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Domingo, Agosto 1, 2021

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ENTREVISTA | Francisca Laia, a médica abrantina e canoísta olímpica regressa às águas de origem (c/vídeo)

É atualmente a 13ª melhor canoísta a nível mundial e sonha chegar muito mais longe. Conversámos com Francisca Laia entre treinos no rio Tejo e na Albufeira de Castelo do Bode, a propósito da sua saída do Sporting e do regresso a casa, ao Clube Desportivo Os Patos, em Rossio ao Sul do Tejo, Abrantes, onde se iniciou na modalidade.

Francisca Laia, 27 anos, nasceu a 31 de maio de 1994, em Abrantes, iniciou o seu percurso desportivo, na canoagem, com seis anos, no Clube Desportivo Os Patos, em Rossio ao Sul do Tejo. Uma carreira a colecionar medalhas nacionais e internacionais, detentora de 76 medalhas, 53 das quais conquistadas aos serviço dos rossienses. O ponto mais alto da sua carreira atingiu-o com a participação nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Kika, como é conhecida no meio da modalidade, em janeiro deste ano saiu do Sporting Clube de Portugal “com uma enorme tristeza”, ao fim de cinco anos de “dedicação e empenho diário”, e regressou a casa. Atualmente detém a marca de 13ª melhor canoísta a nível mundial.

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Estudou Medicina na Universidade de Coimbra e quer que o seu futuro passe pela prática clínica. Tem vários interesses, nomeadamente pela Segunda Guerra Mundial, gosta de programas de Cultura Geral, de documentários sobre História e acompanha a política nacional e internacional. Admira o trabalho político, classifica o governativo de “difícil” e não se vê naquele papel. Neste momento lê “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago, e pensa na preparação para os Jogos Olímpicos de Paris, em 2024.

Em janeiro deixou de ser atleta do Sporting Clube de Portugal. O que mudou nestes últimos meses na sua vida?
Foi preparar um regresso a casa, ao clube onde cresci, onde aprendi a fazer canoagem com o meu pai, onde fiz os meus primeiros anos de formação e depois de atleta de alto rendimento. Foi um regresso às origens. Claro que são clubes de dimensões diferentes, pelo menos no nome, quem ouve Sporting é diferente de Clube Desportivo Os Patos, mas para mim enquanto atleta foi muito bom voltar. Na prática não mudou rigorosamente nada porque continuo a fazer exatamente o mesmo. Mudou sim o clube que represento e estou muito feliz por isso.

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Mas teve convites para outros clubes ou preferiu regressar aos Patos?
Sim. Como sabe toda a modalidade de canoagem saiu do Sporting e tivemos vários convites de vários clubes de Norte a Sul do País, como grupo e individualmente, para representarmos esses clubes, mas preferi regressar. Não fazia sentido! Quando saí de Abrantes, em 2016, foi para representar um, teoricamente, grande, um clube onde teria mais condições e que me poderia fazer chegar mais longe, não desportivamente mas noutros campos, ter mais algum apoio que nos Patos na altura não conseguia ter. Saindo, não tinha raiz em mais lado nenhum. Para estar a representar um clube de Braga obviamente que ia representar o clube de Abrantes.

A canoista abrantina, Francisca Laia. Créditos: David Belém Pereira

E como foram os cinco anos no Sporting Clube de Portugal?
Foi ótimo! Permitiu-me crescer. Gostei muito de estar ligada ao Sporting. Fiz parte da equipa do Emanuel Silva, que é um atleta que dispensa apresentações e foi muito bom aprender com ele, com os seus ensinamentos, com o seu exemplo e com tudo o que já passou na sua longa carreira de atleta. Isso ajudou-me muito a crescer como atleta e mesmo como pessoa. É um clube diferente, tudo organizado para o desempenho desportivo, tem uma série de gabinetes que num clube de uma cidade mais pequena é difícil encontrar. Claro que houve coisas que não correram tão bem com pessoas do Sporting, não com o Clube, e acho importante fazer esta distinção, mas foram anos muito bons e que me ajudaram a atingir muitos objetivos.

