Entrevista | Centros de Saúde do Médio Tejo realizaram menos 18 mil consultas este ano, revela a diretora Diana Leiria

A diretora executiva do ACES Médio Tejo aceitou traçar um retrato da Saúde Pública na região, num cenário de pandemia de covid-19 e com o inverno à porta. Reconhece os atrasos nas respostas a doentes não-covid e a necessidade de reforçar contratações para dar respostas mais adequadas à população. Para já, este mês chegam 10 novos médicos aos centros de saúde

Diana Leiria, diretora executiva do ACES Médio Tejo. Créditos: mediotejo.net

Diana Faria dos Santos Leiria foi nomeada em fevereiro de 2020 diretora executiva do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Médio Tejo para os próximos três anos. Licenciada em Relações Internacionais pela Universidade Lusíada, é especializada em Administração Hospitalar e desempenhou, desde 2012, as funções de Coordenadora da Unidade Hospitalar de Gestão de Inscritos para Cirurgia do Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT) e de diretora do Agrupamento de Centros de Saúde da Lezíria, de 2014 a 2018. O ACES Médio Tejo abrange os municípios de Abrantes, Alcanena, Constância, Entroncamento, Ferreira do Zêzere, Mação, Ourém, Sardoal, Tomar, Torres Novas e Vila Nova da Barquinha, num total de cerca de 225 mil utentes. Em Riachos, Diana Leiria recebeu o mediotejo.net para traçar um retrato da situação atual da Saúde Pública na região, num cenário de pandemia de covid-19 e com o inverno à porta.

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Tendo em conta a pandemia de covid-19, o que preconiza o ACES Médio em termos estratégicos no seu Plano de Contingência para o período outono/inverno?
O nosso Plano de Contingência segue as orientações da tutela e da Organização Mundial da Saúde. Este ano tem uma novidade substancial porque engloba não só as estratégias para as vagas de frio – estamos a falar de um Plano de Contingência da Saúde no modo frio, outono/inverno – mas também estratégias para responder a fluxos da gripe, de outras infeções respiratórias, como por exemplo a covid-19, e ainda uma vertente para dar resposta à atividade não-covid. Portanto, um Plano substancialmente diferente e com várias vertentes. Neste Plano estão definidos quatro níveis, que variam por cores de acordo com aquilo que é expetável na influência na saúde nas pessoas, quer do frio, das condições atmosféricas, quer da evolução epidemiológica das infeções respiratórias e da covid. Nesses graus temos várias medidas preventivas. O Plano assenta muito nas medidas de prevenção e controlo das infeções. Seja por via de adoção das medidas da Direção Geral da Saúde, como lavagem frequente das mãos, distanciamento social também nas nossas unidades, o desfasamento de horários, a definição de circuitos separados e sem cruzamento, a manutenção de salas de isolamento e tudo aquilo que já conhecemos. Depois a parte efetiva da prevenção da gripe, que se baseia muito na vacinação. Temos tudo preparado. Já começámos a primeira fase, com uma boa quantidade de vacinas na rua, e temos as pessoas definidas da primeira fase praticamente todas vacinadas. Estamos agora a finalizar em vários concelhos aquilo que chamamos os “lares não licenciados” e ainda alguns centros de dia, mas de resto as estruturas residenciais licenciadas já têm as suas vacinas.

Portanto os utentes dos lares foram os primeiros a ter a vacina da gripe?
Exatamente. Os primeiros foram os utentes e os colaboradores dos lares, dos centros de dia, das estruturas residenciais para crianças e jovens, da rede de cuidados continuados, também utentes e colaboradores, os profissionais de saúde do Serviço Nacional de Saúde e as grávidas – aí a vacinação foi feita nas nossas unidades. A segunda fase destina-se aos outros grupos de risco. Começa na próxima segunda-feira [19 de outubro] e vai abranger todas as pessoas com 65 anos ou mais, ou com doenças cónicas definidas na norma da DGS em cada ano. É ainda bastante extensa, mas grosso modo são as pessoas com diabetes, doenças crónicas respiratórias, etc.

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A partir de 19 outubro inicia-se a vacinação contra a gripe nas pessoas com mais de 65 anos ou com doenças crónicas, como diabetes

Além das medidas preventivas, o Plano contém outras medidas, nomeadamente da reestruturação da resposta às necessidades expectáveis na população?
Sim. Nessa reestruturação temos preparadas as escalas das vigilâncias das pessoas que estão no domicílio. Muitas pessoas com a doença covid não têm sintomas ou têm sintomas ligeiros e fazem o seu período de isolamento e de cura no domicílio e todas são acompanhadas por nós. Por via telefónica com o objetivo de controlar os sintomas e prevenir qualquer agudização de forma e rapidamente poder observar, tratar, medicar ou encaminhar as pessoas para cuidados hospitalares. Por outro lado, organizamos as nossas ADR – Áreas Dedicadas para Doentes Respiratórios, as Comunitárias, as ADR dos hospitais são Serviço de Urgência. Com a alteração da norma da DGS tivemos de converter os ADC (Área Dedicada Covid) em ADR, ou seja não se destinam só a doentes covid ou com suspeita de covid mas a todos os doentes com suspeitas de infeção respiratória, que podem dirigir-se às ADR pelo próprio pé, ou referenciados quer pelo médico de família, quer pela Saúde 24. Neste momento já alargámos o horário de funcionamento da ADR no Entroncamento, porque durante os meses de verão tivemos uma afluência muito menor, e reduzimos para o Entroncamento por ser mais central e com maior acessibilidade.

