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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

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Entrevista | José Torcato: um homem do futebol e que foi de jogador a dirigente e treinador. Hoje orienta o Mação (C/VIDEO)

José Torcato, 50 anos, é um homem que assume e vive o desporto-rei em toda a sua plenitude, e tem uma visão do futebol a toda a largura do campo. Mas também conhece bem o cheiro dos balneários, dos gabinetes desportivos, dos relvados e do banco de suplentes, local a partir do qual dá orientações durante os jogos.

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Começou nos iniciados do Alcanenense, foi jogador de futebol profissional até aos 32 anos (altura em que sofreu uma grave lesão em Peniche), é presidente da direção do Alcanenense desde 2005, e é treinador de seniores, tendo assumido este ano o desafio de treinar o Mação no Campeonato de Portugal.

No meio de tudo isto, está o cidadão, que perdeu o pai em menino, e o homem de família, que se emociona ao falar da mulher e do seu apoio incondicional a José Torcato para que este seja feliz no abraço ao outro amor da sua vida: o futebol.

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*Entrevista: Mário Rui Fonseca

Fotos: Jorge Santiago

José Torcato treina esta época a Associação de Desportiva de Mação no Campeonato de Portugal. Foto: mediotejo.net

BI:

Nome: José António Pereira Torcato

Idade: 50 anos (5 maio 1968)

Naturalidade: Ponte de Sôr

Estado Civil: Casado. Três filhos

Percurso: Jogador de futebol nas camadas jovens do Alcanenense. Jogador sénior em Alcanena, Marinhense, União de Tomar, Torres Novas, Naval, Peniche, e Rio Maior. Treinador do Alcanenense de 2005 a 2017, clube a que preside desde 2005. Treinou ainda Mirense, Peniche, União de Tomar e Alqueidão da Serra. É treinador do Mação para esta época 2018-2019.

José Torcato dá orientações constantes aos seus jogadores no desenrolar de cada jogo. Foto: mediotejo.net

mediotejo.net – Lembra-se dos seus primeiros pontapés na bola e da importância que o desporto tinha para si, na sua juventude?

José Torcato – Em relação à minha infância acho que o futebol acabava por ser, naquela altura, e aos anos que foi, se calhar a brincadeira mais apetecível de todos os jovens

Está a ter recordações da cidade onde nasceu, Ponte de Sôr…

Sim, sim… a vida está completamente alterada do que era. Antes não havia muita atividade, os jogos que faziam e o tempo que empregavam era muitas das vezes jogos inventados por eles e para ocupação do seu tempo. Agora as coisas estão completamente invertidas. Nessa altura a bola era o entretém de muitas crianças.

De muitas crianças e todas as classes sociais…

Também venho de uma classe pobre. Os meus pais vieram de Ponte de Sor para Alcanena à procura de uma vida melhor, tive a infelicidade de perder o meu pai com 10 anos e fui um miúdo que cresceu com muitas dificuldades. Nunca me faltou amor e carinho mas cresci com muitas dificuldades. Mas se calhar acabaram por fortalecer-me mais do que se nunca tivesse acontecido.

Na sua família tem história de familiares ligados ao desporto também, como esta carreira que abraçou?

Não, não temos na família muitas pessoas ligadas ao desporto. O futebol, é um gosto que começou desde pequeno. Comecei por jogar, por fazer uma carreira como jogador e na parte final da minha carreira com 32 anos, 33, num período difícil no Alcanenense acabei por ser convidado a orientar a equipa de forma provisória, já que era o capitão da equipa. As coisas precipitaram-se para uma continuidade e acabei por jogar mais um ano ou dois como jogador/treinador até que decidi parar.

Com 10 anos quando perde o seu pai e vai para uma terra onde tem de refazer, conquistar novos amigos…. Foi um período difícil de ultrapassar? Tem memória desses tempos?

Não. Sinto que cresci com muitas dificuldades mas não tenho memórias muito difíceis. Fui sempre uma pessoa que não ligou muito aos valores materiais e portanto acabamos sempre por as dificuldades não nos transtornarem em pessoas que possam sofrer mais. As dificuldades que tive levaram-me a que consiga ser forte e conviver com elas.

E o Torcato menino que faz o seu percurso a jogar à bola nos escalões de formação…até que ponto ajudou à formação do homem, José Torcato, e até que ponto alguns treinadores o marcaram neste percurso.