Foi uma surpresa o Sporting suspender a secção de canoagem a seis meses dos Jogos Olímpicos de Tóquio?
Era de prever, mas lamento, a tão pouco tempo dos jogos olímpicos. Eu não estava, nem estou apurada, mas havia atletas apurados, e deixam de conseguir bons resultados. Acho que acabar com uma modalidade a tão pouco tempo dos jogos olímpicos depois de uma investimento de tanto tempo, é pena!

Falhou o acesso às Olimpíadas de Tóquio por muito pouco e diz não saber se a limitação foi física ou psicológica: “O que é que poderia ter feito melhor para que o barco fosse 18 milésimas mais rápido? Não sei! Fiz tudo para lá chegar!”

Detentora de 76 medalhas, atleta de campeonatos do mundo, de jogos olímpicos e inevitavelmente surge alguma exposição mediática. Lida bem com isso?
Tento não pensar muito nisso. Aliás, não penso rigorosamente nada. E não me sinto famosa nem é algo que ambiciono ser. Prezo muito a privacidade e a vida pessoal, acho que é muito importante. Sermos reconhecidos pelo nosso trabalho é bom, embora faça canoagem porque quero e não pelo reconhecimento mas dá-nos uma motivação extra. Ser conhecida e toda a gente saber quem eu sou, não é de todo o meu objetivo enquanto atleta.

A canoista abrantina, Francisca Laia, a treinar no Tejo. Créditos: David Belém Pereira

Quais são as rotinas diárias de um atleta de canoagem?
Pratica bastante. Treino pelo menos duas vezes por dia, podem ser duas sessões de manhã ou duas sessões de tarde, ou só uma de manhã e uma à tarde. Essencialmente o nosso dia é passado a treinar, treinamos em média cinco horas por dia. E depois não sobra assim tanto tempo entre alimentação e descanso. Eu deveria dormir mais do que durmo, um atleta deve dormir no mínimo 9 horas diárias, incluindo dormir uma sesta depois do almoço para estarmos preparados para o treino da tarde. As pessoas acham que é um luxo mas na verdade é uma necessidade. Quando estava a estudar, tinha de encaixar aulas, era ainda uma rotina mais louca e o dia parecia ainda mais curto.

Estudou Medicina na Universidade de Coimbra. Foi difícil conciliar com a alta competição?
Estudei medicina para garantir ter uma profissão no futuro e foi complicado. É difícil montar um horário em que caiba tudo, depois agilizar com o treinador, agilizar com o professor, agilizar com os amigos da faculdade, com as pessoas com quem se estuda, com a família. Uma ginástica que ganhei e que não me arrependo nada de ter feito. Hoje posso dizer que tenho mais capacidade de gestão de tempo.

A canoista abrantina, Francisca Laia. Créditos: David Belém Pereira

Arranjava tempo para tudo?
A verdade é que por ter começado na canoagem tão nova – primeiro a escola primária, depois o secundário e por fim a faculdade –, não sei o que é estudar e ter boas notas sem canoagem. O grau de dificuldade foi aumentando mas não comecei no mais difícil, não conciliei os estudos só na faculdade. Foi um processo gradual. O facto de ter começado muito cedo ajudou-me mas não há uma fórmula de sucesso. É sabermos onde queremos chegar e fazermos tudo para isso, com alguns valores pelo meio, sem passar por cima de ninguém. É termos presentes os nossos objetivos. Uns dias dedicava mais à canoagem outros mais à medicina e tinha presente a ideia de não pensar em canoagem quando estava na faculdade e não pensar em medicina quando estava na canoagem. Era gerir o dia a dia. Decidi fazer Erasmus precisamente para conseguir conciliar as duas coisas porque o quinto ano é muito exigente. O Erasmus deu-me a possibilidade de me desenvolver ainda mais como pessoa e a nível desportivo. Fui para Palermo [Itália], tive de treinar num sítio onde não falavam a mesma língua que eu, um clube para pedir um barco emprestado para treinar numa doca em Palermo e ao mesmo tempo ir para o hospital todos os dias, ter aulas e estágio, numa cidade que não conhecia. Foi um desafio a nível desportivo e a nível pessoal.

