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Entrevista | André Grácio: “No Interior vive um bando de heróis, pessoas que têm o dobro das dificuldades com metade do dinheiro”

Aparentemente é um puro urbano, mas quando fala revela a alma ribatejana. É um profundo defensor das tradições da ruralidade e, em sua defesa, organizou uma manifestação em Lisboa, em 2019, juntando mais de 5 mil pessoas. André Grácio, 44 anos, nascido e criado na cidade de Abrantes, advogado que se dedica essencialmente à proteção de vítimas de violência doméstica, impulsionou a discussão, criou um grupo no Facebook e está a motivar o povo do Interior a erguer a sua voz, no movimento “Juntos pelo Mundo Rural”.

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Sou do campo, gosto do campo. E as políticas são feitas em função de Lisboa enquanto estamos a definhar dia após dia com reformulações administrativas que não nos favorecem. A ruralidade é uma universalidade, porque engloba gastronomia, pronúncia, paisagens, folclore… mas considero redutor falar no mundo rural apenas nesse sentido. Neste momento é uma situação política. A ruralidade tem várias expressões: são hospitais, tribunais, zonas industriais, portagens, são evoluções colocadas em causa. O mapa judiciário retira-nos a Comarca de Abrantes, a reforma da Saúde leva-nos parte das valências dos nossos hospitais, a nossa zona industrial é completamente consumida pelas áreas industriais de concelhos mais fortes, as portagens empobrecem tudo e todos.

Até no caso da covid-19 há um atentado à ruralidade. Por exemplo: quando Lisboa deu ordem para parar o País, havia 10 pessoas infetadas no Alentejo. A economia daquela região esteve suspensa à espera de Lisboa.

A manifestação em defesa e pela valorização do mundo rural foi um grito de revolta. Estou inserido na zona de Lisboa e Vale do Tejo, que não é das zonas mais desfavorecidas, no entanto começa a sofrer as consequências da interioridade. Por falta de investimento, a centralização tem prejudicado muito estes concelhos. Estamos a ficar esvaziados de população, de funcionalidades. As 12 pessoas que se envolveram comigo no lançamento da iniciativa fizeram-me refrear os ânimos, porque a minha ideia inicial era invocar e combater a situação de existir a cidade de Lisboa ou a cidade do Porto versus o resto do mundo rural.

“Para segurarmos as pessoas no Interior temos de lhes dar um hospital mais perto de casa, Justiça mais perto de casa, um IRS com majoração no final do ano e um conjunto de serviços fundamentais para que o cidadão não sinta necessidade de sair, de emigrar ou ir para um grande centro, como Lisboa”

O que nos leva a Lisboa é haver um conjunto de indivíduos que vive, trabalha, tenta constituir família numa região do País onde claramente não se aposta, as políticas não beneficiam quem aqui escolhe ficar e, perante eleições, constatar que não há ideias para as coisas se modificarem. Continuam, aliás, a agravar-se. Vivo no Entroncamento, e se quiser ir a Mação tenho de passar dois pórticos na A23. No Médio Tejo, se fizer a viagem todos os dias, ou se precisar de trabalhar em vários concelhos, os pórticos criam-nos barreiras. Voltamos às estradas antigas, e o que poderia ser uma deslocação de 25 minutos passa a ser de uma hora. Poderíamos ter, por exemplo, uma via circular externa entre Abrançalha e Olho de Boi, que está comprometida por um pórtico que não faz qualquer sentido.

Pergunto se ao nível da revisão do sistema eleitoral, o mundo rural não tem uma palavra a dizer? Lembro que nas últimas eleições legislativas o País estava praticamente todo escrutinado, faltava apenas a Grande Lisboa, Setúbal e algumas freguesias do Porto, e não estava eleito o deputado do Chega, nem a deputada Joacine, nem a Iniciativa Liberal, o PAN não tinha um único deputado e metade da bancada do Bloco de Esquerda não estava eleita. De repente, Setúbal, Lisboa e Porto colocam 20 ou 30 deputados na Assembleia da República.

Na questão do IVA na tauromaquia, os deputados socialistas seguiram a disciplina de voto, aliando-se contra a tauromaquia, incluindo os deputados socialistas eleitos por Santarém, não representando os interesses dos eleitores da região. Alguns deles até estiveram presentes na manifestação no Terreiro do Paço… Falamos numa atividade que acaba por ser um chamariz de pessoas, que mantém atividade no mundo rural, coloca gente a vender ração, a semear trigo, a comprar carne, coloca gente a deslocar-se aos restaurantes.

Sou aficionado mas a minha afición não me paga as contas. Felizmente, desde o 25 de Abril, que não somos escravos do trabalho. No campo, passo os fins-de semana a andar de bicicleta, a dar um bom passeio a pé com o cão, a atirar a uma peça de caça, a ir ver uma corrida. É um direito que me assiste, poder fazer algo que me dá prazer, e não ser criticado por isso.

Sou um defensor de toda a tauromaquia, um defensor da caça, da pesca, da agricultura, da pecuária, dos passeios a cavalo, do rio Tejo, das florestas, sou defensor do cidadão que mora nas zonas rurais, da diferenciação fiscal para o Interior, tal como acontece com a Madeira. Defendo que para o desenvolvimento do Interior não se pode investir em mega processos mas na diferenciação individual. Bastava reduzir o IVA, o imposto sobre os combustíveis e tirar as portagens e um cidadão de Abrantes ganhava 40% do seu rendimento mensal.

