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Sexta-feira, Maio 14, 2021

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ENTREVISTA | Carlos Matos Gomes: “Não é preciso outro 25 de Abril porque não é preciso nenhum salvador”

Carlos Matos Gomes é um Capitão de Abril. Nasceu em 24 de julho de 1946 em Vila Nova da Barquinha e estudou no Colégio Nun’Alvares, em Tomar, onde conheceu Salgueiro Maia, de quem ficou grande amigo. Em 1963 entrou para a Academia Militar, fez o curso de Cavalaria, sendo mobilizado para Moçambique quatro anos depois. Cumpriu comissões durante a guerra colonial também em Angola e na Guiné, nas tropas especiais Comandos. Foi ferido em combate e altamente condecorado. Na Guiné foi um dos fundadores do Movimento dos Capitães e participou na primeira Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas (MFA). Militar no ativo até 2003, é atualmente Coronel na situação de reserva. Desenvolveu também uma carreira literária, com o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz, publicando o seu primeiro romance, “Nó Cego”, em 1982. O livro “Os Lobos não Usam Coleira” foi adaptado pelo realizador António-Pedro de Vasconcelos ao cinema com o título “Os Imortais”. Colaborou com Maria de Medeiros no filme “Capitães de Abril”, onde até interpretou uma personagem. Continua a escrever e tem um novo romance pronto a ser publicado em maio. A propósito do 47º aniversário da Revolução dos Cravos, o mediotejo.net conversou com o Coronel que diz gostar muito da sua terra natal. Aprendeu com a mãe, natural dos Estados Unidos mas de origem açoriana, que “somos dos sítios onde nascemos”.

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Onde estava e qual foi a sua ação no dia 25 de Abril de 1974?
Estava na Guiné, nos Comandos, e pertencia à Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães na Guiné. Sabíamos que a ação ia-se desenrolar em Lisboa nesse dia. Estávamos em ligação com os camaradas que estavam em Lisboa e preparados no caso das coisas correrem mal em Portugal, fazermos uma ação de tomada de poder na Guiné. Felizmente tudo correu como estava planeado e nós, no dia 26, a Comissão Coordenadora do Movimento dos Forças Armadas da Guiné, ocupámos o poder na Guiné de acordo com as nossas próprias orientações, que não eram exatamente as mesmas da Junta de Salvação Nacional. Estava estabelecido para as colónias que fossem demitidos os governadores, substituídos pelos secretários gerais e eram mantidos os generais comandantes chefes. Na Guiné decidimos que não era assim e nesse sentido prendemos o Governador (que também era Comandante-Chefe da Guiné), o General Bettencourt Rodrigues, e nomeámos um encarregado do governo da nossa confiança, um dos membros da Comissão, o Tenente-Coronel Mateus da Silva, e nomeámos um Oficial General, um comandante naval, como Comandante-Chefe.

Ou seja, entraram em rota de colisão com a Junta de Salvação Nacional?
Sim. Nomeadamente com o General Spínola. Por outro lado, também estava definido que não ia ser estabelecido nenhum acordo com os movimentos de libertação, ou com os movimentos de guerrilha, à margem do poder de Lisboa. Na Guiné decidimos imediatamente declarar um cessar fogo unilateral e iniciámos, por nossa própria iniciativa contactos com o PAIGC [Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde]. Assumimos o poder e determinamos aquilo que iria ser o final da guerra, a paz, e aquilo que iria ser a descolonização como ela foi tratada e negociada, com os movimentos armados que tinham combatido.

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O Coronel Matos Gomes em África durante a Guerra Colonial. Créditos: DR

Quando é que voltou a Portugal?
Em julho [de 1974], praticamente na data do meu aniversário. Fui para a Guerra Colonial em 1967 tinha 20 anos, fui fazer 21 anos à guerra, na altura era a idade de maioridade.

O que motivou a Revolução? Militares cansados de guerra?
Não. O 25 de Abril nasce da consciência de uma geração de militares que tinha feito a guerra, em vários locais, como é o meu caso, e ia-se apercebendo, por um lado do esgotamento das forças armadas, por outro lado da incapacidade que íamos tendo de enfrentar militarmente os movimentos de guerrilha. E finalmente, e fundamentalmente, da questão do governo português, do regime, não ser capaz de encontrar uma solução política para a Guerra. As guerras têm sempre uma finalidade política e são sempre uma ação política. A parte militar é determinante na medida em que permite encontrar essas soluções políticas, seja por rutura seja por negociação. Acontece que tomámos consciência que o regime do Estado Novo, no caso o governo de Marcello Caetano, não tinha nem apresentava aos portugueses nenhuma solução para a guerra. Acresce ainda que também tínhamos consciência que este regime não era sequer legitimado perante os portugueses. Isto é, os militares tinham consciência de estar a fazer uma guerra sem que a sociedade se tivesse pronunciado sobre ela.

