ponto final e Manuel Faria foi alvo agora de uma homenagem pelo trabalho desenvolvido em 40 anos de dedicação à arbitragem.

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Nascido na Lamarosa no ano de 1951, onde fez os primeiros jogos de futebol, iniciou a sua atividade profissional como aprendiz da CP e foi progredindo de carreira. Entretanto a sua vida profissional foi interrompida pelo serviço militar obrigatório, tendo cumprido serviço no ultramar em Moçambique, sendo que estava em Tete quando se deu o 25 de abril. Embora tenha sido convidado para continuar a sua vida militar, Manuel Faria não aceitou, uma vez que tinha uma vida civil estabilizada, com trabalho na CP, e preferiu então continuar a sua carreira ferroviária, onde progrediu passo a passo, reformando-se como técnico oficial, num lugar de chefia, chegando a ter um grupo de 60 elementos sob a sua direção direta. Reformou-se de bem com a vida e satisfeito com a sua atividade profissional. 

No que toca aos relvados e ao mundo do futebol, além do seu percurso como jogador, foi árbitro durante 13 épocas (1981-1994), é observador desde 1997, é formador de cursos de árbitros de 1ª nível, e, desde 2010, que coordena a Comissão Técnica do Conselho de Arbitragem da Associação de Futebol de Santarém e colabora regularmente em diversas ações distritais organizadas pelo Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol. Atualmente acompanha e aconselha os árbitros recém-formados.

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Recentemente Sócio de Mérito da Associação de Futebol de Santarém, calcorreou inúmeros relvados como jogador e depois como árbitro, tendo chegado a arbitrar na 2ª Divisão Nacional. Não ter chegado à 1ª foi uma das suas mágoas. Observou e avaliou árbitros como Olegário Benquerença e Jorge Sousa, fez inúmeras amizades no futebol, e lembra que teve de sair do Tramagal num carro da polícia, onde lhe partiram um vidro do carro. Eis Manuel Faria, homem que dedicou uma vida à arbitragem, e que foi homenageado no dia 1 de outubro, no Cineteatro São João, no Entroncamento.

Manuel Faria, um ferroviário que dedicou 40 anos à arbitragem, vai ser homenageado esta sexta-feira no Entroncamento. Foto: DR

Como nasceu a paixão pelo futebol e pela arbitragem?

A paixão pelo desporto foi algo de nascença, é daquelas coisas com que se nasce. Na Lamarosa, após a escola, o que tínhamos para nos entreter era o futebol, era a forma de ocuparmos o tempo e foi principalmente daí que despertou esta paixão. Depois também tive a sorte de, aí nos meus 10 anos, ter lá um padre que também gostava muito de desporto e dinamizou muito o futebol, fazia torneios entre as aldeias, arranjou-nos equipamentos e aos fins de semana promovia esses jogos. E essa foi a forma de começar a jogar, na altura até era um bocadinho gordinho e então fui para guarda-redes.
Mais tarde, com o crescimento, fiquei mais atleta e joguei futebol em vários sítios como nos juniores e seniores dos Ferroviários e também na Lamarosa, onde entretanto investiram mais no futebol através da ação de algumas pessoas, nomeadamente do senhor Adelino Serras, e entrámos no futebol Inatel, passámos para a distrital, chegámos a ser campeões da 2ª distrital, subindo à 1ª distrital onde ainda andámos alguns anos.
Entretanto eu já tinha o bichinho pela arbitragem e aliciaram-me a ir tirar o curso. Cheguei aos 30 anos, o futebol também já estava para acabar para mim, e como era uma paixão que tinha, fui tirar o curso, algo que agora era impensável, principalmente tendo em conta o patamar a que eu ainda cheguei, à 2ªdivisão. Fiz o meu percurso obrigatório no distrital (6 anos), subi à 3ª divisão, onde estive dois anos, e depois fui para a 2ª divisão nacional. Com 30 anos agora era isso impensável, um árbitro que não venha para a arbitragem com 18 ou 19 anos, para progredir e com os limites de idade, não tem essa possibilidade.

O que é preciso para ser um bom árbitro?