Terminada a licenciatura em Medicina, pretende continuar os estudos?
Sim. Concluí medicina em 2018 e em 2019 fiz uma pós graduação em medicina desportiva. Um mestrado que tenciono concluir, tenciono fazer uma tese para ficar mestre em medicina desportiva, mas o próximo objetivo passa por fazer o ano comum e seguir o percurso dito normal na carreira médica. Ter autonomia para poder começar a trabalhar como médica ainda durante a minha carreira de atleta. Voltar a conciliar as duas coisas, agora não como estudante mas como médica, sem fazer o exame da acesso à especialidade. Quando fizer a PNA [Prova Nacional de Acesso] quero estar dedicada e portanto vou adiar mais uns anos.

Uma especialidade ligada ao desporto?
Não. É uma vida muito exigente, temos de nos dedicar… consome-nos tanto que no futuro, como médica, não ambiciono uma carreira louca. Quero sentir que ajudo as pessoas e que as pessoas se sentem bem com o que faço por elas, é isto que me move em medicina.

A canoista abrantina, Francisca Laia. Créditos: David Belém Pereira

Hoje já treinou. Ontem foi feriado, porventura mais um dia duro de treinos ou deu para descansar?
O único dia em que, normalmente, descansamos é ao domingo. Neste desporto, no desporto de alta competição, não há feriados. Todos os dias são iguais, tanto é assim que, às vezes, até me perco nos dias da semana.

Mas nos últimos meses, com o apuramento para os jogos olímpicos e com o campeonato do mundo, o treino foi mais intenso, ou não?
Sim. Se bem que muita gente tem a ideia errada de que só treinamos antes das provas. Costumo dizer que entrei na canoagem em 2013 e demorei 13 anos para chegar ao Rio de Janeiro em 2016, ou seja, foram 13 anos de trabalho para aquele objetivo. É muito mais do que treinar uns meses para um apuramento. Contamos o tempo em ciclos de quatro anos e durante esses quatro anos temos de ter obrigatoriamente objetivos intermédios e objetivos a curto, médio e longo prazo, sendo que a longo prazo são sempre os jogos olímpicos mas para estarmos motivados temos objetivos a curto prazo. O nosso corpo é como uma máquina que tem de ser afinada e trabalhada, senão não chegamos lá. Mas este final foi realmente intenso, passei muito tempo em Montemor-o-Velho, não consegui o apuramento por muito pouco, sabia que era difícil mas estou 100% com a Teresa [Portela] e a Joana [Vasconcelos] que estão apuradas e a torcer para que tenham um grande resultado nos jogos olímpicos.

Não conseguiu o apuramento para os Jogos Olímpicos de Tóquio e não conseguiu uma medalha na Taça do Mundo mas foi a 13ª melhor atleta mundial. Como se sente com esta classificação?
Soube-me a muito pouco. Como atleta, as nossas ambições nunca são baixas e não nos contentamos com pouco. Há poucos resultados que nos deixam muito felizes, ambicionamos sempre mais. Esse 13º lugar… tinha vindo de dois dias inteiros de apuramento e o foco, para essa semana, era tentar o apuramento olímpico para K2 500 metros. Tenho noção que não cheguei em tão boa forma como poderia ter chegado a essa prova, e o meu objetivo era estar presente na final. O K1 200 metros é uma prova que se decide ao milímetro, não faço ideia o que poderia acontecer, mas claramente não atingi o mais baixo dos objetivos, que era estar na final. É um bocadinho frustrante mas a vida continua. Agora vou trabalhar para os Jogos Olímpicos de Paris [em 2024].

Ficou desanimada?
Sim. Estaria a mentir se dissesse que não. É todo um processo que vai demorar. Para um atleta não conseguir ir a uns jogos olímpicos é como não atingir aquele objetivo determinante para continuar e já passei a fase pior mas vai demorar algum tempo a superar.