“Com as novas normas da DGS tivemos de converter os ADC (Área Dedicada Covid), que agora não se destinam só a doentes com suspeita de covid mas a todos os doentes com suspeitas de infeção respiratória”

Outras estão previstas?
O nosso Plano prevê abrirmos pelos menos mais duas, caso seja necessário, como aliás já tivemos a funcionar no início da pandemia. Por outro lado, temos várias medidas previstas para adotarmos, designadamente no que se refere à reorganização das consultas. Se houver mais procura para doenças agudas, pelo menos nos edifícios que permitam termos uma área em que os circuitos não cruzam e em que conseguimos fazer observação de utentes com sintomas respiratórios, aumentarmos os períodos de consultas agudas em detrimento das consultas programadas, que é aliás uma medida que todos os anos se toma. No nosso Plano de Contingência a chave é flexibilizar, é sermos capazes de nos irmos adaptando a cada momento, à medida que formos observando a evolução epidemiológica. Também as equipas locais, quer da Saúde de Medicina Geral e Familiar, da Saúde Pública e das Unidades de Cuidados Continuados, têm-se organizado e articulado, e isso está previsto no Plano, para dar resposta local mediante ativação por parte da Autoridade de Saúde. Por exemplo na recolha de amostras biológicas quando aparece um caso numa estrutura residencial em que é preciso fazer testes massivos, em grande escala, temos equipas preparadas. Hoje [sexta-feira] temos três equipas a fazer esse trabalho que nos foi solicitado pela nossa Autoridade de Saúde no sentido de rastrearmos casos por ter surgido um caso positivo. O mesmo com os médicos, já temos dado apoio a alguns lares em situação de covid positivo.

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Portanto, atualmente, os testes que os utentes tenham de realizar à covid decorrem apenas no Entroncamento? Ou seja, não se mantêm-se os três postos inicialmente disponibilizados (Entroncamento, Tomar e Sardoal)?
O Serviço Nacional de Saúde alargou as convenções e neste momento há uma rede de laboratórios privados convencionados com a ARS e esses laboratórios têm uma série de postos de colheita, sob marcação, em vários locais. Isto já acontece por todo o território do Médio Tejo. Ou seja, a pessoa leva uma credencial passada pelo médico de família – a Saúde 24 deixou de poder passar, agora segundo a nova norma vai novamente poder passar o teste para aliviar os cuidados hospitalares e de cuidados de saúde primários – e pode ir ao sítio que lhe for mais conveniente em termos de proximidade geográfica. Nos nossos ADR passámos a fazer as colheitas, temos um protocolo com o Centro Hospitalar do Médio Tejo, fazemos as colheitas para evitar que a pessoa saia da ADR e ainda tenha de ir ao laboratório, levamos as colheitas para o hospital e o hospital processa e dá-nos resultados. Começou no dia 6 de outubro. Penso que é uma melhoria para as pessoas. No nosso Plano temos também previsto com o CHMT que nas outras que viermos a abrir tenhamos este tipo de serviço.

Então o procedimento alterou?
No início da pandemia, quando abrimos os chamados ADC só tínhamos um laboratório em Torres Novas com posto de colheitas, depois houve outro laboratório que tinha essa tecnologia, conseguiu adquirir material, em Tomar, e conseguimos colocar o posto previsto para Tomar e outro no Sardoal. À medida que os laboratórios, públicos e privados, se foram adaptando à nova realidade, adquirindo tecnologia e conhecimento para fazer os testes, a ARS foi também alargando as convenções. O CHMT foi um dos pioneiros na realização dos testes, tem essa capacidade e faz colheitas em qualquer um dos três hospitais. Neste momento, que tivemos que reconverter ADC em ADR, conseguimos para já formar equipas – temos só a do Entroncamento, mas nas outras que o Plano prevê seremos capazes de fazer colheitas. Além de que sempre que a Saúde Pública nos identifica a necessidade de testagem massiva em que não faz sentido estar a passar testes para as pessoas irem a sítio qualquer e nos solicita, acionamos as equipas locais e vamos fazer as colheitas.

Qual é a importância da campanha de vacinação contra a gripe em contexto pandémico?
A vacinação contra a gripe, e qualquer vacinação, é sempre muito importante. Porque permite evitar complicações futuras no estado clínico das pessoas e até pode evitar a morte. Nesta altura é ainda mais premente porque se pudermos evitar recursos aos serviços de saúde, de pessoas que poderiam evitar a contaminação da gripe sazonal vamos a estar a dar oportunidade a outros, designadamente às pessoas com covid ou pessoas com outro tipo de infeções que afluem aos nossos serviços. Ou seja, vacinar para além de nos proteger em termos individuais, da nossa saúde, também permite preservar a manutenção da capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde, e isso aproveita a todos.

Com sintomas semelhantes – a gripe sazonal e a covid – como se faz essa triagem?
Não é fácil! Não serei a pessoa mais avalizada para responder porque não sou médica mas a norma da DGS que foi revista [a 14 de outubro] faz essa destrinça. No entanto, parece-me que a certeza tem-se com realização do teste e através dos meios de diagnóstico e terapêutica, quer para despiste dos vírus da gripe sazonal, quer para despiste do SARS-CoV-2.

Portanto, os utentes que cheguem ao Centro de Saúde com sintomas de gripe farão o teste de despiste à covid-19?
Em principio, se os sintomas forem semelhantes e seguirem o fluxograma, poderão ter de fazer o teste de despiste, sim.