Eu costumava dizer que não é árbitro quem quer. Um bom árbitro tem de ter uma boa condição física – até porque o futebol é cada vez mais exigente – até porque muitas vezes acaba por correr mais do que alguns jogadores. A parte da imagem também é importante, ter um porte atlético ajuda, um jogador entra em campo olhar para o árbitro e ver que ele “tem pinta” são coisas que ajudam, até mesmo na forma de impor as decisões, os jogadores aceitam melhor. E depois é a personalidade, ter carisma, não ser arrogante nem prepotente mas ter personalidade, e claro, saber decidir os lances dentro do campo. Para além de outras coisas como honestidade que tem de existir também.

Mas os árbitros evoluíram muito, não sou daqueles de dizer que “no meu tempo é que era bom”, nada disso, mas para além da formação geral dos próprios árbitros, temos muitos aqui na distrital com formação superior, no meu tempo era exigida quarta classe. E depois mesmo o relacionamento com os próprios jogadores, os quais agora por norma têm outra formação, aceitam melhor as decisões dos árbitros, já dá para dialogar.

Faltas de respeito não eram toleradas por Manuel Faria.

O que é que nunca podia acontecer dentro de campo, o que não tolerava?

Faltas de respeito. O jogador que viesse colocar em causa a minha autoridade, com agressividade e má educação, isso não aceitava. Mas felizmente tive sorte. Pouco me lembro de dar cartões vermelhos aos jogadores, é a tal situação de autoridade natural, as pessoas confiavam, ouviam e felizmente na minha carreira tive sorte nesse aspeto.

Algum episódio mais complicado em concreto?

Tive um jogo em que tive de sair no carro da polícia. No Tramagal, num jogo de juniores contra o Torres Novas, onde era decidido quem ia aos nacionais, houve um lance duvidoso, onde eu não tinha a certeza e o meu fiscal de linha assinalou fora de jogo. Eu, sinceramente, pelas características do lance não tive possibilidades de ter consciência se era ou não fora de jogo e simplesmente aceitei a decisão do meu árbitro assistente. Só sei que tive de sair no carro da polícia e depois um amigo meu disse que me levava o meu carro. Os adeptos do Tramagal aperceberam-se desse movimento e partiram-me o vidro do carro. Mas um ato isolado não põem em causa o resto. E no Tramagal até era um sítio onde tinha, e tenho, muitos amigos, pois era também um meio ferroviário, trabalhava lá muita gente que eu conhecia, e daí até lá ter aquele amigo que me levou o carro. Outra vez foi nas Caldas da Rainha, onde a polícia me levou o carro. De resto, nunca tive mais episódios que colocassem em questão a minha integridade física.

E outras histórias que o marcaram?

Há várias que me deixam recordações. Tenho uma que me marcou e que dá para ver o sentido das pessoas em estarem no desporto. Estava a arbitrar o Grândola contra o Oriental de Lisboa. Embora agora seja uma coisa que se desaconselha aos árbitros, no meu tempo era recomendado andar com o apito na boca – para se apitar mais rápido e não acharem que se apitava a pedido – e nesse jogo levei uma bolada na cara e o apito cortou-me o lábio. No intervalo o massagista do Oriental, uma pessoa espetacular, viu que eu ia com sangue, veio à minha cabine e levou-me à cabine deles, tinham uns equipamentos espetaculares, colocou-me umas coisas na boca e saturou-me o lábio, que foi a forma de eu puder continuar a arbitrar o jogo. Nesse jogo o Oriental até estava a perder mas o massagista teve um comportamento e uma postura espetacular, em todos os pormenores, foi algo que me vincou. Isto já foi há vários anos, mas ainda hoje esse massagista continua ligado ao Oriental e manda-me cumprimentos.

Noutra situação, fui fazer um jogo a Elvas de manhã, almoçámos, e quando vou a pegar no carro, não tinha embraiagem. Era um domingo. Ali à volta ninguém nos podia atender, consegui meter a primeira mudança e andámos uma série de quilómetros em primeira, até que apanhámos uma inclinação e consegui meter a segunda. Depois parei em Cabeço de Vide, mas também ninguém nos conseguiu ajudar. Continuámos e noutra inclinação conseguimos meter até à terceira mudança, passámos em Alter do Chão e também ninguém conseguiu ajudar. Mas já dava para meter a terceira, já aliviava um pouco. Conclusão: fiz o percurso em terceira, de Alter do Chão, passei Ponte de Sôr, Bemposta, Abrantes – em vez de ir pelo lado de hospital vim por Alferrarede para não ter de subir – e só parei à entrada do Entroncamento. Tive uma sorte bestial, depois de ter colocado a terceira em Alter do Chão consegui fazer o percurso todo de seguida até ao Entroncamento sem ter de parar o carro uma única vez. Parece impossível, mas percorri as terras todas entre Alter do Chão até ao Entroncamento, sem parar uma única vez.

