ENTREVISTA | João Godinho Martins: “Temos de partilhar os recursos que existem, com espírito de comunidade”, diz coordenador de emergências dos Médicos Sem Fronteiras

João Godinho Martins, 33 anos, natural de Vila Nova da Barquinha, é coordenador de emergências da organização Médicos Sem Fronteiras. Apesar da sua juventude, já trabalhou em 10 países diferentes. Atualmente encontra-se na República Democrática do Congo no combate ao maior surto de sarampo do mundo: matou, só no último ano, mais de 6.000 pessoas. A todas as dificuldades juntam-se agora os primeiros casos de Covid-19. Nos países com elevados índices de pobreza, lembra, há “comunidades que têm de fazer quilómetros a pé para chegarem a estruturas de saúde sem eletricidade (esqueçamos os ventiladores), e com condições de vida que não permitem seguir as recomendações mais básicas” de higiene. Portugal, acredita, vai conseguir lidar com esta crise: “É normal termos medo, mas é preciso que esse medo, ao invés de trazer pânico, traga sentido de compromisso.”

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Já combateu outras epidemias, como a cólera em Angola e no Iémen, a meningite na República Centro Africana ou epidemias de malária que, com uma média de dois milhões de casos confirmados por ano, vitimou cerca de meio milhão de pessoas em 2019. Na semana passada foi chamado para a Síria, mas devido à pandemia da Covid-19 e com voos cancelados, a situação complicou-se. Aguarda no Congo para poder viajar até ao Médio Oriente. Licenciado em Economia e mestre em Cooperação e Desenvolvimento, João Godinho Martins começou por trabalhar numa empresa privada na área da cooperação para o desenvolvimento, depois trabalhou com a ONU em Timor-Leste. Passou pela ACF (Action Contre La Faim – ONG na área da nutrição), e nos últimos 5 anos trabalhou na MSF como coordenador de projeto, chefe de missão e agora é coordenador de emergências. Viveu em Barcelona durante alguns anos e atualmente encontra-se em processo de regressar a Portugal, a Lisboa. Mas pelo menos a cada 6 meses volta à Barquinha. Diz que ultimamente tenta regressar com mais frequência, sempre que pode. O que mais gosta na região “são as pessoas”.

À pergunta “como termina uma pandemia?” espera poder responder dentro de pouco tempo. Mas neste combate, reforça, importa sobretudo a “solidariedade” e o “espírito de comunidade”, designadamente da União Europeia.

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Natural de Vila Nova da Barquinha, coordenador de emergências da Médicos Sem Fronteiras, combate neste momento uma epidemia de sarampo na República Democrática do Congo. Não sendo médico, qual é exatamente a sua função?

Sendo a MSF uma das maiores organizações medico-humanitárias do mundo com atividade em dezenas de países, para além de Médicos e Enfermeiros, a MSF conta com profissionais das mais variadas áreas. Desde tudo o que envolve a logística, seja o apoio à atividade médica ou intervenções de Água e Saneamento, a todos os profissionais dos departamentos de Recursos Humanos e Financeiro. A MSF tem mais de 40.000 trabalhadores em todo o mundo espalhados pelos diferentes programas nos mais diversos países e regiões, onde tem uma presença regular. Além disso, quando há emergências de maior envergadura, sejam conflitos de alta intensidade, catástrofes naturais ou epidemias de larga escala, existem equipas de emergência que são imediatamente enviadas para fazer avaliações rápidas e/ou intervir. Um coordenador de emergências é basicamente o chefe de equipa, responsável pela definição e implementação da estratégia operacional, pela gestão da segurança das equipas e pela representação da organização.

Como chegou à organização Médicos Sem Fronteiras?

A partir do momento em que decidi que queria trabalhar na área humanitária, a Médicos Sem Fronteiras foi sempre a organização com a qual quis trabalhar. Pela forma pragmática como gere as suas operações e por se reger verdadeiramente por princípios humanitários . Após terminar a minha licenciatura em 2009 comecei a direcionar o meu percurso académico e profissional para alcançar este objetivo. Por um lado fiz um mestrado na área da cooperação e outros cursos de formação/especialização na área humanitária, primeiro foquei-me na logística e posteriormente na área operacional. Fiz a minha primeira missão com as Nações Unidas em 2012, passei por outras ONGs, e de maneira natural acabei por chegar à MSF em 2015.

Foi uma opção de vida difícil ou sempre quis trabalhar neste tipo de missão?

