Entrevista | Diretor do Museu Militar revela potencial turístico por explorar no Médio Tejo (C/VIDEO)

O coronel Luís Albuquerque é diretor do Museu Militar há 11 anos e para cumprir essa missão viaja diariamente de Constância até Lisboa, e vice-versa. Gosta de história, de livros e de ver corridas de veículos todo o terreno. Um homem do Norte, do Porto, cidade onde nasceu a 17 de março de 1962. As vicissitudes da profissão fixaram-no no Médio Tejo e vive em Constância Sul desde 1996. A carreira militar levou-o a Santa Margarida, aliás, viveu dentro do campo durante sete anos. Aos 57 considera-se um afortunado por ter vivido situações muito diferentes. O pai trabalhava em seguros e a mãe era doméstica. Na família, o que tinha de mais próximo de um militar eram os avós. Ambos passaram pelas forças de segurança embora com carreiras distintas; um oficial de polícia e outro guarda. Pessoas muito importantes na sua vida. O coronel usa por isso a espada do avô paterno, por uma questão de orgulho familiar. Sabe que tinha gosto em que fosse oficial do Exército. Se Luís Albuquerque não fosse militar seria engenheiro mecânico, aliás matriculou-se na universidade mas optou pela Academia Militar. Não se arrepende porque na sua vocação estava o espírito de servir. Orgulha-se por pensar mais no serviço do que em gerir a própria carreira. Esteve 9 anos em Vila Real de Trás-os-Montes, a sua primeira colocação, depois foi deslocado para Angra do Heroísmo, nos Açores, onde permaneceu dois anos. Nessa fase crucial da sua vida – tinha acabado de casar – escolheu Santa Margarida pela estabilidade. Acabou rendido pela realização profissional que aquela unidade lhe proporcionou e por lá permaneceu 12 anos. Lembra que Santa Margarida foi durante muitos anos ‘a ponta de lança’ da modernidade do Exército português. A esposa, também natural do Porto, é professora de História, com primeira colocação em Tomar. O casal tem um filho de 21 anos, o coronel gosta muito de animais, tanto que tem 8 cães todos recolhidos da rua. No final deste ano abandona a direção do Museu Militar para se dedicar a projetos pessoais, como o Turismo Militar e a importância histórica do Médio Tejo. O nosso jornal foi conhecer a história de um homem dedicado à História.

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Nasceu no Porto, vive em Constância há 24 anos, já sente aquela vila como sendo a sua terra?

Não sinto como a minha terra… embora já sinta um pouco. Se tivesse de sair ia haver sofrimento e desenraizamento que é engraçado. Sou muito adaptável! Incapaz de estar num sítio sem me envolver. Não faz parte da minha natureza!

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Estive numa missão das Nações Unidas no Sahara Ocidental por causa do problema da Frente Polisário, o cessar fogo a ser fiscalizado, e se hoje alguém me convidasse para a mesma missão, acho que aceitava logo. Porque foi um local a que fiquei muito ligado. E quando saí daquela missão foi muito doloroso porque gostava profundamente daquele lugar e do trabalho que lá desenvolvi. Ver as imagens do deserto ainda me dá uma nostalgia terrível. Trabalhei com gente de 13 nacionalidades e aprendi a compreender melhor uma cultura que nos é estranha; a muçulmana. Muitas vezes sou acusado de ser demasiado tolerante com isso, mas na verdade tento sê-lo na medida justa.

Sendo certo que minha vida, e da minha mulher, está indubitavelmente ligada à região onde vivemos e que gosto muito. Naturalmente não esqueço as minhas origens até por ser um homem do Norte e onde vou com regularidade. A minha mãe vive no Porto, o meu irmão também, a minha irmã mora na zona de Aveiro… a família está toda no Norte, nós é que estamos deslocados mas fiz amizades no Médio Tejo com muita gente e é a minha residência.

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O diretor do Museu Militar, em Lisboa, coronel Luís Albuquerque. Créditos: David Belém Pereira

Sendo um homem de ação, e com opiniões firmadas, por que não se envolve na vida institucional da região onde reside? Não é uma opção?

