Entrevista | A pandemia e os seus efeitos na saúde mental das pessoas – Luísa Delgado (CHMT)

Luísa Delgado, diretora do serviço de Psiquiatria do Centro Hospitalar do Médio Tejo. Créditos. mediotejo.net

Desde 2013 que o Serviço de Psiquiatria do CHMT – Centro Hospitalar do Médio Tejo comemora o dia Mundial da Saúde Mental no sábado, dia 10 de outubro, com um programa de atividades que marca esta data junto da Comunidade. Luísa Delgado é diretora do serviço de Psiquiatria do Centro Hospitalar do Médio Tejo e falou ao nosso jornal sobre a saúde mental dos portugueses, em particular daqueles que vivem na região.

PUB

Reconhece que a pandemia de covid-19 tem um impacto significativo na saúde mental das pessoas mas manifesta-se “otimista” e não crê que a pandemia tenha um “efeito devastador” na saúde mental em Portugal (e no mundo) depois da crise, até porque esta “não é primeira pandemia” que a Humanidade enfrenta, sendo que tem aprendido a ser resiliente com outras emergências. Assegura que o Serviço Nacional de Saúde está preparado para receber e acompanhar as pessoas que precisarem de ajuda.

O Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge desenvolve um estudo para o Serviço Nacional de Saúde avaliar o impacto da covid-19 na saúde mental dos portugueses. Contudo existem realidades diferentes. Obrigam a várias linhas de intervenção da parte dos clínicos?

PUB

Devemos esquematizar para perceber de que forma é que esta pandemia pode influenciar e em que áreas podemos intervir. Podemos dividir em dois grupos: dos profissionais de saúde, e portanto quem está a prestar cuidados diretamente, e depois a população em geral. Aqui também temos de dividir em dois grupos que serão; o grupo dos infetados e das famílias dos infetados e dos não infetados. Ou seja, temos as implicações diretas do vírus e as consequências diretas da infeção e já sabemos que existe a possibilidade de uma infeção no sistema nervoso central. Isso cada vez mais está em estudo e também os efeitos neuropsiquiátricos da infeção pelo vírus. E depois as consequências da própria doença nos infetados. É uma doença muito particular, que exige o isolamento e as pessoas não têm o mesmo tipo de acesso na prestação de cuidados relativamente a outras patologias, nomeadamente contacto físico. E por fim os efeitos inerentes à quarentena. São várias linhas de intervenção. Nisto tudo ainda podemos dividir em dois grupos de pessoas já portadoras de doença mental e as que não são portadoras de doença mental.

Pela primeira vez na história da Humanidade milhões de pessoas em todo o mundo ficaram confinadas ao mesmo tempo. A quarentena pode ter impactos na saúde mental?

PUB

Habitualmente as pessoas têm uma capacidade de habituação a todas estas circunstâncias, são situações transitórias em que, passado algum tempo, adaptamo-nos e não costumam deixar, em termos grosseiros, cicatrizes muito grandes. Há um grupo pequeno de pessoas que pode eventualmente ter alguns problemas aos nível da saúde mental.

Portanto somos resilientes?

Não somos só nós portugueses. Falo do ser humano em geral. Mas de qualquer maneira, o Serviço Nacional de Saúde e a Coordenação de Saúde Mental desde março que se articulou em rede, em grupos, uniram todos os serviços de psiquiatria do País, divididos nas várias ARS [Administrações Regionais de Saúde], em ligação estreita com os hospitais, de maneira a conseguirmos estruturar uma resposta adequada, o mais vigilante e o mais adaptada às várias circunstâncias. Tem havido uma preocupação de manter supervisionada as questões decorrentes da saúde mental.

Também aqui no Médio Tejo?

No Médio Tejo estamos todos a trabalhar em rede, com todos os serviços de psiquiatria da ARS LVT, pela Coordenação de Saúde Mental. Estamos todos a trabalhar em sintonia para, no caso de necessidade de um serviço, haver uma resposta conjunta. Existe uma certa coesão na resposta que deve tranquilizar as pessoas. A minha perceção, em termos de serviço de Psiquiatria, é que tem havido alguma resposta a este nível de supervisão da doença já existente e atenção aos casos novos que vão surgindo. Evidentemente que pode haver um caso ou outro em que as coisas tenham corrido menos bem, mas são exceções porque não somos omnipotentes nem omnipresentes.

Em cenário de pandemia, no Médio Tejo aumentou o número de pessoas que têm procurado os serviços de Psiquiatria?

Não. Nos serviços de Psiquiatria, aqui e em todo o País, houve indicação clínica para mantermos a vigilância da população. Mantivemos sempre consultas não presenciais de maneira a que houvesse sempre uma garantia à população de que estávamos cá. Não houve só intervenções não presenciais e foram transformadas em intervenções presenciais sempre que a situação se justificou. Um problema inerente a esta situação foi o medo que as pessoas tiveram de recorrer ao serviço. Por outro lado, mantivemos a visita domiciliária – havia doentes com medo de ir ao hospital tomar a medicação – e tentámos uma articulação com os centro de saúde, com os cuidados primários, que têm sido extraordinários e conseguimos estabelecer protocolos, ligações e comunicação de forma a que consigamos atender a todas as situações que nos forem surgindo quer em termos de profissionais de saúde quer em termos da população. Um atitude não exclusiva do Médio Tejo mas do País. Mas houve um altura, em todas as especialidades, que as pessoas vieram menos aos hospitais. As pessoas sentiram que o atendimento presencial foi evitado. No entanto, é seguro e importante vir ao hospital. As pessoas temem o internamento mas o grande papão é a dor, o sofrimento.