Trabalhar nesta área é sempre uma escolha que exige bastante compromisso e que não se toma de ânimo leve. Mas não diria que tenha sido uma opção difícil nem propriamente uma opção de vida. Acaba por ser um processo. Agora estou onde quero estar e onde me sinto útil. O facto de poder fazer aquilo que realmente gosto, de ver o impacto do meu trabalho todos os dias, dá-me sempre motivação para continuar. Alguns de nós têm a felicidade de poder fazer aquilo que realmente gostam enquanto contribuímos para o bem-estar dos outros. Não há melhor sentimento que esse. Continuarei a fazê-lo enquanto me sentir útil e enquanto achar que sou uma mais valia.

O facto de poder fazer aquilo que realmente gosto, de ver o impacto do meu trabalho todos os dias, dá-me sempre motivação para continuar. Alguns de nós têm a felicidade de poder fazer aquilo que realmente gostam enquanto contribuímos para o bem-estar dos outros. Não há melhor sentimento que esse.

Onde está exatamente em missão?

Neste momento estou na República Democrática do Congo onde estamos a terminar uma intervenção de resposta à epidemia de sarampo que no último ano vitimou cerca de 6.000 pessoas, 4.500 das quais crianças. Nos últimos meses apoiámos quatro hospitais com pessoal, materiais e equipamentos médicos. Acabámos recentemente uma campanha de vacinação em que vacinámos cerca de 70.000 crianças num espaço de dez dias. No entanto, enquanto coordenador de emergências posso ser enviado para qualquer parte do mundo, a qualquer momento. Na verdade, na semana passada fui chamado para coordenar a missão de emergência na província de Idlib, na Síria. Infelizmente, e dado o contexto atual, os aeroportos foram fechados, pelo que de momento estou em Kinshasa à espera de conseguir um voo para ir para o Médio Oriente.

Como é o seu dia a dia? E das pessoas que trabalham nas equipas da MSF no combate a uma epidemia? É trabalhar, comer e dormir?

É verdade que o dia a dia numa missão de emergência não deixa espaço para muito mais que trabalhar, comer e dormir. Eu tenho por hábito levantar-me pelas 6 da manhã para fazer um pouco de exercício antes de começar o dia, por volta das sete. Um dia normal acabará pelas 8 ou 9 da noite. Normalmente ainda temos tempo para jantar em equipa, beber um copo e descontrair um pouco. Mas tudo depende das fases da emergência. Nas fases mais críticas é fácil fazer mais de 15 ou 16 horas por dia, sete dias por semana. Dito isto, não há nenhum dia igual ao outro. Há sempre algo diferente, há sempre um novo desafio. É cansativo mas a adrenalina constante e o sentimento de urgência acabam sempre por ser mais fortes.

Já lidou de perto com outras epidemias, trabalhando em contexto de emergência geral, ou trabalha especificamente no sarampo?

É a segunda vez que trabalho num contexto de epidemia de sarampo. Já passei por outras epidemias como a cólera em Angola e no Iémen, a meningite na República Centro Africana ou epidemias de malária que com uma média de dois milhões de casos confirmados por ano, em 2019 vitimou cerca de meio milhão de pessoas. No entanto, a maioria das missões que fiz foram principalmente em contextos de conflito e com intervenções em campos de refugiados e deslocados internos. Que claro, muitas vezes também estão associados a epidemias, mas que acabam por ser intervenções mais multidisciplinares.

É muito violento? Conseguem preparar-se para o que veem? O que o impressiona particularmente?

Vamo-nos preparando à medida que passamos pelas situações, mesmo que depois de alguns anos a trabalhar em contextos de violência extrema existam sempre situações que acabam por impressionar. O paciente que as equipas médicas não conseguem salvar. As crianças que chegam sozinhas aos campos de refugiados depois de fazerem dezenas de quilómetros a pé sem saberem onde estão os pais. O dia em que o hospital é bombardeado. Quando 700 abrigos num campo de deslocados são incendiados como retaliação entre grupos armados. Nesta profissão, como noutras, há sempre dias difíceis. Mas entre eles existem dias muito bons também.

depois de alguns anos a trabalhar em contextos de violência extrema existem sempre situações que acabam por impressionar.
As crianças que chegam sozinhas aos campos de refugiados depois de fazerem dezenas de quilómetros a pé sem saberem onde estão os pais.
O dia em que o hospital é bombardeado.
Nesta profissão, como noutras, há sempre dias difíceis. Mas entre eles existem dias muito bons também.

Quais as maiores dificuldades do seu trabalho?