Mas o conflito durou 13 anos, fez 8500 mortos (entre os portugueses), e, como diz, com os militares esgotados. Porque durou tanto tempo?
Porque a Guerra Colonial foi uma guerra de baixa intensidade e, durante os primeiros anos, quer nos movimentos de guerrilha quer nas forças armadas, provocava relativamente poucas baixas e pouco desgaste, tanto emocional como em termos de vidas humanas. Esse facto levou a uma Guerra – não tendo momentos dramáticos como foi o caso no Vietname e também na Argélia – suportável. Por outro lado, as forças armadas foram encontrar uma situação em África de subdesenvolvimento primitivo. São elas que durante esses 13 anos vão suprir a ausência de investimento e a ausência de administração do Estado português nos territórios e portanto constroem estradas, pontes, aeroportos, pistas, sistemas de comunicações, sistemas de ensino, sistemas de saúde, são as forças armadas que vão ocupar o terreno que desde a Conferência de Berlim, no século XIX, nunca tinha sido ocupado. E tendo também esta missão, que se chamou de ação psicológica, permitiu que a guerra se fosse prolongando.

O livro de Carlos Matos Gomes sobre a Operação Nó Górdio, em Moçambique

Em Moçambique participou, como comandante de uma companhia de Comandos, na operação Nó Górdio, em 1970. Esta foi a maior operação levada a cabo na guerra em África. Nove anos passados do início do conflito, pretendeu ser um tudo ou nada?
Foi a maior porque reuniu a maior quantidade de meios, humanos e materiais, e a que durou mais tempo, de uma forma intensa, mas não há uma operação de tudo ou nada, tanto que não foi! Não destruiu a FRELIMO [Frente de Libertação de Moçambique]. A questão das grandes operações em ambiente de guerrilha traduzem-se, normalmente, em maus resultados, em resultados que não corresponde ao investimento que é feito. Operações muito caras, concentram muitos meios, provocam normalmente um número elevado de baixas e depois os resultados são sempre parcos, pequenos, relativamente ao investimento. Essa operação foi mais uma nessa categoria.

Uma operação tão intensa que foi tema de um romance seu…
Escrevi um livro de História sobre a operação Nó Górdio que se chama “Moçambique 1970”, publicada pela editora Tribuna da História. E sobre aquele ambiente de guerra, escrevi o meu primeiro romance, “Nó Cego”, em 1982.

No passado disse que a guerra só termina quando morrer o último combatente. Continua a pensar assim?
Sim. A guerra de facto só termina nessa altura porque ainda hoje vemos os sobreviventes da Segunda Guerra Mundial, e isso quer dizer que a sociedade que enviou o soldado para a guerra há 70 anos continua a rever-se nele, nas suas doenças, nas suas memórias, etc. Daí o cuidado que os dirigentes políticos devem ter quando iniciam uma guerra porque iniciar uma guerra é fácil e sabe-se quando começa mas nunca se sabe quando acaba.

O Coronel Matos Gomes. Créditos: Carlos Ricardo

Considera que a guerra é da política, embora o combate seja travado pelas forças armadas, mas no caso tratou-se de uma ação política. Foram os militares que fizeram o 25 de Abril, ou não?
Não foram os militares que fizeram o 25 de Abril. Quem faz o 25 de Abril é um grupo restrito de militares que são os oficiais dos postos intermédios de comando – intermédios mas decisivos, porque comandavam unidades de combate. Não há os militares em geral, não corresponde a nenhuma realidade interpretativa. Quem leva a cabo o 25 de Abril é uma geração de militares que desde muito novos tinham sido confrontados com a guerra, confrontados com a questão colonial e quando chegam aos postos decisivos de combate, do batalhão e da companhia, perante a falta de resposta política do governo, realizam a rutura. Porque a estrutura superior das forças armadas, dos militares, essa estava com o regime, tanto que há a conhecida cerimónia da Brigada do Reumático, em fevereiro de 1974, onde vão os generais. Portanto, o topo da hierarquia militar vai prestar fidelidade ao presidente do conselho, ao chefe do governo, ao professor Marcello Caetano. Não são os militares em geral nem as forças armadas em geral que fazem o 25 de Abril, mas uma faixa específica dos militares.