Neste momento é possível identificar consequências da pandemia a longo prazo na saúde mental?

As consequências a longo prazo diretas, derivadas do confinamento, não são muitas. Ou seja, perturbações de stress pós-traumático etc… aliás já foi dito pelo professor Miguel Xavier, não se antevê que haja uma elevada prevalência desse tipo de afeções. Estamos todos atentos ao que vai acontecendo em termos económico-sociais. Ainda estão em estudo as consequências neuro-psiquiátricas diretas de quem foi afetado pelo vírus. Existem algumas evidências que podem haver alterações a este nível. Evidentemente que a pandemia vai ter consequências. Toda uma tradição de coisas que se faziam deixaram de poder ser feitas. Mostra que, mesmo nos comportamentos, nada é assim tão adquirido.

Contudo, alguns especialistas falam num “efeito devastador” da pandemia na saúde mental das pessoas. Acredita nesse efeito?

Não. Haverá um “efeito devastador” para algumas pessoas individualmente  – para a pessoa individual que sofreu tem um peso imenso -. Atendendo ao número de pessoas no mundo, ao número de portugueses e ao número daqueles a que pode causar um “efeito devastador”. Depende da maneira como a pessoa valoriza a situação: Há pessoas que ficaram completamente arrasadas porque não se despediram convenientemente dos seus mortos, ou porque no nascimento foram separadas dos filhos. Não podemos desvalorizar porque as pessoas genuinamente sofreram, mas houve outras que passaram por iguais circunstancias e ultrapassaram de outra forma. Todos somos diferentes.

Mas em termos gerais…

Discordo que a infeção tenha um “efeito devastador”. Efeitos devastadores a longo prazo numa eventual crise mundial sócio-económica estamos todos à espera dela e estamos todos a trabalhar, incluindo os economistas. Posso ter uma atitude otimista ou pessimista, se calhar vou optar pela otimista! Diria que nos estamos a adaptar bem. As pessoas adaptaram-se bem às teleconsultas, as crianças adaptaram-se razoavelmente a situação de ensino à distância. É muito longe do ideal, não foi nada bom mas adaptamo-nos. A Humanidade já passou por várias crises e ultrapassou-as. Passámos, no século passado, por duas guerras mundiais horríveis, pela pandemia da gripe espanhola e sobrevivemos.

Falamos de uma crise que leva ao desemprego, de isolamento de idosos, de perda de afetos, de crianças que deixaram de ir à escola, de brincar, de jovens afetados pelo distanciamento social. Portanto, até que ponto poderemos ser de facto resilientes?

Não disse que estava tudo bem! Mas houve uma preocupação do sistema em chegar às pessoas e houve uma grande articulação das várias estruturas para tentar chegar às pessoas. O ser humano, em geral, tem uma capacidade de adaptação. Somos capazes de nos adaptar, faz parte das nossas características e por isso temos sobrevivido às várias crises. Enquanto responsável por um serviço de psiquiatria acho que tenho de lançar uma mensagem de esperança e não de tragédia. Uma coisa é a pandemia propriamente dita e os seus efeitos e outra são as consequências sociais da pandemia. Temos de as distinguir porque têm níveis de intervenção diferentes. Sobre as consequências sociais da pandemia, lembro que tivemos a crise da dívida recentemente e se calhar temos a experiência do efeito devastador do desemprego em várias áreas e o funcionamento das pessoas. Estamos todos a preparar-nos para uma coisa complicada a nível mundial. Por mais pessimistas que possamos ser, não será algo exclusivo do País. Temos de estar alerta, saber perceber os riscos. Todas as crises que metam desemprego, perdas para as pessoas, um dos riscos é o suicídio e em todo o lado, quando há este tipo de crises nomeadamente com perdas financeiras, aumenta o suicídio.

Ma já existem números relativos a suicídio?

Números só para o próximo ano. No entanto, temos de ser muito cautelosos na maneira como damos essa informação. Há autores que discordam, mas muitos concordam que às vezes existe efeito de contágio.

E se houver uma segunda vaga de covid-19, e um segundo confinamento, não temos vacina… sem fim à vista, como vai ser?