É muito mais complicado porque há muitos interesses instalados e prefiro ir percebendo as coisas mas não ser interveniente. Estou mais ligado à zona que vai do Entroncamento a Abrantes, vou seguindo um pouco a política, conheço os presidentes de Câmaras, mas o que me interessa são os problemas que nos afetam a todos. Sinto com particular acuidade todos os problemas da água, até porque vivo em frente ao rio, que se relacionam com o Tejo, desde da poluição aos caudais, sou particularmente sensível. Embora considere que a região do Médio Tejo tem um potencial enorme que ainda está por desenvolver do ponto de vista turístico.

Por exemplo com o Turismo Militar?

Sim. Por volta de 2012, um amigo que foi comandante dos Paraquedistas quis dar mais visibilidade à coleção visitável dos paraquedistas, estava a fazer um trabalho com o Instituto Politécnico de Tomar e chamou-me. A partir daí envolvi-me. É um assunto que me diz muito. Já fiz parte de um grupo de trabalho do Ministério da Defesa sobre Turismo Militar. Acho que a região do Médio Tejo tem um enorme potencial. É preciso passar aos atos.

Tais como?

Considero importante dinamizar as visitas ao Castelo de Almourol, mas receio que as pessoas se apercebam que algumas destas coisas são ocas, ou seja, que lhes falta conteúdo. É preciso pôr as coisas na devida proporção: o Castelo de Almourol tem um aspeto simbólico importantíssimo e um aspeto paisagístico se calhar ainda mais impactante, mas militarmente não passava de uma atalaia que pouco significava. Era muito mais importante, por exemplo, o Castelo de Cardiga – o palácio abandonado foi um castelo templário -, era muito mais importante o Castelo do Zêzere que existia em Constância. Depois há mitos que se constroem: a linha de defesa do Tejo, se é que existiu, foi por poucos anos. A fronteira da cristandade passou quase do Mondego para o Sado, mal passando pelo Tejo, ou passou pelo Tejo muito pouco tempo. Quanto ao Castelo de Almourol se calhar estamos a dar uma importância enorme em termos militares que nunca teve. No século XIV sabemos que a guarnição do Almourol eram 5 pessoas.

O diretor do Museu Militar, em Lisboa, coronel Luís Albuquerque. Créditos: David Belém Pereira

E quais são então os pontos importantes no Médio Tejo para o Turismo Militar?

Sem dúvida a questão dos Templários. Introduziram um ordenamento e uma série de coisas continuadas pela Ordem de Cristo. Mas há que tratar os Templários da forma correta, da forma histórica sob pena de termos mais uma vez conteúdos vazios. Aquilo que acontece na Barquinha com o Centro de Interpretação Templário é uma história que provavelmente se aproxima mais da filosofia do que da História.

Afirma ter um pensamento mais científico. Também neste caso?

Sim. Há muitas coisas “julgo que”. A História não se faz de “julgo que”. Claro que a história não é só factual. Por isso há a História das Ideias, há as mentalidades, há realmente ideias que levaram as pessoas ao longo da história a ter determinados atos, mas a História em termos puros tem de ser muito factual. Tem ligação mas são dois níveis diferentes. Acho que falta construir qualquer coisa mais esclarecedora sobre os Templários. As questão do envolvimento português na Primeira Guerra Mundial também. E só há um sítio para estar. O único ponto marcante no território nacional são as manobras de Tancos.

Refere-se ao ‘Milagre de Tancos’?

Exatamente. A haver em Portugal uma instalação museológica, um centro de interpretação do envolvimento português na Grande Guerra, ou da participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial, o sítio próprio é ali. Arrisco-me até a dizer que seria a Enfermaria do Regimento de Engenharia 1.

Que tem ordem de demolição…

Sim. É uma pena. Trata-se de um edifício contemporâneo, está à face da estrada, tem espaço para construir um parque de estacionamento. Já discuti isto com várias entidades, incluindo com o presidente da Câmara da Barquinha que fala num investimento enorme… as pessoas hão-de ter as suas razões! Mas é um marco importante. As efemérides servem para nos recordar e permitir um outro olhar, um outro estudo sobre factos históricos. Este centenário permitiu-nos olhar de novo para a Primeira Guerra Mundial e sobretudo permitiu-se perceber uma questão importante: ainda não é uma questão pacifica. Isso quer dizer que 100 anos não é distanciamento temporal, em termos históricos, suficiente para permitir ter uma analise mais lúcida e mais desapaixonada sobre o que foi a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial.

