Ourém/Domingos Neves: “O turismo religioso é muito forte!”

Domingos Neves, empresário, substitui Alexandre Marto Pereira na direção da ACISO. FOTO: mediotejo.net

Eleito recentemente presidente da ACISO – Associação Empresarial Ourém Fátima, Domingos Neves, 57 anos, empresário dono da unidade de saúde Clinifátima, ainda apalpa o terreno. Na sua frente tem dois pólos: Fátima, em ascensão empresarial, Ourém, em declínio. Criar incubadoras de ideias, apostar na agricultura e no empreendedorismo jovem são algumas das linhas de ação que tem definidas para o seu mandato. De olhar atento, constata que o turista de Fátima tem mudado muito nos últimos anos e que o Castelo de Ourém é um património com grande potencial. Do seu projeto para um Hospital privado em Fátima prefere não falar. A entrevista, lembra, é como presidente da ACISO…

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Não é natural de Fátima, mas de Santa Catarina da Serra, a cerca de seis quilómetros, no distrito do Leiria. Trabalhava nos seguros quando decidiu abrir a Clinifátima, unidade médica situada perto da Rodoviária de Fátima. A entrevista é breve, a conversa alonga-se. De olhar expectante para o que o envolve, Domingos Neves quer perceber como pode ir mais longe no novo desafio que inesperadamente lhe surgiu. São precisas ideias, pensar novas estratégias. Preocupa-o ver projetos terminar apenas porque não tiveram o devido apoio. Ourém, ainda assim, refere, é um concelho de empreendedores.

Perguntava-lhe como decorreu esta eleição para a ACISO. Tinha ideia que iria ganhar a presidência?

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Não, nada, nada. Não tinha intenção nenhuma de concorrer. Foram os convites. Várias pessoas que me convidaram. Com a atividade profissional que tenho não tinha muita disponibilidade e achava que havia pessoas com mais disponibilidade no concelho. Mas depois, por alguma insistência de várias pessoas, acabei por receber e aceitar o convite.

A que se deveu essa insistência, sabe dizer-me?

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Talvez porque já lá estive há seis anos, fiz parte da direção, conheço a casa, e o momento que temos aí nos próximos tempos era necessário alguém que tivesse um conhecimento mais arreigado já, não só da casa mas também do concelho e daquilo que está envolvido. Terá sido essa a razão…

Como encara o panorama empresarial em Ourém e Fátima neste momento?

É assim, Ourém, em termos empresarial, eu acho com alguma preocupação. De uma forma geral como o país. Há uma particularidade diferente em relação a Fátima, Ourém, no aspeto de Fátima estar muito vocacionado para o turismo e neste momento o turismo está, pelos números que são indicados, em crescimento. À partida Fátima está diferenciada em relação a Ourém nesse aspeto. Em Ourém há empresas muito boas. Eu acabo por conhecer algumas, há empresas que têm-se mantido e passado ao lado da crise, é verdade! Se calhar fruto também da inovação, do acompanhamento, da internacionalização. Portanto isto tem a ver com uma questão de estratégia dos empresários e penso que terão conseguido obter os seus objetivos. No entanto, há outras áreas que estão substancialmente menos boas. Nomeadamente o comércio. Olhamos para o comércio de Ourém…muita loja fechada…é uma preocupação para toda a gente, para o concelho e naturalmente para a ACISO, como não pode deixar de ser, porque muitos eram nossos associados e deixaram alguns de ser, fruto do encerramento dos estabelecimentos. E aquilo que nós pretendemos é voltar a apoiar esses empresários de forma a conseguir criar-lhes condições para retomar o comércio e dinamizarmos o centro histórico. Há algumas ações que a gente pretende fazer. Estou convencido que em colaboração com a Câmara vamos conseguir voltar a dinamizar o centro histórico. Essa é uma das apostas da direção.

E há Vilar dos Prazeres…

Por outro lado, a nível dos móveis, que é Vilar dos Prazeres, é um problema que se arrasta há alguns anos. Não vamos conseguir fazer grandes coisas, mas o que vamos conseguir é fazer o levantamento daquilo que existe e encontrar soluções de forma a que possamos desafiar os jovens, os novos designers, para que possam ir de uma forma mais baixa, naturalmente, mas de uma forma diferente para o mercado, com novos modelos. E naturalmente vamos aqui encontrar o apoio dos antigos empresários. Lá – muitos deles com as suas empresas fechadas – mas têm o conhecimento e penso que aí poderá ser uma boa ajuda para alguns novos empresários que queiram aparecer e novos designers, no encaminhamento de novos produtos para o mercado. Esse vai ser também uma das nossas apostas da ACISO, em parceira sempre com a Câmara Municipal.