Diana Leiria, diretora executiva do ACES Médio Tejo. Créditos: mediotejo.net

Em termos de Saúde Pública e da covid-19, qual o ponto de situação nas escolas, e como está o processo de cuidados em lares e centros de dia, em termos preventivos e em caso de surto. Tem o ACES Médio Tejo alguma brigada de intervenção no terreno? Como é constituída e como funciona, em caso de necessidade?
Em relação às brigadas de intervenção no terreno é preciso destrinçar bem. Realmente temos equipas locais que vamos constituindo de acordo com as necessidades, os técnicos variam de acordo com as necessidades que a Saúde Pública nos identifica. Mas é preciso não confundir com aquilo que tem sido amplamente divulgado na comunicação social sobre as brigadas de intervenção rápida que são uma iniciativa da Segurança Social. A nossa delegada de Saúde, coordenadora da Unidade de Saúde Pública, tem divulgado os números da covid, ao dia de ontem [quinta-feira] tínhamos quatro escolas com casos positivos, em que algumas turmas estavam em isolamento ou poderiam entrar em isolamento consoante o rastreamento e os inquéritos epidemiológicos que estavam a ser realizados pela Saúde Pública. Já tivemos outros casos em vários concelhos, que foram sendo ultrapassados. Nas escolas temos conseguido rapidamente atuar sem necessidade de deslocar equipas para dentro das escolas.

Esta semana houve casos de covid-19 confirmados em 4 escolas da região do Médio Tejo, com turmas a entrarem em isolamento

O que aconteceu antes da abertura do ano letivo foi que as escolas decidiram, de acordo com as orientações da DGS e do Ministério da Educação, os Planos de Contingência, e a nossa Saúde Pública fez, sempre que nos foi pedido, visitas às escolas para ajudar na destrinça de espaços. Várias escolas na abertura do ano têm pedido ajuda na formação, várias equipas das Unidades de Cuidados Continuados têm ido às escolas fazer formação por exemplo da lavagem das mãos, da correta utilização das máscaras, das luvas, como se tiram, de forma a que as pessoas não se contaminem, temos tido esse tipo de colaboração. Nos lares, neste momento conhecidos temos apenas o caso do lar do Entroncamento, dos ferroviários, ainda temos utentes e profissionais positivos, apesar disso já há vários dias não existem casos positivos e portanto parece-nos que será um surto que se irá fechar. Relativamente aos outros lares, estamos a fazer uma investigação com os nossos profissionais mas ainda não sabemos os resultados.

Quantos médicos de Saúde Pública tem o ACES ao seu dispor, quantos seriam necessários (idealmente), e como vê o trabalho desenvolvido pela equipa liderada por Maria dos Anjos Esperança, delegada de Saúde Pública do ACES Médio Tejo, ao longo destes ultimo sete meses de pandemia?
Neste momento temos quatro médicos de Saúde Pública que trabalham e que têm distribuído entre si, por ordem geográfica, os vários concelhos do ACES Médio Tejo e trabalham com uma equipa mais alargada, que tem cerca de 30 pessoas entre enfermeiros, com especialidade de Saúde Comunitária, técnicos de Saúde Ambiental, temos três higienistas orais e as assistentes técnicas. Uma equipa que tem estado assoberbada, os telefones não param, trabalham ininterruptamente desde que começou a pandemia. Trabalham aos fins-de-semana, aos feriados, à noite, sempre que é necessário. São realmente muitas e muitas horas. Se me pergunta se os médicos são em número suficiente? Nesta altura nada é em número suficiente. O decreto-lei nº 135/2013 de 4 de outubro que vem alterar um decreto anterior de 2009 que estabelece um rácio de uma autoridade de saúde por cada 75 mil habitantes. Digamos que em termos de Autoridades de Saúde estamos aquém daquilo que é preconizado. Já no que se refere aos médicos de Saúde Pública, esta legislação defende um médico por cada 35 mil e aí precisaríamos de um reforço da equipa. Dento das limitações desta equipa de médicos e do resto da equipa, digo que o trabalho da drª Maria dos Anjos e do equipa tem sido excecional. Nunca falharam, têm alterado férias, alterações em cima de alterações para não falhar, trabalham continuamente e portanto é o exemplo claro e evidente de um serviço público.

“a equipa de saúde pública tem estado assoberbada, os telefones não param, trabalham ininterruptamente desde que começou a pandemia, aos fins-de-semana, aos feriados, à noite, sempre que é necessário.
Se me pergunta se os médicos são em número suficiente? Nesta altura nada é em número suficiente”

Com este insuficiente número de médicos de Saúde Pública, e com o número de infetados por SARS-CoV-2 a aumentar, o inverno prevê-se complicado…
Sim. Mas note que há outras atividades que não estão a ser feitas, neste momento, como por exemplo as Juntas Médicas, que já passamos para outro grupo profissional dentro dos médicos e temos tentado aliviar, naquilo que é possível, as outras tarefas da Saúde Pública para que se possam concentrar nas tarefas da Autoridade de Saúde e, portanto, do controlo da pandemia. Por outro lado, temos tentado dentro dos meios do ACES dar o nosso contributo e ajudar a Saúde Pública sempre que o trabalho aperta. Agora há certos atos que têm mesmo de ser um médico de Saúde Pública a fazer.

O ideal seria então ver o número reforçado.
Sim, mas também não há milagres e não há médicos de Saúde Pública para contratar e nomear como Autoridades de Saúde. Mesmo que houvesse muita vontade da tutela de o fazer, e acredito que haja, não têm muito onde recorrer. Portanto, temos de encontrar estratégias alternativas que permitam aliviar a Saúde Pública de outras tarefas, como por exemplo a Saúde Escolar ou as Juntas Médicas. Tentamos aliviar dessas tarefas para que se possam dedicar mais ao estudo dos casos, dos surtos e dos inquéritos epidemiológicos. Por cada utente positivo, com diagnóstico de covid-19, há uma série de trabalho, quer da Saúde Pública quer da Medicina Geral e Familiar, tarefas que são geradas e que é preciso desenvolver.