Sim… lembro-me também que sempre fui um bocado líder também dos meus próprios colegas. Acredito que o melhor treinador é aquele que consegue ser um bom líder, consegue levar os seus colaboradores a acreditarem naquilo que diz. Esse será o melhor líder. Passei por 8 ou 9 clubes também, trabalhei com muitos treinadores e portanto não tenho nenhuma referência de um treinador, mas acredito que consegui retirar de todos umas coisas mais positivas, outras menos, mas consegui retirar de todos alguma coisa que fizeram também que as pessoas na altura me convidassem para ser treinador e que me levaram a prosseguir até aqui.

Um líder, um condutor de homens e, entretanto, faz o seu percurso nos escalões de formação sempre no Alcanenense até chegar aos seniores?

Sim, até chegar aos seniores. Comecei nos iniciados no Alcanenense e depois até sénior. O primeiro ano de sénior fiz ainda no Alcanenense e depois no segundo ano de sénior é que fui para o Mirense…. Depois voltei outra vez…

Jogou nos distritais e nos campeonatos nacionais….

Exato. O Mirense nessa altura estava na terceira divisão nacional, o Alcanenense estava na distrital, depois passei pelo Marinhense também, União de Tomar, Torres Novas, Naval da Figueira da Foz, Peniche, Rio Maior, e voltei outra vez ao Alcanenense.

Falamos da 3ª e da 2ª divisão nacional também…

Sim.

Como profissional ou sempre amador?

Grande parte das vezes como profissional.

E com a família às costas….

Por acaso casei já com alguma idade… casei com 32 anos e nesse aspeto não tinha que transportar muita mobília porque como era sozinho acabava por ser sempre muito mais fácil (risos).

José Torcato tem no adjunto Gama um companheiro de trabalho nas equipas que orienta. Foto: mediotejo.net

E como jogador? Que boas recordações em termos de titulo e conquistas teve ao longo do percurso nestes vários clubes que representou?

Sempre fui uma pessoa do futebol. Os títulos são também uma consequência do trabalho e do que conseguimos desenvolver. Como jogador não consegui muitos titulo, mas lembro-me de uma subida ou duas do Alcanenense à terceira divisão nacional, uma subida também pelo Peniche numa época difícil para mim porque tive uma lesão grave, mas conseguimos subir da terceira à segunda divisão. É uma recordação boa também. Mas o que recordo mais era da vontade que tinha em jogar.

E os amigos, esses, tem espalhados um pouco por todo o país…

Sim, o futebol uma das coisas boas que consegue é as amizades que faz. Claro que fazemos muitas amizades, algumas inimizades também…. Mas nesse aspeto penso que consegui reunir um grupo grande de amigos e de amizades que se deve ao futebol também.

Médio era a sua posição preferida ou pelo menos era o lugar no terreno onde os treinadores entendiam obter mais de si…

Sim, era médio depois a partir de determinada altura passeia a jogar a lateral, mas pronto, era um jogador que vivia o futebol e os lugares eram um pouco (irrelevantes)…. Quando nós vivemos bem o futebol conseguimo-nos adaptar sempre a qualquer situação.

E quando termina a carreira de jogador, com 32, 33 anos, começa a treinar…como surgiu a possibilidade de ser treinador?

Antes de ser presidente do Alcanenense já era treinador… já tinha treinado o Alcanenense, o União de Tomar, o Mirense, o Alqueidão da Serra…. Na altura quando surgiu a situação de ser presidente do Alcanenense foi uma altura muito má do clube. O Alcanenense estava a atravessar a sua maior crise, jogava na segunda divisão distrital, era uma situação difícil. Ma altura fui um bocado desafiado a constituir uma direção para que conseguíssemos por o Alcanenense no lugar a que tinha direito, a que as pessoas estavam habituadas ao longo da sua história…

E foram até à segunda divisão nacional….

Pronto, e conseguimos ao longo destes anos todos…penso que não haverá outro clube desde 2005 para cá que tenha tido tanto sucesso como nós, quer a nível de seniores quer a nível de juniores, e portanto conseguimos reunir também um grupo de pessoas que gostam muito de futebol, que se dedicaram muito ao clube e conseguimos ao longo dos anos também reunir um grupo de jogadores que permitiram sempre estas conquistas e conseguir manter o clube até aqui.

Natural de Ponte de Sôr, José Torcato cedo foi viver para Alcanena onde começou a jogar nos escalões iniciados. Foto: mediotejo.net

E agora o clube que o senhor continua a presidir está numa nova fase…a equipa sénior vem para os distritais e os juniores estão na primeira divisão nacional. É com a prata da casa que se faz este tipo de trabalho?