E aquilo que nós pretendemos é voltar a apoiar esses empresários de forma a conseguir criar-lhes condições para retomar o comércio e dinamizarmos o centro histórico. Há algumas ações que a gente pretende fazer. Estou convencido que em colaboração com a Câmara vamos conseguir voltar a dinamizar o centro histórico.

 

Quantos associados perdeu a ACISO?

Neste momento, se nós considerarmos o que perdemos e o que ganhámos, está equilibrado (o número de associados). Houve alguns que encerraram, houve outros que apareceram e felizmente tem-se mantido. Não podemos deixar de dizer que muitos dos que encerraram não voltaram a abrir noutro lado, não foi isso. Apareceram foram outros novos. É verdade que os jovens têm tido criatividade para esses novos negócios e estou esperançado, sinceramente, que os jovens vão dar um grande apoio ao desenvolvimento de Ourém. Uma das nossas apostas nesta eleição é olhar para os jovens. É dar-lhes a possibilidade de os aproveitar, até de trazer alguns que estão fora de cá, para montar o seu negócio no concelho de Ourém. Estamos olhar por exemplo para a área do comércio e serviços, estamos a olhar também para a área da agricultura. Queremos chamar os jovens, despertá-los para a agricultura porque Ourém tem uma grande potencial a nível de terrenos que estão abandonados e que se podem voltar a cultivar. Na área dos serviços tecnológicos vamos tentar criar um centro tecnológico para as pessoas envolverem-se na criação de ideias. Esse vai ser também um dos nossos grandes desafios: é criar um centro onde os jovens possam partilhar as suas experiências uns com os outros e porque não começar a montar os seus negócios em termos que se possam desenvolver.

Está a falar numa incubadora de empresas…

Estamos a olhar para isso. Hoje fala-se muito desses centros de empresas, incubadoras, não vamos dizer que nós vamos ser diferentes dos outros. Queremos é tentar captar os jovens e desafiá-los. É isso que nós queremos fazer. Hoje as tecnologias permitem trabalhar em qualquer parte do mundo e o que falta aos jovens muitas vezes é que têm excelentes ideias mas falta-lhes o apoio de encaminhamento dessas ideias. E aí vamos criar essas condições.

"Queremos chamar os jovens, despertá-los para a agricultura porque Ourém tem uma grande potencial a nível de terrenos que estão abandonados e que se podem voltar a cultivar". FOTO: mediotejo.net
“Queremos chamar os jovens, despertá-los para a agricultura porque Ourém tem uma grande potencial a nível de terrenos que estão abandonados e que se podem voltar a cultivar”. FOTO: mediotejo.net

Há alguma coisa que me possa adiantar sobre esta incubadora?

Não, ainda não! Vamos fazer o levantamento, já estamos a fazer isso, saber o tipo de espaços que estão disponíveis e encontrar uma solução para eles.

Fala-se frequentemente nos 5/6 milhões de turistas que visitam Fátima todos os anos. Estes números são realistas em termos de mercado?

Esses números foi o Santuário que os divulgou, temos que acreditar que sim. Em fruto dos resultados que os comerciantes e hoteleiros tiveram nos últimos dois anos, parece-me que há uma verdadeira comparação entre os números que foram levantados e a evolução dos negócios em Fátima.Porque se há índices de crescimento tanto na área da restauração como na área da hotelaria, supostamente isto tem a ver com o aumento do número de visitantes de facto…

Há espaço para outro tipo de empresas em Fátima, sem ser os hotéis, restaurantes e lojas de artigos religiosos?

Há, eu acho que sim! Por exemplo na área dos cuidados de saúde, da terceira idade, há um número muito considerável de lares neste momento em Fátima e arredores. Há outros que estão para abrir. Portanto isso pode ser uma forma de captar pessoas que queiram vir para Fátima, já com a sua idade. Porque Fátima tem excelentes condições para viver! Tem bom clima – apesar do Inverno ser um bocadinho rigoroso, mas é de uma forma geral – tem segurança, que é fundamental. Se as pessoas quiserem aproveitar tem uma avenida que facilita a circulação de peões, que a população de Fátima tem sabido aproveitar. Aquilo que eu acho é que há necessidade de fazer outras intervenções de fundo em Fátima a nível de mobilidade.

