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Sexta-feira, Setembro 17, 2021

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ENTREVISTA | Francelina Chambel, uma das “cinco magníficas” eleitas nas primeiras autárquicas

Cumpriu cinco mandatos à frente da Câmara Municipal do Sardoal, entre 1977 e 1993, e considera que os autarcas de hoje, com outras condições financeiras, podiam fazer muito mais. Foi condecorada pela Presidência da República pelos seus serviços públicos e é com orgulho que diz: "O que tinha é o que tenho. Entrei na câmara de mãos lavadas e saí de mãos limpas."

Em janeiro de 1977, após as primeiras eleições autárquicas, tomavam posse das Câmara Municipais apenas cinco mulheres, num mapa de 302 municípios. Uma das autarcas foi Maria Francelina dos Santos Chambel que, aos 42 anos, chegaria de forma surpreendente a presidente da Câmara do Sardoal (as restantes em Coimbra, Estarreja, Mealhada e Vagos). Só dez anos depois de ter sido eleita é que Mário Soares a convenceu a filiar-se no PS. Esteve à frente do executivo municipal até 1993 e recebeu a comenda da Ordem do Infante D. Henrique – para si a mais importante – pelas mãos do Presidente da República Jorge Sampaio. “Achou que tinha feito um trabalho que merecia reconhecimento”, diz, sem vaidade.

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A comendadora Francelina Chambel tem hoje 86 anos. Nasceu a 4 de agosto de 1934, embora no registo conste a data de 6 de agosto. É viúva do sardoalense José Chambel Dionísio, tem quatro filhos e quatro netos. Antigamente entretinha-se a fazer trabalhos manuais como crochet ou tricô, mas agora diz já não ter motivação. Gosta de ler e de viajar, apesar das dificuldades de locomoção, e continua a acompanhar a política. Natural de Miranda do Corvo, recebeu-nos em sua casa, na terra que a acolheu: o Sardoal.

Conta-se entre as mulheres autarcas conhecidas por “as cinco magnificas”, pioneiras na liderança de uma autarquia. Sabia o que a esperava?
Não, não sabia, até porque quando me candidatei, instada por muitos que se organizaram em Sardoal e também pelo meu marido e pelos meus filhos, não tinha intenções de ser eleita. Pensei que era uma coisa sem consequências. Encarei na desportiva, nunca pensei ganhar. Eu sou de Miranda do Corvo, não vivia na terra (ainda trabalhava em Lisboa), as pessoas das restantes freguesias não me conheciam, e concorri com um indivíduo natural de Sardoal. Não pus na minha cabeça que ia ter de mudar de repente, com quatro filhos, para o Sardoal.

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A comendadora Francelina Chambel em sua casa, no Sardoal. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Então como fez de Sardoal a sua terra?
É fácil! Com seis anos fui para Lisboa, lá conheci o meu marido, natural de Sardoal, casei e fizemos a nossa casa. Quando fui eleita já tínhamos a casa construída no Sardoal. Mudámo-nos e pronto.

Quem era Francelina Chambel antes de ser presidente de Câmara?
Era chefe de serviço na Segurança Social, em Lisboa. O meu marido é que se movimentou em Sardoal, juntamente com o pai, o senhor Jorge Graça, e outros, que estavam todos entusiasmados. Não sei por que se entusiasmaram com a minha pessoa. Como sabiam que exercia funções de chefia, provavelmente foi isso que os motivou a proporem-me para ser candidata à Câmara. Aceitei aquelas funções depois de me serem explicitadas por Jorge Lacão, o grande acompanhante de toda essa movimentação.

“Não sei por que se entusiasmaram com a minha pessoa. Como sabiam que exercia funções de chefia, provavelmente foi isso que os motivou a proporem-me para ser candidata à Câmara”

Mas referiu que muitas pessoas estavam entusiasmadas. Viram em si uma líder política?
Não sei. Eu visitava o Sardoal com muita frequência. Os meus filhos passavam as férias grandes no Sardoal. Era bastante conhecida e até havia muita gente que ajudava a nível dos meus serviços.