Lembrando a ‘Abrilada’ a 11 e 12 de abril de 1961, golpe originado pelo ministro de Salazar, Botelho Moniz, precisamente no ano em que começou a guerra. Abril era um mês predestinado para golpes?
Hoje em dia podemos dizer que há essa coincidência. Porque já tinha havido uma outra ‘Abrilada’ em 1947, do General Godinho. Na realidade há três ‘Abriladas’; 1947, 1961 e 1974.

Em 74 importava acabar com a Guerra Colonial, hoje o 25 de Abril é celebrado como o Dia da Liberdade. Mas os militares queriam a liberdade ou a democracia?
De facto liberdade e democracia são conceitos distintos. A democracia é um regime político de gestão ou de administração de um governo ou de um estado. A liberdade é um conceito filosófico, de cada um dos seres humanos ter direito a exercer a sua autodeterminação, fazer as suas escolhas, etc. Aquilo que nós entendemos era que o 25 de Abril pretendia dar voz aos portugueses e portanto estava mais próximo da democracia do que da liberdade. Entendíamos que o governo português tinha de representar a vontade da nação, e isto é uma questão de democracia. Na realidade o governo português emanava de uma ditadura, portanto não tinha legitimidade democrática para representar a sociedade. Nesse ponto , aquilo que é mais importante, se formos à génese das razões, aquilo que pretendíamos era que o povo português manifestasse a sua vontade relativamente ao futuro e fundamentalmente à questão colonial.

O Coronel Carlos Matos Gomes a ser condecorado pelo General Spínola. Créditos: DR

A Guerra Colonial foi um recurso do regime para sustentar politicamente Salazar?
Exato. 1961 é considerado o ano horrível de Salazar porque tem várias questões que o puseram em causa. A primeira grande questão, e que se refere pouco, é a eleição de John Kennedy como presidente dos Estados Unidos, que toma posse a 20 de janeiro de 1961, com um conceito de ligação das potencias vencedoras da Segunda Guerra Mundial com a África completamente distinta do anterior. Kennedy logo no seu discurso de tomada de posse diz que África não pode ser vista, nem continuar a ser vista, pelos olhos dos europeus. Está claramente do lado do movimento descolonizador. Isso ia frontalmente contra a política de Salazar e Portugal como um pequeno Estado, digamos um Estado anexo, tinha vivido sempre aliado às potências atlânticas, à Inglaterra em primeiro lugar e depois aos Estados Unidos. Quando a super-potência diz que a política colonial portuguesa não pode ser prosseguida e não a vai apoiar é um choque tremendo para Salazar. E por outro lado, e dentro deste processo de apoio dos Estados Unidos, o assalto ao navio Santa Maria, depois há os acontecimentos na Baixa do Cassange em janeiro de 1961, encetada pelos trabalhadores agrícolas, mais tarde a 4 de fevereiro o assalto às prisões, a seguir há a ‘Abrilada’. Esse ano vai terminar com a invasão da Índia. Em 1961 Salazar era um homem que já tinha 72 anos, um homem cansado, desgastado pelo poder, e o seu regime estava a esfarelar-se. O sintoma desse mau estar era exatamente a ‘Abrilada’ do General Botelho Moniz que envolvia os altos comandos das forças armadas. Os massacres de março de 1961 e o inicio da Guerra dá um novo folgo a Salazar porque reúne à volta daquele drama dos massacres, que aliás promove no sentido da opinião pública, deixa que os fotógrafos vão para aqueles cenários fotografar e dar imagens horrorosas de sangue, corpos decepados, etc. Algo que nunca tinha deixado fazer porque vigorava a censura, para criar um estado emocional de apoio ao seu governo, portanto toma ali um novo folgo e quase ressuscita para o poder.

O Coronel Matos Gomes, quando jovem. Créditos: DR

Antes do 25 de Abril tenta-se o 16 de Março, outro golpe falhado. Como é que passado cerca de um mês se avança para uma revolução?
Considero que o 16 de março segue a tradição de golpes falhados de personalidades que se entendem como salvadores e como condutores. Entendem que indo eles os outros vêm atrás. Isto corresponde um pouco à personalidade do General Humberto Delgado e à tentativa de assalto de Beja, também no final de 1961. Que é: nós saímos, há uma personalidade muito forte que congrega vontades e os outros vêm atrás. Em Beja, Humberto Delgado estava por trás e a intenção era ocupar o quartel, fazer partir dali uma proclamação e toda a tropa depois o apoia. O 16 de Março funciona dentro desta mesma lógica, agora conduzida pelo General Spínola. Há um quartel que sai – o 16 de Março realiza-se após a demissão dos generais Costa Gomes e Spínola, o Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas e o vice Chefe, realiza-se logo a seguir à publicação do livro ‘Portugal e o Futuro’ –, outros seguem essa unidade, fala-se com Lamego e também vem, eventualmente a Escola Prática de Cavalaria de Santarém também… e faz-se um pronunciamento. Mas as coisas não funcionam assim, sabíamos que não funcionavam e havia um outro grupo que fazia um planeamento já de uma ação de envergadura, uma ação clássica que é a Operação ‘Fim de Regime’. É por isso que passado praticamente um mês é possível organizar uma operação muito complexa mas com uma ordem de operações bem estabelecida, com contactos efetuados, com um anexo de transmissões, com um programa político negociado, etc.