A canoista abrantina, Francisca Laia. Créditos: David Belém Pereira

Como é, neste momento, o foco no treino?
Faço canoagem desde os 6 anos e gosto… o meu pai já fazia canoagem antes e portanto estou muito envolvida. O foco é ter gosto por ir remar, por me saber bem. Estou nessa fase. Vou ter Nacional dias 17 e 18 de julho e estou a treinar, mas neste momento não consigo ter provas em mente e portanto estou a treinar com o sentimento de gosto e de prazer, de pegar no barco, mete-lo na água e ver a proa a cortar a água.

Num ciclo normal, seriam os habituais quatro anos de preparação mas entretanto chegou um vírus. Como é que foi com a pandemia?
Olhando para trás, e tendo estas duas últimas semanas para pensar sobre tudo e olhar em retrospetiva, primeiro foi um ciclo bastante atribulado, com coisas que poderiam ter corrido muito melhor. Houve uma separação da equipa feminina em termos de treinadores, da equipa nacional, e depois houve a covid-19 que nos adiou a vida um ano. Neste momento estaria a fazer o ano comum. Em 2020, o que me custou mais foi a incerteza, não saber se ia ou não ter provas, se ia ou não ter apuramento. Eu guio-me por um objetivo e trabalho para ele, definir e a partir daí criar um plano que me poderá fazer chegar lá da melhor forma possível. Aqueles meses de março e abril não dava para ter esse plano, eu não sabia para o que estava a treinar, porque se dizia que os jogos iam ser adiados e assim as nossas perspetivas são adiadas, não sabíamos se ia haver provas nacionais, sentíamos um vazio. Não é fácil, é uma vida saturante, estar sempre nas mesmas rotinas, com as mesmas pessoas, é preciso alguma força de vontade e resiliência e ainda mais com este ano de adiamento. Foi duro mas o que não podemos controlar não vale a pena sofrermos, portanto foi redefinir objetivos e continuar a treinar.

Então o seu dia-a-dia não mudou, a rotina era igual…
Exatamente! Porque o objetivo continuava lá só que um ano mais tarde. Houve coisas que mudaram, vivi com a minha avó durante duas semanas e adaptei-me. Houve coisas boas na covid-19, não foi tudo mau, deu para aproximar-me mais de algumas pessoas, especialmente da minha família porque passei mais tempo em casa com o confinamento. Foi um desafio não só para nós enquanto atletas mas para todos, a nível pessoal. A rotina manteve-se exatamente igual. Era o meu escape; pegar no meu barco e ir para a barragem em silêncio porque não havia ninguém na rua. Enquanto atleta tinha um papel para poder circular e foi o que me ajudou a manter a sanidade mental. A canoagem acabou por ser mais do que o meu desporto, era o meu escape, o que me fazia esquecer o estado em que tudo estava.

A canoista abrantina, Francisca Laia. Créditos: David Belém Pereira

Quais os locais que privilegia para treinar?
Em Abrantes, no rio Tejo, e no rio Zêzere, em Aldeia do Mato.

E quando estudava em Coimbra?
Treinava no rio Mondego, e em estágio em Montemor-o-Velho, a maioria das vezes. Vivi um ano e meio em Coimbra, depois fui residente em Montemor-o-Velho, mas mantive sempre a casa em Coimbra e nas semanas que não estava em estágio, estava lá. Treinava no Mondego com o Clube Fluvial de Coimbra, deixaram-me guardar o barco e utilizava as instalações do clube para fazer ginásio. E também foi giro! Uma das coisas que ganhamos com a canoagem, não só nacionalmente mas também a nível internacional, é este intercâmbio. Conhecemos tanta gente, de clubes diferentes, de países diferentes, e não há duas pessoas iguais, há uma multiculturalidade que me faz ver o mundo com outros olhos e isso também é muito enriquecedor.

Sendo dura a vida de atleta, qual é o seu pilar?
Costumo dizer que temos de ser um pouco egoístas para estarmos nesta vida porque, obrigatoriamente, passamos menos tempo com as pessoas que gostamos, nem metade do tempo que gostaríamos. Temos de ser um bocadinho egoístas até para as privar da nossa companhia, das pessoas que gostam de nós. Mas independentemente dos resultados as pessoas que gostam de nós vão continuar lá, e isso é um grande pilar e é um dos pensamentos que tenho quando estou em prova; vou tentar que corra o melhor possível mas sei que as minhas pessoas, quer corra bem quer corra mal, está lá. É aquele poste que está enterrado 10 metros no chão, pode vir a maior tempestade que continuamos ali. Esse pilar é a família e alguns amigos.