Retrato de Francelina Chambel com 20 anos. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Quando foi eleita tinha 42 anos, portanto viveu grande parte da sua vida em ditadura. Era uma ativista contra o regime?
Não era ativista. Havia muita coisa com a qual não concordava, como ainda hoje não concordo. Fiz a minha vida assim, nunca me meti na política, conheci pessoalmente a família do Salazar, tive o privilégio de ter acesso e de ver o espólio dele, que era paupérrimo. Nunca fui perseguida, nunca fui molestada, nunca houve qualquer problema comigo durante a ditadura. Não estava dentro da substância que era a oposição a Salazar. Passei a estar na defensiva quando se deu a Guerra do Ultramar. Nessa altura tinha tido o meu filho e a minha aflição era se um dia iria para lá também.

Como viveu a Revolução de Abril?
Lembro-me perfeitamente do dia. Estava em casa, eram 7 da manhã e telefonaram-me do meu serviço a perguntar o que havíamos de fazer às crianças que tinham de ir para a creche. Entretanto dei indicações, arranjei-me e fui com os meus quatro filhos para o serviço, e lá inteirei-me do que estava a acontecer. Do ‘bruá’ que já havia, pessoas que eram do antigo regime e depois já eram deste… Uma grande confusão.

Francelina Chambel com os quatro filhos e o marido José Chambel Dionísio. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Algo a marcou?
Sim, uma coisa engraçada. Pessoas que vi sempre a apoiarem o Salazar, até funcionários do serviço, a fazerem completamente a inversão da sua atitude. No dia 25 de Abril de 1974 já eram indivíduos que se opunham ao regime. O que era mentira! Havia alguns que até pertenciam à Legião Portuguesa. Lembro-me de um funcionário que era tão salazarista que foi dos primeiros a fazer reuniões ad hoc com os funcionários a incentivá-los a irem contra as chefias. A mim nunca me tocaram. Peguei no processo individual dele e tirei-o do arquivo, pu-lo no meu gabinete para estar ao pé de mim, bem acobertado, sem quaisquer problemas que outros lhe pudessem levantar. Era um homem incrível! Lembro-me dele como uma pessoa que sempre me respeitou muito, também sempre o respeitei, era muito amiga dos seus três filhos, protegi alguns. Aconteceram muitas situações caricatas nessa altura, de pessoas que não pensávamos que fossem aquilo que depois demonstraram ser efetivamente. Uma grande surpresa, pela negativa.

Consegue descrever o clima político e social naqueles dias a seguir à Revolução?
Foi complicado. As pessoas não tinham consciência do que estava a acontecer. Cada um tomou as coisas à sua maneira. As pessoas praticamente não acreditavam que o antigo regime tinha acabado e só quando viram o que se passou no Largo do Carmo, com a saída de Marcello Caetano, é que se capacitaram que de facto tinha havido uma inversão total da política em Portugal. Depois começaram as reivindicações. Toda a gente prometia, ninguém cumpria, foi um bocado confuso. Estabilizou talvez a partir da eleição do primeiro Presidente da República em democracia.

A então presidente da Câmara de Sardoal, Francelina Chambel. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

E perante essa “confusão”, o que fez?
Nunca me esqueço que o meu marido estava nessa altura a trabalhar no Porto e eu estava em Lisboa com o meus filhos e ele pediu-me para ir ao Sardoal deixar os miúdos. Meti-me a caminho, morava nos Olivais, próximo do R.A.L.I.S, e com todos os meus filhos no carro fui mandada parar, perguntaram-me para onde ia. Expliquei e disseram-me que não podia ir. Tinha de voltar para trás. E como voltava, se estava nas portagens? O senhor indicou-me para seguir em frente e depois, em determinado ponto, fazer inversão de marcha. Assim fiz e quando cheguei novamente às portagens, já no sentido inverso, novamente fui parada… mas desta vez mandaram-me para o destino que tinha em mente. Quando passar em determinada zona – do Lumiar para baixo –, diga esta palavra. Deram-me uma palavra passe. Nesse dia andei por Portugal fora, eu e os meus filhos, e perdemo-nos. Lembro-me que fui comprar pão de ló, porque passámos em Alfeizerão. Não sabia onde andava, não havia telemóveis nem GPS, mas a determinada altura consegui encontrar o caminho e lá cheguei ao Sardoal. Portugal era muito diferente do que é hoje, nomeadamente em vias rodoviárias. Foi uma grande vitória que se alcançou.