Então a Revolução de Abril não calhou num dia de sorte?
Não. Houve um planeamento muito cuidado. Era um planeamento militar, um movimento das operações porque o 25 de Abril não se realiza apenas em Lisboa. Há forças que vêm de Estremoz para Lisboa, forças que vêm de Vendas Novas para Lisboa, forças que saem de Viseu, há quartéis ocupados na Guarda, há forças que saem de Lamego e vão para o Porto, há movimentos no Porto, há depois um deslocamento de tropas que vão em direção a Peniche para libertar os presos políticos. Há a ligação da operação em Lisboa com a operação que nós realizámos na Guiné, há um movimento de capitães em Angola e em Moçambique. Portanto uma operação de grande envergadura, muito bem coordenada e muito bem executada.

Explicado assim até parece fácil…
Se fosse fácil tinha sido feito antes! As coisas amadurecem e foi muito bem planeado com um conjunto de oficiais brilhantes, com Otelo, Fisher Lopes Pires, oficiais do corpo do Estado Maior, engenheiros de comunicações, todos esses… e, além da qualidade inerente a cada um deles, tínhamos todos uma experiência muito grande, de planeamento de operações, muito complexas, saibamos como estas coisas se resolviam no terreno. É isso que leva Fernando Salgueiro Maia a executar a operação brilhante que executa porque tinha tido, até na Guiné, a difícil experiência de comandar as suas tropas em combate em operações muito complicadas.

Salgueiro Maia que conhece desde os tempos em que ambos estudavam em Tomar…
Conheci Salgueiro Maia aos 11 anos. Estudava num colégio em Tomar e ele também lá esteve, porque o pai era o chefe da Estação de Caminhos de Ferro de Tomar. Sou mais novo que ele um ano em idade mas mais antigo na tropa um ano, porque devido à profissão do pai ia mudando de local, de Tomar foi para Pombal, e nessas mudanças perdeu um ano. Depois fui para a Academia, quando estava no segundo ano Salgueiro Maia estava no primeiro, depois fomos os dois para a mesma arma, somos ambos de Cavalaria, estivemos juntos em Santarém, depois foi ele foi fazer um estágio a Moçambique numa unidade de Comandos que mais tarde fui render em Montepuez, em Cabo Delgado. Depois novamente em Santarém no intervalo das comissões, na Guiné, eu nos comandos e ele numa companhia de cavalaria e convivíamos, estivemos nas mesmas operações. Enquanto estava na Guiné pertencia à primeira comissão coordenadora que elaborou o primeiro documento de contestação ao regime, uma carta enviada da Guiné ao Presidente da República, ao Primeiro-ministro, ao ministro da Defesa e ao ministro da Educação. Fui um dos redatores e ele um dos 40 que assinou. Portanto, tivemos sempre uma relação de grande amizade de cumplicidade. Depois do 25 de Abril, em Santarém, éramos os dois Majores, eu vivia em Lisboa mas tinha lá um quarto, ele vivia em Santarém, estava lá casado, mas era no meu quarto que mudava de roupa. Tínhamos uma relação de grande ligação, camaradagem. Salgueiro Maia foi o homem certo no local certo. Uma sorte histórica.

O Coronel Matos Gomes. Créditos: DR

Sendo certo que o regime começava a ficar isolado, nomeadamente após a posição dos Estados Unidos quanto à questão colonial como explicou. Mas o apoio popular ajudou ao sucesso do 25 de Abril?
Ajudou mas também foi uma sorte ter ajudado. Foi fantástico o apoio popular porque deu logo nas primeiras horas a noção aos militares que estavam envolvidos na operação de que ia a favor do sentimento mais profundo dos portugueses. Em primeiro lugar o fim da guerra e em segundo lugar o fim da ditadura. Esse apoio foi um alento moral que nos respaldou todas as ações. A parte arriscada é ter sido a pior situação que um militar pode viver: misturar combatentes com população porque perde o controlo. Os militares ficam envolvidos, há um contacto físico evidente, não há campos de tiro, e um tiro ou uma explosão causa baixas e danos que não são controláveis, pode haver infiltrações do inimigo que já não os conseguimos distinguir, e portanto a situação está no limite do descontrolo. É por isso que Salgueiro Maia tem uma ação genial e fantástica. Neste caso correu bem, no Terreiro do Paço e fundamentalmente muito bem no Largo do Carmo.