Antiga enfermaria do Regimento de Engenharia 1, Tancos, que serviu os militares na Primeira Guerra Mundial. Créditos: Maria Esteves

Considera que o ‘Milagre de Tancos’ foi uma manobra de propaganda?

Sim. Do ponto de vista técnico e tático de pouco ou nada serviu. Os militares têm o vício terrível de se prepararem para a última guerra que travaram. Ora o Exército português nessa altura era um Exército que durante muitos anos os únicos combates que teve foram no ultramar. Os mais recentes tinham 20 anos – as campanhas de pacificação de Mouzinho, os centuriões da África – e portanto, desde as trincheiras que cavaram que eram iguais às de África e não tinham nada a ver com as da Flandres, ao armamento utilizado, ao próprio tema tático, como um ataque com cavalaria, não tinha nada a ver com a Guerra na Europa. Foi sobretudo ‘para inglês ver’ daí ficou a expressão, para os ingleses verem que estávamos preparados. Julgo que o que fizemos mais foi mostrar as nossas fraquezas. Por isso chegámos a França e os soldados tiveram de ser reinstruídos quer sobre o novo armamento quer sobre aquela forma de fazer guerra.

Além de ser uma grande manobra de propaganda, foi um grande exercício de mobilização. Não foi fácil reunir 20 mil homens nos tempos conturbados da Primeira República. O próprio general Tamagnini teve de ir à Covilhã meter na ordem uma companhia para conseguir que marchasse porque preparavam-se para desertar todos. Se não fosse uma vontade férrea de fazer aquilo não tinham conseguido reunir aquela gente e depois o grande exercício que era abastecer 20 mil homens em manobras, estamos a falar em três meses. Todos os dias saía de Lisboa um comboio com adidos militares, jornalistas etc para irem ver as manobras.

Portanto resta a Enfermaria…

Sim. Alguns edifícios no interior do quartel, no Regimento de Engenharia 1, também são contemporâneos daquela época, mas estão a uso, e dentro do próprio quartel. Aquele seria o mais consentâneo até porque junto ao edifício passava uma linha férrea de que só existe um pequeno troço, à entrada para a Brigada Ligeira de Intervenção, um troço com dois carris. Era uma linha férrea ainda mais estreita do que a chamada via estreita, servida por uma locomotiva, está um exemplar dentro do quartel de Engenharia, e que fazia a ligação de Almourol, o apeadeiro mais próximo, e o local que é hoje a pista de aviação, onde estavam acampadas as tropas. Essa locomotiva transportava abastecimentos, materiais para o local do acampamento.

Aquele polígono de manobras já existe desde o tempo de Dom Luís, e o próprio quartel de Engenharia existia ali há muito mais tempo, daí a escolha daquele local. Um dos principais critérios de escolha era a existência de um polígono – um terreno militar onde se pudesse juntar toda aquela gente – mas também por ser servido por via férrea: linha da Beira Baixa e a proximidade do nó ferroviário do Entroncamento.

Uma peça de artilharia exposta no Museu Militar, igual à usada em Tancos, na sala dedicada à participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial. Créditos: David Belém Pereira

Então o Entroncamento também tem importância histórica, no que toca ao Turismo Militar?

Não é menos importante! Até porque uns anos mais tarde vai voltar a ter importância com a criação do Campo Militar de Santa Margarida. O campo militar vai para ali no principio dos anos 1950, logo a seguir ao nascimento da NATO, exatamente porque um dos critérios é estar perto de boas vias de comunicação, nomeadamente ferroviárias. Daí a chamada Companhia de Manutenção Divisionária ficar no Entroncamento, aquilo que é hoje o Regimento de Manutenção. A proximidade do nó ferroviário do Entroncamento é fundamental para tudo isto, mas também não é a toa que ali nasce. É próximo do centro geográfico de Portugal. Aquela zona tem uma centralidade em termos estratégicos importante. Talvez seja difícil falar de estratégia a este nível porque somos um País pequeno e com pouca profundidade estratégica, mas em termos geográficos esta centralidade é relevante, porque qualquer força tanto pode ser balanceada para Norte como para Sul, com facilidade.