Em termos da prestação de cuidados de saúde, para quando está prevista a retoma do atendimento presencial nos centros de saúde do ACES Médio Tejo?
Não mantivemos a nossa atividade normal, até porque houve um despacho da tutela que assim o determinou, mas nunca tivemos as unidades de saúde primários encerradas. Mesmo durante o estado de emergência e do confinamento continuámos a fazer consultas, algumas não presenciais, como por exemplo no receituário crónico, que é algo que não sendo urgente não pode falhar porque as pessoas não podem passar sem a medicação, mantivemos a consulta de doença aguda e mantivemos uma série de consultas e atos que, não sendo propriamente urgentes, não podem ser feitos noutro tempo, como é o caso da vacinação, o tratamento de feridas, a administração de injetáveis, as consultas de vigilância da saúde materna, as consultas de vigilância da saúde infantil até aos dois anos, que têm timings muito concretos, e ainda outras consultas de doenças crónicas que estavam descompensadas e exacerbadas e que não se puderam realizar pelo telefone. Bem como no planeamento familiar para a dispensa de contracetivos. Nas consultas de doenças crónicas, falamos sobretudo da diabetes e da hipertensão, em que as pessoas descontroladas em que a medicação não está a fazer os efeitos esperados ou com doença muito exacerbada precisam de observação médica e enfermagem.

Com os números de infeções a subir, faz sentido a retoma da atividade plena nos centros de saúde?
A atividade foi retomada em maio. Emitimos logo várias estratégias para ser possível retomar a atividade mantendo algumas regras de forma a evitar contaminação desnecessária nas nossas unidades. As unidades foram paulatinamente retomando e readaptando os Planos de Contingência e neste momento estamos a fazer toda a nossa carteira de serviços, embora mantenhamos ainda uma percentagem muito elevada de consultas e atendimentos não presenciais. Porque temos de adaptar a nossa atividade presencial sempre que possível ao facto de estarmos em plena pandemia. Muitas vezes os edifícios onde as unidades estão instaladas não permitem a concentração de muitas pessoas dentro da unidade mantendo o distanciamento social. Um dos nossos constrangimentos são as salas de espera. Se tivermos todos os médicos e todos os enfermeiros em unidades grandes, com equipas grandes, a funcionar ao mesmo tempo, vamos ter uma concentração enorme de pessoas na sala de espera. Tentamos ao máximo programar a atividade, desfasar os horários das equipas para não ter mais consultas sobre a manhã ou sobre a tarde e gerir a utilização da sala de espera. Temos tentado sempre destrinçar os períodos de consulta de grávidas e de crianças pequenas e separá-las do outro tipo de consultas com outro tipo de população, para evitar algum contágio.

E pode quantificar essa “percentagem elevada”?
Do dia 1 de janeiro de 2020 ao final do mês de setembro realizámos 53% de consultas presenciais e 47% de consultas não presenciais. Mas quando observamos o mês de agosto e de setembro a percentagem já varia. Temos quase 62% de consultas presenciais e a restante não presenciais. Portanto nota-se que há uma tendência de inversão. Se compararmos este período de 9 meses com o período homólogo, baixamos a percentagem de consultas presenciais em cerca de 32% mas aumentámos as consultas não presenciais em cerca de 76%. Nota-se uma alteração do padrão habitual, que tem a ver com a questão da pandemia e da necessidade de manter os circuitos.

“Se compararmos este período de 9 meses com o período homólogo, baixamos a percentagem de consultas presenciais nos centros de saúde em cerca de 32%”

Nesse processo de atendimento quais as principais vantagens e dificuldades/problemas detetados pelo atendimento presencial e não presencial?
No presencial as dificuldades passam por coordenar as agendas, porque é preciso que os utentes não venham muito antes da hora, para evitar aglomerados na sala de espera, por outro lado não nos podemos atrasar nas várias consultas. Ao fazermos algumas consultas à distância conseguimos gerir melhor a sala de espera e evitar o risco de contaminação das pessoas, quer da covid quer agora da gripe. Para o utente, a consulta não presencial traz vantagens porque não tem de sair de casa, o médico telefona, é mais fácil, há pessoas que até preferem essa metodologia sempre que é possível. Outras pessoas sentem falta do contacto direto, a consulta presencial traz conforto, de estarmos a olhar uns para os outros, de vermos a expressão da cara, de sentirmos a presença do médico ou do enfermeiro, talvez sentir mais acompanhado. As pessoas mais idosas e sem atividade laboral talvez sintam necessidade da consulta presencial. Em todo o caso as nossas unidades têm nos seus Planos e têm orientações para isso; mesmo quando do ponto vista clínico é possível fazer a consulta não presencial à distância, se o utente não fica satisfeito e permanece com ansiedade deve ser triado no telefone o que se pretende, de forma a garantir que aquele utente não é suspeito covid e depois marcar uma consulta presencial para a pessoa ficar mais sossegada.