Passando do Largo do Carmo para a Rua António Maria Cardoso, no dia da Revolução controlar a PIDE foi problemático?
Não. A PIDE nem sequer era um objetivo. A ida à António Maria Cardoso é uma decisão da manifestação das massas populares que ali estão, porque a PIDE não era objetivo da Operação ‘Fim de Regime’. Os militares nunca tiveram grande consideração por aquela gente, nem pela organização, em termos operacionais. Primeiro porque as informações eram relativamente más, embora fossem as que houvesse, depois duvidávamos muito da sua capacidade operacional, digamos que eram até os piores militares, por vezes para arranjar emprego, que iam para a PIDE. Por outro lado, tinham uma ligação e uma dependências das forças armadas, a PIDE em si mesma não tinha meios de combate, tinha uma estrutura, tinha pistolas, tinha armas de defesa individual, que aliás causaram os dois mortos na António Maria Cardoso, mas não eram enquanto força oponente, um inimigo considerado. Por outro lado sabíamos que haviam várias PIDEs. A PIDE em si mesma eram vários grupos, dividida em várias fações; havia a PIDE que tinha ligações mais próximas com o General Spínola, havia a PIDE mais próxima do General Costa Gomes e que tinha estado com ele em Angola, havia uma PIDE mais próxima dos serviços secretos franceses, havia outra PIDE que estava mais próxima dos serviços secretos americanos e portanto, a PIDE sabia que iria depender sempre da nova situação, e da nova hierarquia. Nem a PIDE nem a Legião [Portuguesa] foram objetivos que os militares considerassem.

Então acha que a PIDE contava ser integrada no regime democrático?
Sim. Os elementos da PIDE entendiam-se como funcionários do Estado, cumpriam as missões que o Estado lhes atribuía e nada mais do que isso.

E como referiu haver uma fação próxima de Spínola, teria o General a intenção de manter essa policia?
Tal faz parte do programa apresentado pela Junta de Salvação Nacional. A manutenção das estruturas da PIDE que seria transformada num órgão de polícia de investigação. Todos os Estados necessitam de ter um sistema de informações, em Portugal também temos, e a PIDE iria desempenhar esse tipo de função. Deixava de ter funções políticas, de perseguição política e passava a ser um embrião de um serviço de informações. E nós na Guiné foi mais uma das medidas que tomámos à revelia das determinações da Junta de Salvação Nacional. Terminar imediatamente com a PIDE, tomar conta da PIDE, reunir os agentes e os seus familiares num sítio, protegidos em termos físicos, e depois desmobilizados e enviados para Portugal.

Então qual a razão de ser dada a Spínola a importante função de ir ao Largo do Carmo, no dia 25 de Abril?
No processo de preparação do 25 de Abril houve sempre duas grandes figuras que congregavam a maioria dos militares que se envolveram; um era o General Spínola e outro era o General Costa Gomes. A primeira intenção é a de colocar o General Costa Gomes que era aliás o Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, na presidência da Junta. Mas o General Costa Gomes no 25 de Abril estava no hospital. Por outro lado, quem tinha afrontado diretamente e entrado em rutura pessoal e política com Marcello Caetano tinha sido o General Spínola. Foi ao General Spínola que Marcello Caetano disse em 1973 que preferia uma derrota militar a negociações e foi o General Spínola que no verão de 73 recusou manter-se em mais uma comissão na Guiné apresentando-se em Portugal, porque não concordava com a política que estava a ser conduzida pelo governo. Portanto era uma figura que tinha afrontado diretamente o presidente do conselho e fazia sentido que fosse ele a recolher formalmente o poder de Marcello Caetano.

E depois, o que pretendia fazer o MFA em relação aos dirigentes políticos da ditadura?
Nada. O plano era serem demitidos, depostos e se quisessem, até para sua segurança, podiam ser exilados onde pretendessem. O que acontece é que grande parte deles procurou o exílio no Brasil, aliás houve negociações. Na altura o regime no Brasil era de ditadura militar, aqui o poder também era militar e foi relativamente fácil estabelecer um acordo para essas figuras do antigo regime irem para o Brasil, que aliás era um local tradicional de exílio dos políticos portugueses, quer da ditadura quer dos opositores.