“[no 25 de Abril] andei por Portugal fora, eu e os meus filhos, perdemo-nos. Lembro-me que fui comprar pão de ló porque passámos em Alfeizerão. Não sabia onde andava, mas lá cheguei ao Sardoal”

Passada a Revolução, em liberdade, e com as primeiras eleições autárquicas, como foi a campanha eleitoral?
Aceitei candidatar-me e tinha os meus colegas que faziam parte das listas, datilografámos alguma coisa. Não havia a campanha eleitoral que depois se fez com imensos panfletos, etc. Naquela altura não tínhamos dinheiro, não sabíamos mesmo como a coisa ia ser dali para a frente, e fizemos a campanha porta-a-porta. Os vereadores da lista do PS – alguns ainda são vivos –, o senhor Fernando Rosa, um colaborador extraordinário, o senhor Jorge Paulino e mais uns quantos, andavam todos em campanha. A verdade é que nunca pensei ganhar contra um sardoalense e depois tive aquela surpresa.

Francelina Chambel permanece atenta à política, aos 86 anos. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Quem foi o seu adversário político?
Era Lúcio Carvalho Grácio, que já morreu. Professor e candidato pelo CDS. O meu grande adversário em Sardoal foi sempre o CDS, não foi o PSD, porque nessa altura não havia praticamente PSD. Era o CDS liderado por Álvaro Passarinho, antigo presidente da Câmara durante a ditadura, mentor da direita em Sardoal.

Sardoal era uma terra de direita?
Não sei se Sardoal era uma terra de direita ou de esquerda. Ainda hoje não sei. Porque nas autárquicas, quando me candidatava, votavam no PS. Depois, nas eleições a nível parlamentar, votavam no CDS. Hoje votam no PSD.

“Não sei se Sardoal era uma terra de direita ou de esquerda. Ainda hoje não sei. Porque nas autárquicas, quando me candidatava, votavam no PS. Depois, nas eleições a nível parlamentar, votavam no CDS”

Quais eram as esperanças que via do povo?
O povo esperava que o poder político se inclinasse para lhes satisfazer as suas ambições, que eram justas. É bom não esquecer que a maior parte do Sardoal não tinha sequer água em fontanários. Foi praticamente a primeira tarefa que fiz, trazer água para os fontanários, para as pessoas se abastecerem, estudando ao mesmo tempo o problema da instalação da água nos domicílios.

Francelina Chambel só se tornou militante do Partido Socialista dez anos depois de ser eleita. Foi Mário Soares quem a convenceu. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Havia muito por fazer?
Sim! E após o 25 de Abril formaram-se algumas Comissões de Moradores, por exemplo a de Andreus, quase todo o concelho estava coberto com associações de moradores que fizeram o trabalho muito válido. Desenvolviam um trabalho muito diversificado, até no aspeto social. Por exemplo, os caminhos vicinais eram todos em terra batida, até mesmo dentro das povoações, e as associações começaram a tratar disso juntamente com os militares, que ajudavam muito as Comissões de Moradores de então.

A Francelina era uma exceção, uma vez que em 1976, saídos de um regime autoritário, a mulher ainda tinha um papel muito pouco interventivo, mais de fada do lar…
Nessa altura já haviam muitas mulheres a trabalhar. No entanto, os cargos de chefia eram todos para os homens. É verdade que fui chefe de serviço muito nova, e por mérito, mas a maioria das mulheres estava na chamada ‘cepa torta’, andavam pouco. Foi-se conquistando terreno, embora de forma muito lenta, e foi duro.