Noutra vez, nós tínhamos sempre o cuidado de levar cartões suplentes, apitos suplentes e outros equipamentos, mas uma vez num jogo de juvenis, estava mesmo para começar o jogo, as equipas já estavam prontas, ia lançar a moeda ao ar, e reparei que não tinha moeda, o meu assistente, que era muito desenrascado, foi logo a correr direito ao polícia a pedir uma moeda. São histórias que ficam.

O que mudava na sua carreira?

Tinha vindo mais cedo. Já tinha a paixão pela arbitragem, mas depois pelo modo em como fui cimentando essa paixão ao longo dos anos, as pessoas com que me fui relacionando, as amizades que criei, se fosse hoje tinha vindo muito mais cedo para a arbitragem. Só comecei aos 30 anos, isso hoje em dia é até impensável. Mas eu tive sorte no meu percurso, assim que pude consegui logo subir à 3ª divisão nacional e depois para a 2ª. Ainda me chegaram a fazer a conversa, que Santarém era capaz de ter sorte e de meter um árbitro na 1ª divisão nacional, e eu já sabia que não podia pois a minha idade não permitia, mas aguentei porque tinha tido sempre bons desempenhos – e por coincidência nesse ano desci de divisão. Também já tinha 46 anos, mas foi uma mágoa que me deixou. E essa situação motivou também o Conselho de Arbitragem da Associação de Futebol de Santarém, que de maneira a demonstrarem o seu desagrado, demitiram-se, porque viram que foi uma injustiça. Nessa semana tinham estado reunidos com o Conselho de Arbitragem da Federação e deram-lhes indicações de que eu estava bem e tinha boas classificações, e depois ao saberem que tinha descido de divisão ficaram tão amargurados e revoltados que pediram a demissão. Mas continuei. Convidaram-me logo para a Comissão de Apoio Técnico* e fui também para observador, que são os responsáveis por avaliar as prestações dos árbitros nos jogos.

*Comissão de Apoio ao Conselho de Arbitragem, na parte técnica, como as leis de jogo e tudo o que corresponda à parte técnica do futebol.

O que acha que há a melhorar na arbitragem, principalmente a nível regional e distrital?

Não é bem melhorar, é haver capacidade de captar árbitros. Se bem que agora tem havido mais, e com qualidade. Os árbitros tiram o curso, mas depois o que é preciso é terem jogos, para criar o “bichinho”, o vício. Se alguém tira o curso mas depois está uns tempos sem jogos, perde o entusiasmo, os árbitros precisam de ser integrados. Se bem que a política de integração esteja a mudar. No meu tempo havia equipas de arbitragem estruturadas e não mexiam, eu tive os meus assistentes durante os meus anos todos de arbitragem. Agora já não, os árbitros rodam e há maior integração, e há ainda outra coisa importante que no meu tempo não havia, que são os jogos das camadas jovens, de futebol 7, que têm árbitros e onde então se vão dando esses jogos aos árbitros para cimentar a carreira e ganhar o bichinho. Mas mesmo assim há muitos que abandonam. Acho que há falta de jovens que continuem na arbitragem, seja por circunstâncias da vida seja pelo que for.

Acha que, no geral, a arbitragem está mais profissional?

Não tenho dúvidas nenhumas. A arbitragem presentemente, mesmo a nível distrital, os árbitros têm as condições todas para poder evoluir. No meu tempo, treinávamos sozinhos, não havia orientação, agora há centros de treino e há outros apoios técnicos que não havia antes. E a arbitragem diz cada vez mais aos árbitros, há árbitros que largaram os empregos para se dedicarem exclusivamente à arbitragem e quando, por alguma razão, descem de divisão, a vida de alguns muda completamente e ficam até com problemas graves. A arbitragem quando eu iniciei não tinha peso, mas presentemente e já há uns anos, foi evoluindo muito nesse nível. Um árbitro que chegue à primeira categoria, mesmo a nível monetário, já tem muito peso.