Cartão de identificação do Comando Territorial Independente da Guiné na função de 2º comandante do RCmds/Guiné, emitido a 1 de abril de 1974. Créditos: DR

O país sonhado pelo Coronel, naquele momento, está próximo do Portugal de hoje?
Essa é a pergunta das utopias. Com que sonhamos? Sonhamos com o paraíso. Desde muito novo que sou um cético. Entendo que cada um de nós é responsável por aquilo que faz, pelas atitudes que toma e depois a responsabilidade funciona em dois sentidos. Aquilo que eu faço faz ricochete e reflete-se em mim. Se tomo más decisões só posso esperar más respostas. Para mim é importante mantermos a capacidade para escolher e para decidir. Em sociedade escolhermos o nosso destino, se fizermos más escolhas, passamos pior. Este é o meu entendimento de responsabilidade individual e de responsabilidade social daí que nunca afirme: – Este não é 25 de Abril que eu queria. Este não é o Portugal que eu quero. Este é o que resulta da vontade coletiva de todos. E sendo assim não posso ir contra as evidências nem as realidades. Posso lutar por soluções que me parecem melhores para criar o bem estar e uma aproximação à felicidade. Agora não estava à espera, nem estou, da criação do paraíso.

Dizer que “este não é o Portugal que eu quero” pode ser algo demagógico?
É discurso da demagogia. Enquanto Estado temos 800 anos e somos fruto das circunstâncias da História, mas também da geografia. Vivemos na ponta da Europa, vivemos no extremo da Península, temos uma fachada marítima, somos uma sociedade relativamente pequena que nos anos 70 não chegava a oito milhões de pessoas, com baixo nível de escolaridade, o território pobre em termos agrícolas, etc. Somos fruto dessas circunstâncias que não podemos alterar. Temos a vizinhança com a Espanha, a dependência da Inglaterra e das potencias marítimas e portanto, aquilo que podemos é encontrar melhores formas de convivência entre nós que permitam que a sociedade se desenvolva. Em vez de gastarmos energias conflituando seria importante congregar energias para progredir. É uma questão de vontade coletiva. Aquilo que acontece é exatamente aquilo que queríamos que acontecesse, e cada um dos portugueses tem é de meter a mão na sua consciência e perguntar, utilizando a frase histórica do Kennedy:
– Não perguntes o que é que Portugal pode fazer por ti, pergunta o que é que tu podes fazer por Portugal.
E o que temos feito por Portugal deu este resultado.

Portanto, a opinião defendida por algumas pessoas que afirmam fazer falta outro 25 de Abril não faz sentido?
Não. Faz falta é cooperarmos a encontrar melhores soluções, melhores formas de conviver. Que tem muito a ver com a justiça. Isto é, uma sociedade mais feliz, uma sociedade onde se vive melhor, é uma sociedade mais justa, onde há uma melhor distribuição da riqueza, onde há maior tolerância, onde há maior cooperação para a resolução dos problemas. Não é uma questão de 25 de Abril, não se faz com tropa na rua nem se faz por decreto. Faz-se dentro da cabeça das pessoas, com Educação, com educação cívica, que é importante e houve aí uma gente que entendeu que não, que a educação cívica era mais ou menos ensinar a fazer sexo. Quando há gente que funciona com esse tipo de mentalidade as coisas correm mal. Não é preciso outro 25 de Abril porque não é preciso nenhum salvador. Estes movimentos populistas que estão agora a surgir são a degenerescência dessa ideia; venha o salvador que depois isto resolve-se. Os salvadores somos nós.

Por falar em populismos, como vê o avanço da extrema-direita? Acha que a democracia está em causa?
A democracia pode estar em causa. Isso é óbvio! Esses movimentos são populistas e funcionam à margem da ética e da moral. E portanto, podem mentir permanentemente. Vimos claramente no ex-presidente dos Estados Unidos, no Trump, e no Brasil, no Bolsonaro, que podem mentir permanentemente, inventar e prometer tudo e o seu contrário ao mesmo tempo. Em momentos de crise, como aquele que vivemos, com a questão da pandemia e com a questão ambiental, com estas ameaças que sentimos, é sempre atrativo para os demagogos surgirem e prometerem tudo. Estes movimentos populistas estão a reproduzir a lógica dos evangelistas, dos bispos da IURD e desses grupos que prometem milagres, o coxo preparado para começar a andar. E há pessoas que acreditam nisso. Em momentos de desespero é mais fácil, ou em momentos de crise ou momentos de tensão. O que está a acontecer na Europa foi o que aconteceu, curiosamente nos anos 20, exatamente há um século, com a emergência dos movimentos populistas que deram depois origem aos movimentos e aos partidos nazis e fascistas. Estamos num processo muito idêntico. E como já soubemos o resultado desses movimentos populistas, convém que aprendamos um pouco com História, embora saiba que os povos normalmente não aprendem com a História. As sociedades mais evoluídas aprendem com as experiência dos outros, as sociedades menos evoluídas aprendem só à custa da própria experiência. É isso que se calhar nos vai acontecer. Espero bem que não!

