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Quarta-feira, Julho 28, 2021

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Entrevista a Rui Sena: “O teatro tem de ser apetecível”

Rui Sena dirige há um ano o Teatro Virgínia, que esta semana celebra o seu 59º aniversário. Pretexto para uma conversa à boca de cena, levantando a cortina sobre o seu passado e o que pretende para o futuro.

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Encenou uma peça onde focava a ação da falência das atividades características de uma terra na sua identidade coletiva. Homem da Covilhã, Rui Sena, 62 anos, viu a terra da lã e dos operários fabris acabou por render-se ao domínio do setor dos serviços. Depois de ajudar a criar as companhias de teatro “Quarta Parede” e “Teatro das Beiras”, chegou a Torres Novas determinado em apostar num programa diversificado e de qualidade. Afinal, diz, não é assim tão diferente encher um espaço de cultura na província ou em Lisboa. Basta saber educar o público para os grandes trabalhos da dança, da música e do teatro.

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Recebe-nos com amabilidade e apressa-se a mostrar a “sua” nova casa. Nota que a arquitetura do teatro permite que a plateia abrace o palco, criando um ambiente de intimidade com a arte. Enquanto caminha para o escritório, onde decorrerá a entrevista, lembra que quando visitou o espaço pela primeira vez lhe perguntaram se conseguia imaginar quantos lugares ali existiam. Hum… 200, 300 talvez? Não! O Teatro Virgínia possui 600 lugares sentados. Não parece, pois não?

Como chegou ao teatro?

A minha formação é em Estudos Teatrais, pela Universidade de Évora. Comecei a trabalhar muito cedo, aos 20 anos, num teatro de amadores. Ajudei a formar uma companhia, o “Teatro das Beiras”, e mais tarde, já no início do século XXI, pelo meu interesse nos cruzamentos das diversas áreas e das artes, desde a dança, ao teatro, à pintura, à música, formei uma nova estrutura chamada “Quarta Parede”.

Porquê “Quarta Parede”?

É uma parede imaginária entre o espectador e o palco. Temos sempre três (paredes) e a quarta é aquela que é invisível, mas que existe porque acaba por separar. Quando comecei com este projeto a intenção era precisamente derrubar essa parede. É muito ligado ao teatro, embora a maioria das pessoas desconheça.

Como surgiu a oportunidade de trabalhar no Teatro Virgínia?

Foi um convite da Câmara para fazer uma proposta de programação. Felizmente fui aceite. Gosto muito de estar em Torres Novas, gosto muito do Teatro Virgínia. De resto já tinha colaborado com o Festival Ípsilon (da companhia Quarta Parede). Já tínhamos feito alguns espetáculos no teatro, salvo erro em 2008/2009, portanto já não era um desconhecimento total.

O que o cativou mais nesta oportunidade? Uma pessoa com o seu percurso sentir-se-ia melhor talvez em Lisboa ou no Porto, numa grande casa…

Não… Eu gosto de um desafio, num teatro como o Virgínia, numa cidade como Torres Novas. Primeiro porque deixa-me ir para perto das pessoas. Depois porque é um trabalho que, para fazer essa aproximação, também será muito maior. As cidades mais pequenas permitem este tipo de relações. Portanto, para mim não é um desafio menor trabalhar em Torres Novas ou trabalhar em Lisboa, são desafios diferentes.

Que avaliação faz deste seu primeiro ano no Virgínia?

Houve uma transição que não foi fácil, porque envolveu o encerramento da empresa municipal, e houve pessoas que entretanto saíram. Existiu toda essa adaptação a uma nova realidade, com o voltar do teatro às mãos do município. Em termos de programação, acho que, apesar dos constrangimentos financeiros, se conseguiu uma programação equilibrada. De uma maneira geral, conseguimos trazer espetáculos que agradassem a vários setores da população e isso é uma preocupação sempre que estou a fazer a programação. Sim, gostava de fazer mais porque sou ambicioso e gosto de poder ir sempre um pouco mais além, sem exageros e sempre com o olhar muito atento ao que são as cidades. Ambicioso em termos de poder trazer cada vez melhores espetáculos.

Rui Sena, diretor artístico do Teatro Virgínia, em Torres Novas, que esta semana celebra o 59º aniversário
Rui Sena assumiu há um ano o cargo de diretor artístico do Teatro Virgínia, em Torres Novas

Como se explica a grande dinâmica do Teatro Virgínia, em Torres Novas, em relação aos concelhos circundantes?

Penso que foi essencialmente pela grande aposta que foi feita, passando logo pela recuperação do próprio Teatro Virgínia ou também ao investimento que foi feito na última década. Estamos agora a completar um ciclo de dez anos desde que a remodelação foi efetuada. Penso que, além da importância que tem para a cidade de Torres Novas, a região respondeu e compreendeu esse investimento. É por isso que também fazemos a divulgação em Abrantes, em Tomar, em Santarém, em Ourém, no Entroncamento… É sabermos que o teatro corresponde também à vontade de pessoas de concelhos limítrofes de terem espetáculos de qualidade. Como todos os municípios acabam por ter as suas escolhas, eu acho que foi uma grande aposta do município de Torres Novas ter um teatro que funciona regularmente e parece-me que é indispensável para a habituação do público. E depois soube manter a qualidade, apesar dos diferentes diretores. Eu diria que há um trajeto contínuo, que é a qualidade dos espetáculos apresentados no Virgínia que habituou as pessoas também a não deixarem de olhar para o que é a programação e o que foi feito ao longo destes anos. Parece-me o mais importante.