Quando se trabalha em zonas de conflito um dos maiores desafios da organização é muitas vezes negociar o acesso às populações que queremos apoiar. Por outro lado o facto de trabalharmos em zonas bastante remotas acarreta também grandes esforços ao nível logístico. Para os meus colegas médicos e enfermeiros o grande desafio passa por muitas vezes tentar fazer tudo com pouco.

As equipas estão preparadas e temos muito bons profissionais, a organização tem também muita experiência e uma grande capacidade de fazer chegar os materiais, equipamentos e medicamentos necessários a onde são precisos – mas as condições de vida e trabalho são e serão sempre mais precárias do que a maior parte de nós está habituado na Europa. Muitas vezes é difícil manter a energia perante situações que acabam por nos assoberbar. O desafio também é esse.

No Ocidente, nomeadamente na Europa, o medo espalha-se. Agora por causa do vírus e no futuro por causa da economia. Mas observado e vivendo as limitações em África, como comenta o que se passa nos países ricos? O pânico é justificado?

Nunca fui apologista do pânico, não acho que resolva coisa nenhuma. É normal que todos tenhamos medo, mas é preciso que esse medo ao invés de trazer pânico traga sentido de compromisso. Que esse medo traga solidariedade, compaixão e preocupação com os outros. Neste momento de crise nenhum país está a conseguir gerir ou o produzir os materiais e equipamentos necessários. Os Estados europeus precisam urgentemente de implementar mecanismos de solidariedade. Temos todos de partilhar os recursos que existem. Hoje faltam equipamentos em países como a Itália ou a Espanha, mas em poucos dias ou semanas faltarão em outros lados. Entretanto, um pouco por todo o lado, fecham-se fronteiras que dificultam o necessário fluxo de mercadorias e pessoal. Enquanto alguns países correm a comprar e armazenar recursos deveriam também preocupar-se em partilhá-los para assegurar a proteção das equipas médicas e paramédicas na linha da frente. Temos de atacar o epicentro da pandemia.

A situação atual na Europa e em todo o mundo é bastante difícil. A minha vivência de situações semelhantes em África dá-me alguma perspetiva, mas não muda isso. Nesta ou noutras situações os problemas dos europeus ou dos ocidentais não invalidam os problemas de muitos outros países por todo o mundo, nem as dificuldades ou limitações em alguns países africanos invalidam o que se passa agora no hemisfério norte. Vivemos neste momento uma grave crise na Europa que julgo que terá profundos impactos na nossa vivência nos próximos anos. Mas já passámos por outras crises e aqui estamos. Não tenho dúvidas que Portugal sairá desta também. E não será só graças aos trabalhadores humanitários, será graças a todos. Aos médicos e enfermeiros, aos políticos, aos cantoneiros, aos polícias, aos padeiros, aos nossos vizinhos, a todos. Mas sobretudo graças à solidariedade e ao espírito de comunidade.

esta grave crise na Europa terá profundos impactos na nossa vivência nos próximos anos. Mas já passámos por outras crises e aqui estamos. Não tenho dúvidas que Portugal sairá desta também. E não será só graças aos trabalhadores humanitários, será graças a todos. Aos médicos e enfermeiros, aos políticos, aos cantoneiros, aos polícias, aos padeiros, aos nossos vizinhos, a todos. Mas sobretudo graças à solidariedade e ao espírito de comunidade.

Por exemplo, na Grécia, a grande preocupação da MSF é que a epidemia chegue aos campos de refugiados, onde as condições precárias de higiene e a superlotação criam um ambiente perfeito para a disseminação do coronavírus. Que medidas tomar?

O que se passa na Grécia, em plena Europa, é há já muito tempo chocante. É inconcebível que os Estados europeus, Portugal incluído, tenham deixado aquela situação chegar onde chegou. É preciso ter claro que temos pessoas desesperadas que fogem com as suas famílias de situações extremas para encontrar segurança e o que acabam por encontrar é a própria morte. A Covid-19 é só a última página desta tragédia.

Na Europa dizemos que o importante é lavar as mãos. No campo de Moria existe uma torneira para cada 1.300 pessoas. Em Portugal falamos de distanciamento social, em Moria há famílias de 5 e 6 pessoas que vivem em tendas de 3 m2. Há cerca de 42.000 requerentes de asilo na Grécia isolados em campos que são deixados completamente ao abandono. O que a União Europeia permite e promove que aconteça na Grécia é praticamente criminoso. Todos os 5 campos na Grécia tem de ser imediatamente evacuados, não existem outras medidas possíveis a tomar.