Se esses empresários vierem instalar-se no concelho de Ourém será de todo importante. Por uma razão muito simples: se houver investimento estrangeiro no concelho de Ourém todos nós ficamos a ganhar. O nosso concelho fica a ganhar, as populações, porque cria emprego.

 

Como por exemplo?

Estamos a falar da Avenida Beato Nuno, em termos de passeios. Outro aspeto que eu considerava importante era os acessos a Fátima. Estamos a falar dos acessos Norte, na estrada de Leiria. É uma preocupação para os peregrinos. Há projetos feitos, há cerca de seis/sete anos foram apresentados publicamente os acessos a Fátima por Leiria, Batalha e Minde, e a estrada de Fátima, salvo o erro, e infelizmente só há um concretizado. Vamos ter um aumento muito considerável de peregrinos no próximo ano. Seria excelente que a intervenção prevista em sede de Câmara de Ourém com a de Leira pudesse concretizar-se. Eu estou esperançado que sim, que vai haver requalificação. Não sei neste momento qual é o ponto em que se encontram esses projetos, mas era verdadeiramente muito interessante que eles se concretizassem.

O presidente da Câmara de Ourém tem empreendido esforços para criar uma plataforma entre Ourém e Minas Gerais, no Brasil. Vê com bons olhos este trabalho?

Eu vejo com bons olhos, aliás o Congresso que ocorreu recentemente em Ourém foi um princípio. Acredito que não tenham trazido o número de empresários que estavam previstos, mas todos nós conhecemos a realidade do Brasil atualmente. A situação sócio-económica do Brasil terá, de certa forma, contribuído para a redução de empresários (que vieram até Ourém). Eu próprio estive em Belo Horizonte na última visita que a Câmara fez lá e fiquei convencido que havia muitos empresários interessados em vir para o concelho de Ourém, como entrada para a Europa e não só a olhar para o concelho. Alguns manifestaram essa intenção de vir para cá. Este Congresso o objetivo era esse. Mas esse problema sócio-económico que existe no Brasil reduziu a vinda. Há perspetivas de alguns virem mesmo a instalar-se cá, pelo menos tanto quanto eu tenho conhecimento.

O presidente falava na criação de um entreposto em Ourém. Seria bom para o concelho?

Eu acho que vai ser interessante. Se esses empresários vierem instalar-se no concelho de Ourém será de todo importante. Por uma razão muito simples: se houver investimento estrangeiro no concelho de Ourém todos nós ficamos a ganhar. O nosso concelho fica a ganhar, as populações, porque cria emprego. Esse é um objetivo que o presidente da Câmara tem feito nos últimos, que é internacionalização do concelho de Ourém. Tem feito várias visitas a nível internacional, vários países. Esperamos que o fruto dessas visitas comece a aparecer e estou convencido que sim! Ele nesse aspeto tem sido muito dinamizador no levar o nome do concelho Ourém-Fátima além fronteiras. Estou convencido que ele irá conseguir trazer. Obviamente que isso não é de um dia para o outro. Mas foram criadas as condições aos empresários. Percebemos também que a parte de Ourém tem alguns bons parques industriais que não estão aproveitados convenientemente. Estamos a falar do parque do Casal dos Bernardos, estamos a falar do parque aqui de Fátima. Têm grandes potencialidades esses parques, assim consigamos contribuir para trazer empresários a fixar-se aqui no concelho, que é de todo importante.

Que tipo de empresas seriam viáveis em Ourém?

Tudo o que pudéssemos associar ao que a Escola Profissional de Ourém tem para oferecer. É uma boa escola. Os profissionais que saem dali saem bem preparados. Aliás o êxito de empregos nos jovens que acabam os cursos é grande. Naturalmente que vão muitos para a zona da Marinha Grande, dos moldes, são muito procurados. Eu penso que todas as empresas ligadas às áreas que estamos ali a falar, que são a área metalúrgica…

Muitos desses agricultores não desenvolveram os seus terrenos abandonados porque no momento de cultivo não havia saída para os seus produtos. O que queremos fazer é aqui uma relação, uma parceria com algumas cooperativas de forma a que possam, em sintonia com os agricultores do concelho de Ourém, possam garantir o escoamento dos seus produtos.

 

Em termos de projetos pessoais, há algum projeto que gostasse de ver implementado na ACISO?