Toda a gente sabe…. Nós a partir de determinada altura… isto do futebol ou é encarado de forma profissional ou então…é só para andarmos a brincar. Nós decidimos apostar num projeto desportivo. Essa era a minha ambição, sempre foi. E portanto, o Alcanenense, neste momento, é um projeto desportivo e só assim conseguimos chegar onde chegámos. Claro que com isto tivemos grandes ajudas e parcerias e trabalhar em conjunto com outras pessoas e com outros empresários Temos tido jogadores de toda a parte do mundo também, porque as pessoas acreditavam no nosso trabalho. Temos colocado alguns jogadores também na 1ª divisão e isso também é fruto do trabalho e as pessoas também acreditarem que pondo jogadores com qualidade junto de nós poderiam sair valorizados. E só assim é possível…. Esta situação dos juniores é uma situação praticamente impossível de se manter… uma equipa nestes quadros competitivos como o Alcanenense está. Nós, para termos uma ideia, todas as equipas do distrito de Santarém que sobem à segunda divisão nacional de juniores, no ano a seguir descem. Portanto, ninguém se consegue manter no nacional. O Alcanenense conseguiu manter-se na segunda divisão, conseguiu subir de divisão, o ano passado conseguiu manter-se [na 1ª divisão nacional] e este ano vai ser uma luta muito grande, difícil, muito difícil…. Porque se nós olharmos para as 24 equipas que em Portugal jogam na primeira divisão de juniores], são 24 e o Alcanenense está lá. O Alcanenense é o clube mais pequenino de Portugal que está na primeira divisão nacional.

É com muito orgulho naturalmente….

Claro que sim, porque as pessoas se calhar em Alcanena, e principalmente no poder local, que deveria olhar para isso também como veículo que transporta o nome de Alcanena para o país inteiro, se calhar não é visto e valorizado. Todas as pessoas do futebol e que veem o futebol de uma forma isenta valorizam muito o nosso feito…  que é uma coisa impensável de ter acontecido mas acontece porque somos muito ambiciosos e queremos lá estar e tudo faremos para isso. E é para isso que nós iremos trabalhar.

José Torcato dá orientações aos seus jogadores, sempre na procura do acerto e afinação tática para os desafios que cada jogo apresenta. Foto: mediotejo.net

E os seniores do Alcanenense, que têm estado na segunda nacional… deram um passo atrás para depois darem dois à frente?

Todas as pessoas que nos conhecem sabem que ninguém gosta mais de ganhar que nós. A ambição que nós temos…. Acredito que possa haver ambição igual à nossa, mas não existe maior que a nossa e portanto o Alcanenense o que vai fazer é conseguir dignificar ao máximo as suas cores e os seus sócios, o seu concelho… o objetivo não será o de subir ao campeonato nacional de seniores. O campeonato nacional de seniores é um campeonato muito difícil, e sem apoios é muito complicado. A Federação não olha muito para os clubes neste aspeto e portanto se não houver apoios é completamente impossível andar. Portanto, o Alcanenense neste momento, o futebol sénior não vai ser a sua aposta principal, mas sim a equipa de juniores, mas vamos querer ser o mais ambiciosos possível e tudo iremos fazer para dignificar as cores do clube.

Foi jogador, dirigente treinador, está a treinar a Associação Desportiva de Mação numa época histórica para este clube, que é a primeira vez que vai participar nos campeonatos nacionais… O que é que destaca, como treinador, nas qualidades que um jogador deve ter nas equipas que orienta?

As pessoas que nos conhecem sabem que nós somos muito ambiciosos. No futebol, a ambição somos nós que a criamos E portanto, os jogadores quando trabalham connosco sabem como isso é fundamental. A capacidade de trabalho, de sofrimento, é muito importante para termos sucesso e o que pedimos sempre é isso. Temos de trabalhar muito, respeitar muito o futebol, quem anda no futebol tem de respeitar o futebol e a forma melhor de nós respeitarmos o futebol é trabalharmos sempre muito, sermos dignos daquilo que sempre fazemos.