Que conselho deixa a quem se queira começar a dedicar à arbitragem?

Aquilo que costumo falar: venham, porque vêm encontrar um grupo de amigos e vêm iniciar uma atividade que, para quem gosta de desporto, depois dificilmente sai, como é o meu caso. É uma paixão, é uma coisa impressionante. Às vezes falam do dinheiro, eu quando ia fazer jogos perdia dinheiro. Mas no final íamos jantar ou comer um petisco ou o que fosse, é a parte social, a troca de impressões, o convívio. E depois os novos desafios, o apitar um jogo, lutar contra os imprevistos, tudo nos ajuda a crescer. Mas tem de haver persistência, algum sacrifício, manter entusiasmo e para quem quer ter objetivos, é preciso lutar por eles.

Qual a sua opinião, como ex-árbitro, sobre a integração do VAR no futebol?

Acho que é uma ferramenta essencial para ajuda dos árbitros. Mas as pessoas também têm de perceber que isto é como tudo e leva o seu tempo a chegar à excelência. Há falhas, há ainda carências que vão sendo ultrapassadas, as pessoas não podem pensar que o vídeo-árbitro vai acabar com os problemas na arbitragem, porque não vai, é gerido na mesma por seres humanos e os seres humanos são falíveis. Mas que melhorou muito e para a verdade desportiva, melhorou. E acho que se vai chegar a patamares em que não vai ser tão criticável como está a ser agora.  

Como encara esta homenagem que lhe vai ser feita?

Eu sinceramente não vou dizer que não mereço, não é essa situação. Mas quando o Jorge Maia, presidente do Conselho de Arbitragem da Associação de Futebol de Santarém, me telefonou a falar da homenagem, eu pensei que fosse para um grupo mais circunscrito, do mundo da arbitragem. Quando me falou de ser no cineteatro eu fiquei sem palavras, sem reação. Nem agradeci. Sei que vai ser um momento de sensações. Já me fizeram uma homenagem engraçada num almoço em Fátima entre os meus colegas de observadores, ofereceram-me uma camisola da federação, apresentaram um vídeo da minha vida na arbitragem, e fiquei contente e sem palavras, foi algo que me agradou, encontrar os meus amigos e colegas e reviver aquelas emoções todas. E agora penso que ainda é capaz de ser “pior”, vou ter também a minha família, vou ter de respirar fundo.

Manuel Faria manteve a sua equipa de arbitragem ao longo de todo o seu percurso como árbitro.

Um resumo e umas palavras sobre uma carreira de 40 anos ligada à arbitragem?

Tenho tanta coisa. Gostaria antes de aproveitar para relembrar algumas pessoas, todas me marcaram, mas há algumas que não esqueço mesmo. O meu chefe de equipa na distrital, Gama Henriques, que me acolheu e me transmitiu o sentido de rigor, a determinação e persistência, e que me abriu o caminho na arbitragem para progredir, posso-lhe agradecer muito. Ainda fui com ele aos nacionais, éramos muito amigos e chegou a uma altura que eu disse que tinha muita pena mas que ia seguir o meu caminho e foi então quando também formei a minha equipa para alcançar os tais objetivos que ele me ajudou a encarar.

Depois também na minha carreira como árbitro, o senhor Manuel Lousada, que me abriu muitas portas. Tinha sempre uma disponibilidade e uma abertura notáveis, até porque nessa altura a comunicação não era como agora, tínhamos de nos apoiar muito mais nas pessoas e nos seus conhecimentos sobre arbitragem, e ele abriu-nos sempre a porta.

Na carreira já como observador também há uma pessoa que me marcou, ele e a esposa, que tiveram sempre uma disponibilidade total. O Augusto Lourenço, uma pessoa com conhecimentos técnicos muito bons, e que me ajudou muito a encarar as funções de observador, em especificidades diferentes do que é ser árbitro. Quando se muda para observador tem de haver aquela fase de adaptação e ele ajudou-me também bastante nessa parte, de formação como observador. E há muitas outras pessoas que relembro com saudade, claro.

Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo. Ávido leitor, não dispensa no entanto um bom filme e um bom serão na companhia dos amigos.

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