Existe algum provincianismo cultural ou as pessoas procuram mesmo qualidade?

Não sei muito bem o que é isso de provincianismo, porque na realidade acho que as pessoas desenvolvem-se conforme aquilo a que têm acesso. Penso que muitas vezes quando se diz que na província não há qualidade, não é verdade! Portugal é que foi produzindo de uma maneira incoerente. A coesão não existe, temos que contribuir para ela, mas não existe. Na verdade toda a gente sabe, por exemplo, que as grandes cidades terão se calhar 90 por cento do apoio às Artes em Portugal, e quem diz às Artes diz a outras situações que estão afetas ao desenvolvimento do país e que estão afetas também ao conforto das pessoas, além dos empregos. Eu penso que este trabalho que o Teatro Virgínia faz é precisamente complementar no Interior… fazer esse trabalho que inclusive o Ministério da Cultura – que não existe, infelizmente – não faz! Que é tornar na verdade o país mais igual, permitindo que as pessoas que vivem a 100 ou 200 ou 300 quilómetros de Lisboa tenham acesso a bons espetáculos. Mas, na verdade, tem que haver um trabalho de formação. Eu gostava de não dizer educação, mas de formação de público, porque é diferente. O que penso é que muitas vezes são os municípios que completaram um trabalho que devia ser repartido com o poder central e que não foi. O que é evidente hoje com a maioria dos teatros que existem no país.

E os jovens?

Eu penso que a cultura de qualquer país desenvolvido faz parte das ferramentas de qualquer pessoa. Isso consegue-se com formação. Essencialmente o que nós queremos não é, como é óbvio, criar talentos – isso cada um terá o seu – mas é dar ferramentas para as pessoas poderem escolher na vida, independentemente da profissão, um background que lhes possa permitir ir além dessas próprias profissões. É muito triste muitas vezes estar a falar com pessoas que são licenciadas e não têm o mínimo conhecimento para, ao sair do teatro, falarem de música, por exemplo. Mesmo de compositores que são quase unânimes, como é um Chopin, por exemplo, ou um Debussi. Muitas vezes percebemos que são nomes que não lhes dizem rigorosamente nada.

O que procura o público no teatro?

Disse-lhe ao princípio que o que tentávamos fazer era uma programação equilibrada. E equilibrada também em relação ao género do que oferecemos: tanto em dança, como em teatro, como música. Tentamos que todos os nichos de público tenham uma valência para dizer: este interessa-me para eu ir ao teatro! Nós sabemos o que é fácil. Tentamos é procurar espetáculos que sejam inteligentes também. Sejam dramas ou sejam comédias, acho que o importante é não ser fácil, é não ser o óbvio, que é o que muitas vezes temos repetidamente, por muito que custe, na televisão.

É fácil encher uma sala no Interior do país?

Não é fácil enchê-la de qualidade. É evidente que todos nós, programadores, sabemos como é que se podem encher salas. A questão passa logo por definir qual é o objetivo principal da sala: se é a cultura se é o entretenimento. Todos sabemos que com música é facílimo encher salas. Depende sempre de muitos factores. Nós tentamos essencialmente trazer qualidade.

Costuma-se dizer que a Cultura é o primo pobre da sociedade. Concorda?

É um dos primos pobres, sim. Agora, infelizmente, a sociedade tem muitos primos pobres. Eu acredito que o século XXI não seja só isto a que assistimos neste início. Eu diria que desde a parte educativa, que é pobre, à parte da cultura, que é pobre, à parte da segurança, que é pobre, à parte das condições sociais, que são pobres, eu diria que na verdade temos os cofres cheios de pobreza. É essa parte que me preocupa e que eu gostava de ver resolvida.

Na programa desta temporada temos Capicua e o Festival de Materiais Diversos…

São estas várias vertentes que fazem com que o teatro possa ser apetecível para vários públicos. Penso que se conseguiu um programa muito equilibrado.

O que deve ser um teatro?

Tenho muita certeza daquilo que não sei, mas não tenho muita certeza daquilo que sei (risos). Essencialmente, deve ser um veículo de transmissão de arte. Deve transmitir conhecimentos, deve desenvolver emoções e deve estar perto do público.

***

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Uma sala de excelência
O Teatro Virgínia foi inagurado a 27 de Outubro de 1956, com projecto do arquitecto Fernando Schiapa de Campos, levando à cena a peça “As Meninas da Fonte da Bica”, um original de Ramada Curto, pela Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro.
Nomes maiores do teatro nacional pisaram o palco do Virgínia, como Amélia Rey Colaço, Alves da Cunha, Palmira Bastos, Maria Matos,  Raul Solnado, José Viana, Eunice Muñoz, Artur Semedo e Camilo de Oliveira.
Por este espaço passaram também muitas obras-primas do cinema mundial. Em 2001, o teatro foi adquirido pela Câmara Municipal de Torres Novas, que contratou o arquitecto Gonçalo Louro para desenhar o projeto de remodelação do edifício. A sala voltou a abrir em 2005, com os meios técnicos e as condições acústicas para se afirmar como uma sala de excelência. Foi também criado um novo espaço, o Café Concerto, no segundo piso, para receber iniciativas e espectáculos de mais intimistas ou de menor dimensão.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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