E isso é chegar a tempo e hora aos treinos, é não se deitar tarde…

Existe um conjunto de situações…. Para nós sermos jogadores temos de fazer três coisas: alimentar bem, treinar bem e descansar bem. Se estas coisas não estiverem ligadas, alguma coisa vai ficar para trás. Toda a gente sabe que o jogador de futebol é um atleta e portanto só se alimentando bem, treinando bem e descansando bem consegue ter sucesso. Mas para isso é preciso um espírito de sacrifício grande porque é uma vida difícil e acaba em muitas alturas de ter de se privar de outras situações que os jovens não querem agora e portanto para se ter sucesso é preciso humildade e espírito de sacrifício. Toda a gente vê o Ronaldo e toda a gente percebe a vida dele, o que foi e o que é para ele ter conseguido o nível que atingiu. Isto não é fácil conseguir-se resultados e para isso é preciso muito trabalho.

José Torcato privilegia o esquema em 4-3-3 mas o xadrez tático varia consoante as equipas adversárias e o evoluir do resultado, em cada jogo. Foto: mediotejo.net

Em termos táticos: tem diversas táticas ou um modelo de jogo que assenta em determinada estratégia?

Existe sempre algum modelo do qual nos aproximamos mais. Mas também temos que ver sempre a situação do adversário. Claro que, e as pessoas que me conhecem sabem que nós não gostamos muito de nos adaptarmos aos outros adversários, gostamos mais de nos focarmos naquilo que pretendemos fazer e que termos de fazer, mas também é importante percebermos e termos um conhecimento das outras equipas. Mas depois…. Cada jogo é um jogo, cada jogo tem a sua história…baseada em cada jogo nós tentamos delinear a melhor estratégia para cada jogo.

Tanto nos jogos em casa como nos jogos fora? Qual é o modelo que mais defende?

4-3-3 iremos jogar neste campeonato muitas vezes, iremos jogar noutras formações, mas isso não será o mais importante.

Torcato, já tem um longo percurso desportivo, tem 50 anos de vida… que ambições tem ainda o José Torcato para o futuro?

A minha vinda para Mação vem também despertar alguma coisa em mim e no meu adjunto, o Gama, que também é a pessoa que me acompanha nestes anos todos. Acaba por ser um desafio também para nós. Um clube pequenino, como o Mação, vai para uma realidade completamente diferente daquela a que estava habituado, mas um clube que também se enquadra nas nossas características. Um clube com dificuldades, de um povo humilde e com características que se aproximam de nós também e acaba por ser um desafio para nós. Ao longo destes anos todos tivemos um percurso diferente, agora viemos tentar ajudar um clube humilde, pequenino, mas pensamos que com a nossa experiência conseguiremos ajudar. Vai ser muito difícil o nosso trabalho, vai ser uma tarefa complicada para a equipa técnica, mas nós não temos medo. Vamos tentar trabalhar o melhor e o máximo possível e o que podemos prometer às pessoas de Mação é que podem contar connosco, podem contar com o trabalho que nós vamos tentar fazer porque gostávamos muito de manter o Mação neste campeonato.

E numa época tão difícil e exigente…qual é o tempo livre que o Torcato tem para si e para a sua familia?

Não é fácil… tenho 3 filhos e portanto, nesse aspeto…acabei por casar com 32 anos, o futebol acabou por ser sempre a minha grande prioridade depois consegui reunir e consegui casar com uma pessoa que consegue aturar-me. Já estamos casados há 18 anos… não é fácil aturar-me…é uma vida complicada, muito tempo também que fico fora do seio familiar. Mas pronto, tenho que lhe agradecer muito porque ao longo destes anos todos tem sido tolerante e tem-me ajudado também a que eu consiga ainda, com o pouco tempo que tenho, conseguir desenvolver as tarefas de que estou incumbido.

A entrevista a José Torcato decorreu no Campo de Jogos Agostinho Pereira Carreira, em Mação. Foto: mediotejo.net

Qual a sua mensagem final para os adeptos do futebol e sócios da AD Mação?

Gostava que as pessoas de Mação se unissem mais ainda. É um feito histórico este…. Que as pessoas estejam todas entusiasmadas. A mensagem que gostava de passar é que as pessoas aparecessem, que apoiassem o grupo. Vai ser uma tarefa difícil mas nós estamos cá para as tarefas difíceis. Se fosse fácil se calhar não estaríamos cá nós. Aquilo que peço é compreensão nos momentos difíceis e apoiar mais ainda nos momentos difíceis.

Tem o plantel a postos para disputar os primeiros pontos no domingo, em Alverca?

Sim, temos o grupo todo disponível, menos um jogador que tinha um jogo de castigo que vinha da época passada, ainda do Alcanenense, que é o Faia, o capitão, um jogador importante também, que não vai poder jogar, mas de resto estão todos preparados. Vamos fazer pela vida. Vamos tentar conquistar os 3 pontos.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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