Essa centralidade fez também de Abrantes um ponto militar relevante?

Sem dúvida. Tão importante que durante séculos teve uma ponte militar, uma forma de balancear forças entre o Norte e o Sul. Abrantes tem características de uma cidade perfeitamente militar, é o topo de um monte com domínio sobre a zona à volta. Corresponde ao arquétipo de uma cidade militar. Tomar não tanto, mas tem outra centralidade mais administrativa, relacionada com os Templários e depois com a Ordem de Cristo.

O Médio Tejo tem ainda relevância no que toca às Invasões Francesas…

Sim. É fundamental! Aliás a expressão ‘tudo como dantes quartel em Abrantes’ tem a ver com Junot, como também a terceira Invasão Francesa. Massena quando se retira das Linhas de Torres vem instalar-se entre Rio Maior e o rio Zêzere, e ali forma uma linha de defesa onde permanece um inverno inteiro, 3 ou 4 meses, deixando vestígios físicos. Um altar da igreja de Constância foi partido pelos franceses. As Invasões Francesas são um acontecimento histórico de tal forma abrangente que se pode falar delas desde Bragança a Faro. Todo o País foi afetado, de uma forma ou de outra, e o Médio Tejo é uma das zonas centrais nesta questão. Curiosamente as Linhas de Torres – sendo dos monumentos militares, relacionados com esse período, dos mais importantes da Europa – só teve ação durante pouco mais de um mês. Para além da construção que demorou muito mais, a ação militar durou um mês. A utilização militar das Linhas de Torres foi muito curta.

Portanto, para o Turismo Militar tem importância quer a Rota de Invasão – de Almeida, Buçaco, Coimbra, Torres Vedras – quer da Rota da Retirada. Esta última sai de Tomar mais ao menos ao longo da estrada que passa por Penela em direção a Coimbra e vai a Condeixa e lá, em resultado de um combate e do incêndio de Condeixa, Massena talvez se convença que não pode retirar para trás do Mondego. Decide retirar-se para Espanha pela margem sul do Mondego até ao Sabugal.

Ninguém explora a Rota daquele episódio da Guerra Peninsular e, mais uma vez, do ponto de vista gastronómico, enológico tem muitíssimo potencial. As pessoas não conhecem porque são combates de retirada. Militarmente chamados combates de cobertura, portanto cobrir a retirada. E não são combates assim tão pequenos, às vezes envolvendo mais de um milhar de homens e que ocorrem em circunstâncias muito dramáticas, leva a dois grandes incêndios, de Pombal e de Condeixa-a-Nova, que ainda estão na memória das populações desses lugares. As pessoas sabem que foi tudo incendiado pelos franceses. Pisagisticamente é um itinerário fantástico e não está explorado.

O diretor do Museu Militar, em Lisboa, coronel Luís Albuquerque. Créditos: David Belém Pereira

Por não haver público?

Tenho sempre dificuldades em aceitar a inexistência de público porque como o Museu do Buçaco é da minha responsabilidade e recebo lá muitos estrangeiros que vêm a seguir a rota de Massena, acho que há público. Não há é enquadramento de operadores turísticos para fazer este género de programa. O papel do Exército é disponibilizar os equipamentos, fazer com que as coleções visitáveis pertencentes a algumas unidades militares possam ter horários de abertura ao público. A operação tem de ser de privados, até por terem mais flexibilidade que o Estado para lidar com estas questões.

Portanto há muito trabalho a fazer no Médio Tejo quanto ao Turismo Militar?

Julgo que sim. Mesmo os locais desconhecem algumas situações de conflitualidade em que aquela zona foi fundamental. Como na guerra da sucessão de Espanha, na chamada Guerra Fantástica, durante a Guerra dos Sete Anos. Aliás, o Conde de Lippe a certa altura desloca o quartel general para Mação mas continua no Médio Tejo. A forma de contar a história é fundamental porque se for uma sucessão de datas e de factos, não tem interesse. Temos de aprofundar, que é sobretudo personificar a História, dar a noção que foi construída por pessoas como nós. E às vezes não passa essa ideia. São necessárias pessoas que gostem, que sejam capazes de dar a conhecer e cultivar e que tenham noção que a História não é estática, ao longo dos tempos vão-se descobrindo mais fontes, mais interpretações. Escrever História não é apenas escrever factos é interpretar. E nesse aspeto os museus não fazem História, mostram os seus vestígios.