Apesar de tudo vão havendo maneiras de tratar a covid-19 e sabemos mais sobre o tratamento da doença. Também não temos vacina para o VIH [Vírus da Imunodeficiência Humana] e cada vez mais conseguimos transformá-lo numa doença crónica. Chegará ao ponto de ser assintomático. Já não estamos ao mesmo nível de março, sabemos várias coisas de uma maneira diferente. Quanto a uma segunda vaga, estamos atentos, a olhar para os países do hemisfério sul onde já é inverno. A Austrália já confinou outra vez e quais são as respostas que têm dado. Basicamente Portugal tem aprendido com a experiência dos outros, e ver as melhores soluções para no futuro ter o menor impacto possível. Estou expectante! Estamos a preparar-nos e acho que vamos conseguir ultrapassar isto, aprendendo todos os dias.

Luísa Delgado, diretora do serviço de Psiquiatria do Centro Hospitalar do Médio Tejo. Créditos. mediotejo.net

Quais os sintomas psicopatológicos a que as pessoas devem estar atentas?

No serviço aparecem basicamente ciclos depressivos, reações de ajustamento. No adoecer mental a pessoa não tem grande critica, acha que é uma reação de adaptação e que sozinha vai conseguir superar. Uma das características da doença mental é o não reconhecimento da própria doença. Se a pessoa se sentir cada vez mais ansiosa, alguma irritabilidade, algumas mudanças de humor repentinas, sentir que as pessoas estão menos tolerantes para ela, as alterações do sono são importantes, aliás o sono foi das coisas que andou mais desregulada durante a pandemia, o sentimento de incapacidade de dar a volta às coisas, a agitação, o querer comer demais. Estar atento ao que os outros nos vão dizendo sobre as nossas mudanças.

A solução passa sempre por medicação?

Ás vezes basta uma intervenção psicoterapeutica, nem tudo se resolve só com medicamentos. A minha experiência diz que às vezes com um reconhecimento, a compreensão empática das coisas que se estão a passar, consegue devolver às pessoas alguma tranquilidade, quando ainda não estamos a falar dos impactos socioeconómicos, porque nesse caso só a tranquilidade não chega. A medicina cabe tratar, agora cabe aos economistas dar algumas respostas em termos de apaziguamento das desigualdades que vão surgir.

Mas Portugal é o quinto país da OCDE que mais consome ansiolíticos e antidepressivos e em três meses foram vendidas mais de cinco milhões de embalagens. Aumentou portanto o consumo?

E de álcool também. Aumentou muito o consumo de álcool. Os consumos disparam em situações destas. Isso aconteceu na primeira fase, de adaptação, da expectativa, do receio de adoecer, do confinamento. As pessoas ansiosas aumentaram bastante, apesar de manterem o contacto e foi isso que se tentou fazer em termos de serviço de Psiquiatria, a única resposta possível é dizer que ‘estamos aqui’. Evidentemente que as pessoas têm receio.

Uma vez identificado o problema, ainda há um estigma à volta da saúde mental?

Está-se a esbater felizmente. Cada vez mais as pessoas aceitam as ajudas e as suas limitações. É normal que o adoecer mental abata os nossos alicerces, a pessoa sentir que fica comprometida a sua capacidade de decisão, que é basicamente o que acontece na perturbação, o seu juízo crítico, a capacidade de ver as coisas fica um pouco diferente ou por força da ansiedade vê riscos que não existem ou por força da depressão vê um futuro sempre negro. É muito natural que as pessoas tenham medo de perder a sua sanidade e reconhecer que precisam de ajuda. Temos de baixar à nossa humanidade, de pessoas suscetíveis, que somos vulneráveis e temos mesmo de contar uns com os outros.

E como vê o relatar diário dos números de infetados, dos mortos, nos órgãos de comunicação social? Como funciona essa informação na cabeça das pessoas?

Esse assunto está amplamente estudado na literatura científica. De tal forma estudado que uma das coisas que falamos em termos de psicoeducação das medidas que as pessoas devem ter em relação à sua posição face à pandemia é abster-se de estar sempre a ouvir notícias, distanciar-se e depois manter uma rotina. Dentro dessa rotina ter tempos para se manter informado. Selecionar os canais a ouvir, informação oficial e garante de alguma credibilidade, evitar as fake news e o medo que isso pode gerar.

Neste caso, o problema é a pandemia do medo?

Sim. Temos a pandemia do vírus e a do receio legítimo de ser infetado e às vezes mais do que isso; de infetar os outros. Um medo muito presente de infetar os mais velhos. Do outro lado, o medo do medo. O medo de não se conseguir ultrapassar a circunstância.

E em sua opinião a comunicação social contribuiu para essa pandemia do medo?

É o preço da liberdade. Não podemos colocar mordaças na boca das pessoas que dizem mentiras. A partir do momento que temos um mundo livre e as pessoas dizem o que querem é muito complicado limitar. As pessoas são livres! De facto alguma comunicação social contribuiu… existem as vias oficiais e depois uma série de pessoas que vão falando sobre um assunto com base nas suas próprias teorias. Também têm direito de falar até porque muitas vezes acham que têm razão. Qual a solução disto? Se calhar educar cada vez mais as pessoas para saberem distinguir o trigo do joio. A maturidade da Humanidade passa muito pelo conhecimento, pelo sabermos diferenciar, por estudarmos. Em Portugal estamos mais maduros. Estamos todos a crescer.

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

- publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here