Francelina Chambel com Maria Barroso durante uma das muitas homenagens que recebeu. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Quando surge a igualdade de direitos, em 1977, já está em funções como presidente de Câmara. Sentiu a sua candidatura como um desafio à sociedade conservadora?
Ao candidatar-me sabia que as coisas ainda não tinham sido modificadas. Por exemplo, para ir daqui à Madeira tinha de pedir autorização ao meu marido. Isso aconteceu já eu era presidente na Câmara Municipal. Pouco tempo depois a lei foi alterada.

Pensava que iria perder as eleições também por ser mulher?
Não. Em Sardoal nunca houve esse problema do machismo. Nunca fui hostilizada por ser mulher, só fui hostilizada porque não era daqui e roubei o lugar a um homem sardoalense, que era conhecido e estimado.

A comenda da Ordem do Infante Dom Henrique, que recebeu das mãos do Presidente Jorge Sampaio. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

O que acha que levou as pessoas a votarem em si?
Talvez pela mudança, porque vinham de um regime em que os presidentes da Câmara eram todos nomeados sob proposta do então governador civil, que levava os nomes ao governo de então, e nomeava os presidentes das Câmaras. Lúcio Serras Pereira, um presidente que esteve aqui muitos anos, foi sucessivamente nomeado, e Álvaro Passarinho a mesma coisa.

Portanto, esta escolha foi um corte com o antigo regime?
Sim, foi um corte. Recordo que antes da Revolução ninguém votava.

Mas ganhou. O que sentiu?
Pois… interroguei-me: O que é que eu vou fazer? Os filhos: estavam dois no liceu e dois na escola primária. Foram os grandes sacrificados de tudo isto, nunca tenho tempo suficiente para lhes pedir desculpa, porque os mais velhos estavam num liceu perto de casa, no D. Dinis nos Olivais, e chegaram aqui tiveram de estudar em Abrantes, todos os dias de camioneta, ir e vir. Mal alimentados, porque tinham de comer na escola. E vinham de um sitio onde conheciam todos os seus amigos, foi uma grande mudança. Os mais pequenos foram para a escola primária em Sardoal, era diferente. Mas sofreram muito e os filhos do outros autarcas de então também sofreram um bocado.

Francelina Chambel, na sua casa, no Sardoal. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Foi uma surpresa e teve de aprender a lidar com ela?
Sim. A minha vida complicou-se e ficou completamente ao contrário.

Se fosse hoje, voltava a fazê-lo?
Não sei. Hoje as condições de candidatura nada têm a ver com o tempo em que fui presidente de Câmara. Mas se fosse mais nova talvez tivesse esse arrojo. Gostei muito de ser autarca. Foi importante!

No poder local, que mudanças destaca desde 1976 a 2021?
Não quero estar a dizer que nós fizemos tudo, mas a realidade é que encontrámos um País onde estava tudo por fazer e não havia dinheiro. A Câmara Municipal só tinha dinheiro para pagar aos funcionários porque não me pagava a mim. O meu serviço é que pagou o meu vencimento durante três anos. E nós agarramos ao mesmo tempo diversas áreas, porque tinha mesmo de ser. As coisas estavam muito atrasadas. Começámos a trabalhar no abastecimento de água, mandámos fazer projetos para os esgotos, edifícios. Encontrei uma Câmara quase a cair, comecei lá obras, uma obra comparticipada, assim como o bairro da Tapada do Milheiriço. Comecei com um financiamento e depois o financiamento faltou, porque entretanto foi publicada a Lei 1/79 que dava autonomia financeira às Câmara Municipais e eu, tal como muitos, ficámos pendurados com obras comparticipadas. Entretanto, encontramos solução, porque tivemos uma secretária de Estado que era uma mulher espetacular, a drª Helena Torres Marques, autora da Lei 1/79, a pessoa que nos ajudou a encontrar soluções para essas obras. Muitas situações não foram resolvidas, não tínhamos como! Depois lá começou a haver financiamento e fomos andando.