Quarenta e sete anos depois, está desiludido com o desenvolvimento do País?
Não estou nada desiludido. Antes pelo contrário. Neste momento temos uma sociedade muito aberta. A sociedade portuguesa, até em termos internacionais, está integrada num variadíssimo arco de organizações; União Europeia, moeda única, Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, na CPLP, temos personalidades nas Nações Unidas, temos um conjunto significativo de cientistas em várias áreas, há portugueses no topo das suas atividades em todo mundo seja no desporto, seja na literatura, seja na ciência, seja nas artes. Somos, felizmente, uma sociedade muito aberta que acolheu entre 300 a 400 mil pessoas que vieram das colónias e integrou-as de uma forma não dramática e não traumática, temos um Serviço Nacional de Saúde que é dos melhores do mundo e nesse sentido entendo que Portugal é um espaço de paz e também de oportunidade.

Num país em paz, que papel resta para as forças armadas?
Agora é uma questão política, decidir o que fazer com as suas forças armadas. Entendo de uma forma muito geral que não são as forças armadas a determinar o que elas próprias devem fazer, tem de ser o poder político a decidir. E depois de acordo com o quer delas, dar-lhe os meios para executarem as suas missões.

O primeiro romance de Carlos Vale Ferraz, sobre a guerra colonial, publicado em 1982.

É também um escritor, com o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz, escreveu vários livros, entre os quais romances. Grande parte da sua obra literária tem como cenário a Guerra Colonial?

Não. Escrevi até ao momento 14 romances e sobre a guerra escrevi três. Escrevo sobre a sociedade portuguesa e fundamentalmente tenho escrito sobre os vencidos ao longo da História. O ‘Nó Cego’ é sobre a guerra, o ‘Os Lobos não Usam Coleira’ também é sobre a guerra, mas são romances sobre a vinda. O único sobre a guerra propriamente dito é o ‘Nó Cego’. Em todos os outros, quando se fala da questão de África e da guerra, é sobre o regresso daquelas pessoas que fizeram a guerra. É sempre a questão dos vencidos. Interessa-me sempre observar o resultados das grandes ações, dos grandes dramas, dos grandes acontecimentos da História. Há um romance que nunca publicarei que se chama ‘O livro das Maravilhas’ sobre os vencidos durante mil anos na Europa. É essa questão que me interessa ver, como as sociedades absorvem o impacto dos acontecimentos mais traumáticos.

Alguns livros foram adaptados ao cinema como é o caso de “Os Lobos não Usam Coleira”, que chegou ao grande ecrã com o titulo ‘Os Imortais’, ou “Fala-me de África”, adaptado para televisão com o título “Regresso a Sizalinda”. O que sente quando vê os seus livros adaptados para o cinema?
Vejo como uma história nova, como um produto completamente novo. A relação que tenho com o cinema ou com a televisão é essa. O realizador vai contar aquela história, aquele enredo de base com os seus olhos e não com os meus. No caso do cinema tem aspetos muito emocionantes e interessantes que passa pela forma como os atores também transmitem aquilo que eu pensei. No caso de ‘Os Imortais’ há uma personagem, o inspetor Malarranha, mas filmado pelo António-Pedro de Vasconcelos e interpretado pelo Nicolau Breyner é uma outra personagem e isso é fascinante, porque estamos a dialogar os três; eu, o realizador e o ator sobre a mesma personalidade. Gosto muito de cinema e de televisão. E quando temos a oportunidade de ver um grande ator como era o caso de Nicolau Breyner é emocionante ver o jogo que faz com as ideias, como interpreta aquilo que já tinha tentado descrever.