A canoista abrantina, Francisca Laia. Créditos: David Belém Pereira

Quando está na linha de partida, antes de iniciar uma prova pensa em quê?
Estar atrás de um sistema, é uma adrenalina incrível! Mas é isso que nos move. Uma das coisas que custou muito na pandemia foi exatamente isso, não competir. Treinamos para competir porque adoramos aquele nervoso, aquela responsabilidade de estar ali atrás do sistema e pensar em chegar o mais rapidamente possível ao fundo, onde estão as oportunidades. Passa-me muita coisa pela cabeça, mas passa-me ainda mais no percurso desde que entro na plataforma e tenho de dar a volta até chegar à linha de partida, pensamentos com as pessoas de quem gostamos, surgem-me no caminho. Aconteceu-me no Rio, estava do outro lado do Atlântico mas senti as pessoas como se estivesse em Portugal, tal era o apoio. E depois todas as histórias que as pessoas contavam… senti-me realmente perto delas. Antes da prova o foco é a prova.

A Francisca compete em K1, K2 e K4, dependendo do objetivo do momento, mas onde é que se sente mais confortável?
É completamente diferente! Mas ganhar num barco de equipa e poder partilhar com aquela pessoa que partilhou exatamente o mesmo que nós um momento bom, é das melhores sensações que tive na canoagem. Em K4 – em que somos quatro – é indescritível! Porque aquelas três pessoas sabem exatamente o que estamos a sentir e é muito bom. E por todo o trabalho que envolve, acho que escolheria o barco de equipa. Primeiro é preciso humildade e depois é preciso um trabalho conjunto. É como um iceberg, só a ponta é que se vê – a prova – mas o que está debaixo de água é 10 vezes maior. No fim, quando as coisas correm bem, realiza-me muito. Quando as coisas correm mal sabemos que temos outra pessoa que viveu como nós e que compreende a 100% e nem temos de explicar. Nos momentos maus também é muito bom ter uma equipa.

Qual foi o melhor e o pior momento da sua carreira?
Estão ambos ligados aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. O momento mais alto até agora na minha carreira de atleta foi estar presente nos Jogos Olímpicos. Foi aquele dia em que me apurei, o dia que cheguei à Aldeia Olímpica e aquele conjunto de dias ligados aos Jogos. Não fiquei muito satisfeita com o meu desempenho no Rio e estava à espera de conseguir estar em Tóquio para melhorar essa classificação. Até acho um bocadinho irónico ter conseguido o apuramento quando estava a estudar Medicina e no momento em que estou 100% dedicada à canoagem não ter corrido bem. Acho que diz alguma coisa acerca da gestão do tempo e de que não é preciso estarmos 100% dedicados para correr bem. Às vezes é bom ter outra coisa que nos ajuda a limpar a mente e a cabeça. O pior é o grupo dos apuramentos falhados. Principalmente o primeiro apuramento olímpico em 2015, em Milão, de K4. Não conseguimos o apuramento por 18 milésimas de segundo. Foi realmente duro, o mais marcante.

A canoista abrantina, Francisca Laia. Créditos: David Belém Pereira

Como funciona a pressão do momento?
É boa! Estarmos nervosos é sentido de responsabilidade, sabemos a nossa responsabilidade perante aquele momento e gosto dessa sensação. Saber que é um momento importante. Gosto da incerteza de saber se vou conseguir ou não. Gosto daquela responsabilidade de demonstrar o meu valor. Também é isso que me move.