Maria Francelina dos Santos Chambel em criança. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Considera, então, que atualmente é mais fácil ser autarca?
Sim. Para já têm muito mais dinheiro, às vezes nem é bem utilizado. E por outro lado têm obrigação de dar o melhor de si mesmos, porque são muito bem remunerados. Como lhe disse, durante três anos não recebi um tostão da Câmara e depois o vencimento era irrisório. Não tem nada a ver com os atuais vencimentos. Não tínhamos direito a um gabinete, a um secretário, a vereadores a tempo inteiro. Não tínhamos direito a nada disso. Isto agora é uma festa, dá para tudo!

“O vencimento [de presidente de câmara] era irrisório. Não tem nada a ver com os atuais vencimentos. Não tínhamos direito a um gabinete, a um secretário, a vereadores a tempo inteiro. Não tínhamos direito a nada disso. Isto agora é uma festa, dá para tudo!”

Trabalhava-se por uma missão, em nome da causa pública.
Sim. Tínhamos de fazer tudo! Não tinha uma secretária, não tinha ninguém. Não tínhamos possibilidade de o fazer ao abrigo da lei. Só mais tarde, alguns começaram a reivindicar e a ter essas componentes que achavam que lhes fazia falta. Acho que fazem falta em certa medida, mas há casos em que são autênticos exageros.

Atualmente há 308 câmaras municipais, mas só 32 presididas por mulheres. Este ano há novamente eleições autárquicas. As mulheres não têm interesse pela política ou são os homens que não têm interesse na participação feminina?
Tenho a impressão que as mulheres se acomodam um bocadinho. E aquelas que se atrevem como eu, às vezes sofrem muito com isso. Eu sofri bastante aqui nesta terra, mas passou e hoje as pessoas reconhecem o trabalho que fiz. Acho que as mulheres não se sentem muito motivadas. Até porque continuam a ter o papel doméstico e hoje trabalham muito mais do que antigamente, porque aliam o trabalho que tem de fazer fora de casa com o trabalho em casa. Os homens continuam a ser uns egoístas insuportáveis. E na política os homens não têm interesse que invadam o seu espaço.

Durante os seus mandatos (venceu as eleições cinco vezes consecutivas) sentiu-se escrutinada de forma diferente por ser mulher?
Não. Pelo contrário, fui sempre muito respeitada. Os meu mandatos ficaram marcados por grande proximidade com as pessoas.

Francelina Chambel, na sua casa, no Sardoal. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Mas afirma ter sofrido. Quer contar?
A oposição não me queria a mim nem ao PS. Um grupo fez queixa de mim, no qual estava o Fernando Moleirinho, eleito mais tarde presidente da Câmara, e tive alguns inquéritos, injustos. A prova é que os próprios inspetores ficaram altamente sensibilizados com a minha situação, sem perceber de que era acusada. Foram às minhas contas [bancárias] e tudo! Ainda hoje nem sei bem porquê. Sei que veio a Sardoal uma sindicância, e foi afixada na altura da Semana Santa, e isso doeu-me muito. O que tinha é o que tenho. Até há uma pessoa que me diz: “A senhora foi uma péssima presidente!” “Então porquê?” – pergunto. “Porque nunca arranjou um empreiteiro que lhe fizesse uma piscina em casa”. Realmente, tenho o local mas não tenho a piscina, mas outros houve que o fizeram. Entrei na Câmara de mãos lavadas e saí de mãos limpas. O arruamento em frente à minha casa está alcatroado porque havia um empreiteiro, Amândio Mendes, um homem seríssimo, um bom colaborador, que não permitiu que andasse em terra batida. Disse-lhe que não fazia aquela obra em frente à minha casa e um dia apanhou-me fora do Sardoal e veio alcatroar-me a rua, de graça.