Falando do sarampo, os números são brutais, e a ação centrada na vacinação, mas agora chega uma pandemia: a Covid-19, ainda sem vacina. Como é que África pode lidar com o novo coronavírus?

Os números do sarampo são sem dúvida brutais, tendo em conta que num único país houve mais de 320.000 infetados e mais de 6.000 mortos de uma doença cujo o tratamento é conhecido e para a qual existe vacina. Isto sem que praticamente ninguém fale disso. O sarampo em África infelizmente não abre telejornais.

Provavelmente a Covid-19 em África também não abriráa muitos, mesmo quando 43 dos 54 países africanos já têm casos. Senegal, Burkina Faso e Camarões, entre outros, já registam transmissão ativa. Seguindo o exemplo do norte do planeta, muitos países implementaram fortes restrições mas resta compreender o impacto negativo que elas possam ter no acesso aos cuidados de saúde das populações mais vulneráveis ou na provisão de ajuda humanitária.
O mais importante agora é a consciencialização da população para a tomada de medidas preventivas evitando que a situação se torne ainda mais complicada, com particular atenção para as populações mais vulneráveis, como os idosos e doentes crónicos; promover o distanciamento social e higiene pessoal segundo as recomendações atuais; manter confiança na resposta em curso; e, proteger os trabalhadores do sector da saúde. Os Países em Desenvolvimento cujos sistemas de saúde ainda apresentam grandes desafios devem-se preparar para respostas rápidas e ágeis nos piores cenários – identificando os mais vulneráveis para uma gestão rápida e eficiente dos cuidados de saúde e desenvolvendo protocolos simplificados.

Qual é o possível impacto da doença em países pobres?

Por um lado, e até prova em contrário, vamos observar a mesma tendência nos países pobres como nos países ricos. Poderá haver diferenças no que concerne à evolução de casos, não devido ao clima, mas devido aos hábitos sociais. Se assim for, o impacto em termos de vidas será bastante maior. Basta abrir o jornal para observarmos todas as queixas dos profissionais de saúde em países como Espanha ou França, as limitações de equipamentos de proteção ou ventiladores um pouco por toda a Europa, ou mesmo a corrida aos supermercados em Portugal. Agora traduzamos isso para países com elevados índices de pobreza, com comunidades que têm de fazer quilómetros a pé para chegarem a estruturas de saúde sem eletricidade (esqueçamos os ventiladores) e com condições de vida que simplesmente não permitem o seguimento das recomendações mais básicas. Para além disso, haverá todas as consequências secundárias. Por exemplo, o Ébola vitimou cerca de 11.000 pessoas na África ocidental mas estima-se que secundariamente tenha tirado a vida a três ou quatro vezes mais pessoas, devido ao impacto que teve no sector da saúde. E isto também se sentirá noutros sectores, seja ao nível económico seja aos níveis mais básicos, que são já bastante deficientes. Se assim for, avizinham-se anos bastantes duros para milhões de pessoas.

imagine-se como será lidar com o covid-19 nestes países com elevados índices de pobreza, com comunidades que têm de fazer quilómetros a pé para chegarem a estruturas de saúde sem eletricidade (esqueçamos os ventiladores) e com condições de vida que simplesmente não permitem o seguimento das recomendações mais básicas.

No Ocidente, nomeadamente na Europa, contrariamente a Ásia, parece que a estratégia está a falhar. Se quisermos reduzir a mortalidade causada pela pandemia da Covid-19 e não podemos contar com a vacina, como combater eficazmente a pandemia?

Não sei se a estratégia está a falhar ou simplesmente ainda não assimilámos todos o que de facto significa uma epidemia destas ao nível global. Neste momento, creio que existe uma relativa concordância sobre o que há a fazer, que basicamente é evitar o contágio e reduzir a mortalidade derivada deste através das diferentes medidas já amplamente divulgadas. Há países onde isto está a ser feito na dose certa, e há países que estão desfasados da realidade seja por excesso ou por deficiência da aplicação destas medidas. Cabe aos decisores políticos tomarem as medidas certas no momento e na proporção exata, não mais nem menos, nem antes nem depois. E cabe-nos a nós manter a calma e a confiança nas autoridades sanitárias do país, sempre questionando e debatendo mas sem que isso nos impeça de remarmos todos na mesma direção.

Temos de fazer tudo para atrasar a epidemia enquanto investimos seriamente em investigação cientifica para encontrarmos soluções para acabar de vez com a Covid-19.

Há uma estratégia de tratamento para doentes? Ou seja, é inevitável fazer escolhas entre quem vive e quem morre?