O diretor do Museu Militar, em Lisboa, coronel Luís Albuquerque. Créditos: David Belém Pereira

Como chegou à direção do Museu Militar?

De uma forma quase por acaso. Em 2008 quando fui promovido a coronel em Santa Margarida não havia lugar para mim. Surgiu a possibilidade de ir para Direção de História e Cultura Militar, em Lisboa, onde me deu muito gozo trabalhar. Fui chefe da repartição Heráldica e História Militar durante 10 meses, tempo muito vivido, com muita atividade. Debati-me com a interessante questão das heranças das unidades militar extintas etc, abriu-me os horizontes e permitiu-me contactos. Entretanto, ocorreu uma demissão extemporânea do diretor do Museu e fui convidado. Eu que conhecia o Museu Militar desde criança foi um gosto enorme. Ao mesmo tempo havia um prazer suplementar; depende deste Museu aquilo que se chama normalmente, de forma incorreta, o Museu do Buçaco que conhecia ainda melhor que este, graças aos passeios em família. Era uma coisa que me apaixonava, os manequins fardados… ser diretor deste Museu e ainda por cima o Buçaco ser uma dependência, é fantástico!

O diretor do Museu Militar, em Lisboa, coronel Luís Albuquerque. Créditos: David Belém Pereira

O seu interesse por História surge na infância?

Arrisco-me mesmo a dizer que foi a História que me levou a ser militar porque na minha família existiam alguns professores e desde miúdo que de certa forma comecei a visitar monumentos históricos e também militares. A principal fonte de atração inicialmente eram os castelos mas rapidamente começaram a ser museus, palácios etc. E sempre que viajava, quer com os meus pais quer com os meus avós, aquilo nem era viagem se não fossemos visitar qualquer coisa, o que incutiu em mim o gosto pela História. Desde tenra idade que comecei a ler sobre História. Uma disciplina a que sempre tive boas notas, embora nunca tenha gostado da forma como a História era ensinada na altura, era muito à base de datas e eu, como disse, tenho um pensamento um bocado mais científico, pela lógica.

Portanto dedicou-se e estudou o nosso passado?

Na verdade nunca tive oportunidade de fazer qualquer tipo de formação. Nos anos 1980 cheguei a estar matriculado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro em Engenharia Mecânica, nunca fui a uma aula. Porque as aulas acabavam às 18h00 e o comandante quando lhe coloquei a questão disse: Está bem, depois das 17h30 podes ir! Que era a hora do toque de ordem. Estive durante cinco anos em companhias de instrução a recrutas, vários milhares de homens passaram pela minha companhia de instrução e as minhas funções eram de tal forma absorventes que não tinha espaço para estudar. Na época não existia curso noturno. Isso também me impossibilitava de me dedicar à História. Mais tarde, quando ascendi aos postos de oficial superior pensei nisso, mas correspondeu ao tempo em que estive nos Açores numa situação completamente nova, e depois fui para Santa Margarida onde decorriam muitos exercícios e não estava perto de um local onde pudesse estudar.

Mas em Lisboa frequentei alguns cursos livres de História na Faculdade de Letras, nomeadamente de egiptologia. Cursos muito informativos mas que acresceram a minha capacidade em termos de conhecimento e de análise. A certa altura em Santa Margarida quando chefiei o Centro de Instrução de Operações de Apoio à Paz frequentei algumas ações de formação sobre Direito Internacional Humanitário, outra área que sempre me interessou. No Museu Militar nunca pensei em frequentar uma formação de história em museologia porque acho que o Exército tira mais proveito de quem seja mais novo do que eu. Além disso a minha vida pessoal não permite, teria de ficar diariamente em Lisboa, o que está fora de questão.

Então a direção do Museu Militar foi, de certa forma, um regresso à infância?

Sim, foi um bocado. Profissionalmente pude dedicar-me à área de História e eu que sempre gostei de armamento, sinto-me bem aqui. Gosto muito do que faço e tento que seja útil, no conhecimento da História Militar, na educação e na preservação. Tento imbuir o meu pessoal com o mesmo espírito. Contudo, estou a pensar em sair no final de 2020.