Quando se falha, o que é correu mal? Uma questão física, psicológica ou qualquer outra que um atleta não consegue controlar?
Num desporto como a canoagem que depende de questões meteorológicas… muitas vezes temos esses fatores que não conseguimos controlar e temos de aprender a abstrair-nos deles. Mas umas vezes é psicológico, outras vezes é físico, é um conjunto. Somos humanos, se fossemos máquinas não falhávamos. É esta parte que, às vezes, as pessoas não entendem. Eu tenho uma vida exatamente igual à sua, com todas as vertentes que inclui mas em adição a isso tenho a canoagem, sou atleta. Este conciliar de tudo que torna tudo mais interessante mas também mais difícil. Não sei se é físico se é psicológico… o que é que poderia ter feito melhor para que o barco fosse 18 milésimas mais rápido? Não sei! Naquele momento fizemos a prova e tivemos noção; foi renhido. Demos o nosso melhor e isso é algo que me conforta, pelo menos quando passa aquela depressão inicial de não atingir o objetivo. Fiz tudo para lá chegar!

Nasceu em Abrantes, cresceu na sua cidade natal, aos seis anos agarrou a canoagem. Como é que foi esse inicio?
A minha primeira prova foi em 2003, as pessoas que estão nas fotos no Clube Os Patos são as pessoas de quem me lembro, que fazem parte das minhas memórias, na barragem e no rio Tejo. Lembro-me de passar muito tempo na barragem a aprender, a cair à água, a pôr-me em cima do barco e a passar a zona mais complicada. Sempre com o meu pai, quem me ensinou… o André, o João, que aprenderam ao mesmo tempo que eu.

A canoista abrantina, Francisca Laia. Créditos: David Belém Pereira

O seu pai [João Laia] foi seu treinador. Lembra-se da sua primeira mensagem?
Essencialmente, o que o meu pai me tentou transmitir foi o gosto que tinha por este desporto, que para ele, tal como para mim, é uma forma de vida. Escolher estar ligado a um desporto aquático, no caso a canoagem, dá-nos uma perspetiva da vida um bocadinho diferente. A visão de fora para dentro do rio toda a gente a tem, mas a visão de dentro do rio para fora muito pouca gente pode dizer que já teve. Transmitiu-me uma forma de viver diferente e um desporto que pode ser muito mais que um desporto. E que me divertisse enquanto criança, ser feliz. Ainda hoje, no final do dia temos de nos sentir felizes a fazer as coisas, se assim não for, mais tarde ou mais cedo não vai correr bem.

E ser treinadora, passa pelos seus objetivos de futuro?
Penso que não. Acho que não tenho paciência. Ser treinador é muito mais que fazer um plano de treino e executar. Ser treinador é ser psicólogo, é ser amigo, é quase ser uma pessoa da família, temos de confiar a 100%, tem de saber muito de nós. É uma relação de muita confiança e não passa pelos meus objetivos porque quero muito ter uma carreira na Medicina.

Mas qual seria o seu primeiro ensinamento, caso treinasse alguém?
O importante é mesmo gostar. É ir para o treino e naquele tempo que estamos no treino estarmos a desfrutar, sermos exigentes connosco mas ao mesmo tempo estar a “curtir”. Só assim é possível, especialmente na canoagem porque são tantas horas que se não houver gosto não vamos conseguir. Portanto, o meu primeiro ensinamento seria: façam canoagem, dediquem-se e pensem nos resultados, pensem em tempos, pensem em velocidades mas acima de tudo tenham gosto por isso e divirtam-se nesse processo. Já houve uma fase da minha vida, em 2019, no primeiro ano que deixei de estudar, em que só via velocidades, médias, tempos e chegou um momento em que quase tive um esgotamento, perdi completamente o gosto pela canoagem porque estava obcecada no desempenho e foi um dos maiores ensinamentos que tive; num momento mau. Trabalhei com uma psicóloga e passados dois meses ganhei a minha primeira prova nacional em 200 metros. É mesmo importante gostarmos do que fazemos para nos conseguirmos manter na canoagem durante muitos anos.