Neste momento o tratamento para a Covid-19 ainda se resume ao tratamento dos seus sintomas. Sendo que os casos mais graves podem necessitar de cuidados intensivos e ventilação mecânica. Uma vez que nem as estruturas de saúde nem o seu aprovisionamento estava dimensionado para uma crise desta dimensão, inicialmente, e enquanto se aumenta a capacidade de resposta, terão de se adaptar os processos de triagem e os diferentes protocolos. Não creio que seja escolher quem vive e quem morre, creio que se trata de fazer tudo para salvar o maior número de pessoas.

A Covid-19 afeta países nos quais atuam os Médicos Sem Fronteiras. Como estão a lidar com a pandemia no Congo?

Sem dúvida. Onde trabalhávamos e em sítios onde antes não pensávamos trabalhar. Na Europa estamos já a trabalhar e a colaborar com as autoridades sanitárias em Espanha, Itália, Bélgica, Suíça, etc. Em todo mundo, de uma maneira ou de outra, estamos já a colaborar com as diferentes autoridades em mais de 20 países.

A República Democrática do Congo teve há cerca de 10 dias o primeiro casos de transmissão ativa e está agora com cerca de 60 casos confirmados. Estamos neste momento a preparar as nossas equipas, a definir a estratégia de trabalho com as autoridades competentes e rapidamente começaremos a apoiar o combate à Covid-19 aqui. Seja reforçando o apoio nos diferentes hospitais que já apoiamos sendo abrindo novas intervenções onde a necessidade seja identificada. Noutros países de África onde a epidemia já vai assumindo outras proporções, a MSF está já bastante ativa, apoiando unidades hospitalares específicas para Covid-19, como por exemplo em Bamako, Mali, ou reforçando as capacidades das equipas do Ministério da Saúde, como fazemos agora mesmo no Burkina Faso e na Líbia.

Se o vírus se descontrolar, cabe à Organização Mundial de Saúde e aos governos destacar e organizar os meios necessários para controlar a epidemia. A sua experiência tranquiliza-o neste sentido?

O vírus já está descontrolado. Cabe aos governos de cada país e às diferentes instituições internacionais e intergovernamentais, como a ONU, dar resposta. A OMS desde o início da pandemia tem tido uma posição clara e consistente, mas isso não é suficiente. Muitos destes organismos dependem de órgãos políticos que tem outras considerações. A solução depende de quem é responsável por tomar decisões. Esperemos, e temos de ter confiança, que as tomam com o objetivo único de salvar vidas.

Neste caso particular, a tranquilidade ou falta dela não me é dada pela minha experiência profissional – no entanto, como eu, creio que cada pessoa poderá olhar o mundo e tirar as suas próprias conclusões. Vendo como se lidou recentemente com a crise económica na Europa, vendo a dificuldade que os países do Conselho de Segurança das Nações Unidas tem em se meter de acordo sobre as matérias mais relevantes, vendo a forma como a União Europeia tratou desde o início a crise de refugiados, vendo ‘Trumps’ e ‘Bolsonaros’, e agora também o surgimento de ‘Venturas’. Pessoalmente não me sinto tão tranquilo como gostaria.

Tendo em consideração todas as incertezas e limitações, quais são as prioridades da MSF?

A prioridade da MSF é a mesma de sempre, continuar a salvar vidas e a aliviar o sofrimento. Neste momento para que o possamos continuar a fazer teremos de assegurar que conseguimos fazer chegar as nossas equipas e os medicamentos onde eles são necessários num momento em que muitos países tomam medidas extremas de limitação de movimentos e muitos voos são anulados. Agora mesmo, temos diferentes pessoas em países de onde não conseguem sair que deviam de estar em países a onde não conseguem chegar. Operacionalmente teremos de assegurar o reforço de capacidades nos hospitais que já gerimos e que terão de estar preparados para o aumento do número de pacientes Covid-19, assegurando o tratamento de todos os outros. E, por outro lado, temos de perceber como podemos gerir este aumento operacional para fazer face às necessidades acrescidas neste período de pandemia.

A prioridade da MSF é a mesma de sempre, continuar a salvar vidas e a aliviar o sofrimento. Neste momento para que o possamos continuar a fazer teremos de assegurar que conseguimos fazer chegar as nossas equipas e os medicamentos onde eles são necessários num momento em que muitos países tomam medidas extremas de limitação de movimentos e muitos voos são anulados.

Como termina uma pandemia?

Espero daqui a não muito tempo poder responder a esta pergunta.

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.
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