Baixem o IVA de 23% para 12%, a nível da restauração baixem ainda mais, beneficiem as pessoas que trabalham na gastronomia, o consumidor agradece. Os preços baixam e no fim do mês quem ganha 750 euros fica com 100 euros para investir em pequenas coisas. O Interior não precisa de dinheiro investido porque é gerido sempre pelas mesmas estruturas que não enriquecem diretamente os habitantes.

Para segurarmos as pessoas no Interior temos de lhes dar um hospital mais perto de casa, Justiça mais perto de casa, um IRS com majoração no final do ano e um conjunto de serviços fundamentais para que o cidadão não sinta necessidade de sair, de emigrar ou ir para um grande centro, como Lisboa.

Reconheço que viola o princípio de igualdade, mas neste momento o que temos é precisamente uma enorme desigualdade. O Interior faz parte do País mas não é o País, é algo que temos de gerir. A própria floresta nunca foi encarada pelo poder central como algo essencial, mas como algo a ser gerido. Quando isto acontece temos a desertificação, o abandono, incêndios cada vez mais difíceis de dominar.

Não há em Portugal uma política para o Interior. Aqui vive um bando de heróis, pessoas que têm o dobro das dificuldades com metade do dinheiro. Acredito que investir um milhão de euros num museu é engrandecedor e enriquecedor da cidade de Abrantes, mas não vejo ninguém a ficar em Abrantes em função do museu que cá fica, enquanto somos obrigados a ir embora para procurar trabalho.

“Ninguém me iria tirar o desejo, a vontade e o gosto que tenho pela ruralidade, pela minha região, pela minha pronúncia, por não ser politicamente correto, pela liberdade de sair de casa e dar um passeio a pé, de ir ao campo e ver coisas bonitas. O meu ativismo são as minhas raízes”

O problema do Tejo é insustentável e revela a falta de políticas ambientais para o Interior. Todos os dias sai uma notícia sobre um despejo, que o Tejo está castanho, é assim há anos e nada muda. O mega ministério que manda no mundo rural é o Ministério do Ambiente. Manda na água e nas terras. A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) é das instituições mais poderosas que temos em Portugal – até ao nível das coimas que aplica.

O Ministério da Agricultura neste momento é um mero gestor e distribuidor de subsídios. E quando se depende de fundos comunitários para viver, como acontece com a agricultura, com a pecuária, com a produção de carnes, de leite, é muito fácil ficar manietado e ceder a pressões. Vigora uma espécie de ‘salve-se quem puder’ e dentro do mundo rural não há a união e solidariedade que tem de existir para apresentar ao governo um conjunto de exigências. Os sectores estão muito fragmentados.

André Grácio é um dos fundadores do movimento “Juntos pelo Mundo Rural”. Fotografia de Paulo Jorge de Sousa

Se eu estivesse confortavelmente a viver num centro urbano – e não estou por opção, poderia estar a trabalhar em Lisboa, no Porto, em Aveiro – certamente continuaria a tentar resolver estas situações. Ninguém me iria tirar o desejo, a vontade e o gosto que tenho pela ruralidade, pela minha região, pela minha pronúncia, por não ser politicamente correto, pela liberdade de sair de casa e dar um passeio a pé, de ir ao campo e ver coisas bonitas, trabalhar sobre e a favor da ruralidade. O meu ativismo são as minhas raízes.

Mas em Abrantes estou a empobrecer diariamente, e com isto estou a criar embaraço para a minha vida. Não sei se vou conseguir manter-me nos próximos anos. Enquanto profissional liberal em Abrantes não tenho, neste momento, capacidade para garantir o meu futuro. E admito: a situação económica empurra-nos, obriga-nos a fazer algo.

Fui educado – a nível político, da sexualidade, da forma de estar com os outros – no sentido de respeitar todas as decisões de cada ser humano, desde que isso não comprometa as decisões dos outros. Percebo a questão do animalismo, muito vincado nos grandes centros urbanos. Acredito que na impessoalidade das relações, os animais acabam por ser um escape e as pessoas sentem uma simpatia pelos animais que muitas vezes não sentem pelas pessoas.

“Não há maior defensor dos animais do que as pessoas que gostam do campo, mas Um cão não pode ter os mesmos direitos que eu”

Não aceito a ditadura do gosto e as propostas de lei do PAN não são no sentido de salvaguardar mas de impor. Sou a favor da defesa dos animais. Não há maior defensor dos animais do que as pessoas que gostam do campo mas não peçam para ser diferente a quem toda a vida foi criado a ver uma matança de um porco, a comer a carne, a colocar os animais nos sítios deles. Um cão não pode ter os mesmos direitos que eu. Tem direito a ser bem tratado, a ser bem alimentado, mas discordo, como chegou a propor PAN, da criação de um Sistema Nacional de Saúde para animais.

De repente, quem está no mundo rural é confrontado com a realidade de tudo aquilo que conhece poder acabar. E quem está na cidade não percebe a força da mensagem: quando já não temos hospitais, nem tribunais, quando já não temos dinheiro, também nos querem tirar os pequenos prazeres da vida. Não aceito que um conjunto de bons rapazes e de boas raparigas no alto de um 14º andar de um prédio na Amadora elabore um plano eleitoral que visa acabar com costumes com centenas de anos. O senhor do 14º andar pode fazê-lo, porque está na Assembleia da República, e nós no campo temos de continuar a viver à sua sombra.

*Entrevista originalmente publicada na PONTO – revista do mediotejo.net, em agosto de 2020.