Francelina Chambel foi presidente de Câmara de Sardoal de 1977 a 1993. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

“O que tinha é o que tenho. Entrei na Câmara de mãos lavadas e saí de mãos limpas”

Recuando até 1977, ainda se lembra do dia da sua tomada de posse?
Perfeitamente. Os 21 autarcas do distrito, presidentes de Câmara e presidentes das Assembleias Municipais, fomos todos para Santarém, para o Governo Civil. Era governador civil o eng. Fausto Sacramento Marques, de quem tenho muita saudade, e que era um homem impecável. Tomámos todos posse ao mesmo tempo no Governo Civil. Era a primeira vez, havia muita insipiência em todos estes atos. Praticamente só estavam os autarcas, mais uma ou outra pessoa, não havia muita gente.

Durante a sua função de presidente, recorda algum episódio caricato?
Passaram-se cenas engraçadíssimas. Quando Soares Carneiro foi candidato [à Presidência da República], no Sardoal ninguém o apoiava. Lembro-me que veio fazer um comício e a malta apagou as luzes todas. O homem não pode dizer absolutamente nada. Noutra altura o Mário Soares veio cá fazer uma campanha e o Carneiro Jacinto, que o acompanhava nessa campanha, dizia que o comício seria no pelourinho. Chovia torrencialmente e pensávamos que não vinha ninguém para a rua, mas quando Mário Soares chega à capela de Nossa Senhora do Carmo começam a sair as pessoas não sei de onde, debaixo de chuva. Fiquei pasmada.

Tem saudades desses tempos?
Ainda hoje tenho muitas saudades de Mário Soares. Nunca mais nenhum secretário geral do Partido Socialista funciona como ele funcionou. Fazia reuniões periódicas connosco, no Largo do Rato, numa sala paupérrima, que hoje mete medo com tanto luxo. Sentávamo-nos numas cadeiras quaisquer, ele atrás de uma grande secretária, agora nenhum secretário geral do partido o faz. Lembro-me, reuniu-nos para dizer que se ia candidatar a Presidente da República, e estou a ver o Parcídio Summavielle, presidente da Câmara de Fafe, sempre na ponta da mesa, deu um salto e foi abraçá-lo. Não se falavam, tinham tido uma querela qualquer. Era assim o Mário Soares, o PS precisava de outro.

A Ordem do Templo atribui o grau de Cavaleiro a Francelina Chambel. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Aliás, foi Mário Soares quem a convenceu a ser militante do PS, porque candidatou-se na lista do Partido Socialista, mas só dez anos depois se fez militante. Porquê tanto tempo?
É verdade, durante 10 anos não fui militante do PS e o Mário Soares andava-me sempre a chatear. Um dia fui ao Largo do Rato e ele pôs-me um papel à frente e disse: “- Agora assinas aqui, a proposta é minha.” Sou militante até hoje, com o número 14698, e tenho as quotas em dia. Resistia porque achava que não havia necessidade. Não via qualquer vantagem e ainda hoje não vejo, em ser militante do Partido Socialista. Só assinei naquela altura para lhe fazer a vontade.

“Durante 10 anos não fui militante do PS e o Mário Soares andava-me sempre a chatear. Um dia fui ao Largo do Rato e ele pôs-me um papel à frente e disse: “- Agora assinas aqui, a proposta é minha.”

Ganhas as primeiras eleições autárquicas, teve de meter as mãos à obra. Quem eram as suas referências?
Tinha uma veia da parte social que me advém de um homem em cuja organização participei, que foi monsenhor Carvana, capelão da Igreja da Encarnação, em Lisboa, do Movimento Operário. Fiz parte da Juventude Operária Católica, tínhamos como obrigação olhar pelos mais desfavorecidos e eu a incumbência de visitar os doentes do sanatório do Lumiar, quando ainda estava lá instalado. Fizemos um grande trabalho e foi um bocadinho por isso que fui caminhando. Ainda hoje faço parte do grupo.