Já houve uma fase da minha vida em que só via velocidades, médias, tempos, e chegou um momento em que quase tive um esgotamento, perdi completamente o gosto pela canoagem porque estava obcecada no desempenho

Como define o papel das mulheres no desporto? Ainda é um espaço de homens?
Sinto, ainda hoje, que uma mulher tem de lutar muito mais para ganhar um lugar, para ser valorizada. Enquanto um homem, no desporto, está no habitat natural. Ainda há esse estigma, que o desporto é um mundo de homens e uma mulher, sendo realmente boa naquilo que faz – seja atleta, treinadora, dirigente, o que seja –, tem de lutar muito mais para conseguir a aprovação do meio. A maioria são homens portanto ainda mais difícil é a aprovação, mas felizmente as coisas estão a mudar e temos inúmeros exemplos disso, a Elisabete Jacinto é a prova viva de que é possível. Não me sinto nada inferior a um homem que pratique canoagem. Claro que são competições diferentes e cada um compete na sua categoria mas é igualmente válido. Temos de lidar sempre com situações que não gostamos de ouvir mas cabe-nos a nós ganhar esse lugar e lutar pela igualdade que ambicionamos.

Não sendo fácil conciliar a vida social e familiar com a alta competição, pensa na maternidade?
O meu relógio biológico ainda não despertou mas gostava muito de ser mãe. É um tipo de amor que só se conhece quando se ama, é o que a minha mãe me diz e o que vejo nas minhas amigas que já foram mães. Mas não sei se gostava que o meu filho fosse atleta de alta competição, por já ter vivido e saber o duro que é. Contudo, caberá a ele ou ela decidir e estarei cá para apoiar como os meus pais sempre estiveram, apesar da distância, que hoje é cada vez mais relativa. Tal como os meus amigos, que com o tempo começaram a compreender quão importante era a canoagem para mim, compreender que seria um caminho diferente, não é melhor ou pior. Um estigma que ainda temos de lidar muito em medicina porque o normal é fazer os seis anos, ano comum, acesso à especialidade e eu segui um percurso um bocadinho diferente, tal como outras pessoas seguiram o caminho da investigação e decidiram parar com a parte clínica. São escolhas e acho que consegui alguns resultados, a prova disso é estarmos aqui a falar.

Fora de água, quem é a Francisca, que música ouve, que livros lê e que filmes vê?
A Francisca é aquela pessoa que não dispensa um café ao sábado à noite com os amigos. Costumo dizer que sou feita de pessoas e das vivências que tenho com essas pessoas. Acho que somos todos. Mas gosto muito de passar tempo comigo própria, gosto de ouvir música, gosto de ler – neste momento estou a ler ‘Ensaio sobre a Cegueira’ de José Saramago. E gosto de passar tempo com os amigos e com a família nos momentos em que consigo não pensar em canoagem. Na música sou eclética, da música clássica até ao rock, quando estudava ouvia muita música clássica. Gosto de ir ao cinema – agora não porque não se pode comer pipocas, portanto, ainda não fui ao cinema durante a covid -, gosto de ver filmes nomeadamente históricos, também de documentários sobre a Segunda Guerra Mundial, sobre o Egito, o último que vi foi sobre os túmulos de Saqqara. Adoro programas de cultura geral. Interesso-me cada vez mais pela política nacional e internacional, acho que é uma coisa que vem com a idade. Cada vez mais temos de ter uma opinião formada e informada.

A canoista abrantina, Francisca Laia. Créditos: David Belém Pereira

Além da canoagem, pratica outros desportos?
Fiz todos os desportos e mais alguns, por exemplo atletismo. Em pequena gostava muito de ginástica mas não havia em Abrantes.

Alguma coisa a tira do sério?
Não gosto de esperar, mas também não sou aquela pessoa que chega sempre a horas. Na canoagem, quando alguém está a fazer a tripulação comigo não gosto de sentir que está ali porque sim. Gosto de trabalhar com pessoas dedicadas. Isso às vezes tira-me do sério; perceber que estou a dedicar-me, a dar tudo, e a outra pessoa não está.

E para si, quem é o melhor canoísta?
Não gosto da palavra ídolo. Mas como disse sou feita de pessoas e do que consigo tirar das várias pessoas com quem me relaciono. Diria o Emanuel Silva, mas poderia dizer qualquer um dos outros canoistas. É realmente o canoista com mais participações olímpicas em Portugal. Na idade dele, conseguir o que já conseguiu é admirável. Tem uma força psicológica que é super importante para conseguir ser o atleta que se propõe a ser.

A canoista abrantina, Francisca Laia. Créditos: David Belém Pereira

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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