Temos relatos de muitas dificuldades por parte dos utentes em conseguir que lhe atendam um telefonema num centro de saúde. Se as consultas, dúvidas ou pedido de receituário não podem ser presenciais, como se justifica esta falta de resposta telefónica? E é exclusivo do ACES Médio Tejo?
É um problema que efetivamente temos nas nossas unidades. Suponho que não seja um problema exclusivo do ACES Médio Tejo, parece-me ser um problema transversal e que no nosso caso resulta, por um lado, de equipamento já obsoleto e que não nos permite ter a capacidade de acrescentar mais linhas para o exterior e isso gera nos utentes a sensação de quem ninguém atende, porque muitas vezes as linhas estão ocupadas, mas para o utente o sinal que dá é de chamada. Temos vindo ao longo desta pandemia a substituir algumas centrais telefónicas, já substituímos duas e está uma terceira a caminho de ser substituída, Infelizmente ainda não conseguimos substituir todas. É um trabalho que não se consegue fazer – pelo volume de trabalho e pelo volume financeiro que representa – de um dia para o outro. Por outro lado, ao fazermos mais consultas não presenciais e estamos constantemente a apelar às pessoas para nos contactarem primeiro, ou por telefone ou por e-mail, estamos a gerar muito mais movimento no telefone. Em certos períodos admito que, quando há pessoas ao balcão para atender, podem os assistentes administrativos não ter capacidade para estar ao telefone, atender todas as chamadas e atender as pessoas ao balcão. É algo que temos tentado resolver, temos telemóveis da ARS que distribuímos pelas várias unidades, mas como temos de fazer os domiciliários, doentes infetados ou suspeitos com sintomas de covid, número esse que é cada vez maior, utilizamos mais os telemóveis para realizar essa atividade diária, incluindo aos fins-de-semana. Até para essa atividade não congestionar tanto as linhas fixas. Sei que há uma ou outra unidade que acabou por facilitar o número de alguns desses telemóveis para as pessoas não sentirem tanto essa dificuldade no contacto telefónico mas, mesmo assim, não conseguimos dar uma resposta cabal àquilo que são as necessidades das pessoas. É algo que temos de melhorar.

Portanto é um problema de recursos humanos e de telecomunicações?
Sim. Em termos de recursos humanos está a decorrer um concurso na ARS justamente para reforçar, ao abrigo da legislação especial da covid, e já começámos a receber as pessoas. Algo muito recente. Ainda só veio um assistente técnico mas iremos ter um reforço, para já, de seis assistentes técnicos. Vamos ver o que conseguimos melhorar. Mas tenho consciência que é uma dificuldade.

Diana Leiria, diretora executiva do ACES Médio Tejo. Créditos: mediotejo.net

Neste período pandémico há relatos de doentes, nomeadamente oncológicos, que sentem ter sido deixados para trás. Por exemplo o programa de rastreio do cancro da mama – da Liga Portuguesa Contra o Cancro – foi cancelado em março, na região Norte do País, e só agora retomado. Pergunto: No Médio Tejo tal também aconteceu?
Durante o estado de emergência, de facto, suspendemos algumas atividades. E também algumas pessoas, mesmo tendo as suas doenças exacerbadas ou tendo sintomas de uma possível doença, não se dirigiram às nossas unidades porque tinham receio de se contaminar, estávamos todos muito mais confinados. Quando retomámos a atividade, retomámos também os rastreio oncológicos, ainda que numa vertente mais oportunista, isto é, as pessoas vêm à consulta, o médico verifica no sistema que já não faz o rastreio do cancro da mama, do cólon e reto, ou colo de útero ou outro há mais do tempo definido pela DGS, e passa os exames ou faz logo a colheita para a citologia ou marca uma consulta de planeamento. O rastreio da Liga Portuguesa Contra o Cancro retomámos há dois meses, neste momento está em Abrantes. Os rastreios de base populacional – basicamente do cólon e reto e ou colo de útero – em que as pessoas, dentro da faixa etária definida, são convidadas a vir a um determinado sítio, normalmente nas nossas unidades, que já tínhamos em vários concelhos do nosso ACES estamos agora a retomar. Desde julho que o transporte de colheita retomou e as unidades foram chamando. Mas como digo, a capacidade da sala de espera nas nossas unidades também nos impede de fazermos uma convocatória alargada para muitas pessoas. Existem efetivas dificuldades na retoma dos rastreios.

Portanto, outras doenças foram deixadas para segundo plano?
Houve um conjunto de fatores, que passa também pelo receio que os doentes tiveram durante a época de confinamento em vir às unidades e que fez com que não fossemos capazes de levar a cabo estes rastreios de base populacional. Quanto aos demais rastreios que têm esta oportunidade em consultas conseguimos retomar com rapidez e tranquilidade logo em maio e junho. Os rastreios de base populacional não depende só de nós, trabalhamos com unidades parceiras e houve necessidade de conjugar mais fatores e fez com que a retoma fosse um pouco mais tardia.

Em que zonas há maior incidência de outro tipo de doenças, como o cancro ou a diabetes por exemplo, na região do Médio Tejo?
No Observatório de Saúde, um documento bienal, no último de 2017/2018 feito pela nossa equipa de Saúde Pública, verificamos que a proporção de diagnósticos registados no nosso sistema em relação ao número de utentes inscritos em cada um dos concelhos a maior parte das doenças crónicas, como a diabetes, da hipertensão ou do surgimento de AVC, é tanto maior quanto maior é o índice de envelhecimento nos concelhos, designadamente Mação, Sardoal, Abrantes, onde se nota uma maior incidência desse tipo de diagnósticos no nosso sistema. Quando falamos de doenças oncológicas já varia muito, porque depende do tipo de tumor maligno. Digamos que a idade é um fator de risco, é muito mais provável morrer de doenças quando se é mais velho do que quando se é mais novo e também nalguns tipos de tumor maligno se nota uma maior proporção de utentes nos concelhos mais envelhecidos. Já por exemplo noutro tipo de tumores, como o tumor maligno da mama feminino, já não é bem verdade, acaba por ter diagnósticos em número elevado em concelhos com populações menos envelhecidas, como por exemplo Entroncamento, Alcanena e Ourém, que têm uma proporção de diagnósticos do cancro da mama feminino acima da média do ACES Médio Tejo. Há outras doenças em que a proporção é muito maior em concelhos com gente mais nova, por exemplo, a obesidade, a asma, as alergias e até as alterações depressivas. Não deixa de ser curioso, parecem existir doenças mais ‘típicas’ de populações menos idosas.