No ano passado passei à reserva por limite de idade e este ano já faço 40 anos de serviço. Acho que chegou o momento de começar a olhar para as minhas coisas. E são mais de três horas por dia de comboio de Constância para Lisboa e regressar. Não penso ficar divorciado da História. Não quero ir para casa para morrer mas para continuar a fazer coisas úteis, se calhar no Médio Tejo. Claro que continuarei a colaborar com quem quiser a minha colaboração mas provavelmente vou ter tempo para me dedicar mais aos aspetos que acabamos de falar, vou aprofundar o meu conhecimento na perspetiva da História Militar e do Turismo Militar. Considero que o turismo cultural é o mais sustentável. Temos uma oferta cultural fantástica que também passa pela gastronomia e pela enologia.

O diretor do Museu Militar, em Lisboa, coronel Luís Albuquerque. Parada das forças militares portuguesas em Paris, França, durante a Primeira Guerra Mundial. Créditos: David Belém Pereira

Desde 2009, nestes 11 anos o que retirou da experiência no Museu?

Evolui muito no meu conhecimento. Preocupo-me sobretudo com a preservação do património não só em termos de conservação mas também em não deixar que desapareça. Muitas vezes as coisas são tratadas do ponto de vista técnico e eu tento que haja outra forma de olhar. Entretanto, tive a noção que o objeto vulgar é o mais difícil de encontrar, as pessoas deitavam fora como a marmita ou o cinturão. Move-me muito a preservação do património, é uma grande motivação procurar coisas que possam perder-se.

Outro aspeto fundamental reside na ideia de que o Museu não é meu nem do Exército mas de todos nós. Por isso defendo museus acessíveis, com uma linguagem também acessível. Não sou a favor de uma museu para especialistas mas o mais integrado possível, para que as pessoas possam aprender alguma coisa quando o visitam. Ao mesmo tempo, deve ter uma vertente dedicada aos especialistas e para mim o público alvo é o escolar. Julgo que se o gosto não começa de pequenino, nunca mais. Vivemos num tempo em que as pessoas são tão desapegadas a valores, do passado, que temos mesmo que tentar.

Tem havido redução de visitas escolares ao Museu Militar?

Sim. Funciona quase como um ciclo vicioso: Há menos dinheiro e as pessoas mobilizam-se menos para as viagens de estudo. Além disso, os professores tem uma média etária muito elevada, logo menos paciência para estas coisas… é que chegam-nos aqui escolas… não são alunos mas um “bando de índios”.

Sente que as crianças e os jovens têm comportamentos mais indisciplinados?

Sim. Não há hoje a ideia do saber estar. Seguem menos regras e considero que os culpados são os pais porque muitos abdicam completamente da educação dos filhos. O meu filho nunca teve tal comportamento. Criado num campo militar – acho que ainda hoje se sente mais à vontade entre fartas do que no meio civil – optou por não ser militar e não vejo nele uma pessoa violenta. Acho muito mais preservo os jogos de consola ou de computador, onde há uma violência gratuita. O que morre volta ao início. É muito virtual, nunca se sente o efeito da violência na pele, e isso leva os miúdos a comportamentos como aqueles que existem nos Estados Unidos.

O diretor do Museu Militar, em Lisboa, coronel Luís Albuquerque. Créditos: David Belém Pereira

Momentos que destaca na sua vida militar. Alguma situação de conflito?

Não, nunca estive em situações de conflito, mas lembro-me de ir à Bósnia num reconhecimento em 1996, ainda era muito recente o cessar fogo. Estive lá 15 dias e havia muitos sítios minados e ainda se ouviam disparos na cidade de Sarajevo, situações que exigiam algum cuidado. No Sahara, certa vez quando demos por isso estávamos com o jipe dentro de um campo de minas. Há sempre perigos, por isso tais missões são para militares. Já para não falar das condições naturais, andar no Sahara a patrulhar com 52 graus não é propriamente fácil. A simples água potável… passei a dar uma importância brutal à essa questão. Provavelmente vivemos nos 10% ou 20% do mundo favorecido, porque temos água potável e até a desperdiçamos. Parece-me um atentado que a água do autoclismo seja exatamente a mesma que bebemos. Quando 60% ou 70% da população mundial passa a vida toda a beber a água que nunca beberíamos.