E como foi a experiência de ser colaborador de Maria de Medeiros no filme ‘Capitães de Abril’?
Conheço Maria de Medeiros desde muito nova, conversámos sempre muito e ela sempre teve esta intenção de um dia refletir sobre como é que nos tínhamos metido naquela aventura com 28 anos. Um dia telefonou-me, estava nos Estados Unidos a filmar o ‘Pulp Fiction’ do Tarantino e vinha cá. Andámos a escrever o guião, ela já tinha um pré-guião, depois fez um guião para realizadora. Desenha muito bem e fez cada plano como se fosse uma banda desenhada – tem uma personalidade fortíssima, concentrada, com talentos variadíssimos, gosto muito dela -, foi estarmos a contar a nossa história.

Portanto, uma boa experiência.
Até desempenho um papel no filme. Entendo a minha vida como uma aventura boa que tive oportunidade de viver e essa participação nos ‘Capitães de Abril’ é uma revisão da nossa própria história, e tem esse fascínio.

Matos Gomes na companhia de Maria de Medeiros, num recorte do jornal El País.

A propósito de História, tem-se dedicado à investigação, nomeadamente sobre a Guerra Colonial. A historiografia está feita?
O essencial está feito. Saber quais foram as causas, os efeitos, a forma como foi conduzida, o que estava em jogo. Acho que o essencial está feito. Depois há sempre pormenores, as histórias individuais, mas no essencial sabemos quase tudo. Pode haver qualquer coisa que se vá descobrindo em arquivos estrangeiros, das relações de países estrangeiros com Portugal, a tal ideia de desmontar o “orgulhosamente sós” mas o regime não estava só tinha apoios obviamente. Quais foram as relações dos Estados Unidos com Portugal, por que razão Portugal alterou as suas alianças tradicionais, a aliança com a Inglaterra e com os Estados Unidos que depois passa a ser uma aliança mais forte e mais eficaz com as potencias continentais, com a França e com a Alemanha que são os grandes fornecedores de material, etc. Aliás a Guerra Colonial é dos acontecimentos da História portuguesa mais retratados, escritos, sobre o qual há mais livros, mais filmes, mais memória.

Portanto, não tem na calha nenhum novo livro sobre a guerra e a questão colonial?
Não. Mas vou publicar agora em maio um novo romance.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha. Vem à sua terra com regularidade? Ou é um homem urbano?
Gosto muito da minha terra e vou sempre que posso. Mas sou urbano. O meu pai ficava muito triste porque eu quase não distinguia uma nespereira de um pessegueiro. Como andei a estudar em Tomar tenho lá amigos e vou com alguma frequência. A minha irmã mais nova tem uma casa perto da albufeira de Castelo de Bode, na serra de Tomar, e normalmente passamos lá o Natal. Quando vou a Tomar passo sempre pela Barquinha, vou ao pontão onde estão os barcos, ao parque, onde está a biblioteca, às vezes vou lá almoçar, comer sável. Vivi muito pouco tempo na Barquinha mas é a minha terra, o sítio onde nasci, a minha outra é Tomar, onde passei a adolescência. A minha mãe, de origem açoriana, nasceu na Califórnia, nos Estados Unidos, teve sempre passaporte americano. Um dia, o cônsul dos Estados Unidos em Portugal perguntou-lhe porque se dava ao trabalho de fazer sempre a renovação do passaporte americano. E ela respondeu:- Sou americana e nós somos do sítio onde nascemos. Fiquei sempre com essa memória e tenho essa relação afetiva. Como ainda por cima a minha mãe e o meu pai nasceram afastados 20 mil quilómetros, o meu pai é da Beira Baixa, tive de arranjar uma identidade. A minha naturalidade é a Barquinha e a minha identidade é a do Ribatejo.

Saiu da Barquinha com que idade?
Muito novo, teria um ano, Depois fui para o Açores. O meu avô entretanto morreu e tínhamos lá uma quinta e vivi nos Açores dois ou três anos. Depois é que regressei.

O que é que gostaria de ter feito e não fez ou gostaria ainda de fazer?
Nesse aspeto sou uma pessoa de uma felicidade enorme. Tive todas as oportunidades, os meus pais deram-me essas oportunidades. Joguei hóquei patins, montei a cavalo, nadei, joguei basquetebol, entrei para a Academia Militar e para o Instituto Superior Técnico para ser engenheiro, andei nas competições, fui para a tropa porque quis, escrevo. Não sou mais, nem melhor, nem diferente, não foi por falta de oportunidades foi claramente por falta de talento e portanto não me posso queixar de nada. O meu pai nunca me deu sequer uma palmada, desculparam-me sempre todas as rebeldias e extravagancias que fiz. Quando morrer não parto com nenhuma deceção. Por outro lado, como continuo com alguma rebeldia, continuo a contestar quando entendo que devo contestar, e vivo muito bem comigo mesmo.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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