Quantas consultas deixaram de se realizar no Médio Tejo desde março até agora?
Desde março não sei os números, mas posso dizer que do período de 1 de janeiro a 30 de setembro, que são os últimos dados que tenho, realizámos, no total, menos 18 mil consultas. Isto representa um decréscimo, relativamente ao período homólogo, de 3,5%. Nestes números de consultas retirámos as consultas que nos pareciam que poderiam enviesar a análise; ou seja, todas as consultas dos ACES que são consultas presenciais e que têm de ser realizadas e que não têm a ver com a pandemia. E retirámos as consultas dos ADC, agora ADR, para não enviesar o efeito. Ainda assim, este ano realizámos uma média de 2.793 consultas diárias, o que não deixa de ser um número bastante significativo.

Como vê a importância da eventual aplicação obrigatória do programa Stayaway Covid?
Não consigo comentar. É uma medida preconizada pelo Governo que depois vai ter de ser operacionalizada e não conheço os contornos e os pormenores da operacionalização, por isso tenho dificuldade em emitir uma opinião. Se for aprovada essa medida, e depois de virem as orientações e as normas para concretizarmos esta aplicação, porque vai ter necessariamente de ter um reflexo de informação de retorno nos serviços de saúde, aí poderei comentar.

Com a anunciada retoma do atendimento presencial pode garantir que as pessoas não vão para os centros de saúde de madrugada na esperança de conseguir um lugar para consulta?
Posso garantir que tudo faremos para evitar esse tipo de situações que me desgostam profundamente. Este ano fomos um bocado penalizados. Já tínhamos alguma dificuldade com utentes sem médico de família e tivemos ao longo da pandemia, em seis meses entre 11 de abril e final de setembro, muitas aposentações de médicos, concretamente 9 aposentações de médicos de Medicina Geral e Familiar. Foi preciso reorganizar uma série de recursos de forma a chegar ao máximo possível da população. Neste momento conseguimos no concurso de contratação de recém-especialistas de Medicina Geral e Familiar que nos atribuíssem 10 vagas e conseguimos preenchê-las. As pessoas começaram a ser colocadas no dia 6 de outubro, algumas ainda não iniciaram atividade, mas até ao final de novembro teremos, em princípio, os novos médicos. Vai-nos dar a possibilidade de combatermos essa situação. Muitas vezes acontece, talvez por falta de capacidade nossa, mas também por não haver médico de família atribuído, gerar nas populações um receio e uma ansiedade normal, completamente compreensível, de não conseguir a vaga. O ideal era conseguirmos cobrir toda a nossa população de médico de família de forma a termos um agendamento que permite às pessoas marcar consulta sem sentirem essa necessidade de irem com tanta antecedência para a unidade de saúde.

E esses 10 médicos vão ser colocados onde?
Dos que já vieram, colocámos um médico no concelho de Abrantes, um no Sardoal, um no Entroncamento, em Tomar já colocámos três mas virá um quarto, dois em Ourém (mas ainda não iniciaram funções), e um em Alcanena.

Então como está o ACES Médio Tejo ao nível de recursos humanos? Entre médicos de família, e enfermeiros, qual o atual panorama na região (entre o número ideal e o atual)?
Como disse, estes 10 médicos vêm dar alguma folga. Ainda não estão todos colocados, mas direi que tínhamos uma percentagem de utentes sem médico de família atribuído na ordem dos 12% no total dos utentes inscritos e frequentadores do ACES Médio Tejo, à volta de 27 mil utentes sem médico de família, e com a colocação destes médicos prevemos reduzir para metade o número de utentes sem médico, o que diminui as nossas necessidades se todas as variáveis se mantiverem constantes. O ideal seria a colocação de 17 médicos. Em termos de recursos de enfermagem temos neste momento o mapa de pessoal completo, o que não quer dizer que não tivéssemos outras necessidades. Os mapas de pessoal foram concebidos para outra realidade, a população tem outras necessidades e fomos abrindo outros serviços que antes não existiam e temos necessidade de abrir outros, terminando a pandemia. Ter um mapa completo não quer dizer que não tenhamos necessidade de reforço, mas para isso acontecer teria de haver uma revisão de mapa, não podemos dizer que estamos mal em recursos de enfermagem. Em termos de outros profissionais, por exemplo, de assistentes técnicos, vamos ter o reforço que já mencionei. Temos bastante falta devido à dispersão muito grande, quer a nível geográfico, numa área enorme, quer a nível das várias unidades: são 94 casas abertas que diariamente precisam de pessoal, temos muitas extensões de saúde, e conseguimos ao abrigo da legislação de excecionalidade da covid colocar recentemente mais 8 assistentes operacionais, e com estes reforços vamos conseguindo gerir. Ao nível de outros profissionais, por mobilidade conseguimos uma nutricionista para o nosso ACES, naturalmente para a nossa população e com a nossa dispersão devíamos ter mais umas quatro ou cinco nutricionistas para termos uma boa cobertura e não sujeitarmos os utentes a grandes deslocações. E psicólogos, também acho que deveríamos ter um reforço, temos apenas três.