Calculo que a política exigia naquela altura – em que Portugal vivia a liberdade de forma apaixonada, ativa e entusiasta – uma dinâmica, incluindo de forte oralidade. Como foi discursar em público, fez comícios?
Já fazia intervenções! No meu serviço eram mais de 100 funcionários e de vez em quando tinha de meter as pessoas na ordem, portanto não tive dificuldade. Mesmo nos comícios não tinha problemas. Tive sempre o discernimento para poder fazer as minhas intervenções de acordo com aquilo que estava a passar-se na altura.

Francelina Chambel. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Quem foram os seus vereadores nesse primeiro mandato? Sentiu alguma vez resistência?
Eram dois do PS, o Jorge Paulino, o número dois, e o Fernando Rosa; depois do CDS era o Lúcio Carvalho Grácio e o senhor Pereira. Portanto éramos cinco elementos, tal como são hoje, a composição de acordo com o número de eleitores. Sempre colaboraram e davam algumas ideias, e se eram sensatas eu aproveitava-as. O meu marido, quando viu que tinha de colaborar com aqueles que faziam parte do grupo, não gostou muito. Nem ele nem o pai, e queriam interferir mas eu não permitia.

A então presidente da Câmara, Francelina Chambel, aquando de uma visita de Cavaco Silva a Sardoal. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Hoje fala-se muito em investimentos, imagino que naquela época o concelho (tal como o país) precisava do básico. Quais foram as primeiras medidas que o seu executivo tomou?
A água. Primeiro andámos a fazer prospeções, depois instalamos os fontanários e fomos preparando para trazer a água ao domicilio, de seguida os esgotos nas localidades que tinham maior número de população como Sardoal, Valhascos, Andreus e mais tarde os equipamentos sociais. Fizemos escolas que agora estão completamente fechadas e abandonadas, não têm qualquer utilidade prática. Fiz essas obras por administração direta, fiz o quartel dos bombeiros por administração direta, só lá têm feito extra Câmara as janelas e as portas. Construímos a piscina municipal também por administração direta e poupámos muito dinheiro porque com as empreitadas tínhamos de ter o dinheiro preparado para quando apresentassem os autos. Tínhamos um grande encarregado, o senhor Ovídeo Luís, que faz hoje muita falta na Câmara. Construímos habitação social, o bairro da Tapada do Milheiriço, o bairro da Cruz Vermelha, o bairro da Tapada da Torre, loteamos terrenos para as pessoas fazerem casas. A eletricidade… mesmo assim era uma área onde não havia grandes deficiências, só não havia no Codes e noutra pequena localidade. Fizemos o centro de saúde, a zona industrial, cujo objetivo era vender a um escudo o metro quadrado, para criar postos de trabalho. Agora cria-se postos de trabalho mas é de gente de fora que vem aqui trabalhar. É trair completamente o espírito da feitura da zona industrial.

Francelina Chambel recebeu das mãos de Jorge Sampaio o grau de comendador da Ordem do Infante Dom Henrique. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Que dificuldades encontrou? Como disse não havia dinheiro…
Claro! Era querer fazer obra e não havia meios. Mas lá demos a volta. Na habitação consegui através do Instituto Nacional de Habitação, para as obras na Câmara Municipal o dinheiro veio do Fundo do Desemprego e depois começámos a receber o dinheiro das finanças locais, que fez toda a diferença no poder local.

De toda a sua obra de que é que mais se orgulha?
Do quartel dos bombeiros. Para mim é paradigmático porque foi tudo feito por nós. Até uma árvore que ainda hoje lá está fui eu que a plantei… um pinheiro que está meio torto.

Foi esse o maior combate?
Não sei definir. Tive muitos.

E o que faria diferente? Algum dia deu um murro na mesa?
Nunca dei um murro na mesa. E não faria nada diferente. Poderia ter feito mais se tivesse meios, mesmo assim foi feito muito. E na altura comecei com os alicerces do turismo.

