ENTREVISTA | Delegada de Saúde Pública prevê aumento de casos no Médio Tejo e pede a todos que respeitem as regras de prevenção

Maria dos Anjos Esperança tem sido a porta-voz da Saúde Pública na região neste momento de crise, mas salienta o trabalho de informação e prevenção da restante equipa Foto: DR

Têm sido dias especialmente cansativos para quem trabalha na Unidade de Saúde Pública do Médio Tejo. A região contabilizou até ao momento quatro infetados com o novo coronavírus Covid-19, mas é muito o trabalho de prevenção e de despiste que se encontra a ser realizado, auxiliado pelos restantes profissionais do Agrupamento de Centros de Saúde do Médio Tejo.

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A partir de Tomar, numa conversa via Skype com vários problemas de rede, falámos com a coordenadora da Unidade de Saúde Pública, Maria dos Anjos Esperança, e com outros dois delegados, Lourdes Leon e Paulo Bastos, para abordar o impacto do novo vírus na região. Os casos, alertam, vão aumentar e é necessário insistir na prevenção.

Ao mesmo tempo, sublinham, os atestados de isolamento só podem ser passados a suspeitos ou infetados pelo Covid-19. Há alguma pressão para adquirir estes documentos, referem, pelas entidades patronais.

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Mediotejo.net (MT): Agradeço a oportunidade de entrevistá-la via Skype, cumprindo as medidas de prevenção da DGS…

Maria dos Anjos Esperança (MAE): Exatamente…

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MT: Esta é uma situação invulgar. Nunca se viveu nada assim, confirma?

MAE: Confirmo. Nunca vivemos uma coisa assim. Há muitas dezenas de anos que não estávamos sujeitos a uma situação assim tão perigosa e que tantos malefícios pode trazer para a saúde de todos. Para a saúde, para a economia, para tudo.

MT: Há muita gente que compara esta situação à gripe espanhola ou mesmo à peste negra. Mas não estamos a falar da mesma coisa, pois não?

MAE: Não estamos a falar da mesma coisa, mas podemos estar a falar de, se não tomarmos algumas precauções, de resultados muito próximos. Porque ninguém sabe muito bem como é esta gripe, ninguém sabe muito bem como o vírus se pode comportar nas pessoas e nas transmissões e portanto pode ser muito perigoso.

MT: A senhora é coordenadora da Unidade de Saúde Pública do Agrupamento de Centros de Saúde do Médio Tejo. Quais são as suas funções exatamente nesta época de pandemia?

MAE: São funções de autoridade de saúde, tal e qual como os meus colegas. Nós temos que tratar de difundir e analisar quais as medidas necessárias para impedir que esta pandemia se propague ainda mais. Cabe-nos a nós fazer a prevenção junto das pessoas sem doença e encontrar as melhores maneiras de prevenir a propagação da mesma.

“Nunca vivemos uma coisa assim. Há muitas dezenas de anos que não estávamos sujeitos a uma situação assim tão perigosa e que tantos malefícios pode trazer para a saúde de todos. Para a saúde, para a economia, para tudo.”

MT: Assumo que esta pandemia tenha mudado completamente a vossa vida nos últimos dias. Em que aspetos mudou? Muito trabalho?

MAE: (risos) Não sei o que os meus colegas pensam, mas eu posso dizer o que se tem passado. A Unidade de Saúde Pública tem autoridades de saúde, médicos portanto, tem técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica (há os técnicos de saúde ambiental e os higienistas orais) e tem enfermeiros. Esta epidemia tem estado a dar trabalho a todos. Nós temos que dividir tarefas, temos que fazer pesquisa de informação. Os nossos enfermeiros fazem também o acompanhamento das pessoas que estão em casa. As nossas higienistas orais colaboram connosco para elaboração de mapas. As nossas assistentes técnicas, que temos cinco, fazem a mesma coisa. Temos saído daqui muito tarde, continuamos a trabalhar nas nossas casas. Mas por isso é que somos de uma Unidade de Saúde Pública.

Lourdes Leon (LL): As pessoas já começam a perceber qual o nosso papel, que as nossas funções são mais preventivas. Entram em contacto connosco porque sabem que estamos na retaguarda, a ajudar na prevenção.

MT: Tem-se falado nos últimos dias de pessoas que saem das cidades para o campo. Inclusive emigrantes que saem dos países de quarentena e regressam a Portugal. Em que medida isto é um desafio para a saúde pública?

LL: É um desafio completo porque nestas movimentações pode haver o risco de uma pessoa estar em contacto com alguém infetado e levar o vírus para outra zona. É um grande desafio. Daqui o apelo para que as pessoas fiquem em casa e evitem estas deslocações, para que a propagação seja mais lenta e progressiva. Para o sistema também ir dando resposta à situação.

MT: Para estas pessoas que já se deslocaram, há alguma medida extra de prevenção que possam ter em conta?

MAE: Serão as mesmas medidas. Sabemos que as pessoas estando fechadas em casa ao fim de uns dias a sanidade mental fica alterada. A vida no campo será mais saudável, porque na cidade haverá outras situações que podem levar a que não se cumpram tão bem as regras de prevenção. Será de cumprir as mesmas regras, tendo o à vontade dos espaços abertos que não constituem tanto perigo como os espaços fechados de uma zona urbana.

“Nas movimentações [da cidade para o campo] pode haver o risco de uma pessoa estar em contacto com alguém infetado e levar o vírus para outra zona. É um grande desafio. Daqui o apelo para que as pessoas fiquem em casa e evitem estas deslocações.”