Temos bastante falta de pessoal devido à dispersão muito grande, quer a nível geográfico, quer a nível das várias unidades: são 94 casas abertas diariamente

Nomeadamente pelos problemas associados à Saúde Mental?
Exatamente. Na Saúde Mental temos um excelente relacionamento com o Centro Hospitalar do Médio Tejo. Nomeadamente durante a pandemia desenvolvemos vários projetos de articulação de cuidados nessa área. Um que teve a ver com uma equipa de crise, com atendimento telefónico para os nossos profissionais, constituído por elementos nossos, psicólogos e enfermeiros especialistas em Saúde Mental e os psiquiatras do CHMT – o serviço de psiquiatria está localizado em Tomar – e começamos a ter uma relação mais próxima. Isso permitiu fazer um protocolo de referenciação para a consulta de psiquiatria que permite uma maior proximidade entre o médico de Medicina Geral e Familiar e o psiquiatra destinado àquela área. Por outro lado, há um protocolo na fase de finalização com o CHMT para o inicio da consulta descentralizada de psiquiatria nos cuidados de saúde primários que irá iniciar no concelho de Ourém. Está previsto que essas consultas, e alguns tratamentos na área da Saúde Mental, possam ser realizados nas instalações dos cuidados de saúde primários. Permite duas coisas: por um lado, alguns utentes não se sentirem tão estigmatizados pela utilização de um serviço de psiquiatria e estarmos mais próximos da população; por outro, estão previstas nesse protocolo a discussão e o encaminhamento conjunto de casos, das equipas de medicina geral e familiar com a equipa de psiquiatria. A ideia é tentar alargar a outros concelhos.

E quais os concelhos onde há mais falta de profissionais?
Depende dos grupos profissionais, mas olhando para os médicos – porque é nos médicos que está concentrada a diferença entre ter ou não médico de família –, mesmo após a colocação dos 10 médicos, os concelhos onde continuamos com um número relativamente elevado de utentes sem médico de família são Tomar, Ourém e Entroncamento. Não quer dizer que tenhamos tudo completo nos restantes concelhos mas são percentagens muito residuais quando comparamos com a totalidade dos utentes inscritos. Note que temos onze concelhos que para nós são 12 centros de saúde porque no concelho de Ourém temos o centro de saúde de Ourém e o centro de saúde de Fátima.

Para efeitos de documentação de baixas médicas, onde se realizam as Juntas Médicas de Avaliação de Incapacidade no Médio Tejo? Mantém-se a obrigatoriedade dos cidadãos se deslocaram a Lisboa ou isso já não acontece?
Não. As Juntas Médicas de Avaliação de Incapacidade de acordo com a legislação são constituídas por Autoridades de Saúde. Com o início da pandemia a DGS suspendeu a realização dessas Juntas pelas Autoridades de Saúde. É verdade que já tínhamos algum atraso na realização dessas Juntas Médicas antes da pandemia e agravou-se muito com a pandemia. Ao abrigo do decreto-lei 10A, que vem excecionar algumas situações para podermos dar resposta mesmo durante a pandemia e de alguma forma aliviar os serviços de Saúde Pública, conseguimos constituir uma Junta Médica alternativa no nosso ACES. Esta Junta Médica é totalmente constituída por médicos de Medicina Geral e Familiar que têm a experiência da avaliação do doente corporal, portanto já estavam familiarizados com estas questões e que disponibilizaram uma parte do seu tempo, apesar de manterem a sua atividade assistencial nas unidades onde estão colocados e de manterem os seus ficheiros de utentes, para realizarem as Juntas Médicas. Estão a realizar-se uma ou duas vezes por semana em Constância, nas instalações do centro de saúde. Começou esta atividade no dia 15 de setembro. Tenho consciência que não é suficiente, porque estas pessoas não se podem dedicar exclusivamente às Juntas Médicas. Para recuperarmos o atraso é necessário termos mais horas. Já fizemos a proposta de contratação de dois médicos aposentados especificamente para a realização das Juntas Médicas, também um processo de excecionalidade que obriga à publicação em Diário da República, portanto há uma tramitação legal que implica algum tempo. Não foi muito fácil encontrar os médicos com esta formação. Estamos à procurar de encontrar mais uma pessoa no sentido de constituir uma outra Junta Médica, com o objetivo de baixar o tempo de espera. Neste momento temos um atraso que varia entre os 9 meses a um ano. É muito!

“neste momento o tempo de espera para ir a uma Junta Médica varia entre 9 meses e um ano. É muito!”

Para quando se prevê a disponibilização à população de médicos dentistas nos Centros de Saúde?
O ACES Médio Tejo iniciou o projeto piloto há alguns anos, mas foi colocada apenas um dentista, que está em Fátima. Com a covid a atividade de Saúde Oral foi suspensa, mas entretanto a médica dentista já retomou a sua atividade. É manifestamente insuficiente. Numa articulação entre a ARS de Lisboa e Vale do Tejo e a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, com as várias autarquias, desenhou-se um protocolo que já está em fase de execução para dotarmos as nossas unidades, uma em cada concelho, dessa capacidade de ter higiene oral e poder ter médico dentista. Isso implicou a adjudicação de obras que ficaram a cargo da ARSLVT e as autarquias asseguraram a compra da cadeira e do material adjacente. A ARS lançou concurso, foi adjudicado a uma empresa, veio a covid e parou. Foi agora retomado, está em fase de finalização. Na maior parte dos concelhos a obra está finalizada e nalguns concelhos até já estão instaladas as cadeiras. Entretanto a ARS terá de finalizar os concurso de aquisição de material de trabalho do dentista. A perspetiva é que venhamos a ter médico de Medicina Dentária nos vários concelhos do Médio Tejo através deste acordo de cooperação e colaboração entre a ARS e as autarquias.