Os projetos pessoais que nós temos na ACISO são estes cinco pilares que eu lhe falei. Na área da agricultura, potenciar a agricultura, da área do comércio, dinamizar o comércio. O turismo através do programa que está previsto, o Workshop de 2017 está a ter muita procura em Fátima…

O Workshop de Turismo Religioso?

Exato. O Workshop de Turismo Religioso 2017 está a ter muita procura, bastante. Acho que vai ser um ícone nas comemorações de 2017. Potenciar essa parte de captação de novos operadores para virem para Fátima e potenciar turismo religioso em Fátima. Que é uma das marcas mais fortes que o país tem. Embora por vezes o Governo não queira valorizar, mas é uma realidade! O turismo religioso é muito forte! Aliás nas visitas que eu fiz a alguns santuários marianos no passado, quando nós chegávamos lá e dizíamos que éramos de Fátima as próprias pessoas achavam… “De Fátima!!”. Estando no seu santuário, valorizavam muito o Santuário de Fátima. Eu reconheci e vi que Fátima tem uma marca muito forte a nível mundial. Portanto vamos continuar a trabalhar nisso, aliás estamos a trabalhar para o pós-2017. Já estamos a trabalhar 2018, na captação e divulgação do turismo religioso.

Pedia-lhe que desenvolvesse mais essa parte da agricultura. O que pretendem fazer exatamente?

Pretendemos fazer um levantamento dos terrenos que existem disponíveis no concelho de Ourém e chamar gente com experiência nessa área. Na agricultura biológica, que é um dos factores importantes, mas não podemos olhar só para isso, temos que olhar para outras áreas também. E encontrar parceiros na área da cooperativa para que possam garantir o escoamento dos produtos desses agricultores. Muitos desses agricultores não desenvolveram os seus terrenos abandonados porque no momento de cultivo não havia saída para os seus produtos. O que queremos fazer é aqui uma relação, uma parceria com algumas cooperativas de forma a que possam, em sintonia com os agricultores do concelho de Ourém, possam garantir o escoamento dos seus produtos. Por outro lado também queremos sensibilizar os jovens para o que é importante hoje para a agricultura. Sensibilizá-los. E penso que haverá novos jovens empresários que estão disponíveis para dar continuidade à exploração dos terrenos da família.

O Workshop de Turismo Religioso 2017 está a ter muita procura, bastante. Acho que vai ser um ícone nas comemorações de 2017. Potenciar essa parte de captação de novos operadores para virem para Fátima e potenciar turismo religioso em Fátima. Que é uma das marcas mais fortes que o país tem. Embora por vezes o Governo não queira valorizar, mas é uma realidade! O turismo religioso é muito forte!

 

Que produtos poderiam ser aqui produzidos?

Aquilo que eu acho é que a hortícola é forte no concelho. O milho, por exemplo. Haverá outros produtos…

Qual o ponto de situação da nova Escola de Hotelaria de Fátima? 

O projeto da Escola Hotelaria sei que está em apreciação na Câmara, está para sair muito em breve. É uma necessidade urgente criar uma escola profissional. Precisa de espaço. E esse vai ser um dos projetos ícones da cidade de Fátima.

Como é que se deu a sua entrada no mundo empresarial?

Nós começámos pela necessidade que entendi há 18 anos que Fátima não tinha…as pessoas quando tinham necessidades de saúde tinham que se deslocar ou para Leiria ou para Coimbra. Habitualmente era tudo para Coimbra, no passado, não havia o hábito de ir a Leiria ao médico. Eu como estava ligado aos seguros percebi que…porque é que Fátima não há-de ter também um apoio médico? E tudo começou por aí, com dois consultórios. E foi aumentando. E felizmente hoje conseguimos atrair pessoas a 50 quilómetros daqui.

Somos empreendedores neste concelho?

Eu penso que somos empreendedores no concelho, somos. Aquilo que me preocupa no concelho no empreendedorismo é a capacidade de ultrapassar as dificuldades e dar continuidade aos negócios. E essa falta de capacidade tem a ver com o apoio que é dado nos momentos mais difíceis. E é para aí que a ACISO se vai focalizar: em apoiar os empresários a encontrar soluções. Apoio técnico, apoio tecnológico, apoio de forma a que possam levar por diante os seus negócios. A ACISO não se substitui ao empresário, não é isso! Aquilo que estamos a dizer é que estamos disponíveis para os acompanhar nas dificuldades e vai haver vários eventos durante este triénio que poderão dar essa contribuição aos empresários que se queiram afirmar não só cá em Portugal como no estrangeiro.

 

 

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