Como é que vê o mundo de hoje?

É um mundo que não consigo perspetivar. Cresci com a Guerra do Ultramar, depois vivi profissionalmente a época da Guerra Fria para a qual fui militarmente educado e do ponto de vista da ação vivi as operações de apoio à paz, portanto são três situações completamente diferentes. Mas a verdade é que na situação de Guerra Fria havia um equilíbrio de terror, sabia-se com o que se podia contar, de certa forma era um futuro que conhecíamos. Hoje o futuro do mundo é muito mais aleatório, e sobretudo vivemos uma época em que as pessoas vivem muito mais para o momento presente, não se quer saber do passado e também não se quer saber muito do futuro. Penso que terá custos. A perspetiva de futuro é o próximo telejornal.

É um mundo mais perigoso?

Em determinados aspetos sim. Como a recente desgraça que aconteceu na Austrália. A perspetiva de futuro hoje é a do share televisivo. O que me preocupa no mundo de hoje é não haver um plano. Os recursos são finitos e a sustentabilidade cada vez mais é uma quimera. Quanto às alterações climáticas, não vale a pena fazer conferências quando os maiores poluidores do mundo não estão lá. É preocupante! Sentimos isso; o Tejo leva muito menos água.

O diretor do Museu Militar, em Lisboa, coronel Luís Albuquerque. Créditos: David Belém Pereira

Fora da vida militar quais são os seus interesses e passatempos?

Gosto de ver corridas de todo o terreno. E tenho uma grande paixão: os livros. Ainda agora estava a ler um livro com 170 anos, com o titulo ‘Ibéria’ sobre a união ibérica, algo que não defendo, mas gosto de saber como é que, no século XIX, esta ideia passou seriamente pela cabeça de pessoas bem pensantes. Gosto de livros antigos e bonitos, em que a temática me diga alguma coisa, como a História e a Arte. Gosto de gastronomia, cozinho por devoção porque também gosto muito de comer. Gosto de atividades que me concentrem. Para escrever sou um bocado preguiçoso, por isso não tenho nenhum livro publicado. Mas há uma História Concisa da Intervenção Portuguesa na Grande Guerra, publicada pela Comissão Portuguesa de História Militar, para a qual escrevi um capitulo sobre identidade e memória.

Para escrever tenho sempre de me forçar, mas gostei muito da temática. Passei a olhar para os monumento de uma forma completamente diferente, por exemplo o mais interessante que temos na região é o monumento de homenagem aos mortos da Grande Guerra em Abrantes. Esteticamente é dos mais interessantes. Outro aspeto interessante é monumento da Barquinha, tem lá um homem enterrado, o primeiro morto português na Grande Guerra, em França.

O que mais gosta no Médio Tejo?

Da paisagem, do aspeto natural. Sou um homem rural apesar de ter nascido em Paranhos, no Porto, e ter sido criado na cidade, mas os meus avós tinham uma quinta e desde muito cedo que me habituei a ir para o campo. Sinto-me mais à vontade no campo do que na cidade. Tenho um prazer imenso, de manhã, ao abrir a janela e ver a passarada em cima dos ramos das árvores. Sabe-me muito bem apanhar a fruta da árvore. Esse género de vida simples agrada-me imenso. Fico com a alma cheia quando vejo uma águia a pairar por cima de minha casa. Aliás, ando para fazer uma pequena incursão no geoparque do Tejo.

E é um sítio com muita história, apesar dos portugueses não a valorizarem talvez por sermos um País antigo. Preocupa-me a nossa perda de identidade e eu só compreendo este Portugal na Europa com a manutenção das identidades. Há valores comuns entre as identidades europeias mas cada uma delas não deveria abdicar daquilo que é. Até me arriscaria a dizer que a nossa cultura é muito mais atlântica do que europeia.

E o que é que dispensava?

Um certo paroquialismo. Há a tendência das capelinhas, muito portuguesa aliás, mas gostava que desaparecesse. Não há visões mais largas! Nos Municípios do Médio Tejo só vejo uma forma de levarem a cabo determinadas tarefas: Potencializar o conjunto.

O diretor do Museu Militar, em Lisboa, coronel Luís Albuquerque. Créditos: David Belém Pereira

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