MT: O número de mortos, quer em Itália quer em Espanha, vai subindo de dia para dia e ninguém percebe bem o que se está a passar. Não era suposto o nível de mortalidade desta doença ser baixo? Até que ponto o que se está a passar neste países está a contribuir para os poucos casos que se registam em Portugal?

MAE: Nós temos que aprender com os outros países, com o que os outros já passaram. Estamos a aprender que se as medidas preventivas forem tomadas podemos evitar uma mortalidade tão elevada. Este vírus tem uma taxa de mortalidade muito baixa, entre os 2 a 3%, mas estamos a aprender que na Itália é muito superior ou porque as medidas não foram tomadas a tempo ou porque as pessoas não cumpriram essas regras de prevenção. Houve realmente pessoas, sobretudo dos grupos etários mais elevados, que foram muito atingidas e a mortalidade foi maior. Para evitarmos taxas de mortalidade elevadas temos que aprender com os erros dos outros e como nos comportar.

MT: Qual o cenário mais provável para as próximas semanas?

MAE: Pelas contas que podemos ver, hoje cresceu em cerca de 20% [19 de março]. Pelas projeções que estavam feitas podíamos acreditar que iria crescer em 40% o número de pessoas infetadas. Cresceu menos. Vamos ver… Esperamos mais casos. Esperamos mais óbitos, infelizmente. Mas se as pessoas continuarem com estas medidas, para sábado ou domingo nós cremos que já podemos pensar que vamos ter uma curva um bocadinho mais achatada que os outros países. Isso é muito bom para nós, para os serviços de saúde que têm que tratar das pessoas. Se for um crescimento muito grande e muito exponencial, há mais dificuldade em termos a assistência, sobretudo hospitalar, que pode ser necessária.

MT: No Médio Tejo, qual é a vossa perspetiva?

MAE: Infelizmente não nos parece que vá estagnar por estes três casos. Mas o crescimento está na casa dos 20%. Vamos ver dia a dia. Mas que vai crescer, vai crescer. Se fizer a comparação da Lezíria, com sete casos, e o Médio Tejo, com três casos [quatro, na manhã de sexta-feira], eles cresceram mais depressa, mas não podemos relaxar. Temos alguns casos à espera de despiste. É sempre bom pensarmos que vai ser pior para tomarmos mais medidas.

“O crescimento [no Médio Tejo] está na casa dos 20%. Vamos ver dia a dia. Mas que vai crescer, vai crescer.”

MT: Alguns conselhos que gostaria de deixar para a população do Médio Tejo?

MAE: Queria falar às pessoas, sobretudo aos empregadores. Estamos a ter algumas dificuldades. Há empregadores que pensam que se a pessoa veio de Espanha ou de França, basta deixar-se estar e regressa com uma declaração do médico. Não é assim. Temos que fazer a triagem das pessoas que precisam mesmo desses atestados e são só as pessoas suspeitas, pessoas confirmadas, é que será emitido.

Por outro lado, começou a circular que as pessoas de risco devem ficar em casa. Se formos a considerar as pessoas de risco por aquilo que as pessoas acham que têm de risco, tínhamos toda a gente sem trabalhar. Não pode ser assim. Aí tem que ser feita uma avaliação muito importante, para sabermos quem são as pessoas que devem ficar em casa.

Gostava também de salientar o papel dos nossos técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, que sabem e dão as informações. Temos o Paulo [Bastos] que representa esses técnicos que fizeram o levantamento e análise da informação da Direção-geral de Saúde (DGS) e que passam agora esse conhecimento, sobretudo aos agentes comerciais, da prevenção que deve ser feita.

Paulo Bastos (PB): Uma pequena chamada de atenção que tem a ver com a utilização das máscaras e das luvas. As máscaras devem ser utilizadas por casos suspeitos ou confirmados e não pela população em geral. É o que a DGS recomenda. Porquê? Porque vai criar uma falsa sensação de segurança às pessoas, uma vez que a utilização não é correta. A muda da máscara não é a correta, porque as pessoas ficam muito tempo com a mesma.

A questão das luvas é muito pertinente porque está-se a ver sobretudo nos operadores de caixa de supermercado uma utilização massiva das luvas. Mas essa utilização, para ser eficaz, tem que ser usada uma muda de luvas por cada cliente.

O melhor é sempre fazer a higienização correta da mão. Em caso de luva, fazer sempre em cada cliente a mudança da luva. Ter em atenção que há um procedimento para a mudança da luva, não pode ser feito de qualquer maneira.

“Está-se a ver sobretudo nos operadores de caixa de supermercado uma utilização massiva das luvas. Mas essa utilização, para ser eficaz, tem que ser usada uma muda de luvas por cada cliente.”

MT: Quais as dúvidas que vos chegam com mais frequência da parte da população?

MAE: Basicamente é o pedido da declaração para não irem trabalhar, por indicação de que são ou grupos de risco ou porque o patrão disse para não ir trabalhar. Se os patrões disseram isso é por sua conta em risco, porque não é o patrão que diz quem vai ou não trabalhar. Nós compreendemos que as pessoas andem assustadas, porque é uma doença grave. O esclarecimento do que é a doença perguntam-nos sempre. Mas o que temos sentido mais é a procura dos certificados de isolamento por ideia do patrão ou por ideia de ser grupo de risco.

LL: Como todos já percebemos esta situação exige-nos flexibilização. Do ponto de vista laboral, as empresas têm que ter essa flexibilidade, privilegiar o teletrabalho sempre que possível e em alguns postos fazer alguns ajustes para que consigam continuar o seu trabalho. Dar alguma ajuda aos trabalhadores que precisam de alguma proteção no exercício das suas funções.

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