A Câmara Municipal de Sardoal atribuiu a Francelina Chambel a medalha do concelho em ouro. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Algo que gostaria de ter feito e não fez?
Tenho pena de não ter tido dinheiro suficiente para fazer uma obra espetacular no Codes, onde corre a ribeira que vai ter aos passadiços de Vila de Rei. A ribeira era atravessada por uma ponte que a determinada altura ruiu, e quem acabou com ela foi o Passarinho, porque a dinamitou. Era uma ponte com história, porque por lá passava a Rainha Santa Isabel quando ia para Punhete. Tive pena, era uma zona de lazer muito bonita. Outra zona parada é a Lapa, que podia ser desenvolvida. Fiz a passagem para lá e depois foi feita a barragem, que não correu bem… e lá está aquele empreendimento sem qualquer valia. Além disso Sardoal tem um espólio cultural de muita valia que não é dado a conhecer. Há coisas que não é pelo dinheiro, mas boa vontade e conhecimento. São simples de resolver, por exemplo a identificação de cada edifício, com uma pequena resenha do seu historial, à porta. Aqui nem horários de funcionamento há.

Quando fala em incentivo ao turismo refere-se também ao atual formato das Festas do Concelho?
Pois. As Festas do Concelho foram começadas por mim. Quem fazia as festas em setembro era a Santa Casa da Misericórdia, que depois entrou numa espécie de colapso e praticamente já não fazia nada. Entretanto, como também não se comemorava o Dia do Concelho – e consegui chegar à conclusão que era no dia 22 de setembro que tinha sido entregue o foral a Sardoal pelo rei D. João III –, propus que a Câmara votasse a favor da limitação daquele dia para as Festas do Concelho. A partir daí era fazer o que fosse possível. E fizemos coisas muito engraçadas, que não custavam dinheiro, agora é tudo aos milhões, mas nós não tínhamos dinheiro para gastar. Vinham cá os ranchos folclóricos de graça, a banda da GNR, da Força Aérea, vinha o Grupo Folclórico da Camacha, estavam aqui até às 3 da manhã, vinha o artesanato de muita qualidade, como as rendelheiras e as bordadeiras da Lixa. Depois surgiu os GETAS e criou-se uma dinâmica nova.

Sardoal, era certamente um concelho diferente, a começar pela população. Como vê este despovoamento do Interior?
Fala-se muito no despovoamento mas não se faz nada. Já no tempo de Mário Soares falei com ele sobre o tema. Era fácil! Temos um organismo em Portugal que dirige, apoia e sugere a instalação de novas indústrias. Quando há algum investimento nesse sentido vai para Lisboa ou Porto. Por que não se instala uma ou duas empresas dessas em cada concelho? Não era preciso mais para colmatar as dificuldades das pessoas que vivem no Interior e daqueles que querem singrar de outra maneira. Assim vai tudo para as grandes cidades. O nosso artesanato, que é riquíssimo, que merecia uma maior relevância até com divulgação internacional ou pelo menos a nível concelhio, não tem apoio. Eu apoiava, ia às feiras de artesanato com os artesãos.

“Temos um organismo em Portugal que dirige, apoia e sugere a instalação de novas indústrias. Quando há algum investimento nesse sentido, vai para Lisboa ou Porto. Por que não se instala uma ou duas empresas dessas em cada concelho? Não era preciso mais para colmatar as dificuldades das pessoas que vivem no Interior”

Com um poder local muito diferente daquele que existia quando foi eleita pela primeira vez, qual é o maior combate que o poder autárquico tem para fazer?
Não sou muito a favor da regionalização. Era a criação de mais tachos. Ao invés, cada concelho pode fazer a regionalização por si próprio. Fazer a disseminação dessas indústrias e serviços que podem ser instalados. É fazer a descentralização como primeiro passo. Relativamente à transferência de competências, algumas devem ser feitas e outras não. Discordo com a transferência de competências da área da Educação e da Saúde. A autarquia não tem capacidade e conhecimentos para cumprir essas funções.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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