Qual o ponto de situação do trabalho desenvolvido a este nível da saúde oral nas escolas da região, com a atribuição dos cheques dentista?
Neste momento temos três higienistas orais. A atuação é diferente da dos médicos dentistas, naturalmente. Fazem muito a saúde escolar mas com o fim da atividade presencial nas escolas, a intervenção dentro das escolas não tem sido feita. A emissão dos testes dentistas manteve-se, aliás a validade foi prorrogada até ao final deste ano, porque a atividade dos dentistas, quer públicos quer privados, esteve suspensa prorrogou-se a validade até ao dia 31 de dezembro. Um novo ciclo escolar começou em setembro e vamos iniciar a continuação dos cheques dentistas. Em relação aos outros grupos também abrangidas pelas medidas do cheque dentista; grávidas, idosos e pessoas em situações oncológicas como o tumor maligno da boca e as pessoas infetadas com HIV, continuaram a ter acesso ao programa porque são os médicos de família que passam o cheque dentista.

Ao nível das instalações e equipamentos, perguntava-lhe se a sede do ACES Médio Tejo é para continuar em Riachos. Quais as obras em curso e/ou perspectivadas na região?
O que se passa com a sede do ACES Médio Tejo é que o edifício é ótimo, é novo, tem boas condições, mas foi programado para instalar uma unidade de saúde e depois fizeram alterações e reorganizações e até algumas obras para instalar a unidade de saúde e os serviços de apoio do ACES, e neste momento só mesmo eu é que estou relativamente bem instalada porque, para cabermos todos, tenho os serviços com as pessoas muito juntas, sem espaço. Não temos espaço para o arquivo dos recursos humanos, não temos espaço para uma pequena oficina na parte da informática… por outro lado a unidade de saúde, que neste caso é a USF Norte Torres, é pequenina, está confinada a um espaço muito exíguo, que já é pouco mesmo para os utentes que tem e não consegue crescer porque não tem gabinetes para alargar a equipa. Isto traz inconveniente facilmente compreendidos por qualquer um de nós e traz outros: por exemplo, a unidade tem vontade de ter internos de formação específica, médicos em formação para se tornarem especialistas de Medicina Geral e Familiar, mas não pode porque não tem gabinetes. Mesmo para receber estágios integrados nos próprios cursos, como de enfermagem ou de médicos, ainda em formação geral, é sempre muito limitado porque não há espaço. Há outras consultas que a unidade podia disponibilizar aos utentes e que não consegue porque não tem espaços diferenciados porque estamos aqui.

Portanto, a questão não se prende com a localização em Riachos, seja ao nível de transportes ou de telecomunicações, nomeadamente de Internet?
Não. A questão é a falta de espaço. Temos um excelente relacionamento com a Junta de Freguesia, sempre que pedimos algumas ajuda são excecionais. Tem a ver com a possibilidade de dar à USF a possibilidade de crescer, de se organizar de outra maneira e nós termos mais espaço para os serviços de apoio geral do ACES.

Há perspetiva de haver mudança?
Temos vindo a falar com a autarquia local e ainda não há uma solução, mas também não foi fechada a porta para enquadrarmos outras possibilidades, pelo contrário. Estamos a tentar trabalhar em conjunto para conseguirmos encontrar essa solução.

Vamos passar todos pelo primeiro inverno pandémico e algumas tradições podem ser diferentes este ano, em termos convivenciais. Falo da tradição do pedir os bolinhos de porta em porta, do natal em família, da passagem do ano… o que lhe parece que seja razoável fazer-se?
Acho que nestas festas deveríamos festejar, mas com muita moderação. Nunca nos podemos esquecer que quando a DGS diz que as pessoas do mesmo agregado familiar podem estar a conviver sem máscara refere-se às pessoas que coabitam no mesmo espaço. De acordo com os números que a DGS tem transmitido, a grande parte das infeções parece estar a ocorrer no seio de comemorações familiares, e por isso teremos de ter sempre presente as medidas que todos conhecemos: distanciamento social, lavagem das mãos, utilização de máscara quando estamos em espaços que não conseguimos manter o distanciamento social. Por outro lado temos de equilibrar isto com a nossas necessidade de afetos, de nos encontrarmos e de estarmos juntos. O meu conselho é que as pessoas comemorem com moderação tentando restringir a família ao menor número de elementos possível, evitando sobretudo pessoas que vêm de outras regiões. É importante sermos capazes de ter alguma barreira para evitar as contaminações. Apesar deste sacrifício teremos oportunidade de festejar outros natais e outras passagens de ano, porque estaremos cá todos para o fazer.

“O meu conselho é que as pessoas comemorem com moderação, tentando restringir a família ao menor número de elementos possível, evitando sobretudo pessoas que vêm de outras regiões.”

Se fosse Natal e pudesse pedir uma prenda no sapatinho para os utentes do Médio Tejo, o que gostaria de pedir?
É muito fácil! Um ano de 2021 sem covid. É o que todos desejamos no sapatinho: que a covid desapareça ou, pelo menos, que consigamos encontrar a vacina ou um tratamento eficaz, um fármaco que nos permita voltar à nossa vida normal.

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